John Widmore - O assassinato de Valquíria Sanchez
8 O interrogatório de Sally Ramos
Após uma péssima noite de sono, eu estava a caminho da Agência para finalmente interrogar, decentemente, aquela velha estranha. Me certifiquei também de enviar uma mensagem para Mikhail, solicitando que trouxessem os empregados, todos os quatro, para depoimento. Em qualquer outro dia isso poderia ser negado pelos empregados, mas não hoje, não com os últimos acontecimentos. Estamos diante de um monstro e a Agência não pouparia esforços para pegá-lo.
Bukowsk e eu fomos juntos em meu carro, ambos apreciando a enfadonha presença um do outro por mais tempo do que precisávamos.
— Garoto, eu deveria te agradecer pela estadia em sua casa, isso seria correto e gentil. Mas sinceramente, você me deve desculpas pela péssima hospedagem.
— Fala isso pela falta de whisky, pelo sofá, ou pelo roupão rosa?
Olhei para Bukowsk com muita seriedade, erguendo minha sobrancelha.
— Ambas as coisas, senhor?
— Claro que sim, garoto!
Bukowsk deu um leve sorriso, olhando para baixo.
— Do que você está rindo, garoto?
— Nada, senhor, apenas imaginei por um segundo que você iria dizer – ele forçou a garganta como se estivesse com pigarro, fazendo tom grave como de um locutor de rádio novela – “elementar meu caro Bukowsk”.
— O que?! Mas você só pode estar brincando, filho da mãe! Por acaso tenho cara de ser um personagem de algum suspense policial?
— Não senhor, é que...
— Garoto, você me insultou demais, é melhor fechar sua boca durante o resto da viagem, para que eu não o atire pela janela!
Ele abaixou a cabeça, mas dessa vez não pediu desculpas, acho que entendeu minha advertência.
— Veja só, que ousadia de sua parte, seu garoto mequetrefe. Eu preferiria dançar de salto alto no carnaval do Brasil do que ser a porcaria de um personagem de livro! Foi essa a educação que sua mãe te deu?
Ele novamente abaixou a cabeça.
— Minha mãe morreu pouco depois de meu pai, senhor.
— Mas veja só, se fazendo de vítima para ocultar o insulto. Agora entendo porque todo mundo o abandona.
Estávamos a uns vinte minutos da Agência, onde a ilustre hóspede me aguardava para as formalidades desse fabuloso reencontro. Dessa vez eu havia me precavido, ao invés de levar apenas meu cantil, estou levando uma garrafa inteira. Não tenho gatos falantes, mas prevejo que este dia será longo.
Cheguei na Agência, dessa vez com intenção de entrar, por isso fiz questão de estacionar meu carro na vaga de Johnny Garcia, pois ele ainda não tinha chegado e certamente isso o deixaria muito puto. Nada faz uma manhã melhor do que ferrar a vida de algum otário, isso faz o Sol brilhar mais forte, parece que ouço até os pássaros cantarem.
Fui direto para a sala de custódia, um nome generoso dado para uma cela sem nada de especial, onde podemos ficar frente a frente com os suspeitos. Existia uma outra sala, a sala de interrogatório, um lugar mais confortável e fechado, com um grande espelho que escondia câmeras de gravação, exatamente como você vê nesses filmes por aí, mas eu preferia usar a sala de custódia, pois as grades e os entalhes nas paredes tornavam o clima mais sombrio, como se conformasse os criminosos com seu destino.
Recolhi algumas pastas, que continham fotografias dos assassinatos e alguns dados extracurriculares, para usar como ferramentas de persuasão. Não que eu pense que alguém capaz de cometer atrocidades como essas vai ter algum remorso, sei que não há consciência nessas mentes perversas, mas gosto de atacar nas feridas, para ver se sangra.
