“Diário do capitão, data estelar 118332. Este é o último dos quatorze dias viajando em força de impulso pelo território dos brasilanos, uma espécie tecnologicamente limitada, cuja sociedade está alicerçada na burocracia e nos mecanismos de controle e padronização do comportamento. No melhor intuito de estabelecer boas relações com eles, submetemo-nos aos seus inúmeros procedimentos e regulamentos enfadonhos em troca de permissão para mapear, com restrições, os quatro sistemas estelares sob seu controle”.

Durante a inspeção alfandegária final, na fronteira do território brasilano, uma boa parte da tripulação estava de folga, pois a USS Iguaçu ficaria retida durante muitas horas até que fossem satisfeitas todas as incontáveis exigências burocráticas que autorizariam a nave a deixar o sistema. Aqueles envolvidos diretamente no cumprimento desses regulamentos estavam trabalhando copiosamente, mantendo, acima de tudo, a paciência. O próprio Emilian Hashimoto afirmou que, em todos os seus anos na Frota Estelar, nunca havia lidado com uma espécie tão apaixonada por procedimentos e leis inúteis. Os demais tripulantes, dispensados desse enfadonho dever, aproveitaram o tempo de folga para descansar e/ou ter algumas horas de lazer no bar panorâmico ou no holodeck, onde estava acontecendo um torneio de bocha, organizado pelo pessoal de operações.

— USS Iguaçu NCC-90D02, em cumprimento às determinações dos artigos 3, parágrafo 7, e artigo 4, parágrafos 1 a 8, do Edito Transitório de Estrangeiros, informe se as exigências para sondagem de verificação potencial foram atendidas. – Disse o alienígena chefe do posto fiscal brasilano, cuja imagem era projetada na tela principal da ponte de comando. Ele tinha o pescoço comprido e a cabeça desproporcionalmente achatada, assim como olhos miúdos e dentes pontiagudos.

— O alinhamento angular dos motores de impulso está nos parâmetros exigidos para sondagem de verificação. – Informou Shion, comandando a ponte na ausência de Vernon.

O capitão havia se dirigido à enfermaria há cerca de uma hora, juntamente com a subtenente Barsotti e Yeong-Hui, pois o tenente Awl (cuja recuperação estava supreendentemente adiantada) seria trazido à consciência pela primeira vez desde o incidente com os sádicos.

— Antes de iniciarmos a sondagem, eu gostaria de lembra-los que, segundo o artigo 27, parágrafo único, é imprescindível desativar todos os moduladores núcleo-térmicos presentes nas seções adjacentes aos motores. – Disse o alienígena, contraindo seus lábios ásperos e esverdeados como sua pele.

Shion se controlou para não revirar os olhos.

— Não temos esse tipo de tecnologia em nossa nave, senhor fiscal. – Disse ela. – Pode iniciar a sondagem imediatamente, se desejar.

— Certo, assim que obtivermos liberação superior nos formulários de checagem. – Disse o alienígena, fazendo um gesto para um de seus colegas, que veio até ele com um PADD em formato de losango. – Nuinn desliga.

— Talvez nós possamos sintetizar alguns moduladores núcleo-térmicos, se isso os deixa felizes. – Disse Chelaar – Deve existir algum modelo nos bancos de dados do museu da Frota. – Ela riu, balançando a cabeça. – Essas coisas não fazem mais parte dos projetos de naves estelares há mais de 100 anos.

— Se eu soubesse que isso eliminaria algumas etapas de checagem e verificações aduaneiras, autorizaria a produção de moduladores suficientes para encher cada corredor da Iguaçu. – Concordou Shion, sorrindo.

— Segundo o Edito Transitório de Estrangeiros, em seu anexo 147, parágrafo 18, toda nave em verificação emigratória que produzir, sintetizar ou receber novos componentes de engenharia deve se submeter a um conjunto de sondagens comparativas e a uma aferição estrutural completa. – Comentou Nhefé, displicente. – Sendo assim, nossa estadia neste posto fiscal se estenderia por pelo menos mais doze horas.

— Nesse caso, vou pessoalmente garantir que o comandante Hashimoto não sintetize nem mesmo um único parafuso enquanto estamos aqui. – Disse Shion.

— Capitão na ponte. – Falou Da’Far, anunciando o retorno de Vernon.

— À vontade. – Disse o capitão, dirigindo-se para sua cadeira.

— Como está o subtenente Awl? – Perguntou Shion.

— Espantosamente bem, para alguém que passou por tamanha atrocidade. – Começou Vernon. – Quando ele abriu os olhos, a primeira coisa que fez foi sorrir, percebendo que Yeong-Hui e Barsotti estavam bem. – Todos os tripulantes da ponte prestavam atenção ao que ele dizia, compadecidos de seu colega na enfermaria. – Tenho certeza que, de agora em diante, sua recuperação será ainda mais rápida.

— A presença de Awl será muito importante para Yeong-Hui. – Disse Barsotti, do posto de comunicações. – Os miresitas possuem uma vontade de viver e um pensamento positivo incomparáveis.

— Quando poderemos visita-lo? – Perguntou Kwa.

— O doutor Horvat disse que ele já está apto a receber visitas, desde que elas não interfiram nos seus horários de repouso. – Respondeu o capitão. – E, dentro de três ou quatro dias, é certo que poderá voltar para seus próprios aposentos.

— Permissão para organizar uma pequena festa surpresa ao estilo tradicional miresita, para quando ele receber alta. – Pediu Kwa.

