A USS Iguaçu chegou em segurança ao sistema solar Tertius Gama XI, uma designação que fora dada em conformidade com o trabalho de cartografia estelar feito pela astrometria. O sistema era composto por uma estrela amarela, de massa aproximadamente duas vezes maior do que a do sol terrestre, com quatro planetas em sua órbita, três deles gigantes gasosos e um deles, o mais próximo da estrela, era da classe Minshara, com quatro vezes o tamanho da Terra, temperaturas amenas e um céu levemente esverdeado.

— Estamos recebendo as primeiras leituras do planeta, senhor. – Informou Chelaar. – A superfície é formada essencialmente por uma vasta planície, sem sinal de elevações ou montanhas, com apenas uma massa de água doce cobrindo aproximadamente um oitavo do hemisfério sul, próximo ao equador.

— Formas de vida? – Perguntou o capitão Vernon.

— Sim, senhor. – Respondeu Chelaar. – Há sinais de vida vegetal, animal e... humanoide.

— Inteligente? – Perguntou Nhefé.

— Se for inteligente, não é tecnologicamente avançada. – Disse Chelaar. – Não captamos nenhum tipo de comunicação, nem mesmo ondas de rádio.

— Estamos em alcance visual, senhor. – Informou a alferes Harman.

— Na tela. – Ordenou o capitão.

A imagem do planeta apareceu na tela principal. Haviam muitas nuvens, mas era possível identificar as tonalidades verdes e marrons que compunham a maior parte da superfície, bem como as diminutas calotas polares e parte do oceano de água doce.

— É belíssimo. – Disse Shion, admirada.

— Estabelecer uma órbita alta, srta. Kwa. – Ordenou o capitão. – Vamos dar uma boa olhada neste novo mundo.

A nave passou a orbitar o planeta, permanecendo por várias horas a efetuar sondagens, as quais eram minuciosamente estudadas e analisadas pela tripulação. Com isso, descobriram a composição das várias camadas da atmosfera, dos desertos e planícies rochosas, da água pura do oceano e até mesmo do núcleo ferroso. Além disso, puderam iniciar o estudo das formas de vida que povoavam a superfície, constatando que, embora a variedade de espécies fosse pequena em comparação a outros planetas semelhantes, haviam elementos únicos em suas fisiologias que ainda necessitariam de mais tempo para serem explicados. Um exemplo eram as próprias florestas, dividas entre espécies achatadas, com troncos extremamente rígidos, e grandes plantas folhosas de caule leitoso. Para discutir as informações obtidas e estabelecer um novo curso para a exploração científica daquele mundo, inclusive em relação à espécie humanoide nativa, o capitão reuniu os oficiais superiores e pediu que a comandante Chelaar expusesse o progresso até aquele momento.

— Com os dados que pudemos obter até agora, descobrimos que esta espécie está em um período pré-vapor, com uma economia essencialmente agrícola e algumas cidades minimamente desenvolvidas. – Disse Chelaar. – Estão divididos em pequenas nações, ocupando as áreas ao redor do grande oceano de água doce, onde a flora e fauna também são abundantes. Ainda não temos informações detalhadas sobre sua fisiologia interna, mas aqui estão algumas imagens de sua aparência, gravadas com as câmeras de estudo orbital.

Ela abriu um arquivo na tela da sala de reuniões, revelando uma gravação bastante nítida de alguns trabalhadores, que carregavam grandes folhas de uma espécie vegetal nativa, levando-as em direção a uma vila interiorana. Eles vestiam túnicas cinzentas, amarradas na cintura com cordas de cores bastante vivas. Seus rostos se assemelhavam a rostos humanos, sem cristas ou escamas, mas com cabelos pretos muito volumosos e pele azul clara.

— Fascinante. – Comentou o capitão Vernon. – Não importa quantas vezes eu observe uma civilização pré-dobra, sempre me perco em pensamentos sobre o quão curioso é estarmos estudando cada detalhe de seu mundo, sem que eles nem mesmo imaginem a nossa existência, muito menos percebam nossa presença. – Ele ajeitou-se na cadeira. – O fato de termos vindo de uma galáxia há milhares de anos luz daqui, que nos orgulha e motiva tanto, é algo que eles sequer seriam capazes de compreender.

— Gosto de pensar que, talvez neste exato momento, estejamos sendo estudados da mesma forma por alguma espécie tão diferente ou avançada quanto somos em relação aos humanoides deste planeta. – Disse o conselheiro Nhefé, recostado confortavelmente na cadeira à esquerda do capitão.

— Pensamentos intrigantes, de fato. – Disse Shion. – Mas devo admitir que estou feliz pelo simples fato de que a primeira espécie catalogada nesta galáxia seja azul. – E, após um sorriso, acenou para que Chelaar continuasse sua exposição.

— Como é uma civilização primitiva, tecnologicamente falando, sugiro que sejam lançadas algumas sondas planetárias para captar informações das áreas não habitadas. – Disse Chelaar. – Também sugiro que sejam enviados grupos avançados para o estudo da geologia, da biologia e, é claro, da espécie humanoide e sua sociedade.

— De acordo. – Disse o capitão Vernon. – Forme as equipes de geologia e biologia, elas serão imediatamente transportadas à superfície para locais afastados das regiões povoadas. O grupo avançado que estudará os nativos deverá comparecer à enfermaria antes de descer, para os procedimentos padrão de caracterização mimética.

— Permissão para liderar o grupo avançado, senhor. – Pediu Shion. – Gostaria de levar o subcomandante Da’Far e o doutor Horvat comigo.

— Permissão concedida. – Disse o capitão. – Dispensados.

