John Widmore - O assassinato de Valquíria Sanchez
7 O apartamento de Bukowsk
Eu estava novamente naquele mesmo lugar, na cena do assassinato de Valquíria, novamente ela apareceu, com cortes nos membros e pescoço, sangrando em abundância. O sangue se espalhou pelo chão, subindo pelas paredes e tomando todo o teto, era o mesmo pesadelo terrível. Então Valquíria colocou suas mãos em meu rosto, mas dessa vez permaneceu apenas olhando no fundo de meus olhos, virando lentamente sua cabeça para o lado. Então seus olhos começaram a sangrar, escorrendo sangue por todo seu rosto. Não podia me mover, nem mesmo dizer nada, estava no mesmo estado de paralização que no sonho anterior, porém mais aterrorizado. Então ela aproximou seus lábios de meu ouvido direito e sussurrou: “Widmore”, lentamente, com um eco tão intenso que me congelou a alma. Ela se afastou, olhou para a escada, voltando seu olhar tenebroso para mim, completando seus dizeres: “Venha até mim”. E seu pescoço caiu, junto aos quatro membros, quando o selo no qual ela estava morta brilhou, em uma luz vermelha como fogo!
Seus pedaços se moviam dentro do selo, como se estivessem vivos, como pedaços de uma cobra recém cortada.
Eu olhava aquilo completamente apavorado, enquanto o sangue dela começou a esguichar em meu rosto, até escorrer por todo meu corpo, me deixando de corpo inteiro ensanguentado. Senti um ar frio atrás de mim, como a respiração gélida de um iceberg. Pude ouvir o som de lábios de abrindo, da saliva, e novamente a voz dela, ao pé de meu ouvido: “Widmore”!
Acordei gritando, apavorado e suado, com as mãos trêmulas, ofegando como se tivesse me afogado. Fui ao banheiro lavar o rosto, quando vi meu reflexo no espelho; eu estava pálido e minhas pupilas estavam completamente dilatadas.
Então ela apareceu no espelho, não como um vulto, mas como um reflexo claro, bem atrás de mim.
“Widmore”!
No susto eu bati minha cabeça no espelho, quebrando ele em mil pedaços! Fiz mais um corte na testa, mas esse era bem grande e profundo. Quando me virei ela não estava mais lá, não havia nada além do vazio e escuridão da madrugada fria. Voltei para o quarto e peguei minha garrafa de whisky, bebendo diretamente no gargalho, quando olhei para o chão, no canto da porta aberta do banheiro e vi Alfredo olhando fixamente para o lugar onde Valquíria apareceu, em minha alucinação. Ele miou naquela direção e foi virando a cabeça, como se estivesse acompanhando alguém caminhando, até que pareceu se esfregar em alguma coisa invisível. Ele parou e sentou-se, virando a cabeça em minha direção, até fixar o olhar exatamente atrás de mim, do lado direito. Senti novamente aquele ar gélido, junto como som dos lábios se abrindo lentamente, ao pé de meu ouvido. Respirei fundo, imóvel, e ouvi novamente:
“Widmore”!
Cai no chão, totalmente apavorado, tremendo por inteiro. Alfredo pareceu não se importar, seja lá o que for, não parecia importar para ele.
Coloquei minhas roupas rápido, vesti meu casaco, apanhei meus cigarros, whisky, derrubei uma gigante quantidade de comida para Alfredo, em seu pote, o abasteci de água e fui direto para meu carro. Dessa vez ele ligou rapidamente, sem suas falhas tradicionais, me tirando daquele lugar.
Eu estava dirigindo, quando percebi que ainda eram quatro da madrugada e eu não tinha para onde ir, estava vagando ao vento, literalmente. Não sei que droga eu estava fazendo, talvez por ter ficado muito apavorado, mas estava indo em direção ao apartamento de Bukowsk.
Parecia tudo muito tranquilo, mesmo se tratando dessa área da cidade, que costuma estar sempre acordada, pela prostituição e o tráfico de drogas. Esse frio deve ter espantado todo mundo, não vejo sequer os ratos e baratas que infestam as sarjetas, se bem que entre eles e o ser humano não há tanta diferença, apenas o preconceito entre espécies. Dizem por aí que sou muito radical, mas a verdade é nem mesmo os ratos e baratas fazem tanto mal para o ser humano, quanto o próprio ser humano, essa é a espécie que está debilitando o meio ambiente, acabando com outras espécies e destruindo este mundo.
Bukowsk morava no décimo nono andar, no apartamento 144, mas neste prédio não existia um elevador, para minha grande felicidade, assim deixei de ser sedentário, durante o tempo em que subia aquelas escadas intermináveis e via meus pulmões saltarem pela boca. Cheguei, com exorbitante esforço, ao apartamento de Bukowsk, que parecia ser o único com a porta reformada e bem pintada, com um vermelho de muito mal gosto, adornado com alguns detalhes bregas azuis, na maçaneta, batente e no olho mágico. Sem dúvida esse era o apartamento dele.
