“Diário da primeiro oficial, data estelar 118082.72. Após um primeiro contato conturbado com as espécies eioiotai e wrtomlke, estamos transportando o senador Ueocoiei para participar de uma reunião, marcada há mais de dois anos, que tem como objetivo a negociação de uma trégua que representaria um passo vital para estabelecer diálogos que levariam ao fim definitivo da guerra. Segundo o senador Ueocoiei, agora na condição de embaixador, o povo wrtomlke é muito sistemático e burocrático para tomar decisões, algo que vem prolongando o conflito entre eles, e um atraso na realização da reunião custaria anos de diplomacia e centenas de milhares de vidas. Felizmente, com nossa velocidade, seremos capazes de chegar ao sistema wrtomlke em menos de 12h, vários dias antes da data marcada, o que dará ao embaixador Ueocoiei tempo para se preparar. Enquanto isso, o capitão ordenou que nossas equipes de pesquisa, dentro do possível, aprendessem sobre essas espécies e suas culturas, algo que eu mesma também farei”.

— Este é o nosso holodeck. – Explicou Shion ao embaixador Ueocoiei, durante o passeio pela nave, oferecido como cortesia. – Com projeções fotônicas e campos de energia, podemos criar praticamente qualquer ambiente com grau de realismo inigualável. Ainda, com as ferramentas de programação intuitiva e com o vasto banco de dados, é possível criar simulações com personalidade e funções específicas dentro de um contexto narrativo.

— Impressionante, nunca vi nada igual. – Admirou-se o embaixador. – Nossa tecnologia holográfica se resume a projeções em ambientes escuros, e mal temos resolução suficiente nos campos de força para criar barreiras retangulares.

— Permita-me fazer uma demonstração. – Disse Shion. – Computador, abrir programa Panorama KS11.

No mesmo instante, o ambiente que era apenas um grande local vazio, com alguns anteparos cromados e projetores, transformou-se em um vilarejo do interior da Polônia do começo do século XIX. O embaixador boquiabriu-se ao ver as casas de madeira e pedra, a tenda onde o ferreiro batia ferozmente em uma bigorna e duas crianças brigando por um brinquedo bem na sua frente.

— Venha comigo, embaixador. – Convidou Shion, gentilmente conduzindo-o a uma estalagem que ficava à direita deles, toda feita de madeira e com um telhado alto.

— Bem-vindos, viajantes. – Disse a mulher loira que limpava uma das mesas. – Hoje meu irmão conseguiu um śledź fresco de boa qualidade. Se estiverem com fome, por favor escolham uma mesa e eu logo os atenderei.

— Computador, reduzir a simpatia da garçonete e alterar a cor do cabelo para preto. – Disse Shion. – Alterar horário para 21h e adicionar mais pessoas, músicos e fumaça de cachimbo.

A cena mudou conforme as especificações dadas pela andoriana, deixando o senador Ueocoiei ainda mais admirado. A garçonete perdeu o sorriso e o cabelo loiro, o ambiente, agora com bastante fumaça de cachimbo, passou a ser iluminado por velas presas às vigas de madeira, e mais oito pessoas surgiram entre as mesas, além de dois homens tocando acordeão e violino.

— O que vão querer? – Disse a moça, agora mal-humorada.

— Nós viajamos o dia todo e estamos famintos. – Disse Shion.

— Acho que ainda tem alguns śledź na salmoura, mas já adianto que vai demorar, estou muito ocupada e meu irmão está doente. – Disse ela.

— Ela não percebe que somos de outra espécie? – Perguntou o embaixador.

— Personagens padrão são programados para não reconhecerem coisas ou diálogos incompatíveis com sua própria narrativa. – Explicou Shion. – Computador, fechar programa.

Da mesma forma que surgiram, a estalagem e o vilarejo desapareceram, deixando os dois novamente com a visão dos anteparos cromados.

— O holodeck é um componente muito importante das naves estelares. – Continuou a primeiro oficial. – Não apenas como forma de recreação, mas como local para testes e treinamentos, visto que é possível simular voos, batalhas, experimentos de engenharia etc.

— Imagino que, assim como seus armamentos e sistemas de propulsão, essa tecnologia não será compartilhada com meu povo. – Disse Ueocoiei.

— Correto. – Assentiu Shion, enquanto deixavam o holodeck. – Como eu lhe disse anteriormente, partilhar tecnologia demasiadamente superior à qual uma espécie possua é uma violação de nossas diretrizes mais fundamentais. Por exemplo, é evidente que isso traria consequências substanciais para o conflito em que vocês estão envolvidos, e talvez seu povo ainda não esteja pronto para utilizar com sabedoria essas tecnologias.

— Infelizmente tenho que concordar. – Disse Ueocoiei. – Há muitos entre meus compatriotas que não hesitariam em exterminar os wrtomlke, caso possuíssem os meios para tal.

— Assim como, suponho, haveriam muitos wrtomlke igualmente dispostos a exterminá-los, se pudessem. – Disse Shion.

— Sem dúvidas, eles são uma espécie territorialista e xenofóbica. – Concordou o embaixador. – É extremamente difícil dialogar com eles, e o mínimo deslize de nossa parte acarreta hostilidades desproporcionais. Nossos mundos estão em conflito desde a primeira vez que pusemos os olhos uns nos outros, mas a situação piorou muito no último século, conforme nossas viagens passaram a durar dias ao invés de meses e anos. O que antes não passava de escaramuças ocasionais, tornou-se uma guerra aberta e sanguinolenta.

— Eu sinto muito. – Disse Shion. – Infelizmente a guerra parece ser uma constante do universo.

— Infelizmente. – Concordou Ueocoiei, com sua voz grave e rouca. – Mas estou determinado a contribuir para o fim desta guerra, já que me foi dada a oportunidade de fazê-lo.