Shion e Da’Far deixaram a ponte e rumaram para a enfermaria, enquanto Chelaar convocava as equipes que seriam enviadas para estudar os aspectos geológicos e ambientais. No caminho até a enfermaria, a primeiro oficial iniciou a organização da missão de reconhecimento, tocando em seu comunicador para contatar os responsáveis pelos estudos preliminares sobre o povo nativo daquele planeta. O uniforme de cada tripulante da USS Iguaçu possuía um pequeno delta metálico, como se fosse um broche, fixado na altura do peito, e que servia, entre outras funções, como comunicador e localizador de sinal para transporte.

— Quantos habitantes tem a cidade mais populosa do planeta? – Perguntou Shion ao tripulante.

Cerca de cento e cinquenta mil, senhor.— Respondeu um dos pesquisadores. – Se trata da capital de uma das nações à noroeste do oceano.

— Muito grande, quero algo menor. – Disse Shion. – Qual a média populacional dessas capitais?

Menos de quarenta mil.— Respondeu o tripulante.

— Algum sinal de conflito armado entre essas nações?

Detectamos algumas cidades parcialmente incendiadas e vestígios do que parece ter sido um conflito recente entre duas nações à leste do oceano.— Explicou o tripulante. – Mas ou a questão já foi resolvida ou houve uma trégua temporária, já que não há mobilização de tropas ou recursos de suporte à guerra. Se essa hipótese estiver correta, talvez a trégua se deva ao fato de que está se iniciando uma espécie de período festivo para os baomates, pois em todos os países há sinais de preparação para um evento de grande importância.

— Baomates? – Perguntou Shion, curiosa. – Não sabia que já tínhamos um nome para eles.

A subtenente Lworx está estudando os idiomas do planeta e, segundo ela, embora não haja uma unidade linguística, a maioria dos dialetos parece ter a mesma origem. Portanto, a designação que dão a si mesmos varia pouco de língua para língua, sendo que o nome “baomate” é o mais amplamente utilizado.— Informou o pesquisador.

— Ótimo. – Continuou a comandante. – Por favor, selecione uma das capitais menores, se possível ao sul do oceano, e prepare vestimentas apropriadas para o doutor Horvat, para o subcomandante Da’Far e para mim. Opte por uma cidade que não esteja envolvida em conflitos bélicos, que não tenha sinais de criminalidade urbana e que esteja bastante engajada na preparação desse suposto evento festivo. Encaminhe-as para a enfermaria, juntamente com os dados relevantes sobre a cidade escolhida e a cultura local.

Sim senhor.— Respondeu ele.

— Dispensado. – Disse Shion encerrando a comunicação com o tripulante. – Eis a minha parte favorita da exploração de um mundo novo, subcomandante: o estudo do que não é mostrado na leitura de uma telemetria. – Continuou ela, dirigindo-se a Da’Far. – Afinal, nossas sondagens nos fornecem dados completos sobre a natureza do planeta, seus minerais, composição da atmosfera e características dos biomas, e nossos tricorders possibilitam um estudo eficiente da anatomia de qualquer ser vivo, incluindo os baomates. Sei que tudo isso facilita muito a compreensão objetiva de um planeta e dos seres que o habitam, mas não há um equipamento sequer que nos dê as respostas prontas sobre questões subjetivas, como as questões culturais, ao menos não com o mesmo nível de detalhamento. Se quisermos entender melhor como funciona uma sociedade como esta, temos que estudar as informações que obtemos com as sondagens, mas, acima de tudo, devemos observar, interagir e imaginar. Esse é o verdadeiro desconhecido a ser descoberto em cada missão.

— É um ponto de vista interessante, senhor. – Concordou Da’Far, no momento em que eles adentravam na enfermaria. – A propósito, agradeço por ter me escolhido para fazer parte do grupo avançado. Para mim, nada tem mais valor em uma exploração do que estar frente a frente com aquilo que se está estudando.

— Soube que também fui escolhido para esta missão. – Disse o doutor Rohit Aris Horvat, oficial médico chefe da USS Iguaçu, aproximando-se e cumprimentando os dois.

— Sim, doutor. – Disse Shion, sorrindo. – Creio que a presença de um médico é sempre importante neste tipo de missão, ainda mais quando a ficha dele diz que essa é sua principal linha de pesquisa e interesse.

O médico retribuiu o sorriso, embora não parecesse tão empolgado com a oportunidade de descer ao planeta para estudar os baomates.

— Desenhei os implantes faciais com base nas imagens que temos dos alienígenas. – Explicou o doutor, conduzindo-os até uma sala na lateral da enfermaria, onde uma enfermeira denobulana programava um modulador cutâneo. – Não será necessário fazer nenhuma alteração complexa, especialmente para a senhora, que já possui a pele na tonalidade comum à maioria dos habitantes. Para o subcomandante Da’Far, no entanto, projetei uma prótese em formato de nariz e grandes quantidades de pelos faciais para ocultar as fendas nasais na lateral do seu rosto.

— Alguma característica física incomum que devamos conhecer? – Perguntou Shion.

— Externamente, não. – Respondeu o doutor. – Também possuem cinco dedos, orelhas, cabelo e pelos faciais, pele majoritariamente lisa, sem manchas, cristas ósseas, antenas ou coisas do tipo. – Ele passou a examinar Shion e Da’Far, esquadrinhando seus rostos. – Para saber mais sobre a estrutura interna deles, terei que efetuar leituras de curta distância com o tricorder médico.

— Certo, doutor. – Disse a andoriana olhando para as imagens que apareciam na tela principal da sala. – Mas, pelo que posso perceber, terei que usar uma peruca bastante volumosa.

— De fato. – Assentiu o médico. – Não foi registrado o uso de chapéus ou adornos de cabeça em nenhuma das culturas presentes no planeta. Assim, para ocultar suas antenas, optamos por um belo cabelo negro.

— É justo. – Disse Shion. – Podemos iniciar?

— Imediatamente. – Disse o doutor. – Eu mesmo realizarei o procedimento de caracterização mimética nos senhores e, em seguida, a alferes Yasna fará o mesmo em mim.

