João e Maria
14 Agora somos eu e você...
Quando ela abriu os olhos pela manhã, Dandara não tinha certeza de onde estava. Ainda sonolenta, decidiu fechar os olhos e esperar, tocando o lençol embaixo de si, puxando a memória da noite anterior... Em alguns instantes, lembrou que estava no quarto de Gael, e em seguida, lembrou-se do porque estava ali. A lembrança da noite anterior deixou suas bochechas rosadas numa mistura de vergonha e prazer. Era a segunda vez na semana que ela acordava na casa dele.
Virando-se de lado para despertá-lo, Dandara percebeu que ele não estava lá. Tentando conter o eco de dor que se formava em seu peito, ela respirou fundo, resistindo aos pensamentos negativos se criavam. Inquieta, se virou para o lado, onde percebeu um vaso de flores do campo na cabeceira da cama.
Aliviada, mas não menos ansiosa, ela sorriu.
Há poucos metros dali Gael estava sentado à mesa, bebendo um café e folheando uma revista de moda, que não lhe interessava em nada. Já passavam das onze da manhã e Dandara não havia acordado ainda — o que era perfeitamente normal pois eles foram dormir pouco depois das cinco, ponderou. De qualquer forma, Gael estava inquieto com a espera. Acordara há pouco mais de uma hora e por um tempo ficou assistindo-a dormir. Depois disso, sem chance de pegar novamente no sono, se levantou e seguiu até a sala.
A noite anterior havia sido de muitas consumações físicas do sentimento que tinham um pelo outro. Agora eles teriam mais dois dias juntos e ele estava curioso para saber como seriam. Na verdade, Gael gostaria de saber o que eles seriam, mas não queria parecer tão apaixonado ou insistente com a morena, então pegou a revista de Bianca para se distrair e manter a pose de descolado.
Virando a página de um anúncio de esmalte para unhas, ele ouviu um barulho de porta abrindo e fingiu estar prestando atenção na revista enquanto ela se apoiou no vão da porta da cozinha. Olhando pra ela como se tivesse acabado de perceber sua presença, ele sentiu uma pontada no peito e sua respiração parar, notando o quão bela ela era. Ela vestia a camisa branca de botão que ele usara no dia anterior e seus cabelos estavam embaraçados, mas quase lisos – os cachos esticados eram obra dele, pensou orgulhoso.
'Bom dia...' Ela pronunciou com cuidado.
'Bom dia,' ele enunciou, voltando a atenção para a revista, temendo parecer muito interessado. Logo uma sombra caiu sobre a página da revista enquanto cabelos negros dela caíam sobre seus braços. Ele se virou para entender e Dandara o pegou num beijo tão poderoso que inclinou a cadeira.
'Obrigada pelas flores.'
'Que flores?' Ele perguntou, tentando fingir que não sabia do que se tratava. Ela riu.
'Que flores... Sabe, você não precisa esconder que é um homem maravilhoso, atencioso, fofo...'
'Fofo não! Fofo já é demais pra mim.' Ela jogou o corpo pra trás num riso.
'Você tem que manter a sua fama de mau!' ela completou, num tom quase cantado. 'Acho que já passamos dessa fase, né?' Sorrindo, ele puxou-a para sentar em seu colo e novamente se surpreendeu com a leveza dela.
'Me esclarece, por favor, uma coisa...' ele iniciou uma pergunta e ela fez um som para ele continuar. 'Quando você diz que a gente já passou de fase... Em qual fase que a gente tá?' Ela jogou a cabeça para trás, rindo da curiosidade dele. 'Falta pouco, né? Só enfrentar o chefão...' Ele brinca, se referindo ao João 'Quer dizer, chefinho né, porque, na força não dá pra comparar o esquisito, quer dizer, o seu filho, comigo.’ Ele fazia carinho no ombro dela e ela arqueou a sobrancelha, desafiando-o
'Olha que o João pode ser muito persuasivo...' Subindo sua mão pelas costas da morena ele prendeu os cabelos da nuca dela em seus dedos e trouxe-a para um beijo.
'É?’ Ele falou entre beijos 'Eu também…'
'Pode ser,' ela ria 'Mas acho que essa técnica não vai funcionar muito com o João não, viu? Amor, já são que horas? Eu tava pensando que a gente podia sair, fazer alguma coisa ao ar livre…' Ela descia as mãos pelo peitoral do lutador.
'Temos todo o tempo do mundo.' Ele respondeu tocando a cintura dela por debaixo da blusa.
'Se você continuar com isso a gente não sai daqui hoje.'
Ele riu, gostando de provocá-la.
'E você quer sair pra onde?'
'Ah,' ela dá de ombros 'eu tava pensando, assim,' Dandara mantinha as mãos acariciando a nuca e as costas do lutador até ele sentir um calafrio.
'Eu não posso te provocar mas você pode?’ Ele interrompeu, brincando.
'Parei, parei, prometo!' Disse a professora de canto entre risos.
'Não, por favor, não para…'
Ainda rindo ela o beijou novamente. O beijo, intenso, aos poucos se desmanchou em beijos menores, mais curtos, depositados por Gael no pescoço de Dandara e ela sabia que era inútil lutar. Virando-se no colo dele, de modo que estivesse sentada de frente para ele com o quadril do lutador entre suas pernas, ela segurou os ombros dele, aproximando seus corpos. A cada inspiração uma corrente elétrica percorria seus corpos e Gael delirava ao sentir a morena sentada em seu colo. Ele ansiava por outra forma de contato.