— Não cabe a mim julgar os wrtomlke com o pouco conhecimento que temos deles, mas se todos forem como o capitão Drtoplnov e os dois representantes que ele designou para nos acompanhar, sua tarefa não será fácil. – Disse Shion. – Eles se recusaram a conhecer nossa nave e permanecem fechados em seus aposentos, sem nem mesmo aceitar o jantar oferecido pela nossa cheff.

— Existe um ditado entre meu povo, comandante. – Disse o embaixador. – “Não existe rochedo que não perca a aspereza diante de um vento paciente”.

Shion sorriu e, sendo muito atenciosa e paciente com os questionamentos do ilustre convidado, conduziu-o pelos principais pontos da nave.

Assim que a USS Iguaçu entrou no sistema wrtomlke, composto por oito planetas (sendo um deles classe M e todos os demais gigantes gasosos) em torno de uma estrela anã amarela, captaram a frota mencionada por Drtoplnov, constituída de dezessete naves, que os escoltaria até o planeta natal wrtomlke.

— Estão nos saudando. – Informou Giulia.

– Na tela. – Disse o capitão Vernon.

A imagem de um alienígena, parcialmente oculto nas sombras, apareceu na tela principal. Ele utilizava uma vestimenta roxa semelhante à de Drtoplnov, mas a cor de sua pele era consideravelmente menos pálida, possuindo um tom quase alaranjado.

— Sou o marechal Trntomdt, da nave baluarte Drfblirtdt, do Reino Caliginoso de Wrtomlke – Disse ele, movendo a boca diminuta. – Nós os escoltaremos e ao embaixador eioiotai, conforme estabelecido, mas devem manter suas armas desativadas e os escudos abaixados durante toda a viagem. Da mesma forma, a utilização da tecnologia conhecida como “transporte” está terminantemente proibida, e estamos autorizados a abrir fogo imediatamente caso um de nossos tripulantes seja desmaterializado.

— Estou ciente das condições. – Respondeu o capitão Vernon, levantando as sobrancelhas. – Seus representantes as transmitiram assim que vieram a bordo.

— Espero que as siga à risca. – Chiou o marechal Trntomdt. – Ou então verá que nem mesmo com seu avançado conjunto de armas é capaz de derrotar uma frota wrtomlke.

— Asseguro que não temos intenção de promover nenhum conflito com sua espécie ou qualquer outra. – Disse o capitão Vernon, firmemente. – Mas, da mesma forma, é bom que esteja ciente de que não reagimos bem a ameaças. – O alienígena empertigou-se em sua cadeira e encerrou a transmissão, sem nem ao menos responder.

— Estou recebendo as diretrizes para a aproximação em arquivo, senhor. – Informou Giulia. – Devemos manter dobra 4 e seguir rumo 121 marco 318.

— Você ouviu a subtenente Naggi, dobra 4. – Disse o capitão para Kwa. – Acionar.

A nave seguiu a frota wrtomlke até seu planeta natal, o terceiro em órbita da estrela. Seu tamanho era sete vezes maior do que a Terra e sua atmosfera era muito densa, indicando que a luz solar era débil abaixo da espessa camada de nuvens. Além disso, a rotação do planeta era muito lenta, com um dia durando mais de setenta horas.

— É um planeta bastante incomum, quase não se enquadra na classe M. – Comentou Chelaar, analisando os dados que chegavam das sondagens preliminares. – Quase não há luz solar, a atmosfera é carregada e a vida vegetal é minguante. Além disso, as temperaturas variam de -33 graus durante a noite a 12 graus durante o dia.

— Não me admira que sejam pessoas difíceis de lidar. – Comentou Nhefé. – É comum que as intempéries de um planeta influenciem na personalidade da espécie que se desenvolve nele.

— A nave líder está chamando, senhor. – Informou Giulia.

— Na tela. – Disse o capitão, e a imagem do alienígena oculto nas sombras apareceu.

— Interrompam suas sondagens imediatamente! – Bradou o marechal Trntomdt, com sua voz aguda. – Não toleraremos espionagens!

— Não estávamos espionando, marechal. É nosso procedimento padrão quando estamos diante de um mundo novo. – Disse o capitão Vernon, fazendo um sinal aos tripulantes para que as sondagens fossem interrompidas. – Mas, como forma de demonstrar nossa boa vontade, vamos desativar temporariamente nossos sensores.

— Sua presença aqui é permitida pela magnanimidade de nosso Rei. – Disse Trntomdt. – Mas temos centenas de naves e uma grade de defesa orbital a postos para nos defender de qualquer inimigo, inclusive da sua nave.

— Repito, marechal, não somos seus inimigos e tampouco temos intenção de sê-lo. – Respondeu o capitão Vernon, mantendo a paciência.

— Não tenho tanta certeza disso, se quer saber. – Insistiu Trntomdt. – Mas minhas ordens são para lhe informar que uma nave de traslado aguarda autorização para entrar em seu hangar e transportar o embaixador eioiotai.

— A nossa nave auxiliar Mozeta foi preparada para a missão, senhor. – Informou Da’Far ao capitão.

— Tínhamos planos diferentes, marechal. – Disse o capitão.

— Esses planos mudaram. – Disse o marechal, ríspido. – Para nossa segurança plena, decidimos que o transporte deverá ser feito em uma de nossas naves ao invés da sua. No entanto, é desejo do Rei que você esteja presente. –Ele parecia contrariado com essa decisão. – Sua majestade espera conhecê-lo pessoalmente e com isso estabelecer relações com seu povo.

— Vamos pensar no assunto. – Disse o capitão, fazendo sinal para que Giulia interrompesse a transmissão.

— É desaconselhável que o senhor desça sozinho ao planeta, capitão. – Disse Nhefé. – Esta espécie é visivelmente xenofóbica e territorialista, duvido que estejam interessados em estabelecer relação amigável com quem quer que seja.

— Concordo com o conselheiro Nhefé – Disse Shion. – E francamente, a missão do embaixador Ueocoiei me parece desanimadora. Os wrtomlke parecem ser exatamente o que ele descreveu, se não pior.