Horvat era um homem de meia idade, alto e esguio. Seu cabelo curto apresentava fios castanhos, brancos e cinzentos, e ele mantinha um bigode fino, cuidadosamente aparado e penteado. Apesar de sua visível competência, demonstrada enquanto fazia a caracterização mimética em Shion e Da’Far, seu sorriso amarelo e suas profundas olheiras denunciavam que ele não estava em um de seus melhores dias.

— Você fica bem de pele azul e costeletas. – Disse Shion, sorrindo para o então irreconhecível tenente comandante Da’Far.

— A senhora também ficou bem com o cabelo preto. – Respondeu ele, acenando.

Antes mesmo da enfermeira denobulana terminar de fazer a caracterização no doutor Horvat, um tripulante trouxe as roupas e adereços que os três iriam utilizar durante a missão. Eram túnicas acinzentadas, com mangas largas e coloridas, sapatos de couro marrom escuro e cintas de couro preto. Além disso, cada um também levaria uma pequena bolsa de tecido bege, na qual poderiam guardar os fêiseres e tricorders.

— Os comunicadores terão que ficar ocultos. – Explicou o tripulante. – Não identificamos, até o momento, o uso de joias de nenhum tipo, então tememos que possa ser algo proibido ou considerado socialmente ofensivo.

— Tomaremos cuidado. – Disse Da’Far. – Colocando seu comunicador na parte interna do cinto.

Vernon para comandante Shion.— Ouviu-se a voz do capitão Vernon através do comunicador de Shion.

— Shion falando, senhor. – Respondeu ela prontamente.

Detectamos o surgimento de uma singularidade gravitacional oscilante há meio ano luz daqui, nos limites do sistema vizinho.— Explicou o capitão. – Segundo a comandante Chelaar, esse fenômeno não deve permanecer ativo por mais do que um ou dois dias, e por isto decidi traçar um curso para estuda-lo antes que seja tarde demais. Decidi também que, nesse meio tempo, os grupos avançados no planeta deverão continuar com os trabalhos. Quanto a senhora, sinta-se livre para delegar a função a outra pessoa e nos acompanhar, se assim desejar.

— Agradeço, senhor, mas opto por continuar o estudo dos baomates. – Respondeu Shion. – Sinto-me envolvida na missão e, além do mais, já estou devidamente caracterizada.

Entendido.— Disse o capitão. – Estaremos longe do alcance dos comunicadores durante pelo menos trinta e seis horas, então tenham o máximo de cuidado. Todos os tripulantes no planeta serão informados de que deverão se reportar diretamente à senhora. Boa sorte, imediato.

— Obrigado, senhor. – Disse Shion. – Igualmente.

Capitão desliga.— Disse Vernon.

Àquela altura, o doutor Horvat e Da’Far já haviam se trocado, e agora estavam reunindo os equipamentos e examinando os dados sobre os nativos. Também foram sintetizadas moedas locais, pois diante da necessidade de passar pelo menos uma noite no planeta, precisariam de dinheiro para pagar uma hospedaria ou hotel.

Depois de uma checagem final nos itens que seriam levados ao planeta, os três deixaram a enfermaria e se dirigiram à sala de transportes 1, que ficava na parte superior da nave, um deque acima da enfermaria. Haviam duas pessoas de serviço no turno principal, a oficial de transportes e um segurança.

— Transporte pronto e aguardando, comandante. – Disse a oficial de transportes, após cumprimenta-los com um aceno de cabeça.

— Obrigado, tenente Alfredsson. – Disse Shion, posicionando-se em um dos seis círculos demarcados no chão da plataforma de transporte. Da’Far e o doutor Horvat se posicionaram à esquerda e à direita da primeiro oficial, respectivamente.

— Os senhores serão transportados para uma estrada secundária que dá acesso à cidade. – Disse a oficial de transportes. – Não há sinais de nativos num raio de quinhentos metros.

Shion assentiu com a cabeça e disse:

— Acionar.

A tenente Alfredsson empurrou suavemente as duas alavancas no painel em sua frente, iniciando a sequência de transporte. A matéria dos três foi convertida em energia e transportada quase que instantaneamente para a superfície do planeta, onde foi reorganizada como matéria novamente.

— Aqui estamos. – Disse Shion, olhando ao redor.

Eles haviam se materializado em uma estreita estrada coberta por um cascalho cor de areia, que se estendia sinuosamente até a cidade capital daquela pequena nação. A estrada era cercada pela peculiar vegetação local, composta principalmente por árvores de diâmetro superior a dez metros, porém estranhamente achatadas, alcançando no máximo de três a quatro metros de altura.

— Se elas não estivessem tão visivelmente vivas, eu diria que não eram nada além de troncos abandonados após o corte de uma árvore gigantesca. – Disse Da’Far, tocando uma das folhas redondas da árvore mais próxima.

— Essa também foi a primeira impressão que eu tive. – Disse o doutor Horvat, examinando seu tricorder. – Mas o que estamos vendo parece ser a estrutura natural destas plantas, e as leituras dizem que seu tronco é dezenas de vezes mais denso do que o de uma imbuia ou de um monjoleiro. Eu diria até que alguns exemplares são mais densos do que várias rochas conhecidas.

— Alguma teoria? – Perguntou Shion.

— Não é minha especialidade. – Respondeu o doutor. – Mas me parece que essas plantas se desenvolveram para aguentar pesos extremos.

— Não há nada desse tipo no planeta, segundo nossos estudos preliminares. – Comentou Shion. – Mas talvez possamos obter algumas informações úteis na cidade.

Iguaçu para grupo avançado líder.— Ouviu-se a voz da subtenente Giulia Naggi, através do comunicador de Shion. – Deixaremos a órbita do planeta em quinze minutos.

— Entendido. – Disse a primeiro oficial. – Shion desliga.

