João e Maria

12 Chega de saudade


'Dandara?' Repetiu a voz, vindo do corredor que dava nas salas de aula e a professora reconheceu de imediato.

'É a Sol.' Falou baixinho para Gael, que deu de ombros e seguiu em direção à morena parando a cerca de dois passos de distância quando a voz de Sol se aproximou.

'Prof? A gente já acabou o aquecimento vocal e o físico, agora eu tava queren—’ Procurando em volta, a menina finalmente encontrou a professora de canto parada de frente para o professor de Muay Thai.

'Ai meu Deus, desculpa! Eu não queria interromper nada, nadinha!'

Desviando, brevemente, seu olhar do de Gael, a professora de canto respondeu, gentil.

'Imagina, Sol, não tá interrompendo nada não...'

'Tá sim.' Adicionou Gael, sem cortar o contato visual com a morena. Seus olhos conversavam sem precisar de palavras e demonstravam o desejo que sentiam um pelo outro. Aquela noite não haviam sido nem perto do suficiente para dissipar a tensão sexual existente entre eles e Sol, testemunha da eletricidade que aquela troca de olhares emitia, pôs-se a justificar.

'Foi mal, quer dizer, foi péssimo mas eu to precisando de você porque a gente já acabou o aquecimento e eu tava pensando que a gente podia aproveitar a sua aula pra ensaiar a música que a banda vai tocar esse final de semana'

Gael não dava ouvidos à menina e enquanto ela se explicava, deu um passo a frente e tocou o pulso de Dandara. Carinhoso, ele passou os dedos levemente pelo interior do antebraço da morena que fechou os olhos, sentindo o toque do lutador.

'Alôô, Brasil?'

Sacudindo levemente a cabeça, contendo o riso, Dandara cortou o contato com Gael e voltou-se a Sol, fazendo sinal para ela se aproximar e sentar no sofá.

'Minha flor, e vocês já decidiram o que vão tocar no festival?'

'Já, quer dizer, quase. Eu já decidi. Só falta avisar a banda.'

Dandara deu uma risada de leve e jogou o cabelo para o lado.

'Então vamos voltar lá na sala que eu ajudo vocês com isso. Por mim eu acho ótimo, a gente pode sim aproveitar para treinar a música.'

'Se você quiser,' a menina adicionou, sugestiva 'eu posso voltar lá e dar o recado de que você falou pra gente ensaiar. Aí vocês podem continuar ensaiando aqui também.'

'Sol!' Dandara repreendeu enquanto Gael não resista e abria um sorriso para a menina, fazendo um sinal de positivo. 'Não tem nada acontecendo aqui, o Gael já estava voltando pra academia, não é, Gael?' Debruçando-se sobre a mesa ela adicionou 'Ele veio aqui em cima pegar uma tesoura emprestada...' Dandara pegou uma tesoura e entregou na mão de Gael. 'Toma... Só por favor não esquece de devolver se não o Ed me mata!'

'Pode deixar que eu faço questão de devolver… Pessoalmente.'

Dandara arqueou a sobrancelha, repreendendo-o, antes de seguir com Sol de volta para a sala de aula. Ela ainda olhava Gael por cima do ombro quando a menina comentou.

'Prof, o Gael tá caidinho por você! Lacrou!'

E abraçando-a, Dandara se permitiu comemorar.

**

'Gael, eu não posso sair pra jantar hoje de novo! Já é o terceiro dia que eu janto fora de casa, o João vai desconfiar que tem algo acontecendo, né? Eu não costumo ver a Delma tantas vezes na semana.' Ela riu de leve, caminhando até o ponto da sala mais afastado do banheiro onde João tomava banho.

'Deixa ele desconfiar, morena, é melhor assim... Ele desconfia, descobre e eu posso ficar com você bem pertinho...'

Sentando-se no sofá, Dandara segurou uma almofada nos braços e Gael, inconsciente, repetia o movimento da morena, abraçando o travesseiro que ela usara para dormir há duas noites atrás.