— A nave do marechal Trntomdt continua chamando, capitão. – Informou Giulia.

— Essas espécies ainda estão dando seus primeiros passos na exploração espacial. – Disse o capitão Vernon, levantando-se. – Há quatro séculos, muitos acreditavam ser impossível conciliar andorianos e vulcanos. Mas aqui estamos nós, provando que a paz e o entendimento podem ser cultivados mesmo nos solos mais áridos, desde que haja dedicação e comprometimento. – Ele ergueu a mão para Giulia, pedindo para que segurasse a transmissão por um momento. – Concordo que existe a possibilidade de que os wrtomlke desperdicem esta oportunidade de dar um fim à guerra, mas ao mesmo tempo penso que o embaixador que estamos transportando pode ser a figura que transformará a história destas duas civilizações, assim como Jonathan Archer fez em sua época. Sendo assim, cabe a mim a decisão de me ausentar dos acontecimentos ou contribuir para que eles ocorram da melhor maneira possível, ajudando com nossa experiência e imparcialidade.

— O maior ensinamento é o exemplo. – Disse Shion, mexendo as antenas. – Devo concordar que ter contato com os valores da Federação poderia ser de grande valor para essa gente, mas ao mesmo tempo temo pela sua segurança.

— Minha segurança reside em saber que me dando cobertura está a melhor tripulação de toda a Frota Estelar – Sorriu o capitão. – Além do mais, é para esse tipo de situação que eu me alistei. Subtenente Naggi, abra o canal.

— Aberto, senhor. – Disse Giulia, transmitindo a imagem de Trntomdt na tela principal, visivelmente irritado.

— Ponderei sua solicitação e decidi aceita-la. – Disse o capitão, tranquilamente. – O hangar será aberto dentro de quinze minutos e o embaixador Ueocoiei, nossos demais convidados e eu, estaremos prontos para embarcar. Levarei comigo um de meus homens, pois é parte do nosso regulamento que o capitão jamais deixe a nave desacompanhado.

— Inadmissível! – Chiou o marechal Trntomdt. – A autorização se estende apenas...

— Não foi um pedido, marechal. – Interrompeu o capitão, sentando-se novamente. – Aguardaremos sua nave de traslado conforme combinado. Vernon desliga.

Após passar algumas recomendações para os oficiais superiores, o capitão desceu para o hangar, onde encontrou os quatro eioiotai e os dois wrtomlke esperando ao lado da nave de traslado. Ela era feita com algum tipo de metal profundamente negro e primorosamente polido, tendo um formato trapezoidal e cerca de seis vezes o tamanho das naves auxiliares da USS Iguaçu.

— Boa sorte, capitão. – Disse Da’Far, que o havia acompanhado até o hangar, juntamente com três outros seguranças.

Vernon assentiu e, acompanhado pelo subtenente Jebone Jaja, entrou na nave de traslado. Embora o oficial de operações daquele turno fosse o subtenente De León, o capitão optou pelo gauriano para a missão pois, além de sua experiência de anos servindo com Da’Far na USS Araucária, sua espécie era bem adaptada para ambientes com luminosidade baixa, pelo motivo de viverem em túneis nas montanhas e no subsolo de seu planeta natal.

Como esperado, a iluminação interna era muito fraca e tudo o que se podia ver era o vulto de um wrtomlke segurando uma espécie de rifle de energia. A nave era dividida entre a cabine de comando, na parte traseira, e a área de passageiros, onde havia dezesseis assentos de cada lado, todos equipados com cintos de segurança cruzados. Cada um dos passageiros tomou um lugar de sua escolha, com exceção dos dois wrtomlke, que foram conduzidos pelo tripulante armado até os assentos mais próximos da proa, onde ele também se sentou.

A descida ao planeta foi tranquila, embora marcada por alguns solavancos e vibrações, já que a nave não possuía estabilizadores e amortecedores muito sofisticados. Jaja percebeu que, exceto pelo embaixador Ueocoiei, os eioiotai estavam muito nervosos, cerrando os punhos a cada sacolejo. Além disso, não haviam quaisquer janelas ou telas, o que impedia a visão da atmosfera e da superfície, algo que talvez nem fosse possível, visto que eles se dirigiam ao hemisfério onde a noite estava em seu auge. Ninguém disse absolutamente nada durante o percurso e, ao seu término, um último solavanco foi sentido pelos tripulantes, indicando que a nave havia pousado. Depois disso, ainda tiveram que esperar por exatos vinte e cinco minutos até que permitissem a saída de todos, de forma a respeitar os rígidos protocolos de segurança wrtomlke.

Um vento congelante entrou pela porta principal assim que ela foi aberta e, quando o capitão Vernon a cruzou, percebeu que estava em um hangar posicionado entre duas gigantescas construções cúbicas, cada uma com mais de cem metros de altura. Toda a iluminação externa era constituída de lâmpadas amareladas, que mal permitiam ver as linhas pintadas na calçada pela qual seguiam em direção à um dos cubos negros.

— Somos os primeiros eioiotai a pisar neste planeta em cinquenta anos, capitão. – Informou o embaixador Ueocoiei, tremendo de frio. – Mas vejo que meus compatriotas foram muito fiéis em seus relatos feitos à época.

— Desconheço os relatos feitos pelos últimos de seu povo que estiveram aqui, embaixador, mas a primeira coisa que colocarei em meu próprio relatório é que ar daqui é muito pesado. – Comentou Vernon. – Parece que eu estou respirando debaixo d’água.

— Há centenas de pessoas ao nosso redor, em uma espécie de praça. – Sussurrou Jaja, observando discretamente a escuridão que os cercava. – Todos usam o mesmo estilo de roupa, que deixa apenas o rosto visível, e alguns estão armados com rifles.

— Nós estamos no coração do Reino Caliginoso de Wrtomlke. – Explicou Ueocoiei, rouco. – Esta deve ser a Praça da Simetria, localizada entre o palácio real e o parlamento.