Os três seguiram pela estrada, observando atentamente a natureza ao seu redor. Era uma visão muito interessante, pois a superfície do planeta era incomumente plana, e não haviam montanhas ou elevações de qualquer tipo. No campo de visão deles, as únicas coisas que se destacavam acima do solo eram as árvores de tronco achatado e, mais à frente, as construções que formavam a cidade.

— Guardem seus tricorders. – Ordenou Shion. – Há um nativo vindo em nossa direção, cinquenta metros à frente daquela curva.

O médico olhou intrigado para seu tricorder, demorando alguns segundos a mais para guardá-lo na bolsa que carregava à tiracolo. Logo em seguida, o nativo veio caminhando tranquilamente pela estrada, aproximando-se deles. Era um homem jovem, de feições suaves e pele azul clara, com um vasto cabelo preto cobrindo suas orelhas e sua testa. Vestia um traje semelhante ao do grupo avançado, mas visivelmente mais velho e surrado. O cinto em sua cintura era uma corda branca, amarrada com um nó tosco no lado esquerdo de seu quadril. Quando ele bateu os olhos nos três tripulantes disfarçados, não pôde imaginar que se tratavam de alienígenas de outra galáxia, mas assim que notou o cinto de Da’Far, arregalou os olhos e fez uma cara mista de surpresa e aversão.

— Boa tarde. – Disse Shion, tentando interagir.

O nativo, embora tivesse entendido o que Shion dissera, graças ao tradutor universal, aparentemente preferiu não responder, virando o rosto e apressando o passo.

— Não foi o primeiro contato que eu imaginava. – Disse Shion, quando o nativo se distanciou o suficiente. – Parece que há algo de errado com nosso figurino.

— Ele parecia escandalizado. – Comentou o doutor. – Talvez estejamos vestidos de maneira imprópria.

— O problema está em meu cinto. – Disse Da’Far. – O nativo não pareceu incomodado até olhar para ele.

— Não entendo. – Disse Shion. – Nossos cintos são todos iguais. Eles foram baseados em um modelo muito comum nesta região.

— Talvez pertença a uma classe social específica? – Perguntou o doutor. – Alguma que não seja bem vista por todos.

— Não creio que seja isso. – Respondeu Shion. – Ao menos não deveria ser, pois segundo o relatório, esse traje é utilizado por pessoas das mais diversas profissões e classes sociais.

— Podemos não compreender totalmente o significado da moda para este povo. – Disse Horvat, retirando o seu tricorder da bolsa. – Mas há algo ainda mais difícil de compreender sobre eles.

— O que seria, doutor? – Perguntou Da’Far.

— A fisiologia deles não faz sentido. – Respondeu o médico, mostrando o resultado da sondagem que havia feito do indivíduo que passara por eles. – Nem sei por onde começar, a própria estrutura óssea deles parece inadequada para as condições desse planeta. A densidade dos ossos, dos músculos e de praticamente todos os sistemas, varia imensamente com a altura onde estão localizados. Eu não estranharia se metade da massa corporal deles se concentrasse do joelho para baixo.

— Essas características podem ter alguma relação com as da vegetação do planeta. – Sugeriu Da’Far.

— Sim, mas a questão é: por quê? – Continuou o médico, guardando novamente o tricorder na bolsa, à medida em que se aproximavam da cidade e já podiam ouvir vozes de pessoas negociando e rindo. – Eles parecem utilizar somente metade do sistema cardiorrespiratório, e possuem um sistema de cartilagens que mais parecem amortecedores de veículos de superfície.

— Esse planeta parece ter muitos segredos intrigantes, doutor. – Sorriu Shion, admirando a cidade a sua frente. – Me sinto honrada em poder desvendá-los com os senhores.

Eles haviam chegado ao ponto em que a estrada secundária se misturava à rua principal da periferia da cidade, ladeada por casas e tendas de comércio. Todas as construções, embora tivessem detalhes diferentes, seguiam o mesmo padrão, sendo basicamente conjuntos compostos por três partes cilíndricas verticais, aparentemente de alvenaria, pintadas de cores diversas. Cada conjunto possuía um cilindro pequeno, com não mais do que um metro e setenta centímetros de altura, um médio, com cerca de três metros e um grande, com mais de quatro metros e meio. Haviam portas e janelas em cada um dos cilindros, proporcionais aos seus tamanhos, assim como tendas, debaixo das quais havia comércio de alimentos e utensílios.

— A arquitetura deles é enigmática. – Disse Da’Far.

— Concordo. – Disse o doutor Horvat. – Qual é o sentido de construir casas triplas sendo que você só é capaz de habitar um terço dela?

— Segundo as pesquisas feitas da órbita, esse é um costume comum no planeta todo. – Explicou Shion. – Eles parecem residir na parte da casa compatível com sua altura, mas também foram registrados inúmeros casos de pessoas que estão fazendo faxinas e preparando as casas menores. Foi levantada a hipótese que talvez essas divisões menores fossem feitas para as crianças, mas como as crianças parecem residir com seus pais no cômodo médio, essa explicação não me pareceu plausível.

— E temos a questão das partes altas. – Disse Da’Far. – Elas parecem estar todas fechadas, como se estivessem abandonadas.

— Diversas teorias foram levantadas a respeito. – Continuou Shion. – Como a possibilidade de serem locais para os animais de estimação, para cerimônias religiosas ou templos aos entes falecidos, ou até mesmo moradia de outras espécies que já viveram aqui ou que visitam este planeta de tempos em tempos.

— Hipóteses interessantes. – Disse o doutor. – Se este planeta recebe visitas regulares de outras espécies tecnologicamente superiores, existe a possibilidade de que o evento festivo misterioso que está por vir seja, na verdade, a chegada desses visitantes. Isso também explicaria o porquê de muitos deles estarem preparando as divisões menores das casas, pois poderia ser uma espécie de baixa estatura.

