Jornada
3 Parte 3
Sinto a palpável agitação quando a sonolência é substituída pela vontade de saltar, percorrendo o trem em uma onda elétrica. Olho pela janela, divisando os limites da cidade que em breve me acolherá. O devorador labirinto de vidro nos aguarda com uma majestosa indiferença. Mesmo sob a luminosidade ainda fraca, consigo admirar sua aparência com o característico misto de apreensão e respeito; como da primeira vez, sinto-me pequeno e comprimido, ao passo que encantado pela diversidade e, sobretudo, pelo volume infinito de informações. Tenho plena consciência de que vou sofrer. Sou muito sensível para aquele espaço, que demanda um amortecimento e uma alienação tão fundamentais quanto os calçados para a convivência pacífica com o entorno. É uma terra de filtros. No que se bebe, se respira, se assiste, se desperdiça, se consome, se prioriza, se mostra. A comunicação é sempre em luta com duas etapas, ou barreiras. Primeiro se fala, depois se diz. E então se escuta, e finalmente se ouve.
Levo tanto tempo assimilando tudo o que sinto lá que geralmente fico em silêncio.
O trem percorre um breve trecho junto às margens da cidade antes de invadi-la. As construções crescem perceptivelmente, com superfícies cada vez mais lisas e reflexivas. Os trajetos ondulam e desgarram do solo: uma teia de passagens em diversos níveis e sentidos, acima e abaixo do chão, o sistema de circulação de toda aquela terra. Veículos em alta velocidade não cessam, deslizando com agilidade. O nosso, vindo de fora, é nitidamente estrangeiro frente aos outros.
Uma nova sombra nos engole, feita de prédios altos e vias entrecruzadas em vários andares. Outro filtro, de luz. Lamento não ter contemplado melhor o céu quando tive a chance, em despedida.
Este é um espaço de penumbra. De luzes artificiais amenas e coloridas, mil vezes refletidas sobre quase tudo semelhante a um espelho. Felizmente, sou bom com ilusões.
A agitação é tanta que é impossível dizer que o trem parou. Os passageiros estão contaminados com um novo ritmo, tão diverso daquele da estação de onde partiram. Entro em uma correnteza que me conduz sem erro para fora, e me lança em um mar revolto e sem direção. Evito olhar ao redor; meu coração diz que o casal não vai mais se encontrar.
***
As passagens são estranhamente estreitas para um lugar tão grande e tão cheio. O comércio da estação avulta-se por todos os lados, como rochedos onde alguns pré-viajantes e pós-viajantes se agarram, pagando mais para repousarem que por necessidade de algum produto. Resisto a este mesmo impulso e vou rumo à saída, indicada por placas, mas sempre suficientemente longe de mim para que fuja por longos minutos.
O lado e for não é mais acolhedor. Se há menos passantes, há mais luzes e letreiros, férteis mesmo durante o dia por causa da penumbra. As ruas e calçadas são por vezes tão estreitas que os pedestres andam em fila, e a convivência com os veículos é bem íntima.
Preciso de um lugar para ficar. Um que eu possa pagar. Nenhum lugar próximo à estação central atende a esses dois simples requisitos.
Vou a uma estação de trens rápidos locais. Aproveito um mapa para escolher uma área que pareça plausível, não tão isolada, mas que possa ser menos valorizada. Estou ciente de que posso errar na escolha.
Observo com bastante atenção a maneira de se usar a máquina onde se compram as passagens; sei que qualquer demora nela causada por minha ignorância causará problemas no fluxo contínuo de passageiros – e prováveis problemas para mim. No quinto usuário, já estou mais ou menos confiante de que sei o que fazer. No sétimo, descubro que é possível comprar uma passagem que me permitirá viajar o dia inteiro sem precisar comprar de novo.
O único problema é que ninguém usou o dinheiro que eu tenho. Cada moeda entra na máquina por um orifício diferente. Estou desconfiado de um deles, já que poucos parecem propícios para a entrada de pedras.
Assumo o risco. Entro na fila. Passos rápidos e entrecortados. Minha vez chega logo. Sou pouco menos ágil do que os nativos. A pequena boca metálica aceita meu pagamento. Meu ticket vem para minha mão. Vitória.
Percebo a impaciência atrás de mim. Fui tão rápido! O que há? Dou-me conta de que levei alguns segundos contemplando meu bilhete. Saio da fila.
“Por que vocês usam pedras?”
Fico estúpido. Digerindo que é comigo que falam, e absorvendo o idioma – o da cidade, e o mesmo da presença saudosa do fim do trem.
“Consegue me entender?”
A segunda pergunta veio três segundos depois. Outro ritmo. Quando consigo responder, uma respiração mais funda já anunciava o começo de outra frase.
“Sim, eu consigo.” Digo rápido. “E usamos pedras porque são realmente valiosas. Umas mais, outras menos, quando são mais difíceis ou não de encontrar. Não podem ser feitas por nós, nem falsificadas.”
“Mas são pesadas.”
“Isso é bom. Carregar o peso de sua fortuna é um aprendizado.”
A expressão atenta e curiosa não se altera em absoluto. É como se eu nada dissesse.
“Elas são bonitas.” É o comentário final.
Penso em explicar que também a beleza tem um preço e um peso, mas mudo de ideia diante da inutilidade de tal comentário junto a tal diálogo. Digo então, apenas:
“Sou grato.”
E partimos juntos, sem despedida, ambos cientes de que não seria possível prosseguir.
