Jornalismo Acelerado, Aquecido e Acalorado
2 Capítulo 2
Notas iniciais
À medida que os dias se passavam, em meio à rotina e às vivências, seja na redação, seja em campo (reportagens de rua, coberturas de partidas futebolísticas...), Mathias já conseguia se acostumar com a presença de Lia, ainda que se irritasse e se incomodasse com algumas pequenas idiossincrasias da subordinada estagiária, ainda pelo caminho.
Controlar impulsos sexuais já era algo mais fácil e frequente para ele, dentro do ambiente de trabalho. Simplesmente sua mente conseguia se focar e se direcionar para assuntos mais importantes, como as demandas das pautas e da redação, do que o súbito desejo lascivo ocasionalmente ainda causado pela presença e proximidade da agora colega, que, embora ainda em fase de estágio, já era considerada por muitos como parte da equipe, e que, embora subordinada ao renomado jornalista, conseguia contribuir ativa e diretamente em diversas pautas e conteúdos quase no mesmo nível que ele.
Mesmo que a contragosto, Mathias precisava admitir que a presença e contribuição de Lia para a equipe estavam se tornando ainda mais inestimáveis.
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Talvez por não querer um clima de guerra do seu ambiente costumeiro de anos (a redação), a armadura que ele montara ante à recém-chegada (embora com um desejo sexual intenso ainda presente e gritante, por dentro) começara aos poucos a se desfazer, como se estivesse fluindo naturalmente, ou quase naturalmente, entre eles, durante o convívio de ambos na redação.
Lia não parecia se esforçar para que fosse agradável; pelo contrário, era algo que parecia vir naturalmente para ela, com todos na emissora, e até mesmo ocasionalmente com Mathias. As vezes ela incluía um teor um tanto ácido ou sarcástico nas falas direcionadas a ele – mas, por vezes, também, a frase parecia direcionada a ele de forma carinhosa ou meramente simpática ou cordial. Seja qual fosse o caso, a clássica frase da moça (“Boa tarde, chefinho”) e suas variantes, que antes apenas o irritavam, agora pareciam deixar o clima mais leve entre os dois. Ou pelo menos era o que Mathias estava achando.
Algumas semanas depois da chegada de Lia, certa vez, o jornalista chegou até a ampla mesa que os dois dividiam, e trouxe duas canecas, cheias de café. Ele reparara que Lia não era muito de tomar café, mas acabou trazendo a segunda caneca assim mesmo.
Pousou uma das canecas próximo a ela e acomodou-se em sua cadeira, bebericando de sua caneca enquanto usava o “scroll down” na tela de seu computador para caçar por novas fontes e informações, que pudessem ser úteis para sua coluna e para as matérias que estava escrevendo ou com que estava colaborando.
Passou-se poucos minutos até que ele ouviu a voz de Lia:
- Você trouxe café para mim?
Mathias virou-se lentamente para ela.
- Sim.
- Mas eu não tinha pedido...
- Eu sei. Pode chamar de formalidade ou alguma outra coisa do tipo, mas achei que considerando a situação de hoje, um café não lhe faria mal. Eu já tratei logo de pegar um para mim também, pelo mesmo motivo.
Ela franziu a testa.
- “Considerando a situação de hoje”?
Mathias a fitou sério, e depois deu de ombros.
- Você leu o “release” que o editor-chefe disponibilizou hoje. A quantidade de demandas, pautas e matérias de hoje está absurdamente grande. Acredite em mim. Até uma pessoa “metida” a saudável vai precisar de um pouco de energia a mais, mesmo porque nenhum saco “vazio” se mantém em pé.
- Ah... é verdade – disse ela, parecendo murchar um pouco, mas logo em seguida recuperando a compostura, enquanto olhava de esguelha para o quadro de avisos, onde o editor havia fixado o release. Mathias estava com a razão dessa vez.
O jornalista esportivo se deu conta de que ela percebera que sua fala estava embasada e que não o contestaria. Era impressionante como Lia conseguia se mostrar mais “madura” e compenetrada do que Mathias podia esperar, em certas dadas ocasiões.
Os dois continuaram em silêncio por algum tempo, cada um teclando com o devido cuidado, mas com certa velocidade, celeridade e quase uma urgência, em seus respectivos computadores.