— É possível. – Disse Shion. – Mas nossas sondagens em órbita não detectaram nenhum tipo de radiação ou rastro deixado por naves, nem mesmo vestígios de comunicações.

Os moradores da cidade caminhavam de um lado para o outro, conversando animadamente e comprando alimentos e roupas nas tendas ao longo do mercado. A maioria deles, ao ver os três exploradores, cumprimentava normalmente com a cabeça, mas em seguida olhava para a cintura de Da’Far e assumia a mesma expressão de aversão que o caminhante havia assumido anteriormente na estrada.

— Estou ficando preocupada. – Disse Shion. – Estamos atraindo muita atenção, e isso não é bom. Vamos seguir por uma rua menos movimentada até entendermos melhor a situação.

— Você não é bem-vindo! – Esbravejou um vendedor, apontando o polegar para Da’Far.

— Por aqui, acho que finalmente entendi o que está acontecendo. – Disse Shion, apontando uma rua estreita e sem movimento, à direita. Após andarem alguns metros, ela fez um sinal para que parassem e virou-se de frente para o tenente comandante Da’Far. – Seu cinto está afivelado do lado errado. – Continuou ela, ajudando-o a inverter a orientação do cinto para que ficasse igual aos demais. – É a única diferença que eu pude perceber, e talvez ela seja muito significativa para essa espécie, mesmo que para nós seja irrelevante.

— Ainda que seja isso, sugiro que nos afastemos desta parte da cidade. – Disse Da’Far.

— De acordo. – Disse Shion.

A primeiro oficial estava correta, pois dali em diante ninguém mais agiu com agressividade em relação à Da’Far. Assim, eles puderam observar melhor o comportamento dos nativos, caminhando em meio aos mercados e ouvindo conversas sobre os mais diversos assuntos. Em certo momento, separaram-se e seguiram por ruas diferentes, reencontrando-se duas horas depois, em uma pequena praça pouco movimentada no centro da cidade, onde sentaram-se ao lado de uma fonte de água.

— Parece cansado, doutor. – Comentou Shion.

— Embora seja muito interessante observar o comportamento de uma espécie desconhecida, estou ansioso para poder utilizar o tricorder e analisar sua fisiologia mais detalhadamente. – Disse Horvat.

— Tive a impressão que algumas pessoas ainda olhavam desconfiadas para mim. – Comentou Da’Far. – Embora ninguém tenha se manifestado verbalmente.

— Encontrei uma hospedaria há poucas quadras naquela direção. – Disse Shion, indicando uma rua a frente deles. – De lá poderemos fazer sondagens mais completas com nossos tricorders, além de examinar melhor o que pode estar chamando atenção em Da’Far.

— De acordo. – Disse Horvat, levantando-se. – Espero que essas pessoas tenham o costume de ter banheiras em suas hospedarias, sejam elas pequenas, médias ou grandes.

— A propósito. – Disse Shion, enquanto rumavam para a hospedaria. – Ouvi algumas conversas enquanto visitava uma feira de temperos e descobri que todos estão se preparando para a mudança de estação, que ocorrerá entre hoje e amanhã.

— Também ouvi algumas pessoas comentando sobre suas expectativas para o inverno que está por vir. – Acrescentou Da’Far.

— É estranho, pois conversei com o grupo de pesquisa ambiental e não há indícios de mudanças sazonais de temperatura. – Disse Shion. – E todos os habitantes que eu ouvi mencionaram que vão se mudar para as porções mais baixas das suas casas amanhã de manhã.

— E possível que esta seja uma espécie que hiberne. – Arriscou o médico. – Assim, estão se preparando com antecedência para a mudança climática, e as divisões mais baixas das casas podem ser projetadas para permitir maior conforto durante o período de hibernação.

— Não sei, tenho o pressentimento que está faltando uma informação importante. – Disse Da’Far. – Se eles realmente hibernam, por que então as casas possuem janelas, pequenas varandas e portas com batentes, por exemplo? Ainda, essa teoria não explica as partes altas das casas e nem o fato de que todas as roupas que eu vi a venda eram estranhamente curtas, incompatíveis com o clima frio.

— Ali está a hospedaria. – Apontou Shion.

Era uma construção tripla e cilíndrica, como todas as outras da cidade, tendo apenas o andar térreo em três alturas diferentes. A parede era recoberta por uma textura levemente áspera, de cor verde-acinzentada, com tapetes estendidos nas janelas e na frente da porta principal. Era possível ver que havia algumas pessoas hospedadas na porção de tamanho médio, mas também havia movimento na porção mais baixa, onde duas mulheres, desconfortavelmente curvadas, faziam uma faxina completa.

O homem no balcão notou os três tripulantes observando sua hospedaria e sorriu, cumprimentando-os e acenando para que entrassem. Ele era uma das pessoas mais velhas que o grupo já havia encontrado na cidade, e seu volumoso cabelo tinha um tom grisalho, tal qual o par de costeletas semelhantes às que Da’Far estava usando em seu disfarce.

— Boa tarde. – Cumprimentou Shion. – Gostaríamos de um quarto para duas noites.

— Boa tarde, viajantes. – Disse o velho, sorrindo amigavelmente. – Temos o costume de nos apresentar aqui em Lebomomo. Eu me chamo Ganobe, ao seu dispor.

— É claro, perdoe-me pela falta de educação, estamos cansados da viagem. – Disse Shion. – Eu me chamo Cebomo, e estes são meus irmãos Dafaro e Rorate. – A andoriana utilizou os nomes que haviam sido escolhidos pela linguista da nave por serem bastante comuns naquela região do planeta.

— Sejam bem-vindos à minha confortável e bem localizada hospedaria. – Disse Ganobe, fazendo uma curta reverência com a cabeça. – Nós não costumamos ter vagas de última hora, mas a maioria pessoas vai passar a virada com suas famílias, então aqui está. – Ele pegou uma chave arredondada na prateleira à sua esquerda, entregando-a para Shion. – Amanhã bem cedo podem me procurar na casa de inverno e eu lhes entregarei a chave para o outro quarto.