Localizo meu veículo quando escolho minha primeira destinação: tenho uma pequena lista de possibilidades. Embarco em meio à turba. Preciso ficar de pé. Junto à diversidade que vejo agora, não sou tão alto. Mesmo na ponta dos pés, outros conseguem pisá-los.
A vista da janela, entrecortada de cabeças, passa muito rápido para que eu a aprecie ou sequer compreenda. Noto apenas as cores sumindo junto com as luzes e a penumbra se adensando; temo que meu primeiro destino seja muito sórdido para que eu possa me hospedar em segurança com minha solidão e estrangeirismo. Porém, estou enganado. Não é um bairro perigoso, ainda que me seja igualmente inviável: é quase inteiramente industrial. As construções se avolumam enquanto engolem pessoas, frequentemente robustas e de uniforme. Todos estão lá porque precisam, não porque querem. Um local com potencial criador e revolucionário tão imenso cheira a rejeição cada vez que as portas se abrem.
Tampouco eu quero ficar. Com minha passagem, salto de um veículo para outro.
Muitos olhares pousam sobre mim, e adivinho instantaneamente o tipo de bairro aonde chegaremos. O veículo é limpíssimo, com poucos lugares espaçosos e lilás. Ele tem um perfume próprio, mesclado a todas as variedades trazidas por seus ocupantes, dignos demais para que fiquem embaraçados, e muito polidos para levantar qualquer observação. Ainda assim, minha aparência estrangeira é uma atração irresistível a todos os olhares oblíquos. É curioso sentir-se enfeiando um ambiente simplesmente por estar nele – e nunca esperei viver isso dentro de um transporte público.
Os assentos estão quase todos ocupados, de modo que só há lugares vazios entre duas pessoas já sentadas. É divertido notar que ninguém quer ser o escolhido. Procuro então alguém para incomodar, deliberadamente, com minha presença bem próxima. Localizo uma pessoa idosa que não se esforçou muito para dissimular o desagrado comigo; a expressão ao descer os olhos por mim até congelar em minhas sandálias é digna de uma gargalhada que só contenho com esforço. Posso imaginar sua mente julgando este calçado indecente que expõe a coisa medonha que são meus longos dedos dos pés, empoeirados da viagem, de sujeira estrangeira. Do outro lado, alguém que cochila, e que não incomodarei. Minha escolha é feita.
Poucos passos até o assento vazio, um veloz arregalar de olhos. A almofada recebe minhas nádegas com um abraço e um suspiro. Apesar do meu tamanho, meus ombros não esbarram em ninguém, exceto o levíssimo toque quando o viajante dorminhoco oscila suavemente. A figura idosa olha obstinadamente pela janela. Permanece assim por vários minutos. Insiste. Furta olhares para minha bolsa, no meu colo. Minhas mãos grandes. Sempre breve. Rápido e tenso. Então meus cabelos. Meu rosto. Viro levemente e já encontro a face marcada encarando ferozmente o breu da janela: atravessamos um túnel. De novo as sandálias. Cruzo as pernas para facilitar a inspeção.
A porta se abre, e sinto ao meu lado a dúvida: saltar antes da hora certa, para se ver livre, ou não? Parece que não falta muito. A porta é fechada novamente, sem qualquer um a subir ou descer. É preciso suportar mais um pouco.
Nunca me imaginei antes com tamanho poder sobre uma pessoa. Em outras circunstâncias, imagino que ficaria magoado, principalmente se causasse medo; para um ser tão inofensivo quanto costumo me julgar, causar insegurança é muito mais triste e significativo do que mera repugnância. Dói mais parecer terrível sem sê-lo, e mais ainda quando não se está seguro de sê-lo ou não...
Outra vez a porta aberta. Minha observadora dispara pelo vão. Nunca vou saber se era o local certo ou não; mas para quem se angustia, a liberdade é sempre o lugar certo.
Quase cogito saltar também, apenas para perturbá-la. É infantil demais. Os últimos passageiros sobem e deixo a porta se fechar. Um homem especialmente perfumado toma o lugar vazio ao meu lado.
Coleciono agora a indiferença de todos e a viagem segue tranquila. Como posso descer em qualquer lugar, espero que algo chame a minha atenção ou meu coração sinta a voz de algo mais além. Meu olhar repousa nas janelinhas, nas portas brevemente abertas, na pressa de vasculhar as ruas, o comércio, as habitações, os rostos. Uma pressa que não me habita por dentro.
Preciso me levantar. Com o vagão cheio, sobe uma pessoa que não parece capaz de suportar a oscilação da viagem estando de pé. Esta força foi uma das coisas furtadas pelos anos.
Fixo nossos olhares apenas tempo suficiente para dizer-lhe: meu lugar pertence-lhe. Fazemos rapidamente, e em silêncio, a troca. Alguns novos olhares. Tinham se esquecido da minha altura. Sinto o alívio de quem é a única figura que me interessa. Quanto a mim, a inspeção do lado de fora ficou ainda mais fácil agora que estou de pé.
Os espaços são mais abertos aqui do que na área da estação central ou no bairro que me pareceu industrial. Há uma luminosidade que parece natural, mas não consigo confiar nela, como não confio em nada que apenas parece natural. Tudo é belo e ainda um tanto tumultuado, uma pequena dose de caos da qual não se escapa enquanto dentro dos limites da cidade.
De repente, sinto o chamado. Uma rua quase perfeitamente alinhada com a porta do meu vagão, com uma sequência de lojas de cores diferentes de um lado, e habitações sofisticadas do outro. Desço com fluidez, antes de pensar se deveria. A mente, às vezes, é a última a perceber.
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