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2 Quest 02 - Rudis.


Celia e Rudis correm rapidamente pela floresta em busca do som forte que havia lhes chamado a atenção, driblando as árvores, esquivando de folhas, ofegantes. A preocupação era refletida no olhar de Celia.

Foi como se tivessem visto uma luz no fim do túnel, e ao chegarem nela, foi como se o tempo tivesse parado, e ao mesmo tempo estivesse passando rapidamente dentro da cabeça de Celia. Seus olhos corriam freneticamente por todo o cenário.

A cena que viam era surreal. Um homem barbudo, aparentando ter seus 30 anos, era jogado brutalmente no ar, com a roupa na área do peito rasgada pelo impacto recebido. A forte expressão de dor no rosto do homem era angustiante.

Ao olhar para o outro lado, podia se avistar o suposto agressor, uma espécie de touro de olhos vazios, com um par de asas negras nas costas, muito semelhantes à de morcegos. A ferocidade era tanta que litros de saliva escapavam da sua boca.

Celia fixa sua visão no homem e sua postura é modificada rapidamente, como se fosse uma corredora profissional, ela se agaixa e apóia as mãos no chão, perna direita mais a frente e perna esquerda mais ao fundo. Os olhos de Rudis, ao baterem na fera, se tornam profundos, seus dentes e punhos serram e ele curva-se um pouco para frente, abrindo um pouco os braços, como se estivesse pronto para abraçar um urso feroz, e então sorri.

Os dois dão o primeiro passo, arrastando o chão abaixo dos seus pés. Celia corre rapidamente em direção ao homem, e na corrida frenética ela consegue cravar suas duras botas em uma árvore, apoiar-se num galho e saltar, arrancando o galho com a pressão, agarrando o homem pelas costas no trajeto, e servindo de amortecedor para sua queda bruta.

Rudis avança em direção ao touro alado, cada passo esmagava o chão como se estivesse correndo sob um pote frágil de argila. Ele dobra seus braços e os trás próximo a costela, dando para reparar no estufar dos músculos do local. A besta volta a sua atenção para Rudis, mas já era tarde. Ela rapidamente recebe os dois punhos de Rudis em sincronia, direto na testa. O impacto dos socos percorre todo o corpo da besta, que é arremessada para longe, abrindo um caminho entre as árvores de tão forte que a pancada foi. Rudy, ainda com o corpo curvado e os braços estirados, ergue a cabeça com uma cara furiosa.

–Tsc, ele defendeu... –resmunga.

Ele olha ao redor e avista Celia segurando o homem, então corre para perto deles.

–Ei, Celia! –Rudis pega o homem e o põe nas costas- Vamos sair logo daqui, aquela coisa é o pior demônio com quem eu já me bati aqui. –ele a levanta pela cintura e corre.

–Waaaaaa! –Celia solta um urro, assustada e envergonhada com a atitude de Rudis.

Rudis foge rapidamente, andando em zigue-zague na intenção de despistar qualquer um que esteja lhe seguindo, até chegar ao seu objetivo, a sua moradia. Era uma casa de madeira bem velha, raízes e cogumelos eram vistos por todo o canto, junto com ninhos de pássaros e uma grande e frondosa árvore plantada bem no meio da casa, que parecia sustentar toda aquela construção antiga e deteriorada. A luz do sol que conseguia passar entre as folhas davam um ar de tranqüilidade, reforçado pela fria brisa que percorria aquele local.

Rudis põe Celia no chão, mas Célia permanecia encolhida, tremendo e tapando os olhos, parecia bem assustada com a reação repentina, até perceber que já estava no chão e ir destampando os olhos aos poucos.

Rudis caminhou com o homem carregado nas costas, com as pernas apoiadas em seus braços, até a porta, a empurrou com o pé e entrou, sendo seguido por Celia, que estava um pouco apreensiva com tudo o que via, com as mãos junto ao peito e os olhos bem abertos, ela olhava tudo com muita curiosidade.

Apesar de por fora estar bem envelhecido e deteriorado, por dentro era um lugar limpo, arejado e de certa forma, confortável. Era um local pequeno, praticamente tudo era feito em madeira. Num canto havia uma mesa com duas cadeiras, em outro uma estante com potes de argila e talheres esculpidos em madeira. Também havia uma espécie de sofá de madeira próximo ao tronco da árvore, coberto por panos, onde também parecia dormir alguma coisa enrolada entre eles. A coisa se mexe, o que intriga e assusta Celia.

–Errr... O-o que é aquilo? –Celia pergunta, apontando discretamente para o local.

–Ah! Então é aí onde você se escondeu? Ei, “Esquilo gigante”, pode aparecer, sou eu. –Rudis falava tranquilamente, enquanto repousava o homem num canto da sala.

Delicadamente, pequenos dedinhos escapavam dentre os panos, os agarravam levemente e iam descendo, revelando pequenos olhinhos brilhantes, castanhos e assustados, acobertados por uma lisa franja amarronzada.

–L-Ludi, é você? –dizia a suave voz trêmula do “esquilo”.