— E para qual dos dois estamos indo? – Perguntou um dos eioiotai, tiritando. – Não consigo distinguir qual é qual.

— Vocês estão diante do Portão Régio. – Disse um dos wrtomlke que os acompanhava, levantando a voz. – Sintam-se honrados, pois logo verão sua majestade, o Rei Mtu Krmiplndt, em pessoa.

Na ponte da USS Iguaçu, os tripulantes aguardavam a confirmação da chegada da comitiva à superfície do planeta natal wrtomlke.

— Sou o único aqui que acha esta situação tensa? – Perguntou o tenente Rose, virando-se para Shion e Nhefé. – Dezenas de naves de guerra ao nosso redor e nossos escudos estão abaixados, isso sem contar as armas e os sensores desativados.

— Com certeza não. – Disse Chelaar, sacudindo a cabeça.

— Calculo em torno de 75% de chance de nos envolvermos em um confronto com os wrtomlke. – Disse Nhefé.

— É uma projeção pouco otimista, mas devemos estar preparados para ela. – Disse Shion. – A Iguaçu é mais rápida do que qualquer uma dessas naves, então nossa vantagem está em reagir imediatamente, portanto, fiquem alertas.

— Sim, senhor. – Disse Rose.

— A nave de traslado pousou no planeta, comandante. – Informou Da’Far.

— Contate-os. – Disse Shion para Giulia.

— O sinal está péssimo. – Disse a oficial de comunicações. – Além da atmosfera carregada, o local onde pousaram fica num vale cercado por inibidores iônicos.

— Iguaçu para capitão Vernon. – Chamou Shion.

Ouviu-se apenas chiado e estática

— Estou tentando normalizar. – Disse Giulia.

Acabamos de entrar no saguão do palácio real, imediato.— Ouviu-se a voz do capitão, em meio a um forte ruído. –Seremos recebidos pelo monarca dentro de alguns minutos. Seus assessores demonstraram ser mais receptivos do que o marechal Trntomdt e seus amigos aí em órbita.

— Aguardaremos instruções, senhor. – Disse Shion. – Mais uma coisa, a engenharia pediu para informa-lo que encontrou o problema no sintetizador de seus aposentos e está trabalhando para repará-lo.

Entendido.— Disse o capitão. – Vernon desliga.

Com essa frase, a primeiro oficial informava ao capitão, de maneira codificada, que haviam tentado manter uma trava de transporte no sinal de seu comunicador, mas que alguma coisa impedia o funcionamento adequado dos equipamentos, bem como que estavam trabalhando para contornar o problema. Assim, caso houvesse algum revés ou situação de risco, o capitão estaria ciente de que teria que agir sem a salvaguarda de um transporte de emergência.

— Comandante, a nave líder está chamando. – Informou Giulia.

— Na tela. – Disse Shion, e imediatamente o rosto do marechal Trntomdt apareceu, parcialmente oculto pelas sombras.

— Doravante, todas as comunicações com o planeta precisarão de minha autorização direta. – Disse ele, ríspido, e encerrou a transmissão.

Shion mexeu as antenas e olhou para o conselheiro, que deu os ombros.

O imenso saguão principal tinha o formato de um cubo perfeito, na proporção exata de 1:23 do palácio, e era bastante iluminado para os padrões wrtomlke, com diversas luzes circulares dispostas em ziguezague pelas paredes. Apesar disso, para Vernon, o ambiente ainda era incômodo, pois o negro profundo das paredes, teto e chão, refletia as fracas luzes e causava impressão semelhante à de se estar em uma sala de espelhos, com a diferença que seu reflexo era apenas um vulto na penumbra. O incômodo nos eioiotai também era visível, e eles andavam praticamente colados uns nos outros, olhando para os lados, ora com os olhos semicerrados, buscando alguma coisa nas paredes escuras, ora com os olhos arregalados, temerosos.

Dois assessores wrtomlke orientavam a comitiva de visitantes, ambos usando o mesmo tipo de vestes típicas, porém de cor azul-marinho. Embora fossem corteses e polidos, inspiravam pouca simpatia, em parte devido ao fato de também estarem acompanhados por vários guardas fortemente armados.

— Pedimos desculpas pelo inconveniente, mas o Rei não recebe ninguém antes de uma série de varreduras de segurança. – Disse um deles, balançando uma antena curvada diante da comitiva. – Os sensores de nossas naves de traslado infelizmente não são capazes de detectar biobombas e venenos dissipados pela respiração.

— Eles dariam bons oficiais de segurança. – Comentou o subtenente Jebone Jaja, em voz baixa. – Da’Far adoraria instituir esse tipo de procedimento a bordo.

Vernon sorriu, mas não respondeu em voz alta, pois naquele instante iniciou-se a execução de uma série de sons sintéticos agudos, que faziam contraponto com uma série de tambores e ruídos graves. Os wrtomlke ergueram as mãos na direção de uma das paredes, onde uma grande porta retangular foi aberta, revelando um vulto vermelho-alaranjado.

Era um indivíduo da mesma espécie deles, mas ao invés de vestir o traje típico que cobria o corpo todo, trajava apenas uma espécie de calção curto e uma regata, ambos cor de sangue e muito justos. Estava descalço e seu corpo era surpreendentemente definido, como se cada músculo tivesse sido esculpido por um artista. Seu rosto era semelhante ao dos demais de sua espécie, com boca diminuta e grandes olhos, mas o que mais chamava atenção eram seus reluzentes cabelos loiros, volumosos e cacheados, na altura do ombro.

— Majestade. – Disseram em uníssono os wrtomlke presentes na sala.

— Mtu Krmiplndt. – Exclamou o rei, com uma voz aguda. – Este é o meu nome.

— Sou o embaixador Ueocoiei. – Apresentou-se o eioiotai, dando um passo à frente e levantando os braços. – Aqui estou para representar o povo da República Estelar Eioiotai.

