Juliet and Juliet
14 Meu querido pai... um covarde.
Notas iniciais
Suspirei quase bufando quando pus o carro na vaga do apartamento dos meus pais. Admito que estava nervosa de entrar em casa, pois estava com medo da reação de meu pai, não estava muito preocupada com mamãe, estava mais era com meu pai.
Ártemis me disse que falou para eles que eu passaria uns dias na casa dela- ao que parece, dormi por dois dias- e por isso ela tinha vindo até aqui em casa para pegar roupas para mim. Porém, como já era de se esperar, papai ficou desconfiado e Hylla sabia que eu teria pego minhas roupas e avisado. O que quer dizer que, assim que chegasse em casa, teria de tentar reforçar essa mentirinha minha e de Ártemis.
Desci do carro pegando minha bolsa grande e caminhando na direção de onde ficavam os elevadores. Assim que entrei e o elevador começou a subir, encostei-me na parede de aço soltando o ar com força pelo nariz.
Eu estava destroçada. No dia anterior, antes de eu conseguir pegar alta, eu havia terminado com Rachel dizendo-a que não a amava. Obviamente, ela começou a chorar, me deu um selinho rápido e saiu correndo do quarto de hospital. Não posso negar que não me doeu vê-la daquele jeito, mas era o certo. À tarde, Ártemis e Zoe foram lá e me deram apoio, apesar da ruiva ter gritado comigo por ter terminado com Rachel.
Eu sentia um grande vazio dentro de mim agora. Quero dizer, o maldito vazio eu tinha antes de conhecer Rachel, mas quando eu estava com ela... era como se o vazio sumisse em um passe de mágica e tudo fizesse sentido. Mas, quando a via saindo por aquela porta, tudo ao meu redor voltou a ser um vazio sem o menor sentido.
Din. Din.
Saí de meus devaneios quando a porta do elevador abriu. Caminhei penosa na direção da única porta que tinha naquele corredor, a única porta que ficava bem de frente para o elevador. Se eu fosse exagerar, diria que aquela era a única coisa que me mantinha viva naquele momento.
Encarei minhas mãos ao ouvir a porta do elevador se fechar. A mão direita estava com apenas os nós dos dedos enfaixados e um pouco melados por conta da pomada que me receitaram; a mão esquerda não estava mais enfaixada, então dava para ver claramente algumas partes em roxo e vermelho. Meus braços ainda doíam por conta das porradas- de acordo com Ártemis e os outros- que dei nos infelizes. Mas fora tudo isso, eu estava bem, ainda daria para aguentar as covardias de meu pai.
Peguei as chaves de casa e abri a porta. Assim que pus os pés dentro de casa e que fechei a porta, toda a minha família estava na sala e Hylla me abraçava pelo pescoço.
– Reyna! Que bom que você está bem, fiquei tão preocupada- minha irmã disse em meu ouvido, separando-se de mim e me segurando pelos ombros- Não ouse fazer isso de novo!
– Desculpe- foi tudo o que disse antes de me soltar dela e caminhar na direção de meus pais- Eu deveria ter dado noticias, perdoem-me. Não acontecerá novamente.
– Querida, não me dê mais um susto desses. Eu...
Mas mãe foi interrompida por meu pai a empurrando para o lado e ficando cara a cara comigo. O olhar penetrante dele me analisou dos pés até o ultimo fio erguido em minha cabeça. Ele pegou minha bolsa e a jogou no sofá, logo depois cruzando os braços e fechado ainda mais a cara.
Segurei a vontade de engolir em seco e, principalmente, de me encolher. Meu pai era mais alto que eu em torno de dez centímetros; era grandalhão e uma barriga enorme, as sobrancelhas mal feitas pareciam que tinha um esquilo dormindo ali; a barba era a coisa mais tosca do século, pois ele fazia de modo que parecesse por fazer de maneira sexy, só que não ficava sexy; o bigode era tão grande que quase não se via a minúscula boca, mas tão peluda que parecia um... sei lá, outro esquilo na cara dele; os olhos castanhos claros sempre me encaravam daquele modo, de um modo que eu nunca vou saber como descrever. Papai era, definitivamente, o cara mais assustador que eu já conhecera, mesmo parecendo mais um ser para se zombar do que temer.
– Onde você estava?- perguntou firmemente.
– Na casa de Ártemis. Passei uns dias lá para podermos...
– Onde você estava?- ele repetiu.
