Judeu
1 Laíla Tov
Notas iniciais
Foi intencional postar neste mês, pois segundo o calendário judaico, estamos nos aproximando da virada do ano de 5775 para 5776, isso acontecerá no 14º dia de Setembro, 1º dia do mês Tishrei.
Vou explicando algumas coisas nas notas finais para não ficarem perdidas(os).
E espero que gostem.
=)
Era noite de Pessach. Era a noite mais aguardada do ano. Era a páscoa judaica. Era como a primavera árabe islamica. Era aquele dia mágico quando todos esperam que algo muito especial aconteça.
A Sinagoga estava lotada. Ao fim da cerimônia, as calçadas de ambas as extremidades da rua estavam repletas de judeus sorridentes, alegres com uma garrafa de vinho presa sob as axilas, dezenas de homens em ternos e roupas sociais bem engomadas, camisas de puro linho passadas minuciosamente por suas mulheres perfeccionitas e metódicas. Poucas mulheres eram vistas, um fator curioso para uma expectadora perspicaz, contudo perdida em uma cultura distinta.
Sakura olhava ao redor acanhada. Alguns homens a olhavam e cochichavam com os amigos com as expressões mais variadas, ela respondia tudo com um sorriso respeitoso, um tanto forçado. “Venham falar comigo”, pensava encostada nas grades do portão da sinagoga, balançando nervosamente de um lado para o outro, na expectativa de alguém recepcioná-la.
“Parece-me perdida”, uma voz a despertou, vinha detrás dela. Sakura olhou para a grade num reflexo rápido, viu um homem alto, uns prováveis trinta centímetros a mais que ela, em seu terno preto semiaberto e com sua expressão serena.
“Jornalista?” indagou.
“Não, não” respondeu ansiosa depois de ponderar alguns segundos sobre a pergunta. Ainda avaliava o homem com estranho interesse. “Sou estudante. De geografia” acrescentou. O homem arqueou as sobrancelhas e meneou a cabeça em entendimento.
A grade ainda os separava com suas barras de ferro fatiando a imagem do homem. Sakura sentia-se encantada. A postura ereta lhe dava um ar imponente, embora sua face deixasse tudo mais suave. Seu rosto... Era lindo. Um cabelo extremamente escuro, olhos frios e estáveis como pedras de ônix, olhos que por alguns segundos pararam nos seus, desbotados num tom verde, muchocho, e permaneceram sem acanhamento. Ela sentiu que ele encarava sua alma. O nariz reto não fazia juz ao esteriótipo que atribuiam aos judeus, o nariz grande, pontudo, que dava a impressão severa que os perseguidores queriam.
“Já está tarde. É melhor eu ir” ele deu um passo para o lado e Sakura o acompanhou, bloqueando sua passagem. Agora não era mais a grade, era apenas ela.
“Espere” pediu afoita. “Quero dizer... Por favor” mordeu o lábio superior. Se sentia envergonhada. Aquele estava sendo o trabalho mais difícil da faculdade.
“Se tem algo a pedir, apenas peça” falou com sua voz grave.
A porta da sinagoga fechou atrás dele. Grande perte dos judeus já haviam se dispersado na rua. Ali em frente havia certa de uma dúzia, um pouco mais, talvez.
“Bom, eu preciso fazer um relatório sobre a cultura judaica, vi que hoje é o Pezachi”.
“Pessach” corrigiu.
“Sim, por isso vim aqui” ele sorriu “só que não entendi muita coisa”.
“Sim, você não deve saber hebraico” falou num tom divertido.
“Exato” concordou engasgada “Queria a ajuda de alguém para me situar”.
“Você queria a ajuda de alguém ou a minha ajuda?”
Aqueles olhos, aqueles olhos... Havia algo hipnotizante neles. Sakura mal podia acreditar, estava corando com um homem daquele porte na sua frente.
“Eu quero a sua ajuda”.
Um homem lhes pediu licença para trancar a grade, então Sasuke caminhou para o outro lado da rua. Como ele não havia respondido, Sakura o seguiu. Não sobravam muitos judeus ao redor e ela não teria outro dia livre antes do seminário para caçar um que a ajudasse.
O homem encostou na perede de azulejo de um comércio, a fitou com um sorriso de canto, como se olhasse para uma criança e decidisse que brincaria com ela ou não.
“Sabe, já está ficando escuro, se puder me dar uma resposta eu...”
“Laíla Tov” desencostou da parede e começou a caminhar para o mesmo sentido que os outros homens seguiram, dando as costas para ela.
“Laila o quê?” perguntou sem entender e apertou o passo para segui-lo “Meu nome não é Laila, meu nome é Sakura” o homem riu. “Qual o motivo da risada?” Sakura perguntou irritada.
“Você, Sakura” virou-se novamente para a garota pateticamente mais baixa que ele. “Laíla Tov quer dizer 'boa noite', entende?”
“Por que está me dando 'boa noite'?” perguntou confusa.
“Porque você tem que ir para sua casa e eu tenho que ir para a minha” voltou a caminhar, contudo desta vez Sakura o segurou pelo braço.
“Espere!” o homem fitou a mão pálida e minúscula em seu antebraço, a fitou com desinteresse, não gostava que o tocassem. “Você não vai me ajudar?” perguntou com os olhos suplicantes.
“Você não tem tempo e eu não tenho pressa”.
“Olha, eu preciso muito que este trabalho me garanta ao menos um oito ou eu vou perder minha bolsa” explicou “Não tenho outro dia para caçar um judeu que me ajude. Você não parecem muito sociáveis com quem vem de fora”.
“Parecemos muitas coisas para quem não nos conhece” Sakura se sentiu envergonhada. Ela realmente não sabia nada sobre eles, ainda assim tirava conclusões.
“Desculpe-me” falou encabulada “Devo ser mais uma dessas alienadas” riu nervosamente.
Ele a observou por alguns instantes antes de dizer “Venha”. E Sakura o seguiu.
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