— Permissão concedida, alferes. – Disse Vernon. – Mas procure o doutor Horvat antes de planejar qualquer coisa, pois o número de convidados e demais características da festa deverão respeitar os limites estabelecidos por ele.

— Sim, senhor. – Disse Kwa, sorrindo. – Obrigada, senhor.

Uma vez que as preocupações dos tripulantes em relação ao subtenente Awl se converteram em esperança e otimismo, o capitão Vernon respirou fundo, recostando-se em sua cadeira.

— E quanto a nossa saída do espaço brasilano? – Perguntou ele. – Como estão os procedimentos aduaneiros?

— Tivemos que remodular todos os micro inversores auxiliares das naceles, pois os sensores do posto fiscal não estavam conseguindo executar varreduras em busca de emissões residuais de radiação teta. – Respondeu Shion, balançando a cabeça.

— Radiação teta? – Repetiu Vernon, perplexo. – O que eles acham que somos, uma balsa espacial cheia de lixo?

— Procedimento padrão, eles disseram. – Comentou Rose, entediado.

— Foi a primeira vez que eu vi o comandante Hashimoto trabalhando sem empolgação. – Disse Nhefé, esboçando um sorriso.

— Quando eu lhe pus a par da situação, Hashimoto disse que nós é que deveríamos inspecionar as naves deles, e não o contrário. – Acrescentou Shion. – Segundo ele, a Iguaçu é mais limpa do que toda a frota brasilana.

— Acho que nunca conheci um engenheiro-chefe que não tomasse para si as dores de sua nave. – Disse Vernon. – Mas em breve estaremos fora deste sistema e ele finalmente poderá implementar os aprimoramentos no sistema de comunicações que recebemos dos moranitas. – Ele sorriu, inclinando-se para Nhefé. – Tenho certeza que isso trará sua empolgação de volta.

— Tenho certeza que sim, capitão. – Concordou o conselheiro. – De fato, todos respiraremos um ar mais puro quando finalmente deixarmos essa atmosfera carregada de burocracia inútil.

— Bem lembrado, conselheiro. – Disse o capitão, fazendo um muxoxo. – Preciso preencher um pouco de burocracia inútil enviada pelo ministro alfandegário. – Ele se levantou. – Estarei em meu gabinete. Imediato, a ponte é sua.

Shion assentiu, assumindo novamente o comando da ponte.

— Capitão. – Chamou Da’Far. – Se me permitir, gostaria de discutir um assunto da segurança com o senhor.

— Certamente, comandante. – Respondeu o capitão. – Acompanhe-me.

Os dois entraram no gabinete do capitão, que ficava atrás da ponte. A sala era pequena e tinha um formato trapezoidal, mas era confortável e bem organizada, com uma mesa em L, algumas cadeiras e uma prateleira na parede mais estreita.

— O que deseja discutir, senhor Da’Far? – Perguntou o capitão, sentando na cadeira atrás da mesa em L e tocando na tela de um dos monitores.

— Tenho refletido muito desde o incidente com os sádicos. – Respondeu o chimarrita, sentando-se na cadeira em frente à mesa do capitão. – Nunca precisei lidar com uma espécie tão repulsiva quanto eles e, francamente, gostaria de nunca mais encontrá-los.

— Este é um pensamento compartilhado por toda a tripulação, inclusive por mim. – Concordou Vernon.

— No entanto, precisamos considerar seriamente a possibilidade de que voltaremos a confrontá-los em algum momento de nossa jornada e, nesse caso, é imperativo que estejamos preparados. – Continuou Da’Far. – Elaborei alguns treinamentos com base no pouco que sabemos sobre os sádicos, mas não estou satisfeito. Eles demonstraram ser uma raça cruel e imprevisível, e nós devemos refinar não apenas nossas habilidades táticas, mas também reforçar nosso psicológico. – Ele inclinou-se, colocando os braços sobre a mesa. – Por esse motivo, peço permissão para iniciar um treinamento mais severo, inicialmente com o pessoal da segurança, estendendo gradativamente aos demais tripulantes.

— E no que consistiria esse treinamento, comandante. – Perguntou o capitão Vernon, levantando uma sobrancelha.

— Raríssimas são as civilizações, incluindo a minha, que não possuem, ao longo de sua história, os chamados “assassinos em série”, ou “psicopatas”. – Explicou Da’Far. – E, pelo que posso presumir, o comportamento dessas pessoas é o que mais se assemelha ao dos sádicos.

— É uma comparação válida. – Disse o capitão. – E o que propões que façamos?

— Enquanto ponderava sobre novos métodos para o treinamento psicológico de minha equipe, lembrei-me que o tenente Rose, à época que servíamos juntos na Araucária, costumava utilizar um programa de holodeck no qual desvendava crimes cometidos por assassinos em série. – Começou Da’Far. – Esse programa continha o perfil de milhares de criminosos de várias espécies diferentes que, em suas respectivas épocas, chocaram os mundos onde viviam com sua perversidade e seus feitos macabros. – Ele recostou-se novamente na cadeira. – Eu confirmei que o programa está no banco de dados do nosso holodeck, e creio que seria possível editá-lo para que passasse a ser um programa de treinamento onde poderíamos enfrentar adversários tão imprevisíveis e desumanos quanto os sádicos.

