Journey
34 Treinta y cuatro
Notas iniciais
– Então deixa eu ver se eu entendi essa história direito: vocês saíram no meio da noite para ir a um show do Metallica, conheceram um punhado de gente, montaram uma banda e entraram num concurso?
– Pro senhor ver como é a vida... — Sam respondeu rápido — Vamos ouvir alguma coisa, sim? — ligou o rádio numa tentativa de abafar a conversa.
– Será que a gente esqueceu o Dean lá? — John brincou, mas Dean não respondeu. Ainda estava calado, abraçando sua guitarra e olhando as gotas de chuva percorrerem o vidro da janela do carro. — Dean?
– Hã?
– Deixa ele, pai, ele não está num dia bom.
– Tá certo, esqueci que foi ele que passou a noite toda acordado dentro de um carro cruzando a fronteira do estado para buscar...
– Pai, você vai ficar falando isso o tempo todo? Ninguém te obrigou a vir, a gente podia ter voltado sozinho.
– Ótimo, e que tal eu te deixar aqui no meio do nada e você se vira pra chegar em casa, hein, Sam?
– Ah, por favor, é só parar o carro.
– Para! — Dean gritou, silenciando os outros dois — Por favor, gente, hoje não...
– Aconteceu alguma coisa, Dean?
– N-não, não senhor.
– Eu sei que você não mente para mim, Dean. Fala o que aconteceu.
– Por que o senhor acha que aconteceu alguma coisa?
– Não aconteceu nada então?
– Olha, um restaurante de beira de estrada! — Sam apontou, tomando toda a atenção do carro para si — Alguém mais tá com fome?
– Com toda certeza. — Dean entrou no bote salva-vidas que o irmão lhe jogou. John deu de ombros e parou o carro.
A chuva não estava mais tão forte, mas ainda tinha muita neblina rondando o ambiente. Não devia estar longe de escurecer.
– Você vai mesmo ficar segurando essas florzinhas o tempo todo? — perguntou John
– Claro, é meu prêmio. — cheio de orgulho, Sam ajeitou o buquê no colo, enquanto sentavam no balcão
– Mas você não disse que a guitarra de dois braços e o box do Star Wars eram o seu prêmio?
– Também são. — Sam tossiu — Vamos pedir logo, né? Ah, moço, por favor, eu vou querer um cheese burguer.
Todos comeram em silêncio, o que, para a sorte de Dean, era perfeitamente aceitável e considerado normal, e não uma manobra pra fugir de um assunto. Infelizmente, seu pai não pensava da mesma forma.
– Dean, você não respondeu minha pergunta.
Dean franziu o cenho.
– Que pergunta?
– O que aconteceu na viagem? — Sam abriu a boca para responder — Shh, não, você não. Eu quero saber porque você tá abalado assim, Dean. Não adianta negar. Vocês fizeram alguma coisa ilegal? Alguém ameaçou vocês?
– Não, não é nada disso. — Dean quase riu. Nem nos seus sonhos mais insanos, seu pai cogitaria alguma coisa parecida com o que realmente aconteceu. — Não é nada, pai.
– Eu não vou brigar, eu só quero que você me conte.
Dean olhou para Sam, tentando decidir o que contaria. Sam lançou um olhar incentivador para Dean. Aquele parecia um momento seguro para contar.
– O que vocês tão escondendo?! — John estava impaciente
– Não é nada sério, é só que... — Dean cortou o contato visual com Sam e respondeu rápido — o Sam quebrou a minha guitarra.
– De propósito? — John arregalou os olhos
– N-não, é claro que não! — Sam chutou Dean por debaixo da mesa
– Ai! — gritou sem querer e levantou da mesa meio desajeitado
– Vai a algum lugar, Dean?
– Banheiro.
Dean lavou o rosto e ficou encarando a própria face no espelho. Tudo estava errado.
– Você é um babaca, eu tava tentando te ajudar! — Sam apareceu ao seu lado
– Desculpa, foi a primeira coisa que me veio a mente.
– Como que vai ser agora, Dean? Você vai mentir pra sempre?
– Não, eu vou omitir para sempre. Foi bom enquanto durou, mas agora eu preciso voltar pra vida real... — secou o rosto com uma toalha de papel — senão eu vou enlouquecer.
***
Eventualmente, John foi esquecendo daquela história toda e uma confortável rotina já se estabelecia de novo na casa dos Winchesters.
– Consegui um show para vocês. — Bobby disse, abaixando o jornal do rosto. Dean fechou a geladeira atrás de si e foi se sentar a mesa com ele.
– Que bom, mas isso não muda o fato de que a gente ainda não tem um baterista.