Cheguei no corredor e caminhei até a cela onde pedi que mantivessem Sally Ramos, aquilo era de fato sombrio. Pouca iluminação, com paredes descascadas e mofadas, sem nenhuma vida, exceto as baratas e ratos que transitavam livremente. Sinceramente, eram muito menos nojentos do que a maioria das pessoas que já estiveram por aqui, deixando seus entalhes mal feitos, riscando dias e frases estúpidas nas paredes. Se me lembro bem, o último a estar aqui tentou atacar um agente, mas levou um tiro no meio da testa. Acho que ainda posso sentir o cheiro de sangue.
Parei em frente a cela de Sally e mandei que abrissem para mim. Enquanto a cela se abria eu observei Sally, quieta e sorridente, expressando uma paz que não era adequada para este recinto. Entrei e me sentei em uma cadeira de frente com ela, totalmente sozinho, havia ordenado que ninguém estivesse no local, para que nossa convidada não sofresse de algum tipo de amnésia causada pela timidez.
— Bom dia, John! Como acordou essa manhã, querido?
Enchi um copo de whisky e acendi um cigarro, deixando a garrafa sobre uma mesa de madeira clara.
— Bom dia velha. Acordei muito mal, com dores nas costas e um cheiro horrível de incenso no nariz. Acho que era de artemísia, mas não sei ao certo, pois parecia vir de fora. Mas pode ter sido apenas por ter acordado ainda bêbado da noite anterior. Usei roupas de cor duvidosa, após um banho gelado, isso tudo após subir um milhão de degraus, só para acordar e descer eles novamente. Então saiba que estou de péssimo humor.
— Oh, querido, que pena. Mas você está sempre de péssimo humor. Isso não te faz bem, sabia?
Sem olhar para ela, comecei a separar as fotos dos três assassinatos, para pressioná-la.
— Onde está Wilson?
— Bukowsk deve ter ido tomar café na esquina, mas não se preocupe, ele vai estar cuidando de relatórios hoje, por tanto não virá te visitar.
— É uma pena, eu gostei muito dele. Acho que é um bom garoto. Deveria cuidar bem dele, dar mais atenção, ele parece gostar de você, John.
Joguei na mesa as fotos, mostrando vários ângulos do assassinato de Valquíria, Ernest e sua recepcionista, que se chamava Lourene Houston.
— Isso é horrível! Não sabia que Ernest estava morto também. Mas quem é essa outra moça?
— Será que perdeu seus poderes de vidência, velha?!
— Meus gatos não estão aqui, John, são eles que me contam as coisas.
— Certo Sally, já estou cansado desse teatro, então me poupe de sua ladainha sem lógica. Me conte toda a verdade e talvez façamos um acordo para aliviar sua pena.
— Eu não matei Valquíria, querido. Nem Ernest e nem essa jovem. Valquíria e eu tivemos nossas desavenças, mas eu não seria capaz de fazer algo assim. Eu amava ela como uma filha.
— E por isso, quando ela parou de te encontrar para ver Ernest você se irritou, se sentiu traída e resolveu acabar com a vida dela?
— Oh, querido, você tem a imaginação muito fértil. Não foi por causa de Ernest que Valquíria e eu nos desentendemos. Ernest era bem diferente de mim, mas eu o respeitava.
Achei que poderia acabar extraindo muita informação inútil, se optasse por extrair mais desse relacionar de fatos, mas no momento parecia ser o melhor caminho.
— Tudo bem, Sally, então me conte como se desentendeu com Valquíria Sanchez.
Sally deu uma profunda respirada, soltando o ar em um suspiro alegre e triste ao mesmo tempo. Seus olhos estavam com uma doçura muito maior do que era normal. Ela fechou os olhos por um momento, sorrindo, como quem admira lembranças muito boas de uma primavera perfumada.
— Conheci Valquíria ainda muito jovem, quando sua mãe morreu em um naufrágio no pacífico. Eu era muito amiga da família, então ajudei Alejandro Sanchez nesse difícil momento, cuidando da educação da pequena Valquíria. Ela estava muito chocada com a morte de Helena, sua mãe, então resolvi cuidar da menina. Ela sempre foi uma garota muito alegre e viva, mesmo após esse trágico acontecimento.