— Seria um treinamento pesado, para se dizer o mínimo. – Disse Vernon. – E, antes de autorizá-lo, gostaria de discutir os detalhes com o doutor Horvat e o terapeuta Rah’r. Não me agrada a ideia de sobrecarregar a tripulação com o fardo de um treinamento de estresse extremo diante de psicopatas e assassinos.

— E quanto a minha equipe? – Insistiu Da’Far. – Alguns deles estão aptos para este tipo de treinamento. – Ele apoiou o braço direito sobre a mesa. – Sei que pode parecer uma solução drástica, mas se capacitarmos alguns tripulantes para situações como essas, eles estarão preparados para agir com mais acerto, protegendo os colegas e transmitindo segurança psicológica.

O capitão ponderou por um momento, olhando nos olhos de Da’Far.

— Tomarei minha decisão assim que deixarmos o território brasilano. – Disse ele, por fim. – Enquanto isso, o senhor tem permissão para iniciar as modificações no programa do tenente Rose. Dispensado.

Após um considerável atraso na inspeção aduaneira, causado pela ineficiência dos equipamentos do posto fiscal, os quais eram incapazes de converter e decodificar as informações transferidas pelo computador principal da USS Iguaçu, a nave finalmente deixou o espaço brasilano. Embora as duas semanas tenham sido um período tedioso para muitos tripulantes, vários estudos puderam ser feitos nos sistemas povoados por aquela espécie burocrata, e os mapas estelares recebidos ao final da jornada foram anexados ao banco de dados da astrometria, permitindo a otimização da rota a ser seguida dali em diante, a fim de evitar sistemas estelares desinteressantes.

— A astrometria recomendou um percurso simples, indo diretamente para a região que os brasilanos chamam de “zona diferenciada”. – Explicou Chelaar, na ponte, comunicando os resultados da sincronização dos dados. – Todavia, há uma nebulosa instável há menos de cinco anos luz dessa rota. Os brasilanos a definiram como “altamente instável, incompreensível e perigosa”, e eu gostaria de estudá-la.

— É o tipo de coisa que atrai a atenção de qualquer cientista. – Concordou Shion. – E, afinal de contas, estamos aqui para explorar o desconhecido, não estamos?

— De acordo. – Disse o capitão Vernon. – Marque um curso para a nebulosa, dobra 7.

— Sim, senhor. – Disse o tripulante que estava no leme, substituindo a alferes Kwa. A miresita havia deixado a ponte mais cedo, sofrendo de um repentino ataque alérgico causado por variações hormonais. Esse tipo de alergia era comum à sua espécie, mas exigia cuidados médicos precoces ou se estenderia por vários dias.

— Subcomandante Da’Far, o senhor e o tenente Rose têm minha autorização para trabalharem naquele novo treinamento enquanto estudamos a nebulosa. – Disse Vernon.

— Começaremos agora mesmo, senhor. – Disse Da’Far, satisfeito, deixando seu posto e fazendo um gesto para que Rose o seguisse.

Os dois rumaram para o holodeck, discutindo as alterações no programa que já haviam sido feitas pelo chefe de segurança. No caminho, encontraram a alferes Kwa, que havia saído da enfermaria há poucos minutos e se dirigia aos seus aposentos, parecendo um pouco aborrecida.

— Como está a alergia, alferes? – Perguntou Rose, pondo-se ao lado da colega, pois caminhavam na mesma direção.

— Apenas alguns espirros ocasionais e um zumbido no ouvido. – Respondeu ela. – O doutor me deu um remédio, mas pediu que eu permanecesse afastada dos deveres por hoje.

— Você não parece contente com isso. – Comentou Da’Far.

Kwa deu os ombros e fez um muxoxo.

— Eu me sinto apta a pilotar. – Disse ela. – E, depois de tantos dias viajando em velocidade de impulso pelo território brasilano, tudo o que eu quero é sentir o vento em minhas orelhas, se é que me entendem.

— Com certeza. – Concordou Rose e, após um breve silêncio, decidiu que havia uma forma de levantar o astral da miresita. – Da’Far e eu estamos indo ao holodeck para trabalhar em um novo treinamento, gostaria de vir conosco?

— É claro que sim! – Sorriu ela.

Não demorou muito para que os três chegassem ao holodeck e iniciassem o programa modificado por Da’Far.

— Eu reescrevi os parâmetros de localização para simular naves de configuração interna aleatória. – Explicou o chefe de segurança. – Isso permitirá que cada sessão de treinamento tenha desafios imprevisíveis, exigindo raciocínio rápido e capacidade de improvisação.

— O ambiente foi projetado para causar distrações e chocar os usuários. – Acrescentou Rose. – Para isso, inserimos um grande número de elementos macabros e repulsivos, baseados nas informações que pudemos obter do comportamento dos sádicos.

— Vai ser um treinamento traumatizante. – Disse Kwa.

O tenente Rose assentiu.

— Computador, iniciar simulação de treinamento Sinel S-12, localização inicial: calabouço. – Disse o chefe de segurança em voz alta.

No mesmo instante, o cenário de uma grande cela foi projetado ao redor deles. A luminosidade baixa e uma névoa esverdeada, somadas aos vários corpos mutilados pendurados nas paredes, criava uma atmosfera de tensão e terror. Impressionada pelo realismo visceral do ambiente, Kwa se arrepiou ao ouvir um gemido distante, como se alguém estivesse sofrendo uma tortura agoniante.

— Todos teremos que passar por esse treinamento? – Perguntou ela, com os olhos arregalados.