–Rudis! Meu nome é Rudis! Não precisa se esconder, vamos, saia daí. –fala Rudis, severamente.

O “esquilo” senta-se no sofá, ainda coberto pelos panos, deixando apenas pequenas brechas, por onde se via um dos seus olhos lacrimejantes e fios de cabelo, até os panos escorregarem delicadamente e revelarem a sua aparência. Era uma garotinha.

Com os seus olhos medrosos delicados, seus cabelos trançados, mas com uma franja solta que cobria sua testa, uma espécie de macacão vermelho e camisa quadriculada, com um dos pés descalços e o outro calçado com uma meia e uma linda botinha também vermelha, ela sorria, lacrimejando, ao ver Rudis, mas ao olhar para o homem no chão, seus olhos deixaram escapar toda a agonia que sentia, e num impulso de sentimentos, saltou em direção ao mesmo e o abraçou.

–PAPAI! PAPAI! PAPAI! –berrava a garotinha, enquanto abraçava o homem inconsciente e o sacudia, chorando desesperadamente, mas era transparecida certa alegria.

Rudis observava com certa curiosidade, enquanto Celia sorria radiantemente perante aquela cena, que lhe aquecia o coração.

–Então você estava cuidando dela, não é, Rudis? –diz Celia.

–Ah, errr... Ao que parece, era isso que você procurava, não? –diz Rudis.

–É... –Celia suspira- Todos estão preocupados com eles. É melhor eu voltar logo.

–Ah! Não, espera! Você não viu aquela coisa? –Rudis se exalta.

–Sim, e é por isso mesmo! Se continuarmos aqui é mais perigoso! Você também precisa sair! –Celia aumenta o tom da voz, rebatendo o argumento de Rudis.

–Errado! Aqui é mais seguro! –Rudis aumenta mais ainda a voz- Eles nunca atacam aqui, e sempre que eu tentava levar a “Esquilo gigante” para fora, eles apareciam!

–Ah. Você tentou levar ela de volta? –Celia relaxa.

–M-mas é claro! –Rudis gagueja- Ela estava chorando e pedindo pelo pai, o que eu podia fazer?! –ele cora- Mas o estranho é que eles não me caçavam, estavam sempre atrás dela. –sua expressão se torna séria.

–Mas... Se estão sempre atrás dela, porque não atacaram aq... –Celia interrompe a fala ao reparar num canto da sala, atrás da porta, uma espécie de girassol roxo plantado num vaso de argila- Ei, Rudis. O que é aquilo? –aponta para o local.

–Ah, aquilo? É só uma das flores do meu avô. –disse inocentemente.

–Uma das?

–Aham. Ele pôs várias dessas espalhadas dentro e fora de casa, e sempre disse pra eu nunca mexer nelas. –Rudis fica emburrado- Até levei cascudos dele por causa dessas coisinhas.

Celia se aproximou da planta e se agachou, para poder vê-la de perto. Apertou bem os olhos, depois os abriu rapidamente, como se algo tivesse passado pela sua cabeça.

–Mas é claro! –Celia se levanta- Rudis há quanto tempo seu avô cultiva essas flores? –Vira-se para Rudis.

–Hmmmm... –Rudis aperta um pouco os olhos, franze a testa e segura o queixo com a mão esquerda, olhando para cima, se forçando a lembrar, até abrir bem os olhos e estender o dedo indicador esquerdo, mostrando que havia lembrado- Mais ou menos quando esses demônios apareceram! –disse ele.

–Ahn? Esses? –Celia fica intrigada.

–Isso mesmo. Aquele chifrudo não era o primeiro e provavelmente não vai ser o ultimo. Já fazem mais ou menos 12 anos que aquelas coisas começaram a invadir, então eu e o meu avô temos nos livrado delas.

–Hm... Ei, Rudis, você ta falando tanto desse seu avô. Cadê ele? –Celia pergunta curiosa para conhecer o homem que Rudis parecia tanto admirar, mas parece que a reação não foi a esperada por ela.

Rudis abaixa a cabeça enquanto aperta os punhos e range os dentes, suas mãos tremiam um pouco e ele parecia bem angustiado, então balbuceou:

–Ele morreu... –sussura.

Celia congela. Ela estava boquiaberta, tentava forçar um sorriso e esmagava o tecido da sua saia com as mãos, de forma discreta.

–Er... Me desculpe por perguntar... –Celia abaixa a cabeça, com uma expressão triste.

–Ah. –Rudis sorri- Tudo bem! Já superei isso. Hehe. –Rudis sorri, coçando o nariz, de forma certamente charmosa, o que deixou Celia um pouco sem jeito.

A garotinha vai até Rudis e dá uns puxões de leve em sua calça, chamando a sua atenção. Rudis se agacha para falar com Hungria.

–Agora ta tudo bem, esquilo. –Ele acaricia a cabeça da garota- Você e seu pai vão poder voltar, eu vou dar um jeito. –Diz Rudis sorrindo.

–Mas... Temos que saber “como”... –pensa Celia, com uma expressão séria.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.