– O menino não pode cantar e tocar bateria? — Bobby sugeriu
– É uma ideia. — Dean levantou o pano de prato que estava por cima de uma vasilha, só para encontrar metade de um bolo ali dentro — Ei, o que aconteceu com a torta?
– Só tinha um pedaço, então eu disse que o Sam podia levar pra escola.
– Poxa. — fez uma cara de desgosto e tampou a vasilha de novo — E cadê o homem?
– Bar da Ellen.
– O quê? Já? Não são nem dez da manhã!
– Mas ele foi resolver uma coisa. Não quis dizer o que era.
– Resolver uma coisa, sei... — revirou os olhos e acabou decidindo tirar um pedaço daquele bolo mesmo — O que você vai fazer hoje, tio Bobby?
– Varrer aquelas folhas da entrada e comprar um bando de porcarias açucaradas, pra se alguma criança aparecer fantasiada aí na porta, você sabe.
– Parece um bom plano.
– E você, guri? Vai passar o dia trancado naquela sala?
– Ué, é meu trabalho. Aquelas guitarras não vão se consertar sozinhas.
– Eu sei, mas... você não precisa ficar lá o dia todo. Você é um garoto novo, Dean, não quer mais nada da vida?
– Eu... tô satisfeito com o que eu tenho, tio Bobby.
– Então por que eu continuo vendo você andando com essa nuvem de chuva aí na cabeça?
– Nuvem... Você tá lendo quadrinhos demais, tá? — levantou-se e foi para a sala. Voltou trinta segundos depois para pegar seu prato de bolo.
– O que foi, esqueceu sua nuvem aqui? — Dean deu um sorriso desdenhoso — Não fique zangado, garoto. Eu só tô falando que se você quiser conversar sobre alguma coisa...
– Ai, que droga, eu tô bem!
Bobby balançou a cabeça em negativa, enquanto Dean saía avoado da cozinha.
***
– Isso é loucura.
– Qual foi, Dean? Você esqueceu daquela vez que a gente precisou de um baterista substituto porque a Ruby não apareceu no ensaio e então o... — Dean encarou Sam com fogo nos olhos — Ah, sim, desculpa. — coçou a cabeça, todo sem jeito por ter tocado no assunto proibido — Vai dar tudo certo. O papai já viu ela tocando antes.
– Mas o show é amanhã. Ela não ensaiou com a gente nenhuma vez.
– Ela conhece muito Rock Clássico, é só ver algumas músicas que a gente conheça em comum e pronto.
Calaram-se depressa, pois ouviram o barulho da chave de seu pai na porta. Junto dele, vinham Bobby, Ellen (a moça do bar), e uma menina loira tentando se esconder com o capuz do casaco. Sam e Dean levantaram-se para cumprimentá-las.
– Bem, essa é a Ellen, que vocês já conhecem. — Bobby falou, enquanto a mulher estendia a mão — E essa é a filha dela, Joanna.
– Só Jo. Oi. — ela acenou para os meninos, evitando olhá-los diretamente nos olhos.
– Ela nunca fica quieta assim em casa. Ainda mais quando resolve tocar aquela bateria o dia todo.
– Então eu acho que ter a menina na nossa banda vai ser um bom negócio para todo mundo. — John disse, terminando de fechar a porta — Bem, os instrumentos ficam no sótão. Vamos lá?
John, Sam, Dean e Jo subiram as escadas enquanto Bobby e Ellen se acomodaram na sala.
– Ah, isso vai ser interessante. — Jo falou, olhando para trás.
– Do que você tá falando? — Sam questionou.
– Tio Bobby e a Ellen na sala. — Dean respondeu e Sam continuou com a mesma expressão facial — Eles já foram namorados, cara. Como você não sabe disso? Todo mundo sabe disso.
– Sério? — Sam virou-se para Jo — O tio Bobby é... seu pai?
– Não! — Jo soltou uma risada e Dean deu um tapa no braço de Sam.
– Isso é pergunta que se faça?
– Não, tudo bem, eu adoro o Bobby. — Jo empurrou seu capuz pra trás — Mas ele namorou com a minha mãe quando eu tinha uns seis anos. Eu não cheguei a conhecer meu pai.
– Tudo bem, você não precisa se explicar, o Sam que é um intrometido. — Dean deu um sorrisinho e Jo retribuiu. Sam desculpou-se umas quinhentas vezes antes de realmente começarem a ensaiar.
Jo sabia tocar direitinho, mas seu repertório era bem reduzido. Resolveram que era suficiente para um primeiro show, mas com o tempo ela teria que aprender mais.
***
– Tá gente, essa é a quinta selfie que vocês se intrometem no fundo. Muito engraçado, mas eu tô tentando tirar uma foto sozinho.