— Num primeiro momento, ele será obrigatório apenas para alguns oficiais de segurança e operações. – Respondeu Da’Far. – Mas o capitão permitiu que eu estendesse o treinamento a qualquer um que o quisesse fazer de forma voluntária.

— Entendo. – Disse Kwa, sem demonstrar empolgação. – E como serão os sádicos? Achei que não tínhamos conhecimento suficiente sobre eles para simular uma versão holográfica satisfatória.

— De fato, nosso conhecimento sobre eles é limitado. – Respondeu Da’Far. – E é aí que entra o banco de dados do programa de investigação de crimes do tenente Rose.

— Nele há a informação completa e vetorizada de mais de quatro mil assassinos em série, psicopatas e criminosos brutais de toda a Federação e de vários outros mundos conhecidos. – Acrescentou Rose, fazendo um gesto com as duas mãos. – Da’Far e eu pretendemos utilizar essas figuras históricas como parâmetro, integrando suas rotinas de comportamento a personagens que simulem os sádicos. Assim, indivíduos que cometiam suas atrocidades individualmente, passarão a interagir entre si em naves como esta, como se fossem uma tripulação de pessoas visando o interesse mútuo de cometer crimes horrendos e abjetos.

— Pretendemos que nossa equipe se acostume com a visão desse tipo de cenário, possibilitando que assumam o controle em situações de perigo e mantenham o foco, inclusive tranquilizando os colegas. – Explicou Da’Far.

— Não é fácil fazer com alguém se acostume com ambientes assim. – Disse Kwa, dando sua opinião sincera em relação ao programa que estava sendo desenvolvido. – Quanto mais se manter tranquilo.

Da’Far não se abalou.

— Para mim, é quase inconcebível a existência de uma espécie como a dos sádicos, pois em Me’Chi não há sequer registros de criminosos do tipo psicopata e assassino em série. – Disse o chefe de segurança. – Mas, mesmo assim, com o devido treinamento, sou capaz de racionalizar esse tipo de comportamento e manter a clareza em meus pensamentos numa situação de estresse, maximizando minhas chances de sobrevivência e daqueles sob minha proteção.

— O subcomandante Da’Far está correto. – Apoiou Rose. – E, quando nos referimos a tranquilizar alguém, é sobre ter a segurança de estar na presença de um colega que está capacitado para tomar conta daquela situação. Exatamente o tipo de segurança que sentimos quando você está no leme.

— Eu entendo. – Concordou Kwa, sentindo-se grata pelo elogio recebido e compreendendo que, mesmo em uma situação de extrema dificuldade, é possível se sentir seguro quando há alguém em quem depositar as esperanças. – Então o próximo passo é integrar o perfil desses milhares de assassinos ao programa modificado pelo subcomandante Da’Far?

— Não exatamente. – Disse Rose. – Nem todos os criminosos do meu programa possuem um perfil compatível com as diretrizes do treinamento, e eu nem mesmo conheço todos eles, por isso teremos que fazer uma seleção prévia.

— Sabe sobre algum miresita que tenha cometido crimes desse gênero? – Perguntou Da’Far a Kwa.

— Eu sei que no passado haviam pessoas assim em Mir. – Respondeu Kwa. – A mais famosa é Bsew, é claro, pois atribuem a ela a origem da crença de que nomes com sete letras ou mais dão azar.

— O que ela fez? – Perguntou Rose.

— Foi há mais de quatrocentos anos, em uma das antigas províncias meridionais do planeta. – Explicou Kwa. – Ela matou brutalmente e canibalizou sete pessoas cujos nomes tinham entre sete e dez letras. Seus crimes aterrorizaram a província inteira, demandando uma caçada sem precedentes e, quando finalmente a encontraram, ela estava vestindo uma roupa tenebrosa, feita com a pele de suas vítimas. Ninguém jamais descobriu de onde ela havia surgido ou quem era sua família, pois tudo que ela dizia é que nomes longos a deixavam com muito ódio e que eles deveriam ser purgados.

— É estranho dizer isso, mas esse é o tipo de indivíduo que estamos procurando. – Disse Rose. – Computador, a personagem Bsew está no banco de dados?

— Afirmativo. – Respondeu a voz do computador.

— Carregar personagem. – Ordenou Rose.

Uma miresita alta, com olhar profundo e rosto muito magro, apareceu diante deles, estática. Kwa instintivamente recuou alguns centímetros, conhecendo a imagem da infame conterrânea, mas Da’Far e Rose não se impressionaram tanto.

— Vejo que você já selecionou alguns outros nomes. – Comentou Da’Far, consultando uma lista em seu PADD.

— Sim, oito dos assassinos cujos crimes eu investiguei no programa original. – Disse Rose. – Carregar personagens Rose-C0.

Oito pessoas holográficas apareceram ao redor de Bsew, muitos com olhares ameaçadores e expressões perturbadoras em seus rostos.

— A maioria deles é humano. – Comentou o chefe de segurança. – José Ramos, Alana Maëlle Puga. – Ele deu uma olhada de perto em outro deles, mais ao fundo. – Por que este aqui está carregando uma lanterna primitiva?

— É um criminoso que viveu na terra há séculos. – Respondeu Rose. – Ele costumava portar uma luz vermelha enquanto invadia a casa de suas vítimas, causando pânico e terror antes de cometer o crime.

— Este zakdorn eu conheço. – Disse Da’Far, aproximando-se de outro personagem. – É um dos irmãos Dolrathuc, não é?