Encarei semicerrando os olhos. Ela era o que? Surdo? Já disse onde eu estava, pensei. Mas, claro, ele não era surdo. Ele repetiu a pergunta para saber se eu estava dizendo a verdade, pois sabia que eu estava mentindo. Aliás, provável que todos ali soubessem, sou péssima com mentiras.
– Passei uns dias na casa de Ártemis, papai- disse tentando soar mais verdadeiro. Missão sem resultado.
– Repetirei mais uma vez- desta vez ele me segurou pelo braço com força. Mordi a bochecha por dentro para não gemer de dor ao ver o que ele estava fazendo era bem em um de meus ferimentos- Onde você estava?
– Perdão, pai, mas já disse. Eu estava na casa de...
– NÃO- interrompeu-me aos gritos- MINTA PARA MIM.
– Querido, pare. Ela já disse onde estava, deixe-a ir- pediu mamãe começando a se estressar.
– Calada, Belona!- gritou papai com ela olhando-a rapidamente, logo depois voltando a me encarar- Repetirei mais uma vez, Reyna Avilla Ramirez-Arellano... Onde você estava?
Tenho certeza de ter ouvido os dentes de papai trincarem, mas com certeza vi a mandíbula contrair mais e a boca se formar uma linha perfeita.
Eu poderia zombar de papai agora, sorrindo e lhe dizendo: Ligue para Ártemis e confirme se duvidas de mim. Mas se eu fizesse isto, claramente, eu estaria assinando sentença de morte.
Então, apenas repeti:
– Eu estava na casa de Ártemis.
Segundos depois, eu encarava o chão ainda com o braço sendo segurado por uma das mãos de papai, enquanto a outra mão ele estava a poucos centímetros de meu rosto. O lado direito de minha bochecha ardia como se tivesse brasa posta nela, além de formigar.
Encarei meu pai de forma seria. Não demonstraria que estava doendo, já mais faria isso.
Finalmente, mamãe resolveu intervir. Ela veio para cima de nós bem quando papai ia me questionar novamente, ela estava pronta para ficar entre nós, mas papai a segurou pelo braço e a jogou em cima do sofá com força. Hylla correu ao encontro de mamãe.
– Como aqui sua mãe não permitirá que eu lhe eduque- começou papai começando a me puxar para as escadas- Vamos ao seu quarto. Não ouse tentar nada, Belona!
Olhei uma ultima vez para ver o que acontecia. Pude ver Hylla tentando impedir que mamãe viesse atrás de nós, supus que fosse justamente pela razão de saber que papai iria fazer algo pior com mamãe caso viesse. Belona não é a melhor mãe do mundo, aliás, nem se aproxima disso, mas eu e Hylla sabemos que ela nos defenderia custando sua vida ou não.
Ao entrarmos em meu quarto, papai me jogou em minha cama- onde consegui arrastar-me de costas para o final da cama- e trancou a porta. Ele me puxou pelos cabelos até o centro do quarto e me jogou contra uma de minhas estantes. Então, ele me puxou pelo braço e me fez ajoelhar-me, enquanto se abaixava para me encarar nos olhos.
– A verdade, Reyna- ele praticamente gritou- Onde é que você estava?
Uma nova história, uma nova história!, implorei ao meu cérebro. Eu precisava de uma nova história, caso contrário, eu sairia só o caco- literalmente- daquela situação. Papai não desistiria e, pior, mandaria alguém investigar onde é que eu estava durante os últimos quatro dias- fim de semana e os dois que estava no hospital.
Caso ele chegasse a descobrir que eu estava com Rachel, Rachel Dare, não apenas eu estaria encrencada... como Rachel também.
Então, uma ideia me passou pela cabeça.
– Vamos, eu perguntei...
– Na casa de um cara- interrompi-o- Ártemis estava me acobertando para que ninguém descobrisse, mas eu estava na casa de um cara que eu conheci em uma festa. Nós nos metemos em uma briga e... e eu não liguei para vocês.
Outro tapa.
Cai segurando-me no chão para não tacar a cara no mesmo.
– Mentiu para mim- começou papai enquanto andava de um lado para o outro enumerando nos dedos- Não deu noticias. Se meteu em briga. Estava na casa de um cara. Quem é esse “cara”?
Na verdade, ele não existe, mas não posso te dizer que estava em uma praia com a minha namorada, que por sinal é filha do seu maior rival!, pensei. Já mais diria isso a ele, seria quase como pegar uma arma e por nas mãos dele, dando permissão para atirar.
Pensando bem, se ele me matasse... até me ajudaria. Faria a dor passar, mas não a dor física, a dor que o vazio estava fazendo. Acho que vou dar um nome ao vazio, já que ele está sempre comigo mesmo. Vai se chamar... Thcuk. Isso, vai se chamar Thuck.