— Sou o capitão Víbio Vernon, da nave estelar da Federação Iguaçu. – Disse ele, também dando um passo à frente.

— Sim, sim. – Disse o rei, aproximando-se deles. – Hoje é um dia histórico para o grande Reino Caliginoso de Wrtomlke. Pela primeira vez em décadas recebemos um eioiotai, que arriscou sua vida para participar de uma reunião, visando promover a paz, que meu antecessor tão sabiamente agendou. E mais do que isso, recebemos um povo que afirma ter vindo da Grande Galáxia, cujo avanço tecnológico nos faz parecer bárbaros da era das ravinas. – Ele chegou muito próximo do rosto do capitão, que pode sentir seu hálito perfumado. – Diga-me, capitão, qual seria o interesse de seu povo em seres tão primitivos quanto nós? Nosso primeiro-ministro acredita que vocês fazem parte de uma missão de reconhecimento, e que, em breve, milhares de naves iguais às suas virão para conquistar cada planeta que encontrarem pelo caminho.

— Nossa missão é pacífica, eu lhe asseguro. – Disse o capitão Vernon. – Fazemos parte de uma federação que promove a amizade entre diferentes culturas e povos, com o propósito comum da exploração científica e da interação pacífica com novas formas de vida e novas civilizações.

— Me parece muito nobre para quem carrega armamentos tão potentes. – Disse o rei, virando-se. – O marechal Trntomdt disse que vocês possuem um dispositivo capaz de desmaterializar seu inimigo mesmo que ele esteja dentro de uma nave.

— Seu marechal certamente está equivocado. – Respondeu o capitão Vernon. – O dispositivo ao qual ele se refere não se trata de uma arma, mas sim de um meio de transporte. Nós somos capazes converter a matéria de algo ou alguém em energia, e com isso transporta-la quase que instantaneamente, rematerializando-a incólume no local de destino.

— Então onde estão os embaixadores eioiotai que originalmente viriam para o grande Reino? – Perguntou o rei, parando em frente ao embaixador Ueocoiei.

— Houve um acidente durante a tentativa de resgate. – Disse o embaixador, com sua voz rouca e firme. – Duvidei no início, mas eles provaram estar dizendo a verdade.

— Francamente, não me interessa qual é a verdade. – Disse o rei, debochado. – Tudo o que me importa é que tenho um tesouro tecnológico orbitando meu planeta, séculos a frente de nosso tempo, repleto de armas que nos fariam vencer esta guerra e qualquer outra em questão de dias.

— A nossa política de compartilhamento de tecnologia é muito rigorosa, majestade. – Falou firmemente o capitão Vernon. – Contudo, possuímos uma vasta experiência com a diplomacia e, caso desejem, podemos ajudar a encerrar esta guerra de outra maneira.

— Não sou fraco como meu antecessor, capitão, e não é meu desejo encerrar esta guerra com um acordo de paz. – Riu o rei. – Eu mesmo ordenei o envio de naves para destruir a comitiva eioiotai, antes que seu povo sujo pusesse os pés no solo poderoso do grande Reino Caliginoso de Wrtomlke.

— Como pôde? – Bradou o embaixador eioiotai, estarrecido com a confissão do rei. – Você tem ideia de quantas vidas condenou com isto? Esta guerra é tão danosa para seu povo quanto é para o meu!

— Não será mais, agora que tenho a oportunidade de explorar o poderio da nave de Vernon. – Disse o rei, acenando para que os guardas algemassem os membros da comitiva.

— Você não a tem, e nunca a terá – Disse o capitão, tocando em seu comunicador. – Vernon para Iguaçu.

— Poupe seus esforços, nosso campo de interferência foi ampliado para bloquear seus sinais de comunicação. – Disse o rei. – Agora você é prisioneiro do grande Reino Caliginoso de Wrtomlke, e sua vida está em minhas mãos.

Em órbita, a USS Iguaçu estava cercada por dezenas de naves wrtomlke, desde alguns caças pequenos, com armamentos fracos, até grandes cruzadores de batalha e bombardeiros carregando ogivas nucleares. A comandante Shion sabia que, embora possuísse armamentos obsoletos, aquela frota era numerosa o suficiente para infligir danos consideráveis, caso eles fossem obrigados a permanecer ali durante um combate.

— O marechal Trntomdt está chamando novamente. – Informou Giulia.

— E lá vamos nós. – Suspirou Shion. – Na tela.

Empertigado em sua cadeira de comando parcialmente oculta pelas sombras, o marechal parecia muito satisfeito.

— Acabo de receber uma transmissão do palácio real. – Disse ele, apertando sua pequena boca circular em um estranho sorriso. – Tenho a satisfação de informar que sua majestade, o Rei Mtu Krmiplndt, declarou que sua nave é patrimônio do grande Reino Caliginoso de Wrtomlke. Fui ordenado a confiscá-la e estou enviando grupos de abordagem para...

— Alerta vermelho. – Disse Shion, e Giulia fechou o canal.

Como sempre acontecia quando essa ordem era dada pelo oficial em comando, o alerta sonoro passou a soar e as luzes dos anteparos horizontais passaram a piscar, ambos em intervalos de três segundos, ao mesmo tempo que a intensidade da luz ambiente diminuiu em aproximadamente um quinto.

— Escudos levantados. – Disse Da’Far.

— Armas prontas. – Disse Rose.

— Algum sinal do capitão e do subtenente Jaja? – Perguntou Shion.

— Nossos sensores conseguem captar os biosinais deles, mas a interferência continua impedindo transportes e comunicações. – Respondeu Chelaar.

— A nave líder está chamando, senhor. – Informou Giulia.

— Ignore. – Disse Shion. – Vamos enrolá-los um pouco.

— Estão carregando as armas. – Informou Rose.

— Comandante. – Disse o conselheiro Nhefé. – Concordo com sua interpretação de que eles não desejam destruir a Iguaçu, afinal de contas, ficou claro que decidiram se apossar da nossa tecnologia. No entanto, creio que a integridade física do capitão esteja seriamente ameaçada.