— Exatamente, é o mais novo dos três. – Confirmou Rose. – O piromaníaco que incendiou a colônia da Federação na lua de Zorkherom VIII.

— Acho que seria interessante executarmos um teste de integração com estes indivíduos. – Sugeriu Da’Far. – Assim, teremos um parâmetro de seu comportamento em grupo e...

Um poderoso estrondo, seguido de um som agudo e desagradável, estremeceu a USS Iguaçu da engenharia à ponte de comando. Por um instante, os amortecedores inerciais falharam, desequilibrando momentaneamente os três tripulantes no holodeck.

— O que foi isso? – Perguntou Kwa, adotando uma postura alerta.

Vernon para Da’Far e Rose.— Ouviu-se a voz do capitão. – Apresentem-se à ponte.

— A caminho. – Respondeu Da’Far.

— Computador, mostrar saída e encerrar simulação. – Ordenou Rose.

A porta de saída do holodeck apareceu na parede ao lado deles, mas a simulação se manteve intacta.

— Fechar programa. – Ordenou Da’Far, já deixando o holodeck, apressado.

A simulação continuou em execução, ignorando o comando verbal do tenente comandante.

— Da’Far para engenharia. O holodeck está apresentando problemas. – Disse ele, tocando seu comunicador. – O programa que eu estava executando travou e não aceita comandos de encerramento.

Hashimoto falando.— Ouviu-se a voz do chefe de engenharia. – Mandarei uma equipe de reparos assim que entendermos o que houve aqui embaixo.

Notando que havia sido iniciado um alerta amarelo e entendendo que haviam problemas maiores em andamento, Da’Far e Rose seguiram imediatamente para a ponte, enquanto Kwa, frustrada por estar dispensada dos seus afazeres, rumou para seus aposentos.

— O que houve? – Perguntou o tenente Rose, assim que pôs os pés na ponte.

— Nós batemos. – Disse o capitão Vernon.

— Aproximávamo-nos da nebulosa instável quando fomos surpreendidos por uma cascata de tétrions, o que nos obrigou a mudar de curso. – Explicou Chelaar, vendo a expressão de confusão no rosto dos colegas recém-chegados. – Instantes depois, colidimos com o que parece ser uma barreira subespacial hiperenergizada.

— Metade da nave está presa nessa singularidade, impedindo a formação de um campo de dobra estável. – Completou Shion. – E os motores de impulso foram danificados no impacto, deixando-nos completamente encalhados.

Assim que a primeiro oficial terminou a frase, as luzes se apagaram e, quando reacenderam, estavam amareladas e tremeluzentes.

— Ponte para engenharia. – Chamou o capitão. – Hashimoto, o que houve com a iluminação?

Não sei dizer, capitão.— Ouviu-se a voz do engenheiro-chefe. – Deveria ser impossível que as luzes principais brilhassem amareladas, afinal são todas de hassium-lux.

— Comandante, os sensores captam uma considerável dispersão de energia fotônica originária na singularidade. – Informou Chelaar. – É possível que isso esteja interferindo com a iluminação da nave.

— Não parece ser um problema grave, então designe alguém de sua equipe para trabalhar nisso, comandante Hashimoto. – Disse o capitão. – Sua prioridade é colocar o motor de impulso em funcionamento.

Certamente, capitão.— Disse o engenheiro-chefe. – Teremos o motor operacional em três horas. Hashimoto desliga.

Durante mais de uma hora, as equipes de ciências e engenharia trabalharam nos diversos problemas surgidos após o impacto com a singularidade, chegando à conclusão que a maioria deles estava sendo agravado pela enorme quantidade de energia fotônica que impregnava a nave.

— Capitão, a segurança está reportando o surgimento de elementos estranhos por toda a nave. – Informou Da’Far, recebendo um relatório em seu computador.

— Que tipo de elementos, comandante? – Perguntou Vernon.

— A lista é extensa, senhor. – Respondeu Da’Far. – Os mais comuns são pilhas ossos, bancos de metal e correntes, além de grades de metal, que estão bloqueando alguns corredores e acessos. – Ele entendeu o que estava acontecendo. – São compatíveis com os itens de cenário que inseri no programa de treinamento em que trabalhávamos.

O capitão levantou as sobrancelhas, espantado.

— E qual é a razão para essas coisas estarem fora do holodeck? – Perguntou ele.

— Acho que sei a resposta, senhor. – Informou Chelaar. – As emissões de energia fotônica da singularidade estão convergindo para o nosso holodeck, reproduzindo elementos do programa que está atualmente em execução e gerando um fluxo denso o suficiente para transformar a nave inteira em uma enorme holodeck.

— Encerre o programa. – Ordenou Shion.

— Temo que isso não seja tão simples, senhor. – Informou Rose. – Da’Far e eu tentamos fechar o programa antes de voltarmos à ponte, mas o computador não obedeceu.

— Rose está correto. – Concordou Chelaar. – Os controles estão travados, possivelmente em decorrência da sobrecarga de fótons. Creio que nem mesmo uma intervenção manual seria suficiente para desliga-lo nesse momento.

— Então precisamos nos libertar dessa singularidade antes que a nave se transforme no programa de treinamento do senhor Da’Far. – Disse o capitão Vernon.

A luz se apagou novamente, demorando vários segundos para reacender.

Engenharia para ponte.— Ouviu-se a voz de Hashimoto. – Acabamos de deter um zakdorn tentando provocar um incêndio nos conduítes de plasma da seção 22-f.