'Me diz, se a gente não puder se encontrar como é que você vai descobrir se isso a gente dá certo?'

'Se a gente dá certo? Que dúvida é essa, mestre Gael? Não era você quem tinha toda a certeza de que daria certo?'

'E eu tenho! Só estou tentando outra tática de luta,' ele riu de leve 'usar seus argumentos contra você mesma... Sabe que eu não sou bem articulado só no ringue, né?'

Ela riu lembrando da maneira como ele articulava seu corpo.

'Tenho certeza disso...' Houve uma pausa durante a qual os dois se imaginavam repetindo a noite anterior 'Mas já já o João sai do banho e eu vou ter que desligar, amor.'

'Ah não! Não, não... Primeiro eu não posso ficar do seu lado e agora não posso mais nem ouvir sua voz? O que você quer fazer comigo, me enlouquecer?'

'Amor...'

Ele adorava ouvi-la chamando assim.

'Se a gente não puder se ver como é que eu vou te provar que você está querendo proteger seu filho dos homens do seu passado – e não de mim? Eu não vou te decepcionar de novo, Dandara.' Na casa de Dandara, o barulho de água caindo cessou. 'Eu já aprendi com os meus erros, longe de você não fico mais, chega de saudade!'

'Eu não queria ter que dizer isso, mas, o João já vai sair... Eu preciso desligar.'

'O que eu posso fazer pra te convencer a ficar mais um pouquinho, vai?' Ele conseguia ouvir o sorriso se abrindo no rosto dela. Teve uma ideia. 'Já sei, e se eu cantar? Eu te peço cantando, você não vai poder negar...' Como ele imaginava, ela não conseguiu recusar e continuou na escuta. Limpando a garganta, ele lembrou de uma canção de Tom Jobim que encaixava perfeitamente com aquele momento. Suavemente, ele se pôs a cantar.

'Chega de saudade... A realidade é que... sem ela – ela quer dizer você, no caso'

'Eu entendi,' Dandara riu-se do outro lado da linha. Ele seguiu.

'Sem ela não há paz, não há beleza, é só tristeza e a melancolia que não sai de mim... Não sai de mim, não sai... Mas... Se ela voltar, se ela voltar... Que coisa linda...'

Dandara não resistiu e se juntou a ele, formando um dueto através do telefone. Por alguns instantes, ele parou de cantar, apreciando o timbre perfeito da professora de canto.

'Que coisa louca... Pois há menos peixinhos a nadar no mar... Do que os beijinhos que eu darei na sua boca...'

Novamente, Gael interrompeu a música para suplicar.

'Vem pra cá, vem... Vem e me dá todos os beijos que eu mereço. Fica comigo pra sempre...'

'Esse final de semana.' Dandara lançou um olhar para o banheiro que permanecia com a porta fechada e seguiu falando ao telefone.

'O que tem esse final de semana?' Questionou Gael.

'Tem um show do Pedrinho em Ouro Preto. Naquele mesmo festival que eles tocaram há uns meses, lembra? Eu soube que a Karina foi da última vez... Tava aqui pensando... E se ela fosse de novo?'

'E o esquisito, quer dizer, o João não ia poder perder mais um show do melhor amigo, né?'

'Exato. E aí a gente poderia se encontrar...'

'Isso!' Ele comemorou como um lance certo num adversário. 'Você promete que fica comigo? Esse tempo todo?'

Ela suspirou e como resposta voltou a cantar.

'Dentro dos seus braços os abraços hão de ser milhões de abraços, apertado assim, colado assim, calado assim... Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim... Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim.'

Gael se juntou, reforçando o dizer.

'Não quero mais esse negócio de você longe de mim... Vamos deixar desse negócio de você viver sem mim.'

Por alguns segundos eles seguram escutando a respiração um do outro e Dandara não reparou que João assistia a cena, encostado no vão da porta até o menino interromper.