— Outro quarto? – Perguntou Horvat.

— Não pretendem ficar aqui na casa média, não é? – Perguntou Ganobe. – Ela será fechada assim que a estação mudar.

— Foi apenas uma brincadeira do meu irmão. – Disse Shion, ponto o braço sobre o ombro de Horvat. – É claro que nós vamos para o outro quarto amanhã.

O velho sorriu novamente e estendeu a mão, com a palma virada para cima, o que Shion interpretou corretamente como sendo um pedido de pagamento. Após dar as moedas, ela e os colegas seguiram para o quarto, localizado no final do único corredor da hospedaria. Uma vez lá dentro, Shion e Horvat sentaram-se nas camas e tiraram os sapatos de couro, descansando da caminhada. Da’Far, entretanto, permaneceu em pé junto à porta.

— Comandante. – Disse ele. – Peço permissão para avaliar o perímetro antes de nos acomodarmos. Tenho a impressão de que vi algumas pessoas fora da hospedaria olhando torto para nós, especialmente para mim.

— Permissão concedida. – Disse Shion. – Não custa termos um pouco de precaução, mas procure ser discreto e leve apenas o comunicador e o fêiser.

— Sim, senhor. – Falou Da’Far, saindo do quarto.

— Acha que Da’Far está correto em suas suspeitas? – Perguntou o doutor, tocando uma pequena lamparina de metal fixada na parede.

— Uma coisa que aprendi em meus anos como primeiro oficial e capitão: sempre leve a sério o instinto do seu oficial chefe da segurança. – Respondeu Shion.

— É justo, mas seria igualmente aconselhável que os oficiais comandantes levassem a sério as recomendações de seus oficiais médicos, algo que infelizmente não acontece com frequência. – Disse Horvat, examinando o quarto. – O banheiro parece pequeno, é improvável que tenha uma banheira.

— O banho não danificará nossa caracterização? – Perguntou Shion.

— Os implantes e a tinta não devem sair a menos que fiquemos várias horas sob forte chuva ou então passemos a tarde em uma piscina. – Explicou o médico. – Mas recomendo que retire a peruca, deve estar sufocando suas antenas.

— De fato. – Concordou Shion. – Se me permite, tomarei banho primeiro.

— É claro. – Disse Horvat, mexendo em sua bolsa e retirando o tricorder. – Vou aproveitar para fazer umas sondagens mais detalhadas nessa espécie.

Shion, sendo uma pessoa bastante prática e não estando totalmente à vontade antes do retorno de Da’Far, tomou seu banho em menos de cinco minutos e, quando saiu do banheiro, encontrou o doutor Horvat com uma expressão pensativa no rosto.

— Tenho más notícias. – Disse ele.

A andoriana nem teve tempo de perguntar quais eram as más notícias, pois naquele instante os dois ouviram vozes alteradas vindas da recepção da hospedaria.

— É ele! – Dizia uma voz enfurecida. – O assassino condenado! Eu o vi na entrada da cidade pela manhã, ele deve ter invertido o cinto para esconder sua identidade!

Shion e Horvat se entreolharam, apreensivos.

— Precisamos levá-lo aos policiais agora mesmo! – Disse outra voz, também alterada pela raiva. – Se ele foi capaz de fugir do mosteiro punitivo e adulterar sua identidade de maneira tão desprezível, deve ser um criminoso da pior espécie!

— Ele não estava sozinho! – Exclamou uma voz feminina. – Nós o vimos no mercado com outras duas pessoas, talvez eles também sejam assassinos condenados! Na certa são cúmplices de seus crimes!

Percebendo a situação que se iniciara, Shion examinou rapidamente o quarto e fez um gesto para que o médico a ajudasse a empurrar um armário para bloquear a porta. Em seguida, ela apontou para a janela e disse baixinho:

— Vamos correr pela rua lateral até encontrarmos um local para nos esconder. Então poderemos decidir nosso próximo passo.

— Segurem ele firme, rapazes! – Disse um dos homens, na recepção. – Nós vamos pegar os outros! Qual é o quarto deles, senhor Ganobe?

Enquanto Shion e Horvat pulavam a janela, puderam ouvir os passos de pelo menos quatro pessoas vindo em direção ao quarto, mas quando ouviram o baque do arrombamento da porta e do armário caindo, já estavam virando a esquina. Eles correram por quase cinco minutos, procurando um caminho que os levasse para longe do som dos perseguidores, preferindo as ruas escuras e pouco movimentadas, até que encontraram uma janela aberta em uma das partes altas das casas triplas. Assegurando-se que ninguém os observava e ajudando um ao outro, pularam para dentro da casa através da janela, que estava há quase dois metros do chão, fechando-a logo em seguida.

— Acho que já é hora de me contar a má notícia, doutor. – Disse Shion, em voz baixa. – Se vou elaborar um plano, quero ter todos os problemas em mãos.

— Só há um plano possível: contatar a Iguaçu e torcer para que nos resgatem. – Respondeu Horvat. – Do contrário, estaremos todos mortos até o amanhecer.

A andoriana, ainda com a respiração acelerada, arregalou os olhos diante do que Horvat disse.

— A Iguaçu estará fora do alcance para comunicações até depois de amanhã. – Disse Shion. – Teremos de encontrar outro meio de resolver essa questão.

— Creio que fui mal interpretado, pois não me referia à captura do nosso oficial chefe de segurança. – Disse o doutor, em tom grave. – E sim ao fato de que todos nós, incluindo Da’Far e os outros dois grupos avançados, seremos esmagados até a morte dentro de algumas horas.

— Explique. – Ordenou Shion.