— Estou ciente disso, conselheiro. – Disse Shion. – Apenas quero dar a eles uma amostra da nossa capacidade defensiva enquanto desenvolvemos a melhor estratégia para sair dessa situação. Com isso, espero deixá-los ainda mais interessados em tomar a Iguaçu sem lhe causar grandes avarias, e assim nossos esforços se concentrarão unicamente em negociar a liberdade do capitão.

— Dez naves iniciaram uma sequência de disparos contra nós, utilizando apenas canhões de prótons. – Informou Da’Far. – Escudos aguentando.

— Ótimo. – Disse Shion, cruzando as pernas. – Tenente Rose, seria possível derrota-los apenas com disparos em conjuntos de armas e sistemas de propulsão?

— Depende da intensidade do combate. – Informou o oficial tático. – Se eles vierem com tudo, seria impossível romper o cerco sem destruir algumas naves.

— Alferes Kwa, encontre o melhor curso para fora desse enxame de naves e aguarde minha ordem. – Disse Shion, mexendo as antenas. – Não pretendo ganhar uma batalha destruindo naves visivelmente inferiores, então nossa alternativa será a velocidade.

— Comandante, estão nos chamando. – Informou Giulia. – Desta vez é do planeta, parece que o rei em pessoa deseja falar com a senhora.

— Neste caso, vamos ouvir o que ele tem a dizer. – Disse Shion. – Na tela.

A imagem do rei, com sua roupa vermelha e seus longos cabelos loiros, apareceu na tela principal, surpreendendo a todos que esperavam outra figura coberta por um manto escuro.

— Mtu Krmiplndt. – Disse ele, levantando o queixo. – Este é o meu nome.

Shion mexeu as antenas e se pôs de pé.

— Sou Kan Shion, primeiro oficial da nave estelar da Federação Iguaçu. – Disse a andoriana. – Como deve ter percebido, apesar do ataque injustificado que sofremos, nossa postura se mantém pacífica. No entanto, adianto que nossa paciência não é ilimitada e, se quer manter nossas armas desativadas, deve me deixar falar com o capitão Vernon imediatamente.

— Seu capitão está muito bem, mas não permitirei que o contate. – Respondeu o rei. – Entenda, comandante, eu ponderei cuidadosamente as alternativas antes de ordenar a captura de sua nave e, em qualquer situação, eu terei resultados satisfatórios. – Ele comprimiu sua boca em um sorriso estranho. – Caso vocês optem por ficar e batalhar, ordenarei que incapacitem sua nave sem destruí-la, mesmo que isso custe metade da minha frota. Caso vocês optem por fugir, permanecerei com seu capitão e o outro oficial sob custódia, os quais terei prazer em torturar e interrogar até que compartilhem comigo alguns de seus segredos.

— Isso será inútil, eles jamais cederão. – Disse Shion, resoluta. – Oficiais da Frota Estelar estão prontos para dar as vidas antes de entregar segredos militares a espécies hostis.

— Mesmo neste caso, não terei perdido nada. – Disse o rei, debochado. – Meu povo continuará vivendo como vivia antes de vocês aparecerem, e encontraremos um meio de vencer a guerra contra os eioiotai sem a sua tecnologia. – Ele inclinou a cabeça para frente. – Mas eu sou um homem muito equilibrado, comandante, e não desejo nenhuma consequência extrema. Proponho um acordo.

— Que tipo de acordo? – Perguntou Shion.

— Vocês devem transmitir especificações de seus escudos, armas, sistemas de propulsão e daquilo que chamam de transporte. – Disse o rei. – Após nossos cientistas atestarem que não se trata de uma fraude, libertarei o capitão e o outro tripulante, e vocês estarão livres para seguir seu caminho.

— O capitão Vernon deve ter deixado claro que nossas diretrizes mais fundamentais nos impedem de partilhar tecnologia que desequilibre o desenvolvimento natural de uma civilização, ainda mais uma que esteja envolvida em conflitos militares. – Disse Shion. – No caso de aceitarmos seu acordo, seria impossível prever as consequências. Poderíamos ser indiretamente responsáveis pelo massacre de milhões de cidadãos eioiotai.

— Quem pode prever por quantos séculos esta guerra perdurará? – Argumentou o rei. – Quantos milhões de vidas poderiam ser salvas se ela tivesse fim agora, com auxílio de sua tecnologia?

— Ela pode ter fim agora, sem que nenhuma gota de sangue seja derramada. – Disse Shion. – Basta que seu povo aceite o diálogo com os eioiotai. Pelo que pude perceber, é do maior interesse deles que haja uma trégua e um acordo de paz.

— É claro, desde que nós abramos mão de nossos territórios de direito no sistema Xrnpalkt. – Disse o rei, irritado. – Não acredite em tudo que os eioiotai dizem, forasteira, eles são mais traiçoeiros do que parecem.

— Precisamos de tempo para decidir. – Disse Shion, após um momento de silêncio. – Não tomarei nenhuma atitude sob pressão.

— Vocês têm meia hora. – Disse o rei e, cruzando os braços e pressionando os bíceps contra o peito, encerrou a transmissão.

— Pararam de atirar, senhor. – Informou Da’Far.

— Suponho que aceitar a proposta do rei não seja uma opção. – Disse Chelaar.

— É evidente, comandante. – Disse Nhefé. – O rei mente ao dizer que nos deixará partir se enviarmos as especificações técnicas que ele pediu. Creio que a intenção dele seja, na verdade, tentar obter o máximo de informações possíveis por meios pacíficos, para só então atacar a Iguaçu e obter o restante à força.

— Ele certamente cogita a hipótese de que, durante um confronto, nós venhamos a apagar nosso banco de dados ou a destruir a nave propositalmente. – Completou Shion. – Precisamos de um plano melhor.