– Eu não sei o nome dele, o chamava de querido apenas e ele me chamava de gostosa. Fim- disse tentando esconder ao máximo minha vontade de chorar ao referir-me todos aqueles dias como uma aventura de criança.
Papai negou coma cabeça e me ergueu.
– Agora, você vai aprender a não mentir mais para mim e, principalmente, o que acontece com quem me desobedece.
Papai tirou o cinto enquanto eu me arrastava no chão, tentando me distanciar dele e esbugalhava os olhos. Ele nunca tinha me batido com cinto, apenas com as mãos e com chinelos, mas nunca com o cinto. Com o cinto, apenas mamãe tinha sentido aquela dor desesperadora.
Minhas costas bateram contra a parede, mas meu corpo ainda tentava se distanciar dele, pois o mesmo quebrava a distancia entre nós com passos largos e segurando na mão direito o cinto preto de couro dobrado.
Ele me segurou pelo braço e me puxou com força para o centro do quarto, me jogando no chão.
Naquele dia, eu senti o que minha mãe sentiu quando brigou com meu pai quando eu tinha 10 anos. Questionei-me se Rachel sentiu aquela mesma dor quando eu disse que não a amava.
No dia seguinte, eu estava quase totalmente coberta de panos: calça preta, blusa de manga cumprida de flanela branca, uma jaqueta de couro preta, botas de couro pretas e taquei maquiagem no rosto para não demonstrar as olheiras- passei a noite toda acordada- e nem as marcas que a mão de meu pai deixara.
– Então, alguém aqui já ouviu o conto de Eros Psiquê? A honrosa história sobre o cupido deus que se apaixona por uma jovem moça com irmãs invejosas?- perguntei escrevendo no quadro Eros e Psiquê.
– Eu já- obviamente, quem respondeu foi Annabeth- Eros era filho de Afrodite. Se não me engano, ele se apaixonou pela filha caçula do rei ao ter de ir cumprir uma vingança da deusa contra Psiquê. Por conta disto, eles se casam escondido. Psiquê não vê o resto de Eros.
– Isso foi quase totalmente certo- falei virando-me para eles e encostando-me na minha mesa de frente para eles- Eros foi, sim, responsável por exercer a vingança de Afrodite, pois a jovem Psiquê era tão bela que até mesmo a deusa da beleza e do amor sentiu inveja. Bem, o final deste conto é que: Psiquê, depois de ter ferido Eros, é castigada por Afrodite. Eu vou querer um trabalho de três paginas sobre Eros e Psiquê e os quero para a próxima aula. Irei contar-lhes apenas o final- peguei um papel atrás de mim e me pus a ler- “Sozinha e infeliz, Psiquê começou a vagar pelo mundo. Passando, assim, por vários desafios e sofrimentos impostos por Afrodite como uma vingança por ela ter ferido o seu filho, a jovem luta tentando recuperar o seu amor, mas acaba entregando-seà morte, caindo num sono profundo. Ao vê-la tão triste e arrependida, Eros, que também sofria com a ausência da amada, implorou a Zeus que tivesse misericórdia deles. Com a concessão de Zeus, Eros usou uma de suas flechas, despertando a amada, transformando-a numa imortal, levando-a para o Olimpo.” Este conto retrata Eros, o amor, e Psiquê, a alma, a união dos dois.
Tocou para que eles fossem embora, finalmente, para o almoço.
– Próxima aula continuamos sobre Eros e Psiquê, não se esqueçam dos trabalhos- avisei.
Quando quase todos os alunos tinham saído, segurei Nico e Thalia pelo braço, Will veio junto do namorado. Certifiquei-me de que não tinha nenhum aluno, então encarei-os.
– Por que Rachel não veio hoje?- perguntei.
Thalia cruzou os braços franzindo o cenho.
– Rachel viajou, Reyna.
– Para onde? Por que?- perguntei.
– Ela foi para o Brasil- respondeu-me Nico.
– Ao que parece, o pai dela descobriu sobre vocês e decidiu viajar para o Brasil. Rach disse que voltariam para o almoço de amanhã na minha casa- falou Will sorrindo- Por que?
Neguei com a cabeça abrindo a porta para que eles pudessem passar.
– Por nada. Não se esqueçam dos trabalhos- falei quando eles passaram por mim.
Fechei a porta e suspirei.
– Desculpe-me, Rachel... o que foi que eu fiz?
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