O silêncio dentro do Prius de Marissa era irritante. Bonnie não conseguia se lembrar de quando foi a última vez em que ela e as meninas haviam ficado tanto tempo sem dizer qualquer coisa, mesmo que fosse baboseira.

– É melhor alguém dizer alguma coisa ou eu vou enlouquecer. – Skylar declarou.

– Argh. – Regan desdenhou. – Eu não quero falar sobre aquela garota e vocês não podem me forçar.

– Não, Regan, não é sobre Ally. – Marissa disse, enquanto estava dirigindo. – É justamente sobre o que aconteceu depois que ela saiu.

Regan fez cara de ponto de interrogação.

– A maçã podre que você enfiou na boca! – Bonnie estava quase desesperada.

– Ah, isso. Marissa, eu já sei o que você vai dizer, que eu sou descuidada por comprar um alimento estragado. Mas, em minha defesa...

– Regan, eu não acho que o problema sejam os agrotóxicos. – Skylar disse.

– Como assim?

Pelo retrovisor interno, Marissa encarou Bonnie e Regan sentadas no banco de trás, Bonnie estava analisando Regan. Skylar estava encarando Marissa, era ela quem sempre tocava em assuntos desgastantes.

– Regan, depois que você saiu, a maçã se desintegrou.

– O quê?

– Pois é, bem na nossa frente. – Bonnie completou.

– E, para completar, todas nós nos sentimos mal depois. Foi como um efeito.

Regan era muitas coisas: teimosa, cabeça dura e imprudente, mas Marissa também sabia que ela não era burra. Mais cedo ou mais tarde ela iria captar a mensagem no ar.

– Espera um minuto! – Regan reagiu. – O quê? Não! Marissa, o que você está dizendo? Você acha que aquilo foi magia?

– Eu não acho, eu tenho certeza.

Regan encarou Bonnie.

– Foi você? Foi algum tipo de piada de mau gosto?

– O quê? A maçã pobre ferrou com o seu juízo?

– Desculpa, mas você é a bruxa da terra e maçãs são meio que a sua especialidade. – Regan semicerrou os olhos. – Não seria a primeira vez que uma de nós usa magia pra dar uma lição em outra pessoa.

– Você vai mesmo começar com as acusações agora? – Bonnie estava chateada. – Eu não fiz aquilo, Regan. Eu poderia, deveria, mas não fiz.

– Certo. – Regan olhou para frente. – Sky?

– Vai se ferrar! – Skylar era a garota que acidentalmente acabara com os cabelos azuis, quando tentou invocar um feitiço. – Se eu conseguisse apodrecer alguma coisa, seria a sua cara.

– É sempre um deleite conversar com você.

– Não, Regan, não fui eu quem apodreceu a maçã. – Marissa respondeu antes mesmo de ser interrogada.

– Ah, não, querida, eu não achei que tivesse sido. Você é muito boa pra isso.

E apesar de toda chateação, Bonnie e Skylar acharam engraçado.

~

Dentro do ferro-velho, Marissa estava prestes a começar a escalar a grade de ferro, para poder chegar ao outro lado, mas antes dela Regan já estava levitando por cima da grade.

– Que irado! – Skylar sorriu.

– Não é não! – Marissa respondeu. – Regan, você sabe que não devemos brincar com os nossos poderes.

– Relaxa, Marissa. Além do mais, de que adianta termos todos esses poderes se não podemos utilizá-los de vez em quando, em nome da diversão? Vem, Bonnie, é a sua vez.

– Bonnie, não.

Mas antes que Marissa pudesse dizer mais alguma coisa, Bonnie já havia levitado e passado por cima da grade. Ela até soltou um gritinho quando estava no ar.

– Sky, eu desafio você.

Skylar fechou os olhos e se concentrou. Quando se deu conta, estava passando por cima da grade e em seguida aterrissando entre Bonnie e Regan.

Marissa cruzou os braços. Ela odiava ser contrariada, o que, infelizmente, acontecia com bastante frequência.

– Qual é, Marissa? – Regan começou a provocá-la. – Você sabe que quer. Vem, é até divertido, se você quer saber.

Regan era o diabinho no ombro de Marissa.

Marissa sempre jogaria de acordo com as regras, era esse o tipo de garota que ela era.

Ignorando as provocações de Regan, Marissa começou a escalar a grade. Por mais difícil que fosse, ela sempre conseguia chegar até o outro lado.