— Você foi morar com os Sanchez?
— Na verdade não, mas passava a maior parte do tempo na mansão, para ficar junto de Valquíria. Me apeguei muito a ela, como uma mãe, que de fato acabei sendo. Ela cresceu forte e inteligente, uma linda garota que se tornou uma excelente mulher, em todos os sentidos, com exceção de seus desejos pessoais, que me pareciam um tanto fora de padrão. Mas desejos são desejos, não é mesmo?
— Entendo do que está falando, conheci Ernest.
— Ela atraia muito a atenção dos homens e de muitas mulheres também, acho que a maioria das pessoas que encontraram Valquíria acabaram se apaixonando de alguma forma. Ela tinha uma beleza marcante, difícil de esquecer, era sedutora em cada detalhe, algo que ela não se esforçava para fazer, era natural, era parte de sua essência. Despertou também muita inveja por isso, que mulher não gostaria de ser fatal como ela?! Mas não era apenas isso que a fazia tão irresistível, ela tinha um jeito felino, uma maciez feroz, se é que me entende. Estava sempre vestida de vermelho, não importava a ocasião, nem os trajes, sempre vestia vermelho, desde seus mais simples pijamas, até suas elegantes roupas de gala. A única coisa que fugia a essa regra eram os brincos azuis, que foram deixados por sua mãe.
— E por quê esse fascínio por vermelho?
— Era a cor preferida de sua mãe, Helena. Ela fazia isso desde muito pequena, começou de forma inconsciente, até se tornar uma obsessão sem limites. Tudo em sua posse era vermelho, seu carro, quarto, apartamentos, roupas, cama, mas sempre havia algum detalhe azul, devido o brinco que fora deixado. Ela nunca usou outro brinco em sua vida.
Me lembrei que não haviam brincos nas orelhas de Valquíria quando encontramos o corpo. Algo muito peculiar, visto todas essas informações. O assassino poderia ter levado como lembrança por ser ligado afetivamente a Valquíria. Ligado afetivamente como uma mãe.
— Ah, ela era uma jovem espetacular, só de estar na presença dela os problemas desapareciam, era como uma magia cósmica fluindo em abundância! Mas ela nunca se interessou por magia de verdade, mesmo eu tendo insistindo para que aprendesse.
— Então você é uma espécie de bruxa, velha?
— Quase isso, John. Sou uma sensitiva que aprendeu a desenvolver os dons, mas estudei em escolas de magia, onde conheci Alejandro e Helena, o casal mais apaixonado que já vi na vida. E antes que me pergunte o nome da escola em que conheci eles, se chamava Pentagrama Leste, uma antiga escola de mistérios restrita para a alta sociedade. Fomos treinados em artes ocultas, nos mistérios e nas práticas de magia branca e elevada, nada com magia negra ou coisas assim. Sei que vocês, leigos, pensam que tudo é satanismo, mas se enganam muito nesse aspecto, julgam o que não conhecem e temem.
— Então Valquíria nunca quis aprender essas tais “artes”?
— Nunca se interessou, até um dia muito obscuro que mudou a vida dela.
Agora parecia que estávamos chegando a algum ponto interessante para essa investigação. Me interessa muito saber sobre essas coisas, preciso de mais uma dose para acompanhar as histórias dessa bruxa velha.
— Conte-me melhor sobre isso, Sally.
— Valquíria sempre foi muito festeira e inconsequente, não se importava com horários e nada neste mundo. Não existiam regras que pudessem deter a euforia dela, era um ser desprovido de qualquer medo ou pudor. Mas um dia ela conheceu Salazar, um jovem um pouco mais velho que ela, de uma família não muito rica, os Benjamim. Ela tinha dezessete anos e Salazar dezenove, se conheceram em uma dessas festas em que os jovens vão para se divertir com música alta, luzes piscando, bebidas e sabe-se lá mais o que. Eles se apaixonaram, mesmo Valquíria tendo esse desejo por homens mais velhos. Ela falava sobre Salazar muito apaixonada, queria se casar e ter filhos com ele, mudando completamente sua perspectiva de existencial.