'Agora tá fazendo show via telefone?' Dandara abaixou o aparelho sem se despedir de Gael e voltou a atenção para o filho, que se aproximava. 'Eu saquei que não tava rolando muito público quando você virou professora mas pô, e eu? Antes você cantava pra mim agora o serviço tá se estendendo? Sinto te informar, mas lutadores não tem lá muita cultura musical...'

Fazendo uma voz fina, como se o menino fosse uma criança, Dandara puxou-o para sentar ao lado dela.

'Ai, meu amor, quanto ciúme, filhote! Quer que eu cante pra você, quer? Eu canto! Mamãe canta quantas vezes você quiser!' adicionou, enchendo o menino de beijos enquanto ele fingia não gostar. 'Mas meu filho,' ela ajeitou o cabelo atrás da orelha 'falando em música e em show... E aquele show da banda do Pedrinho que você me contou que tem de novo em Minas, você não vai?'

Ele encarou-a, desconfiado.

'Não.'

'Mas por que, meu filho? Esses meninos são ótimos!'

'É... Mas eu não sou muito fã de rock, não... Prefiro Tom Jobim.' Dandara revirou os olhos pro menino e ele acusou. 'Você quer me empurrar para o show do Pedro pra ficar namorando nas minhas costas, pensa que eu não sei!'

'Eu não estou namorando ninguém, meu filho, mas e se eu tivesse? Acho que vamos ter que aumentar as sessões com a Dra. Olga esse mês, né? Parece que tá regredindo!'

Joao lançou um olhar debochado à mãe, que riu.

'Mesmo, filhote, você não quer mesmo ir, não? Acho que o Pedrinho ia gostar… O Nando me falou que a galera da Ribalta toda vai.'

'Lógico que vai, dona Dandara, Galera da Ribalta é o nome da banda do Pedro! Mas o show é em Minas, ninguém vai até lá pra ver eles cantando porque eles cantam todos os dias na aula. Só a tia Delma, a Tomtom e talvez a esquentadinha se o mestre Cruel não resolver empatar de novo'

'Então, olha só quanta gente, meu filho! João, acho que você precisa socializar um pouco mais, sair da sua zona de conforto...'

'Socializar com a Tomtom ou segurando vela? Se antes eu já achava que você tava querendo se livrar de mim, agora eu tenho certeza!'

'Ai, João, para de drama.'

'Acho que eu ainda não me curei ainda, não posso ir a lugar nenhum, to doente...'

'Poxa, que pena, filho... Porque eu lembro de ter ouvido a Bianca falar que ia acompanhar a irmã... Mas, se você está se sentindo mal, realmente é melhor você ficar aqui que eu cuido de você' Ela o abraçava quando o menino tentava se desvencilhar

'A Bianquinha vai?'

Dandara fez que sim com a cabeça.

'Aí a coisa muda de figura. Me da seu celular?'

'João, você está proibido de usar celular até terminar o colégio, lembra? E eu não me esqueci que você já roubou o meu esta semana!'

'Não peguei nada!'

'O René me disse que encontrou entre as almofadas do sofá aonde o senhor estava deitado.'

'Que pastel dedo duro!'

'Você fala com o Pedrinho amanhã na Ribalta e resolve tudo, pode ser? Agora você me da licença que eu preciso dormir…'

'Imagino mesmo, que você não tenha feito muito disso nessas últimas noites...'

'João!'

'Porque você estava tão preocupada comigo, foi o que eu quis dizer.'

Deitando em sua cama, Dandara pegou seu celular e digitou uma mensagem para Gael.

'Convenci o João, ele vai no show. Só uma coisa: tive que dizer que a Bianca ia também – mas você consegue convencê-la, né? Mal posso esperar pelos nossos dias juntos... Só nós dois.'

Notas finais
Queria agradecer a todas vocês que estão acompanhando a fic, desde o início ou chegando agora, saber que vocês estão lendo e gostando é o que me da mais vontade de vir correndo terminar mais um capítulo!!!! Obrigada por seguirem comigo!!!!! :) :)