— Precisamos de tempo, comandante. – Disse Rose. – Em meia hora será impossível elaborar um plano de resgate que não envolva um conflito aberto com eles.

— Concordo com o tenente Rose, nós estamos cercados e todas as nossas ações estão sendo monitoradas. – Disse Da’Far. – Se optarmos por enviar um grupo avançado, teremos que proteger a nave auxiliar enquanto ela estiver em órbita e, mesmo que eles consigam chegar ao destino sem serem destruídos por uma possível força de defesa planetária, seguramente seriam recebidos por um oponente muito mais numeroso. O mesmo aconteceria no caso de utilizarmos os transportes para posicionar tropas ao redor do palácio. Não haveria meio de enfrentar uma defesa numericamente superior e adaptada ao terreno que nos é desconhecido.

— Nesse tipo de operação, o fator surpresa é essencial. – Completou Rose. – Sem ele, nada nos garante que o capitão será mantido vivo.

Shion pensou por um momento, estreitando os olhos e mexendo as antenas.

— Subtenente Naggi, abra um canal para o palácio real. – Ordenou ela, levantando-se e dando alguns passos na direção da tela principal, parando ao lado da alferes Kwa. – Já tomei minha decisão.

— Canal aberto, senhor. – Disse Giulia.

O rosto do rei Mtu Krmiplndt apareceu na tela, enigmático.

— Sirvo com o capitão Vernon há apenas dois meses, mas já conhecia sua reputação desde muito antes. – Começou a andoriana, antes que o rei pudesse dizer qualquer coisa. – Não são poucos os que dizem que ele é o melhor capitão de sua geração, atribuindo-lhe a fama de ser um perfeito diplomata quando o diálogo é necessário, e um adversário feroz e sagaz quando o combate é inevitável. No entanto, a qualidade mais admirável nele é, sem dúvidas, o zelo pelos princípios fundamentais que alicerçam a Federação dos Planetas Unidos e, assim sendo, tenho certeza que ele dará sua vida sem hesitar para protege-los. – Ela juntou as mãos atrás do corpo, levantando a cabeça. – Suponho que vocês não pouparão ele e o subtenente Jaja de um interrogatório brutal, mas, caso exista alguma noção de dignidade em sua cultura, transmita a eles, em meu nome e da tripulação da USS Iguaçu, nossa profunda admiração e respeito. – A andoriana voltou à cadeira do capitão, onde se sentou e passou a encarar firmemente o surpreso rei Mtu Krmiplndt. – Diga ao capitão Vernon que seu sacrifício não será esquecido, e que eu honrarei seu posto enquanto eu viver.

— Espere um momento... – Começou o rei, com voz estridente. Sua expressão estupefata diante da declaração de Shion, era compartilhada por alguns tripulantes da ponte, especialmente Chelaar.

— Escudos ao máximo. – Disse Shion firmemente, sinalizando para que Giulia encerrasse a transmissão. – Alferes Kwa, tire-nos daqui.

— Sim, senhor. – Disse Kwa, alerta, acionando os propulsores e abrindo caminho em meio à frota alienígena.

— Tenente Rose, mire nos propulsores e conjuntos de armas deles, quero o maior número possível de naves desabilitadas. – Disse Shion.

— Sim, senhor. – Disse Rose e, auxiliado pelo alferes Eri-Ribb, iniciou uma sequência de disparos contra as naves mais próximas, enquanto a USS Iguaçu ziguezagueava sob intenso fogo inimigo.

— Alferes Kwa, assim que os deixarmos para trás, quero que marque um curso rumo 230 marco 52, dobra máxima. – Disse Shion.

— Você não pode estar falando sério! – Disse Chelaar, perplexa. – Vai mesmo deixar o capitão para morrer nesse planeta miserável?

— Contenha-se, comandante. – Disse Shion, sem olhar para Chelaar.

— Você não poderia ter tomado essa decisão sem antes tê-la discutido com os oficiais graduados. – Disse Chelaar, pondo-se de pé e inclinando-se sobre sua estação de trabalho.

— Não havia tempo para reuniões, comandante. – Disse Shion, enérgica. – E devo lembrá-la de que estou no comando desta nave, portanto modere seu tom de voz e guarde seus questionamentos para si mesma.

— É a oportunidade que você estava esperando, não é mesmo? – Bradou Chelaar, com raiva. – Você queria o comando desta missão desde o princípio, e agora tem a oportunidade perfeita para assumir! Mas não espere obter admiração e apoio incondicional, pois nem todos nesta nave vão aceitar seguir as ordens de uma usurpadora!

— Já basta! – Esbravejou Shion. – Contenha-se ou será confinada aos seus aposentos.

— Senhor, passamos pelo bloqueio de naves. – Informou Kwa, ignorando o clima de tensão na ponte e acionando os motores de dobra. – Seguimos o curso designado.

— Ótimo, alferes. Leve-nos por meio ano luz além deste sistema. Deve ser o suficiente para sair do alcance dos sensores deles. – Disse Shion. – Em seguida, ative a camuflagem e dê meia volta. Quero que nos coloque atrás do sol, de lá poderemos lançar a operação de resgate sem sermos detectados. – Ela se levantou, contornando sua cadeira em direção ao fundo da ponte. – Rose, Da’Far, quero discutir os detalhes do meu plano com vocês na sala de reuniões.

— Senhor... – Começou Chelaar, hesitante, virando-se para Shion.

— Teremos tempo para essa conversa quando o capitão estiver a bordo, comandante Chelaar. – Disse Shion, em tom de censura. – No momento, tudo o que eu preciso é saber se posso contar com você enquanto lidero o grupo de resgate.

— Sim, senhor. – Disse Chelaar firmemente, endireitando o corpo e levantando o queixo.

— Ótimo, a ponte é sua. – Disse a andoriana e, acompanhada por Da’Far e Rose, entrou na sala de reuniões.