O que Mathias falara sobre as demandas era mais do que verdade; era uma constatação óbvia. Em Natal, naquela semana ocorreria a primeira partida das finais do Campeonato Potiguar, entre ABC e América, na Arena das Dunas, a arena futebolística do estado e que servira como um dos palcos para a Copa do Mundo em 2014. Também havia ocorrido a demissão de Filipe Luís do cargo de técnico do Flamengo; a subsequente conquista do Campeonato Carioca pelo Flamengo; e a convocação da seleção brasileira para dois jogos amistosos, contra as seleções de França e Croácia, na última janela internacional para realização de partidas entre seleções antes do início da Copa do Mundo FIFA de 2026; realizada pelo treinador italiano Carlo Ancelotti, a convocação chamou a atenção pela exclusão continuada de Neymar, craque da seleção de anos anteriores e que era o maior artilheiro da seleção em partidas oficiais, e que devido a lesões e problemas extracampo, não jogava pela seleção há quase dois anos e meio. Sem dúvida havia muitas demandas com as quais eles deveriam lidar.
Pouco tempo depois, Lia quebrou o silêncio novamente:
- Eu sou metida??? – exclamou, parecendo indignada.
Para si mesmo, Mathias riu de leve. Mas, quando se virou para ela, assumiu o tom mais sério que podia.
- Talvez. Não sei – e finalizou dando de ombros, retornando a fixar o olhar em sua tela. Sentiu que ela estava ainda indignada e contrariada atrás dele, mas ela não o chamou novamente.
Lia fitava o “chefe”, que acabara de lhe dar as costas logo após chama-la de “metida”. Fez uma careta e um beicinho, contrariada, mas logo depois voltou-se para seu PC. Enquanto continuava imersa em sua pesquisa, ela pensava que por vezes não conseguia compreender o enigma intransponível que Mathias, por vezes, parecia ser.
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A maior surpresa do dia estava reservada para o mais tardar daquele fim de tarde; e dessa vez, foi Mathias quem se tornou o estupefato surpreendido da ocasião.
Pedira a Lia que fizesse um esboço de como ficaria uma coluna ou um artigo, preparados por ela, sobre a pauta que estavam avalizando – “conquistas marcantes de times brasileiros”.
Para sua surpresa, a garota comunicou que já havia feito um texto assim, em sua graduação.
- Posso te mostrar?
- É claro – disse Mathias, mas sua voz saiu quase como um sussurro. Não esperava mesmo que a garota o fosse surpreender dessa forma, tão rapidamente, em relação àquela tarefa.
Lia foi até seu computador e digitou algumas coisas. Mencionou que encaminharia um documento ao e-mail institucional de Mathias na empresa.
Pediu licença para ir ao banheiro logo após, e deixou Mathias sozinho, enquanto este fitava a tela de seu próprio computador. Ao aguardar a mensagem se abrir e notando que Lia já desaparecera em direção ao banheiro, o jornalista esportista e renomado notou que havia pouquíssimas pessoas ainda restando na redação; já começava a cair a noite, muitos já tinham estourado seus prazos ou entregue suas respetivas pautas, ou haviam deixado seus afazeres para o dia seguinte, de tão cansados que estariam naquele momento.
Passado esse momento de constatação, Mathias abriu o texto de Lia e passou a ler. Chamava-se “A campanha do Fluminense na Libertadores de 2023”. Por qual motivo em particular ela escolhera aquele tópico em específico, ele não sabia, mas se recordava de que 2023 havia sido o ano da campanha que levou o Fluminense ao título da Libertadores, a honraria mais alta que qualquer time sul-americano poderia alcançar.
Anotou em sua agendinha para perguntar a Lia sobre o porquê dessa escolha quando ela retornasse. Ele foi lendo o texto. À medida que descia os olhos pelo texto, ele ficava apenas mais impressionado com a eloquência e habilidade narrativa, e de escrita, da garota.
Tentava em vão, achar algum erro no texto para que pudesse voltar a criticar Lia. Mas parte dele não parecia querer critica-la...
- Não tem nada de errado... nada – pensou consigo mesmo. Lia realmente era uma caixinha de surpresas mais ampla e diversa do que ele pudera imaginar.
Lembrou-se dos contornos da calça dela, bastante perceptíveis. Novamente. Mas agora, não era exatamente uma sensação sexual que tomava conta dele, ao passo que a imagem de Lia invadia novamente seu imaginário.
Quem me dera...
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