— Não temos nenhum zakdorn a bordo. – Estranhou Nhefé.

Rose e Da’Far se entreolharam.

— Capitão, é possível que esse indivíduo seja uma projeção holográfica de um dos criminosos do nosso programa de treinamento. – Disse Da’Far. – Tínhamos carregado nove personagens antes de deixarmos o holodeck.

— Uma vez que temos nove assassinos em série holográficos soltos a bordo e um deles já foi detido prestes a cometer um ato de sabotagem, devemos assumir que as salvaguardas de segurança do holodeck não estão ativas no restante da nave. – Disse o conselheiro Nhefé.

— Alerta vermelho. – Disse o capitão. – Aqui fala o capitão Vernon. Temos nove indivíduos potencialmente perigosos espalhados pela nave. Quero todos os seguranças disponíveis posicionados nos setores críticos e pontos com maior aglomeração de pessoas, e toda a tripulação não essencial deve se manter em seus aposentos até segunda ordem. Vernon desliga.

— Permissão para deixar a ponte. – Pediu Da’Far. – Gostaria de liderar a segurança pessoalmente.

— Permissão para acompanhar o subcomandante Da’Far. – Pediu Rose, virando-se para o capitão.

— Concedido. – Disse Vernon. – Descubram onde estão esses personagens e os eliminem. Chelaar, quero que trabalhe com Hashimoto numa forma de controlar a situação sem dependermos dos motores.

— Sim, senhor. – Disse Chelaar.

Da’Far e Rose deixaram a ponte com os fêiseres em punho. O chefe de segurança decidiu que era necessário averiguar se todos os nove personagens haviam efetivamente deixado o holodeck, tendo em vista que era impossível rastreá-los devido à sua natureza holográfica. Enquanto caminhavam, ele distribuiu orientações à sua equipe, determinando que fosse confirmada a localização e situação de cada um dos duzentos e onze tripulantes. O caminho até o holodeck foi mais longo do que de costume, pois muitas sessões estavam bloqueadas por grades de ferro holográficas, sendo necessário contorná-las.

— Se os fêiseres não surtem efeito nessas grades e elementos de cenário, devemos supor que não causarão dano aos personagens. – Disse Da’Far, diante da porta aberta do holodeck. – Precisamos remodulá-los para que emitam uma frequência capaz de dispersar a energia que compõe os hologramas, caso contrário, teremos que detê-los com força física, como fizeram na engenharia.

Gravil para comandante Da’Far. — Ouviu-se a voz de um dos oficiais de segurança. – Concluí o relatório da tripulação.

— Estou ouvindo, tenente. – Disse Da’Far.

Dois tripulantes não responderam ao chamado: Cashas e Kwa.— Informou Gravil. – Conseguimos localizar os biosinais de Cashas em um corredor do deque 12. Estão estáveis, mas tememos que ela possa estar sendo feita prisioneira por um dos hologramas. Tivemos que usar força física para prender um deles na enfermaria, os fêiseres não tiveram efeito.

— E a tenente Kwa? – Perguntou Rose, preocupado.

Segundo os scanners, ela não está a bordo.— Respondeu Gravil. – O sinal de seu comunicador desapareceu.

— Ela pode estar no holodeck. – Disse Da’Far, olhando para Rose. – Tenente Gravil, oriente a todos que remodulem os fêiseres com base nas configurações que vou lhe transmitir agora e continue monitorando a situação com cuidado. Ainda temos sete criminosos holográficos à solta.

Sim, senhor.— Disse Gravil. – Mandarei reforços para sua posição.

— Não podemos esperar os reforços. – Disse Rose, em tom de urgência. – Precisamos entrar no holodeck imediatamente, não sabemos qual é a situação da tenente Kwa.

— De acordo. – Disse o chefe de segurança. – Gravil, Rose e eu entraremos primeiro, peça que os demais nos sigam assim que possível. Da’Far desliga.

Os dois adentraram no ambiente nefasto do programa de treinamento que estava em execução no holodeck, vendo-se num escuro calabouço repleto de ossos e manchas de sangue. Da’Far se abaixou e pegou uma barra de metal ligada a um pedaço de corrente, assumindo uma postura de combate e tomando a dianteira, a fim de que Rose pudesse se concentrar em remodular os fêiseres. Em meio aos sons metálicos e rangidos, eles seguiram silenciosamente por um corredor tortuoso, ladeado por celas cheias de prisioneiros holográficos que gemiam e imploravam por ajuda. Sem dizer nada, Da’Far chamou a atenção de Rose para uma mecha de cabelo que parecia lã de carneiro, caída diante de uma larga porta, manchada com ferrugem e óleo.

O chefe de segurança encostou sua cabeça na parte inferior da porta, no intuito de ouvir algum barulho e, em seguida, abriu-a cuidadosamente, assegurando-se de que não havia ninguém de tocaia do outro lado. Eles entraram em uma seção ampla, em quase completa escuridão, preenchida por diversas repartições e corredores estreitos, constituindo uma espécie de labirinto. Rose devolveu o fêiser de Da’Far, já reconfigurado com as especificações de dispersão fotônica, e no mesmo instante percebeu uma luz vermelha vinda do extremo oposto do corredor em que se encontravam.

— Você está aí, carneirinha? – Perguntou uma voz debochada. – Não adianta se esconder de mim, eu vou te achar e dessa vez não vou te deixar escapar, nem que eu tenha que cortar fora seus dois pés!