Quando Marissa chegou no alto, ela viu Regan levantar a palma da mão em sua direção.

– Não se atreva! – Gritou do alto da grade.

– Levitatis. – Regan pronunciou.

Marissa foi arremessada de cima da grade de ferro até uma moita no chão. Ela caiu de costas, mas, felizmente, o impacto não fora maior do que ela estava acostumada a aguentar.

– Droga! Marissa, eu sinto muito. – Regan começou a se desculpar. Ela então olhou para baixo e encontrou os óculos de Marissa, que caíram do rosto da amiga quando ela foi arremessada. – Aqui, pegue.

– Agora você sabe porque eu odeio quebrar as regras.

Regan ajudou Marissa a se levantar, o cabelo dela estava cheio de mato seco.

– Você está bem? – Regan perguntou.

Em resposta, Marissa ergueu a palma da mão e disse “afaste-se” em latim.

Regan foi jogada para trás e bateu de costas contra a grade de ferro. Normalmente ela revidaria, mas sabia que fez por merecer.

– E eu achando que você não era vingativa. – Skylar comentou.

As meninas seguiram o caminho de sempre e adentraram a floresta. Bonnie e Skylar traziam nas costas duas mochilas com os materiais necessários.

No passado, a usina de aço de Mystic Village era a maior fonte de renda da cidade e de alguns povoados vizinhos. Centenas de pessoas trabalhavam ali, o lugar estava sempre a todo vapor. Porém, em 1983 a empresa que era responsável pelo projeto resolveu fechar a usina da noite para o dia, deixando milhares de pessoas desempregadas.

Atualmente a usina não era totalmente inutilizável, pois as meninas utilizavam o prédio abandonado como campo de treinamento. Era afastado da cidade e as pessoas raramente iam até lá. Na verdade, a maior dificuldade era quando uma raposa ou um gambá resolviam aparecer sem serem convidados.

As meninas sentaram-se em um círculo e Skylar começou a pegar as velas dentro da mochila: uma vela preta, para o espírito que continuava ausente; uma vela vermelha, para o fogo; uma vela branca, para o ar; uma vela amarela, para a terra; e uma vela azul, para a água.

Regan começou a acender as velas, com ela ali as meninas não precisavam de uma caixa de fósforos. Bonnie tirou o Grimório de dentro da outra mochila e colocou-o aberto no centro do círculo. As meninas então começaram a exibir os colares, que na maior parte do tempo ficavam escondidos dentro das blusas.

E por fim deram as mãos e fecharam os olhos. Na falta do espírito, era o ar quem pronunciava as palavras sagradas.

– Ceridwen, grande deusa-mãe, protetora dos cinco elementos, energia geradora do universo. Deusa tríplice do círculo do renascimento, nós humildemente invocamos a sua presença, grande divindade universal.

Marissa continuou.

– A Lua jamais morre, mas muda de fase a cada sete dias, representando os mistérios da eternidade e mutação. Ceridwen, por favor, contemple-nos com a sua presença.

– Fogo. – Regan pronunciou.

– Ar. – Marissa pronunciou.

– Terra. – Bonnie pronunciou.

– Água. – Skylar pronunciou.

E então o colar de cada garota começou a brilhar, era a resposta da Deusa para o pedido das meninas. Ela as protegeria, guiaria e forneceria os poderes necessários contra qualquer ameaça ao longo do caminho.

~

Ally estava deitada na cama, reavaliando o primeiro dia de aula. Por incrível que pareça, não tinha sido tão horrível quanto as experiências anteriores. Foi até, em poucas palavras, quase normal.

No final, havia mais coisas positivas do que negativas na balança. Ela havia conhecido garotas legais, tinha se dado bem com a maioria dos professores, prestou atenção às aulas e, felizmente, não havia quebrado nada.

Ally viu o livro e o colar da avó em cima do criado-mudo. Esses dois itens ainda eram um mistério, se bem que tudo relacionado à avó dela ainda era um mistério.

Trazendo os objetos para perto, ela começou a analisá-los pela terceira vez consecutiva. Ally já havia chegado à conclusão de que o colar era apenas uma joia velha, de bom gosto, por sinal. Ela então decidiu usar o colar, que mal poderia fazer? Além do mais, nenhuma joia merecia ficar guardada no fundo de um baú velho.

O livro, no entanto, ainda era um empecilho. Por que a avó de Ally guardaria um livro em branco? Talvez fosse um diário, que ela nunca teve a oportunidade de preencher as páginas. Até aquele momento, era a melhor suposição.