O plano para resgatar o capitão Vernon, o subtenente Jaja e os representantes eioiotai consistia no envio de uma nave auxiliar indetectável ao planeta, de modo que uma equipe pudesse se infiltrar no palácio, chegando perto o suficiente para executar um transporte de curta distância, tendo como referência os sinais vitais dos prisioneiros. Embora não possuíssem o mesmo dispositivo de camuflagem que a USS Iguaçu, as quatro naves auxiliares estavam equipadas com versões idênticas dos sistemas repulsores da nave principal. Esses sistemas funcionavam de maneira semelhante à camuflagem, mascarando rastros de energia e repelindo leituras de sensores, com a diferença que a nave permanecia visível a olho nu. Logo, o curso teria de ser precisamente calculado para evitar um possível contato com satélites, sistemas de vigilância orbital e naves que estivessem no espaço e na atmosfera do planeta.

A comandante Shion, que lideraria a missão pessoalmente, optou pela nave auxiliar de nome Mozeta, convocando a alferes Kwa para pilota-la. Além da miresita, Shion escolheu apenas dois tripulantes de operações, um enfermeiro e um segurança, pois haveria pouco espaço a bordo após o regate dos seis prisioneiros.

— Ative os repulsores assim que deixarmos o hangar, alferes. Vamos contornar o sol e seguir o curso indicado pela astrometria. – Disse Shion para Kwa, após todos tomarem seus postos na cabine da Mozeta. – A capacidade de sondagem deles é rudimentar, então devemos evitar um contato visual a todo custo, especialmente após entrarmos na atmosfera.

Não demorou muito para que eles estivessem em órbita do planeta natal wrtomlke, passando por um ponto vulnerável da grade de defesa orbital e entrando na atmosfera milhares de quilômetros ao norte da cidade onde estava o palácio real. Depois, em altíssima velocidade, deslocaram-se por entre a camada mais densa de nuvens, mantendo-se afastados das muitas aeronaves que cruzavam os céus do planeta e finalmente pousaram num platô que ficava há pouco menos de dez quilômetros do palácio.

— Consegue uma trava dessa distância? – Perguntou Shion a um dos tripulantes de operações.

— Não, senhor. – Respondeu ele. – Tem muita interferência.

— Sonde os arredores do palácio buscando por locais com pontos cegos na vigilância e sem movimentação de pessoas. – Ordenou a andoriana. – Transporte-nos e ao meu sinal envie também os amplificadores de padrão.

— Sim, senhor. – Disse o tripulante e, após uma sondagem detalhada do palácio e de suas adjacências, transportou Shion, o segurança e o outro tripulante de operações para um beco em formato de T, formado pelo desenho do muro que cercava a praça principal, os prédios do parlamento e do palácio.

Confirmando que a presença deles permanecia desconhecida da segurança local, Shion ordenou o transporte dos amplificadores de padrão, que nada mais eram do que dispositivos cilíndricos, relativamente finos e com cerca de meio metro de altura que, quando colocados em ambientes com muita interferência, possibilitavam um transporte seguro e eficiente. Da posição em que estavam, já era possível captar os seis sinais de vida pertencentes ao capitão, ao subtenente e aos eioiotai, todos estáveis. Ainda assim, diante do forte bloqueio e da localização dos prisioneiros, possivelmente vários andares abaixo da superfície, seria necessária a colocação de pelo menos um conjunto triplo dentro das paredes do palácio, para poder enfim realizar o resgate.

— Fique aqui, e providencie a triangulação para o transporte do capitão. – Disse Shion ao tripulante de operações. – Nós vamos entrar pela porta de acesso terciária, na lateral noroeste do edifício, e então acionaremos os amplificadores imediatamente. É essencial que o transporte seja bem-sucedido, pois possivelmente teremos pouco tempo até que nossa presença seja notada, especialmente se tivermos que nocautear alguns seguranças.

— Sim, senhor. – Disse o tripulante.

A operação toda durou menos de um minuto. Shion e o segurança correram na direção da entrada terciária, que estava há menos de cem metros da posição deles, tendo que disparar um tiro de fêiser (regulado para tonteio), em um guarda que estava em patrulhamento pelo perímetro do palácio. Na sequência, com outro disparo, desta vez contínuo, forçaram a abertura da porta e entraram um pequeno corredor, tendo que deixar inconscientes outros dois guardas que estavam do lado de dentro. Rapidamente, Shion posicionou os amplificadores e deu o sinal para que fosse efetuado o transporte, retirando-se logo em seguida para o local onde o tripulante de operações havia ficado, de onde os três, juntamente com o equipamento, foram transportados à nave auxiliar.

A cabine da Mozeta ficou apertada com a presença do grupo avançado e dos tripulantes resgatados. O capitão Vernon e o subtenente Jaja estavam ilesos, mas os eioiotai (que sobreviveram ao transporte graças às melhorias implantadas pelo comandante Hashimoto) apresentavam vários ferimentos que pareciam ter sido provocados por chicotes dentados, e foram imediatamente atendidos pelo enfermeiro. Antes que a força de segurança wrtomlke pudesse se mobilizar, a nave auxiliar já havia alcançado a órbita, distanciando-se do planeta e retornando ao hangar da USS Iguaçu.

“Diário da primeiro oficial, suplemento. Em questão de horas, deixamos o sistema solar wrtomlke e devolvemos o senador Ueocoiei ao seu planeta natal, o qual poderemos conhecer e estudar por alguns dias. Apesar da já esperada solicitação de tecnologia militar, a qual educadamente negamos, os eioiotai foram muito receptivos e demonstraram legítimo interesse em aprender mais sobre nossas experiências com tratados e paz em conflitos interespécies. O conselheiro Nhefé permanece em conferência com os líderes do planeta desde que chegamos, e pretende compartilhar com eles uma seleta base de dados contendo as mais relevantes resoluções de disputas e acordos de cessar-fogo de nossa história, na esperança de que eles percebam que uma boa diplomacia é uma arma mais eficiente do que fêiseres e torpedos fotônicos”.