Rapidamente, Da’Far fez um gesto para que Rose se escondesse em uma das repartições sem porta, enquanto ele próprio daria a volta por outro corredor, de modo a encurralar o holograma que brandia sua lanterna de luz vermelha e chamava por Kwa.

— Carneirinha, cadê você? – Dizia ele, com a voz debochada e cheia de maldade.

Entendendo o plano de Da’Far, o tenente Rose deixou cair um pequeno instrumento metálico que jazia em uma mesa quadrada ao seu lado, atraindo a atenção do holograma.

— Então você está aí! – Exclamou o assassino, satisfeito, aproximando-se a passos largos da posição de Rose.

Menos de um segundo depois, o oficial tático ouviu o som de um disparo de fêiser, seguido de um gemido bizarro. Ele espiou para fora da repartição, vendo um homem que segurava uma lanterna de luz vermelha numa mão e um facão na outra. Sabendo que se tratava apenas de um holograma, Rose disparou contra ele utilizando a regulagem máxima, ao mesmo tempo em que Da’Far disparava pelo outro lado. Todavia, à medida em que era atingido, o holograma apenas ficava momentaneamente confuso e em seguida ainda mais irritado, gemendo e gritando ofensas incompreensíveis.

— Mantenha ele distraído, eu vou derrubá-lo! – Gritou Da’Far, impelindo-se na direção do assassino.

Pyrrhus Rose, acostumado com as táticas do chefe de segurança, lançou-se pelo corredor e disparou um tiro contínuo contra o peito do holograma, que urrou assustadoramente. Com grande velocidade e destreza, o chimarrita deu um golpe rasteiro no criminoso holográfico e o derrubou contra seu próprio corpo, tomando o facão de sua mão e atravessando seu peito na exata altura onde ficaria o coração de um ser humano de carne e osso. Como se o golpe tivesse causado um dano fatal, o holograma estremeceu, deixando cair sua lanterna e fechando os olhos lentamente.

— Sorte a nossa ele não ter ciência de sua real natureza, ou esse golpe seria inútil. – Comentou Rose, ajudando Da’Far a empurrar o corpo do criminoso, encharcado de sangue holográfico.

— Rose! Da’Far! – Ouviu-se a voz aflita de Kwa, vinda de uma repartição próxima deles.

Sem demora, os dois correram na direção da voz dela, encontrando-a encolhida sob uma mesa, tentando conter um sangramento que havia em seu abdome.

— Vai ficar tudo bem! – Disse Rose, examinando o ferimento e ajudando a estancar o sangue amarelado.

— Da’Far para enfermaria. – Disse ele, tocando o comunicador em seu peito. Não houve resposta.

— O holodeck é o ponto da nave com maior saturação de energia fotônica, isso deve estar interferindo com as comunicações. – Disse Rose, preocupado. – Vamos ter que carregá-la até a saída.

— De acordo. – Disse Da’Far, empunhando o facão. – Leve-a, eu darei cobertura.

— Sim, senhor. – Disse Rose, passando o braço delicadamente por baixo de Kwa e a levantando do chão.

Para o infortúnio deles, assim que abriram a porta que dava para o corredor localizado entre a seção onde estavam e o calabouço que levava à porta do holodeck, iniciou-se uma intensa troca de tiros entre alguns seguranças, entrincheirados na saída do calabouço, e três hologramas, posicionados no lado oposto do corredor. Os hologramas eram liderados por Bsew que, completamente transtornada, segurava a cabeça decapitada de um quarto holograma em uma mão e uma antiquada arma de fogo de repetição na outra, disparando rajadas contínuas na direção da equipe de segurança.

— Estamos encurralados! – Disse Rose, enquanto Da’Far fechava a porta. – Se pedirmos para que nosso pessoal suspenda o fogo, seríamos alvos fáceis para os hologramas e, sem as salvaguardas de segurança, aqueles tiros seriam fatais!

— Precisamos de pelo menos dez segundos se quisermos ir daqui até o calabouço carregando a alferes Kwa. – Disse Da’Far.

— Por que não explodem o corredor? – Sugeriu a miresita, com a voz trêmula. – Os fêiseres podem ser inúteis contra os personagens, mas a explosão provocada por uma sobrecarga deve ser capaz de interagir com a simulação o suficiente para derrubar as paredes.

— É possível que funcione! – Disse Da’Far, entregando seu fêiser para Rose. – Programe uma sobrecarga enquanto eu passo instruções para o grupo no calabouço.

— Sim, senhor. – Disse Rose, e sorriu para Kwa, que estava pálida e ofegante. – Vai dar tudo certo.

O chefe de segurança abriu uma fresta na porta e, em meio aos estampidos e gargalhadas dementes de Bsew, gritou instruções para seus subordinados, utilizando códigos que não seriam compreendidos pelos hologramas. Rose tornou a pegar Kwa em seus braços e, com um aceno de cabeça, devolveu o fêiser para Da’Far, que apertou o comando de sobrecarga, abriu a porta e o arremessou rente ao chão, na direção dos personagens holográficos. Dois segundos depois, o som de uma forte explosão, acompanhado de um tremor por toda a nave simulada, indicou que o plano havia funcionado.

Sem perder tempo, Da’Far abriu a porta para Rose, que se precipitou pelo corredor na direção da equipe de segurança, chegando são e salvo com Kwa em seus braços. A explosão havia derrubado boa parte da parede e do teto do corredor próximo aos hologramas, mas eles logo se recuperaram do susto e voltaram a disparar, acertando Da’Far na altura do ombro esquerdo.