— Creio que finalmente desvendei o mistério deste planeta. – Disse o médico. – Enquanto a senhora tomava banho, as rápidas análises que fiz da fisiologia dos nativos me fizeram perceber o que nos passou batido todo esse tempo. – Ele respirou fundo. – Comandante, as estações neste planeta não são como as que normalmente existem em planetas classe M. O inverno ao qual eles se referem não diz respeito a uma queda nas temperaturas, mas sim a uma mudança na própria gravidade do planeta. Percebi que os corpos deles, assim como das plantas e demais seres vivos desse planeta, é adaptado para suportar pelo menos duas variações significativas de gravidade, uma para mais e outra para menos. – Ele pegou o tricorder e mostrou alguns dados à Shion. – Inicialmente eu não entendi a razão para muitas coisas em sua estrutura física interna, mas agora vejo que elas são essenciais para a sobrevivência deles nos períodos onde a gravidade é alterada.

— Por isso as casas triplas. – Disse Shion, entendendo o raciocínio de Horvat.

— Exatamente. – Continuou o médico. – No momento estamos na estação onde a gravidade segue os mesmos padrões da maioria dos planetas habitados por humanoides, então eles vivem na parte da casa cuja altura é compatível com a nossa. No entanto, quando a gravidade passa a ser menor, o corpo deles se adapta às mudanças e suponho que passem a morar nestas partes onde a altura excede os quatro metros.

— Eles estão preparando as casas menores. – Disse Shion, examinando a casa onde estavam, e seus móveis quase duas vezes altos do que o normal. – Significa que a adaptação deles ao inverno acarreta uma redução nas dimensões de seus próprios corpos, ou seja, a estação que está por vir representa um aumento considerável na gravidade, o que seria letal para nós.

— Sem o sistema de cartilagens, músculos e ossos dessas pessoas, seremos esmagados em questão de minutos. – Complementou o doutor.

— Confesso que não sei a origem dessa variação gravitacional. – Disse Horvat. – Mas o meu tricorder registrou uma leve variação durante o tempo que estivemos aqui, o que reforça minha teoria.

— Enquanto nos preparávamos para vir, o capitão disse que haviam detectado uma singularidade gravitacional oscilante. – Disse Shion. – Ela certamente é a responsável pelas mudanças sazonais na gravidade deste sistema.

— Existe alguma chance de nos comunicarmos com a Iguaçu a tempo? – Perguntou o médico.

— Talvez. – Disse Shion. – Deixe-me pensar um pouco, enquanto isso, sonde pelos sinais do subcomandante Da’Far. Precisamos descobrir onde ele está.

Os dois ficaram em silêncio por alguns minutos, durante os quais Shion adotou uma postura meditativa e Horvat utilizou o tricorder para rastrear a posição exata de Da’Far, que estava em algum ponto dois quilômetros a leste do esconderijo deles.

— Não me sobraram muitas opções, então minhas ordens não serão agradáveis. – Disse Shion, levantando-se e tocando em seu comunicador. – Atenção grupos avançados 1 e 2, aqui fala a comandante Shion.

Grupo 1 na escuta, senhor.— Ouviu-se uma voz pelo comunicador.

Grupo 2 também na escuta. — Disse outra voz.

— Não entrei em contato para solicitar seus relatórios preliminares, mas sim para lhes dar uma notícia delicada e ordens que preferia não ter que dar. – Disse Shion, em tom solene. – O doutor descobriu que este planeta é afetado pela singularidade gravitacional oscilante que nossos colegas partiram para estudar. Para nós, isso infelizmente significa que a gravidade aumentará nas próximas horas a ponto de nos levar a morte. Diante disso, ordeno que cada grupo inicie imediatamente a montagem de um amplificador de sinal, utilizando o que quer que tenham em mãos, para que possamos tentar enviar um pedido de socorro à Iguaçu. – Ela respirou e continuou. – Além disso, cada grupo deverá programar a sobrecarga de um fêiser para 12h a partir de agora. Se não conseguirmos um resgate a tempo, é nosso dever cumprir a Primeira Diretriz e apagar qualquer evidência de nossa presença no planeta, incluindo nossos próprios corpos.

Após um instante de silêncio, os tripulantes dos grupos avançados responderam:

Sim, senhor.— Disse um deles.

Sim, senhor. — Disse o outro.

– Se precisarem nos contatar, chamem pelo doutor Horvat. – Disse Shion. – Eu estarei ocupada nas próximas duas horas e não poderei utilizar o comunicador. Shion desliga.

– E agora? – Perguntou o médico.

– Fique aqui e mantenha um canal aberto com os outros grupos avançados. Enquanto isso, irei até onde Da’Far está e o resgatarei. – Respondeu Shion. – Também preciso que o senhor deixe seu fêiser programado para uma sobrecarga.

– Compreendo. – Disse Horvat, sem demonstrar tristeza ou medo. – Boa sorte.

Shion deixou sorrateiramente a casa, esgueirando-se pelas ruas escuras até o local onde o tricorder indicava a posição do comunicador de Da’Far. A andoriana levou menos de quinze minutos para alcançar o que parecia ser uma construção fortificada da polícia local, com muros de mais de dez metros de altura, possivelmente projetados para conter os nativos até mesmo na estação em que a gravidade era reduzida. Além do sinal vital do tenente comandante, Shion registrou pelo menos noventa nativos dentro da construção, a grande maioria delas aglomerada nas proximidades do portão principal.

Ela se agachou atrás de uma grande caixa de lixo, na sombra do beco que ficava em frente ao portal de entrada da construção fortificada, ponderando a melhor forma de executar o resgate. Contudo, suas opções eram poucas, e a grande maioria envolveria confronto com os nativos, algo que ela queria evitar a todo custo, pois caso eles fossem seguidos por uma multidão de perseguidores, não haveria como permanecerem ocultos na casa onde Horvat estava.