– Desculpa, Sammy, — Dean e Jo não conseguiam parar de rir — eu juro que a gente vai parar.
– Vocês dizem isso sempre!
– Eu posso tirar uma foto sua, se você quiser. — a menina se ofereceu — Ali perto da árvore, que tal? Vai ficar bem natalino.
– Pode ser. — afastou-se do balcão do bar de Ellen, enquanto Jo segurava o celular do garoto nas mãos.
– E pronto. Se você for colocar no Instagram, eu quero créditos de fotógrafa.
– Instagram? — Dean levantou os olhos do balcão — Sam, desde quando você tem um Instagram?
– Ah, tem uns... seis meses. Sei lá. — Dean tirou o celular da mão de Jo, antes que Sam pudesse pegá-lo — Ei! Devolve!
– Sam e Dean, não acham que já é hora de ir pra casa não? — Ellen surgiu atrás do balcão — É noite de Natal e tal.
– Tá tranquilo, Ellen. Eu não acho que John Winchester esteja olhando pro relógio, esperando a gente com uma ceia na mesa ou nada assim. Você sabe... — Sam falou.
– Nesse caso, por que você não liga pra ele e pro Bobby virem pra cá comer com a gente? Eu vou fechar daqui a pouco.
– Pode ser, obrigado. — sorriu — Assim que alguém devolver meu telefone.
– Ei, por que tem uma foto do Gabriel aqui?
– Porque eu sigo ele, me dá a droga do telefone, Dean.
– Eu não acredito...
– Quem é Gabriel? — Jo estava boiando naquela conversa
– Olha, eu não sou obrigado a enterrar o verão que nem você fez.
– Eu tô nem aí se você segue o Gabriel, eu só não sabia que você tinha o contato dele esse tempo todo.
– Na verdade, tenho até o número dele naquele cartão que ele me deu. Por quê? Você não tá pensando em...?
– Do que vocês dois tão falando?
– Não tô pensando em nada, Sam. — Dean levou o copo a boca.
– Eu posso ligar pra ele e, sei lá, perguntar sobre...
– Não se atreva! — Dean bateu com o copo no balcão.
– Mas Dean, é Natal! — argumentou — Eu vou ligar, vou pedir pra chamar o Castiel e você deseja Feliz Natal. Só isso.
Naquela hora, Dean transformou-se na rena da bochecha vermelha. Era a primeira vez em muito tempo que alguém dizia aquele nome em voz alta.
– Eu vou pra casa. — colocou seu casaco, acenou para Ellen e deu um abraço em Jo — Feliz natal pra vocês.
– Feliz natal... — Jo respondeu, meio confusa, enquanto Dean saía pela porta.
– Inacreditável. — Sam revirou os olhos e deu mais um gole no seu copo.
A neve estava caindo havia aproximadamente um dia, mas ainda dava para caminhar na rua. Bobby estava sentado assistindo a programação natalina de costume, quando Dean chegou passando avoado pela sua frente. Bobby primeiro ignorou, entretido com o filme, mas Dean passou de novo, e de novo e depois mais uma vez.
– Alguma coisa? — Bobby resolveu perguntar
– Ah? O quê? Não, nada, eu só tava caminhando... — havia desconforto na sua voz.
– Tem outros espaços da casa pra caminhar. Se você continuar só nesse pedaço, vai abrir um buraco no chão.
– Que ótima dica, tio Bobby. Eu vou pro meu quarto então. — suspirou, colocando um pé no primeiro degrau da escada e parando logo em seguida. Talvez aquela fosse a hora de dividir aquilo com mais alguém. Voltou para a sala e se pôs na frente da TV. — Ei, eu estava pensando, o senhor tem ótimas dicas com muita frequência, hein.
– Por quê? Você precisa de alguma?
– Eu? Não. Não é nada disso, eu só tava pensando que... Hm... O senhor sabe como eu sempre adorei torta e odiei bolo, certo?
– E mesmo assim isso não te impediu de comer a vasilha de bolo inteira aquele dia.
– Exatamente. Então, tio Bobby, esse bolo. Por algum motivo, eu não consigo esquecer esse bolo.
– Entendo.
– Tortas são maravilhosas mas, esse bolo foi tão bom, mas tão bom que talvez eu nunca mais queira comer torta na vida. E nem outro bolo. Só aquele. Para sempre. — Dean percebeu o quanto estava gesticulando e parou, envergonhado — Por que o senhor tá fazendo essa cara?
– Sem ofensa, garoto, mas isso não é realmente sobre bolo, né? Porque eu tô perdendo meu filme.
– Bem... não. Não é sobre bolo. É sobre... alguém.
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