— Subcomandante! – Gritou Rose, vendo Da’Far cair no interior do calabouço, enquanto os outros seguranças davam cobertura.

— Estou bem. – Disse Da’Far, levantando-se com uma expressão de muita dor. – Precisamos sair daqui para conseguir um transporte de emergência para a enfermaria.

Rose assentiu, saindo apressadamente pela porta que levava ao corredor da nave, à esta altura tão escuro e sinistro quanto a nave simulada no holodeck.

— Rose para enfermaria. – Disse o oficial tático, tocando em seu comunicador. – Transporte de emergência para dois, travar no comunicador do subcomandante Da’Far e da alferes Kwa.

Instantes depois, os dois foram transportados para a enfermaria, deixando Rose sozinho com a equipe de segurança, que agora recuava, mantendo os hologramas ocupados o suficiente para que pudessem lacrar o holodeck assim que o último tripulante saísse do calabouço.

— Rose para ponte. – Disse ele, tocando novamente em seu comunicador. – Temos a situação sob controle no holodeck. Da’Far e Kwa estão na enfermaria, possivelmente fora de risco.

Entendido, tenente.— Ouviu-se a voz do capitão Vernon, visivelmente aliviado. – Retorne à ponte assim que possível.

— Imediatamente, senhor. – Disse Rose, deixando a operação de fechamento do holodeck nas mãos da competente equipe de segurança.

Assim que chegou à ponte, Rose resumiu os acontecimentos recentes e foi informado que dois outros hologramas haviam sido capturados enquanto tentavam arrombar os aposentos de Cashas e da família de Pepe, o barman.

— Se minhas contas estiverem corretas, não deve mais haver nenhum holograma à solta. – Disse Rose. – Mas ainda temos o problema das projeções de cenários por toda a nave. Conseguiram fazer algum progresso?

— Em relação a desativar o holodeck ou as projeções externas, não há nada que possa ser feito. A dispersão fotônica é intensa demais. – Respondeu Chelaar. – A única alternativa é nos soltarmos dessa singularidade, mas os reparos do motor de impulso tiveram de ser suspensos após o surgimento de muros e grades por toda a engenharia.

— Pensamos em utilizar as naves auxiliares para nos rebocar, mas nossos cálculos indicam que os raios tratores não seriam fortes o suficiente. – Acrescentou Shion.

— Foi então que decidimos utilizar a formação de dobra de emergência. – Disse Vernon. – As naves auxiliares estão sendo posicionadas enquanto falamos.

As naves da classe Void possuíam quatro naves auxiliares capazes de velocidade de dobra, sendo as da USS Iguaçu chamadas de Amito, Camauro, Férula e Mozeta. Quando essas naves auxiliares eram acopladas a pontos específicos do casco e acionadas simultaneamente, mediante um protocolo específico, tornava-se possível a criação de um campo de dobra estável capaz de mover a nave em velocidade máxima de dobra 5. Esta operação era intitulada “formação de dobra de emergência”, e era extremamente útil em situações onde os motores principais sofriam avarias e não havia tempo hábil para consertá-los.

— Mas metade da Iguaçu está presa na singularidade. – Disse Rose. – Seria possível formar um campo de dobra completo?

— Nós vamos formar um campo parcial, utilizando apenas duas das quatro naves auxiliares. – Explicou Chelaar. – Hashimoto e eu acreditamos que se acionarmos os motores de dobra apenas por alguns segundos, seremos capazes de romper a ligação subespacial que nos prende à singularidade, sem provocar distúrbios ou deslocamentos quantificáveis.

— Ou partiremos a Iguaçu ao meio. – Disse Nhefé.

Rose respirou fundo, virando-se para seu monitor e guardando para si os questionamentos que vinham à sua mente. Tudo que ele precisava naquele momento era confiar nas habilidades de seus colegas, e ele tinha plena certeza de que Chelaar e Hashimoto eram capazes de tirá-los daquela situação em segurança.

Hashimoto para Vernon.— Ouviu-se a voz do engenheiro-chefe. – Naves posicionadas e prontas.

— Entendido, comandante. – Disse o capitão Vernon. – Acionar.

Um zunido metálico baixo ecoou por toda a nave, e as luzes se apagaram uma última vez, mas quando reacenderam, estavam brancas e fortes como haviam sido projetadas para ser.

Estamos livres da singularidade, capitão.— Informou Hashimoto. – Alguns elementos do cenário já desapareceram.

— Excelente. – Disse o capitão Vernon, ajeitando-se em sua cadeira. – Posicione as outras duas naves e inicie a formação de dobra de emergência completa. Quero a Iguaçu longe dessa singularidade o quanto antes.

Sim, senhor.— Disse o engenheiro-chefe.

“Diário do capitão, suplemento. Mesmo com hologramas de assassinos em série à solta pela nave, não tivemos nenhuma baixa, especialmente em razão da ação rápida e organizada de nossa equipe de segurança. A alferes Kwa e o subcomandante Da’Far passam bem, e não há mais nenhum elemento holográfico fora do holodeck. Após nos afastarmos da singularidade, ordenei o lançamento de algumas boias de sinalização para que outras naves não fossem pegas de surpresa pela barreira subespacial. Seguiremos viagem assim que os reparos nos sistemas de propulsão forem concluídos”.