Notas iniciais
Alguém ainda interessado na minha história?

De vez em quando milagres aconteciam, como, por exemplo, Regan chegando cedo ao trabalho. Eram momento raros, mas aconteciam.

– Você chegou cedo. – Nora observou. – Você nunca faz isso. – Ela havia acabado de atender um cliente quando Regan entrou pela porta.

– Eu vim um pouco mais cedo pra ver você, não seja ingrata.

Nora sorriu e Regan a beijou na bochecha.

– Oi pra você também.

De longe, Babette observava Regan e Nora. Ela sabia que Regan não era uma garota fácil, Babette sabia muito bem disso. Mas ela também sabia que Nora despertava o que tinha de melhor em Regan. O que as duas garotas tinham era genuíno.

– Você vai embora? – Babette perguntou a Regan quando ela foi para trás do balcão, atender alguns clientes.

– Não, eu acabei de chegar.

– Eu não estou me referindo ao trabalho. – Regan encarou Babette. – Quero saber se você vai se mudar para Nova York com a Nora.

– Eu ainda não decidi. – Regan começou a limpar o balcão. Ela não era o tipo de pessoa que pedia por conselhos, mas aquela era uma exceção. – O que eu faço com relação a Nora?

– Regan, se eu fosse uma boa conselheira, não teria aberto um restaurante. Mas, deixe-me perguntar uma coisa. – Babette encarou Regan. – Você gosta dela?

– Gosto, gosto muito.

– Então tudo vai ficar bem. – Babette tocou no ombro de Regan. – Você vai acabar fazendo a coisa certa.

Regan queria ter tanta confiança quanto Babette.

~

— Qual é a diferença entre nuggets de peixe e nuggets de frango? – Regan foi obrigada a escutar a dúvida de uma cliente.

Regan revirou os olhos mentalmente.

– Os nuggets de frango são feitos com carne de frango. Pintinhos, na verdade, pobres e inocentes filhotinhos de frango. E os de peixe são feitos com, você sabe, carne de peixe.

– Eu vou querer uma salada.

– Boa escolha. – Regan arrancou o cardápio das mãos da mulher e foi para a cozinha.

O local cheirava a fritura e cebola.

– Deixe-me adivinhar. – Nora viu a expressão de Regan e já estava se divertindo. – Alguém fez uma pergunta idiota?

– E quando as perguntas não são idiotas?

– Um cara me perguntou se a linguiça de porco é mesmo feita com carne de porco. – Nora começou a colocar batatas fritas em uma tigela.

– O que você disse?

– Geralmente sim, senhor. Mas, às vezes, principalmente quando os porcos estão resfriados, nós utilizamos carne de crocodilo no lugar. No fundo, eu acho que fiz uma coisa boa. Aquele homem precisava maneirar na gordura.

Nora saiu da cozinha, enquanto Regan gargalhava.

~

No fim do expediente, tudo o que Nora queria era ficar a sós com Regan.

– Eu estou indo pra casa, você me acompanha até o carro? – Ela não estava mais usando o uniforme do restaurante.

– Babette, eu posso ir lá fora por um minuto? – O expediente de Regan ainda estava na metade.

– Se eu disser que não, você vai ficar aqui?

– Não.

– Então por que pergunta? – Babette deu de ombros.

Nora e Regan saíram de mãos dadas pela porta da frente.

Regan estava muito calada. Não era muito normal da parte dela ficar sem fazer uma piadinha ou um comentário maldoso em uma caminhada de vinte metros.

– Você já pensou a respeito da minha proposta? – Nora quebrou o silêncio.

– Sim – foi tudo o que Regan disse.

– E? – Nora odiava quando Regan era monossilábica.

– Eu ainda estou pensando. Por favor, não se chateie, tenha um pouco de paciência comigo. – Regan parou, elas já haviam chegado até o carro de Nora no estacionamento.

– Eu não estou com pressa, já tomei a minha decisão. Só lembre-se: no fim do mês, eu não vou estar mais aqui.

A garota se aproximou e passou os braços ao redor do pescoço de Nora. Ela era tão bonita, Regan poderia admirá-la durante todo o dia.

Nora se inclinou e beijou Regan. Ela tinha lábios macios.

– Você está tão quente! – Nora disse.

– Eu sei. – Regan voltou a beijá-la.

Após o beijo, Nora colocou uma mecha de cabelo vermelho atrás da orelha de Regan.

– Só se lembre de uma coisa: se você decidir se mudar comigo, nós vamos poder fazer isso o tempo todo.

– Eu vou manter isso em mente.

Nora se despediu, entrou no carro e depois foi embora.

O celular de Regan começou a tocar dentro do bolso do short. Ela atendeu, era Bonnie quem estava ligando.

– O que tá pegando?

– Regan, eu preciso de um favor, mas você não pode me fazer perguntas. Pelo menos não por agora, confie em mim.

Regan confiava.

– Do que você precisa?

~

Em casa, depois do expediente, Regan abriu a porta do quarto de Finn sem bater. Ele girou para trás na cadeira e ergueu uma sobrancelha.

– Oi, pervertido. Você tá vendo pornografia?

– Não, nossos pais estão no quarto ao lado. Quem você pensa que eu sou, um adolescente amador?

Regan entrou no quarto e fechou a porta.

– O que está havendo entre você e Ally? – Regan se sentou na beirada da cama.

– Você se importa?

– É claro que sim. Você é meu irmãozinho.

– Por dois minutos. – Finn não era burro. – Por que você não corta essa baboseira e diz por que está aqui?

– Muito bem. Eu preciso ver o arquivo que você baixou de Ally.

– Por que você acha que eu baixei algum arquivo?

Regan fez cara de “É sério?” Ela conhecia o irmão gêmeo muito bem. Ela sabia que Finn não brincava na chuva só porque era divertido.

Finn pegou alguns papéis de dentro de uma gaveta na mesa.

– Ally é mais barra pesada do que você. – Finn estava fascinado. – Ela já foi expulsa de duas escolas.

Regan ignorou o falatório do irmão e encarou o arquivo de Ally.

– Finn, isso está correto?

Ele encarou os papéis.

– Sim, por quê?

As luzes do quarto começaram a piscar.

Finn engoliu em seco.