Ally não sabia muito bem como começar, ela não era o tipo de garota que começava a contar a própria história com “Querido diário...”.

Mas valia a pena tentar. Com a caneta na mão, ela começou a escrever. Foi uma tentativa inútil, a caneta não funcionou. Ally pegou outra caneta e tentou escrever de novo. Diferente do tal raio, que supostamente nunca deveria acertar o mesmo lugar duas vezes, a segunda caneta também não funcionou.

Ally franziu a testa.

– Que droga! – resmungou.

O celular dela começou a tocar em cima da cama. O número era desconhecido, mas o código era o da cidade. Ela deslizou o dedo na tela e atendeu a ligação.

– Ally?

Ela reconheceu a voz de imediato.

– Finn? Como você conseguiu esse número?

– Eu invadi o sistema da escola e acessei os arquivos dos alunos.

Ally esperou que ele dissesse “Estou brincando”, mas isso não aconteceu.

– Ah, ok. O que você quer?

– Hoje à noite tem um lance, é uma festa. Todo ano os veteranos dão uma festa em uma casa próxima à cachoeira. É o de sempre: bebida, comida ruim, boa música, o vídeo de alguém vomitando, bêbado, vai cair no Youtube até o final da noite. Enfim, eu estava pensando se você quer, de repente, ir comigo?

– Até onde eu sei, os calouros não foram convidados.

– Você está certa. Mas, confie em mim, não é nada que um barril de cerveja não libere a nossa entrada.

– Certo. – Ally se lembrou de ver Finn conversando com a garota loira. – Eu já estava cogitando mesmo dar uma de penetra e aparecer por lá. Obrigada por me chamar.

– Então é um encontro?

– Não, Finn, não é um encontro. Eu vou estar lá e eventualmente você também. É algo casual e totalmente descompromissado.

– Foi o que eu pensei: é um encontro!

Finn desligou.

Por um momento, Ally quase esqueceu o livro misterioso da avó. Segurando-o fechado, ela encarou a capa.

O que era aquele livro?

~

— Certo, Marissa, concentre-se. – Skylar disse.

As meninas estavam do lado de fora da usina, era uma terça ensolarada. Por isso e, pela segurança, era sempre bom treinar do lado de fora. Afinal, ninguém sabia quando os poderes de uma garota poderiam sair de controle.

Marissa esticou os braços e encarou o vasto céu azul.

– Ventus.

E então começou. Uma leve brisa correu ao redor das garotas, depois veio um vento mais forte, fazendo os galhos das árvores balançarem. Por fim veio a ventania, selvagem e incontrolável. Marissa sabia que um minuto a mais e todas as árvores seriam arrancadas do chão.

– Prohibere.

Nada aconteceu.

– Marissa, tente de novo! – Skylar teve que gritar.

– Prohibere.

Nada. Bonnie virou o rosto para o lado a tempo de ver o tronco de uma árvore ser partido ao meio, por conta da força do vento.

– Marissa, é melhor você se apressar. – Bonnie disse.

– Pare! – Marissa gritou. – Pare agora! Eu ordeno.

Regan escutou um rangido, depois o barulho de ferro sendo arrastado. Ela olhou para trás a tempo de ver a porta de ferro da usina vindo em sua direção.

– Abaixe-se! – Regan se jogou, empurrando Bonnie para o lado. As duas caíram no chão justamente quando a porta de ferro passou perto delas.

– Merda! – Skylar resmungou. No segundo seguinte, ela já estava correndo e agarrando Marissa pela cintura. As duas caíram no chão e a porta de ferro atingiu uma árvore em cheio.

– Todas estão bem? – Marissa se levantou e em seguida ajudou Skylar.

– Argh. Defina bem. – Bonnie resmungou.

– Marissa, o que diabos foi aquilo? – Regan também estava em pé.

– Aquilo fui eu perdendo o controle sobre os meus próprios poderes – disse, tristonha.

– Não fique assim, esse tipo de coisa acontece. – Bonnie tentou consolar a amiga.

– Não foi sua culpa. – Skylar também era solidária.

– Esse tipo de coisa não aconteceria se nós já tivéssemos encontrado o Espírito. – Regan estava de saco cheio.

Enquanto o galho de uma árvore caía no chão, as meninas começaram a se questionar se estavam pelo menos perto de encontrar o Espírito.