— Mas Valquíria não tinha filhos e era solteira, o que aconteceu?
— Alejandro não apoiava essa união, queria alguém do mesmo nível social para sua filha, proibindo o namoro dela com Salazar. Eu nunca o vi pessoalmente, mas deveria ser um jovem muito bonito e inteligente, pelo que ela me contou. Valquíria chegou a me pedir ajuda, mas não pude fazer nada, Alejandro é muito severo e rígido em alguns aspectos.
— Deixe-me adivinhar; então ela fugiu com Salazar e Alejandro matou o garoto?
— Quase isso. Na verdade, ela fugiu com ele, mas Alejandro não matou o garoto, apenas o incriminou por sequestro, já que sua filha era menor de idade e ele maior. Salazar pegou uma pena severa, acho que foram quinze anos, o que fez com que Valquíria nunca mais o visse. Vinte e dois anos depois ela morreu, sem saber o paradeiro de seu único amor.
— E o que houve com a mulher sem regras, determinada que você estava me falando?
— John, às vezes coisas mais importantes aparecem em nossas vidas e mudam o foco de nossa busca. Valquíria foi levada para casa e sofreu nas mãos de seu pai, sendo vigiada e tendo seus passos regrados, cada um deles. Mas ela começou a se sentir muito mal, tonturas, vômitos e todos os sintomas da gravidez começaram a aparecer, junto com o crescimento de sua barriga.
— Mas Valquíria não teve filhos, segundo constam todas as informações.
— Valquíria teve gêmeos, John, mas nunca os pôde segurar em seus braços. Foi isso que transformou ela em uma mulher diferente, mudada em todos os aspectos.
Nossa! Acho que entrei em uma trama muito mais complexa e profunda do que parecia.
— O que houve com as crianças?
— Alejandro não queria permitir a gravidez, tentou forçar Valquíria a abortar, mas ela conseguiu um acordo com seu pai. Ela teria os bebês, mas não ficaria com eles, era isso ou o aborto. Por ela ser ainda muito jovem, não conseguiu confrontar seu pai, ficando totalmente contra sua vontade nesta situação. A gravidez foi mantida em segredo, Valquíria ficou trancada em casa durante os nove meses de gestação e mais uns três de recuperação. Ele teve um parto difícil, quem fez o trabalho de parteira foi Fernanda Ramirez, a cozinheira da família. Eram dois meninos muito bonitos, pelo que Fernanda disse, pois Valquíria desmaiou durante o parto e não chegou a ver os filhos. Um deles não resistiu e morreu ao nascer, o outro foi levado para algum orfanato pelo irmão de Fernanda, o chofer Fernando Ramirez, mas nunca foi revelado o paradeiro do menino que sobreviveu.
— Acha que isso pode ter a ver com o assassinato, Sally?
— Não sei dizer, pois muitas coisas aconteceram depois desse triste evento, Valquíria mudou completamente seu modo de ser e pensar, foi então que me procurou para ser iniciada nas artes ocultas.
— Compreendo, velha. Acredito que isso tenha os motivos que eu imagino, não é mesmo?
— Obviamente, querido, ela queria encontrar seu filho perdido. Mas preciso de um chá agora, estou me sentindo muito mal neste lugar. Poderia atender o pedido dessa velha senhora e me trazer um bom chá de mate com limão, John?
Neste momento, eu mesmo colheria as ervas para fazer o chá desta mulher, pois começo a acreditar que não seja ela a real culpada. Alejandro e Salazar, ambos possuem mais motivos que a Sally. Talvez Salazar tenha descoberto sobre os gêmeos e decidido se vingar em Valquíria, ou Valquíria conseguiu encontrar o filho e seu pai a matou para manter segredo. De todo modo, sinto que esse filho é a chave desse mistério, mas preciso antes saber quais caminhos Valquíria tomou até obter este colar e ter ido parar esquartejada sobre um pentagrama.
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