Foi então que seu tricorder captou um disparo contínuo de fêiser, oriundo do cômodo onde Da’Far estava. Em seguida, o sinal do comunicador dele passou a registrar movimentos, incialmente horizontais e depois verticais, indicando que, de algum modo, o tenente comandante havia conseguido escapar e estava buscando uma saída pelo telhado. Shion se levantou, com intenção de antecipar seus movimentos e se encontrar com ele no ponto em que deixaria a construção fortificada, mas, poucos segundos depois, constatou a movimentação dos nativos, podendo ouvir seus gritos de “ele escapou”. Então ela pensou rápido, certificou-se de que não havia ninguém observando, e disparou com seu fêiser na tranca metálica do portão principal, o suficiente apenas para aquecê-la a ponto de dificultar a saída dos baomates. Com isso, ela ganhou algum tempo e foi capaz de seguir o sinal de Da’Far, interceptando-o na face norte da muralha, onde, habilmente, ele descia por uma corda.

– É uma satisfação vê-lo, subcomandante. – Disse Shion, auxiliando-o no final da descida. – Mas é imperativo que deixemos este lugar imediatamente.

– De acordo, senhor. – Assentiu Da’Far, e os dois começaram a correr, constantemente monitorando o tricorder para garantir que estavam se distanciando dos perseguidores e dos curiosos que estavam acordando e espiando a movimentação de suas janelas. Assim, levaram mais tempo para retornar ao ponto onde o médico estava, tendo que percorrer um caminho consideravelmente maior do que o que Shion percorrera inicialmente.

– Devo admitir que os senhores me surpreenderam. – Falou Horvat aos colegas, quando eles entraram na casa. – Acreditei que essa operação de resgate seria um desafio muito maior, e que a esta altura possivelmente estaríamos cercados de baomates enfurecidos.

– Todo crédito ao senhor Da’Far. – Disse Shion, apontando para o chimarrita. – Ele empreendeu fuga completamente sozinho. Tudo o que eu fiz foi bloquear o portão principal para atrasar a saída do grupo de perseguidores.

– A prisão deles era ineficiente, não foi difícil escapar. – Explicou Da’Far. – Eles me puseram em uma pequena cela provisória, onde havia um penico, uma pequena cama de madeira, um copo e uma colher. Eles nem sequer me tomaram o cinto! Isso foi suficiente para que eu conseguisse arrombar a tranca da cela, tão logo o carcereiro deixou a sala para se juntar aos seus compatriotas inflamados. Depois, neutralizei dois guardas para ter acesso a outra sala, na qual obtive uma corda e recuperei meu comunicador e meu fêiser, que logo em seguida utilizei para cortar o gradil de uma janela, possibilitando uma fuga pelo parapeito.

Horvat e Shion se entreolharam espantados, mas logo a euforia gerada pela adrenalina do resgate e pelo relato de Da’Far diminuiu, tornando-se minúscula diante do imenso problema que permanecia sem solução. Ao ser informado da iminente mudança de estação gravitacional que o planeta sofreria dentro das próximas horas, culminando na morte de todos, o chefe de segurança apenas respirou fundo e disse:

– Se nossa única esperança é o resgate, sugiro que concentremos nossos esforços em auxiliar o grupo avançado que está no hemisfério norte. Eles carregam mais instrumentos com componentes úteis para construção de um emissor de sinal de socorro de longo alcance, além e estarem numa posição que aumentaria a eficiência do sinal.

– De acordo. – Disse Shion. – Execute.

Utilizando os comunicadores, os três, além e todos os demais tripulantes que estavam no planeta, mantiveram contato com o grupo avançado no hemisfério norte, cada qual contribuindo com conhecimento e ideias para improvisar um emissor de emergência que fosse potente o suficiente para contatar a USS Iguaçu. No entanto, a tarefa parecia mais difícil a cada minuto, pois definitivamente não haviam todas as peças e nem mesmo as ferramentas necessárias para concretizar o feito.

– Minha cabeça está doendo. – Disse Shion, recostando-se em um armário.

– A minha também, e infelizmente não é apenas pelo estresse de tentar realizar uma tarefa impossível. – Disse Horvat, com uma expressão de dor e cansaço. – De fato, já estamos sentindo os primeiros sinais da alteração gravitacional. Acredito que não levará mais do que uma hora, talvez uma hora e meia, até que este planeta se torne fatal para nós.

– Shion para grupos avançados. – Chamou Shion, tocando em seu comunicador. – Não temos muito tempo, mas peço que continuem tentando até o fim. Enquanto este planeta não esmagar meus pulmões, não desistirei e nem farei discurso de despedida.

– Isso não será necessário, comandante! – Disse Da’Far, que estava utilizando um tricorder para monitorar as variações na atmosfera do planeta. – Uma nave acaba de sair de dobra na órbita do planeta. É a Iguaçu.

Horvat e Shion sorriram aliviados.

Vernon para comandante Shion.— Ouviu-se a voz do capitão pelo comunicador da primeiro oficial. – Como vocês estão?

– Vivos e bem, senhor, por enquanto. – Respondeu ela. – Mas por favor, nos tire daqui!

Mais tarde, na segurança da sala de reuniões da USS Iguaçu, Shion e os demais oficiais graduados observaram atentamente a alteração gravitacional que ocorria no planeta, bem como as impressionantes adaptações das formas de vida nativas ao fenômeno. Foi esclarecido que a nave retornou mais cedo do estudo da singularidade gravitacional em decorrência de uma recomendação da comandante Chelaar, que identificou possíveis desdobramentos do fenômeno nos sistemas estelares vizinhos, assumindo que eles poderiam acarretar consequências severas para os grupos avançados presentes no planeta. Não imaginavam, no entanto, que tal evento fosse periódico e parte importante do ecossistema nativo e da sociedade baomate, fato este que proporcionou mais dois dias de estudos excitantes e sem precedentes, antes que a nave partisse novamente em sua rota pela galáxia de Cão Maior.