'Desiste de sair...' Ele sussurrou baixinho no ouvido dela, o que só fazia o desejo de Dandara aumentar ainda mais. 'Vamos voltar pro quarto?'
'Não...' Ela respondeu olhando-o nos olhos, encostando sua testa na dele. 'Aqui está ótimo.'
Ele não precisava ouvir novamente. Levantou-se e segurando-a pela cintura sentou-a sobre a mesa e desceu as mãos pelas laterais do corpo dela, sentindo-a se arrepiar até puxar a fina calcinha de renda que separava seus corpos. Em um movimento rápido, ela se livrou da blusa dele e a boca de Gael mirou os seios da morena e sem rodeios eles se amaram ali mesmo, sobre aquela mesa.
**
'Sabe o que eu tava pensando?' Dandara estava deitada sobre as pernas de Gael que sentava-se no chão, apoiado na coluna que separava a sala da cozinha de sua casa. 'Já fazem o que? Doze horas que a gente está junto? E a gente trocou tipo, cinco palavras...'
'Eu acho que foram bem mais do que cinco... Se bem que os sons que você pronunciou não são bem palavras, né? São o que, onomatopeias?'
Levantando-se e rindo, ela deu um tapa de leve no ombro do lutador.
'Ai, Gael... Você me faz esquecer a minha idade! Olha a cena... Sabia que eu estou morrendo de fome desde que acordei? Mas só caí na tentação de você...'
'Sua culpa. Quem mandou ser irresistível?'
Abotoando a camisa branca que agora caia sobre si, Dandara levantou e seguiu na ponta dos pés até a cozinha.
'Hm... Morena,' Ele justificou enquanto ela encarava a geladeira vazia. 'a Karina treinou muito essa semana, a gente acabou com o estoque de comida da casa... Eu devia ter ido no mercado mas fiquei pensando em ter você e nem pensei no que mais a gente ia precisar...'
Ela sorriu e foi até ele, dando um selinho.
'Eu só preciso de você... ...E de um pouquinho de comida.'
'Quer descer e comer no Perfeitão?'
'Não sei se é uma boa ideia, sabe?' Ela seguia procurando em todos os armários da cozinha, de vez em quando trocando olhares com o lutador. 'A gente vai lá sempre, a Delma não tá e eu não quero ir dar ibope pro Marcelo não... Desculpa, Gael, eu to aqui abrindo seus armários... Acho que eu to me sentindo meio em casa demais, né?'
'Pode sentir e, por mim, por ficar também.'
Com um pacote de bolachas ela se senta ao lado dele.
'Hm, elas estão meio moles...'
'A Bianca nunca fecha o pacote direito. Fica comendo escondido, porque está sempre de dieta, aí pra disfarçar sempre fecha de qualquer jeito... Não importa quantas vezes eu fale, ela insiste nessa de dieta!'
'Já reparou que a gente acaba sempre falando dos nossos filhos?’ Ele fica encabulado. 'Não to reclamando! De jeito nenhum! Fui só eu e o João por tanto tempo que eu nem tenho uma vida sem ele, ele está em todas as histórias...'
'...e todas as histórias são dele. Eu sei exatamente o que é... Em dobro, né?'
'Só que as suas meninas não dão metade da dor de cabeça que o meu filho me dá.' Ele ri.
'Ele é um bom menino...'
'Eu sei que é. Mas às vezes eu me sinto perdida...' Ela passou as pernas por cima das de Gael e ele acariciava a pele macia da morena. 'É bom que o René esteja voltando a fazer parte da vida dele, sabe? Só espero que não seja tarde demais...' Reparando que o ânimo de Gael se alterou ao ouvir falar em René, ela tentou mudar de assunto. 'Mas bem, agora somos eu e você...'
'Sim, vamos ter as nossas histórias pra contar, pode ser? Você queria fazer algo ao ar livre... Eu conheço uma trilha que dá numa cachoeira que está quase sempre vazia.' Ela encarou-a, pronunciando sem som 'safado' ao que ele riu e continuou. 'A gente pode comprar umas coisas no caminho e passar o dia por lá.'
'Acho uma ótima ideia, mas vamos fazer assim, toma um banho que a gente vai lá pra casa, eu troco de roupa e preparo uns sanduíches – ainda só consigo pensar em comer –e depois a gente vai.'
Ela se levantou e ele fez o mesmo, apoiando uma mão na perna dela enquanto levantava.
'Me ajuda a tomar banho?'
'Você precisa de ajuda?'
'Eu preciso de você.'
'Amor... Eu adoraria dizer sim... Mas se eu for tomar banho com você a gente não sai daqui e eu preciso repor as minhas energias!'
Ele não se importava, só sorria de tê-la por perto e deu um longo e provocante beijo na morena, antes de seguir para seu quarto. Gael acabara de deixar a sala quando Dandara se virou e se olhou no espelho. Ela se sentia mais mulher de novo, mais sexy... Se impressionava que ele a queria toda hora e que ela o que queria também... Além da cumplicidade era uma paixão como ela não lembrava ter sentido antes... Olhando em volta, percebeu o pacote esquecido de camisinha e fez uma nota mental de que eles precisariam comprar mais.
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