Bati na porta algumas vezes até que ele acordasse, que para minha surpresa apareceu de roupão e pantufas. Havia uma inscrição no roupão que dizia “boy”. Santo Deus, com quem eu resolvi trabalhar dessa vez.
— Boa noite, garoto. Precisamos conversar sobre o caso.
A surpresa de Bukowsk foi muito maior que a minha, ao me ver ele pareceu ter visto um fantasma.
— Senhor Widmore, mas o que faz aqui?
— Ainda está dormindo por acaso?! Vamos entrar e tratar do que importa.
O empurrei para o lado e fui entrando em seu apartamento, o que o deixou muito desconfortável.
— Certo, acho que então pode entrar, já que deve ser algo muito importante.
Me sentei em um sofá de estofado velho e meio mofado, era muito rígido e desconfortável, parecia estar faltando o estofado dos acentos. Mas o que esperar de um estagiário ferrado.
— Se não se importa, eu trouxe whisky, pois tenho certeza que você não tem nenhum nessa espelunca. Entre e feche logo essa porta, garoto, esse vento frio está me congelando.
Observei e notei um notebook aberto em cima de uma mesinha perto de sua cama de solteiro, consegui ver pela fresta que sobrou aberta na porta de entrada para o quarto. Por sinal era um site pornô, não consegui identificar nada concretamente, mas qualquer imbecil notaria que tinham duas pessoas fazendo sexo naquela tela.
— Então estava se divertindo?
Ele percebeu que eu vi seu “cine diversão” e tratou de fechar a porta do quarto rapidamente.
— Widmore, já são quase cinco da manhã, por favor me diga o que realmente quer.
— Para ser sincero, eu estou sem sono.
— Sem sono?!!
— Exatamente.
— Mas como assim, sem sono?! Veio me acordar essa hora apenas por não ter conseguido dormir?
— Isso, garoto. Você vai mesmo continuar perguntando isso, ou vai cortar alguma coisa para que eu coma de tira gosto? Seja educado com suas visitas.
Nesse momento eu vi Bukowsk ferver igual uma panela de pressão, mas ele se conteve e cortou alguns salames para mim.
— Senhor Widmore, você não viria aqui atoa. Sei que deve ter acontecido algo.
— Esse salame é de péssima qualidade, tem muita gordura. Deveria se envergonhar de me oferecer.
— O que você realmente quer, Widmore?
Eu não podia contar para ele sobre o que me levou até seu apartamento, mas deveria lhe dar alguma explicação ao menos.
— Garoto, se lembra de Sally? Amanhã vamos interrogá-la para arrancar uma confissão e os nomes de seus cúmplices. Visto que a madame gostou tanto de você, eu pensei em falar com Mikhail para que você fique encarregado de vigiá-la em tempo integral. Assim ao invés de ficar correndo risco nas ruas, vai estar em segurança na Agência.
— Senhor Widmore, por favor, não faça isso comigo!
A expressão de irritado se transformou em uma cara de piedade, de quem implora pela própria vida.
— Foi o que pensei, garoto. Agora preciso muito tomar um banho e colocar alguma roupa limpa, sabe, descansar até amanhã, sem que ninguém fique me fazendo perguntas.
— O banheiro é nos fundos, pela direita. O chuveiro não aquece no máximo, então terá que tomar um banho morno. Desculpe por isso. Levarei alguma coisa para o senhor vestir e deixarei pendurado do lado de fora do box.
Sei que não é nada cordial fazer as coisas assim, mas a situação era muito delicada, eu não podia arriscar que me tirassem desse caso, eu tinha que resolvê-lo. E sinceramente, eu não me importava também.
Enquanto eu tomava banho, no chuveiro quebrado de Bukowsk, refleti muito sobre tudo o que estava acontecendo, chegando a conclusão de que apenas Sally Ramos poderia me ajudar com isso. Essas coisas não podem ser apenas alucinações, existe algo muito estranho acontecendo comigo e eu precisava resolver, antes que caísse realmente dentro de um hospício.
Terminei o banho e apanhei um roupão deixado por Bukowsk, não vi como era, devido a neblina que se formou dentro do banheiro. Mesmo com a temperatura morna desse péssimo chuveiro, o clima extremamente frio colaborou para a formação de uma densa cortina de vapor.
Sai do banheiro e Bukowsk estava na sala, com uma cara muito suspeita. Ele parecia estar segurando o riso. Então observei meu reflexo em um espelho de canto que ele tinha na sala, que mesmo empoeirado mostrou a cor de meu roupão. Rosa!
— Seu filho da mãe! Que ultraje é este, garoto?!!!!!
— Desculpe, senhor, mas essa era a única roupa limpa sobrando. Minhas roupas estão na lavanderia e só chegam amanhã.
— Por que diabos você tem um roupão rosa, escrito “girl”? Quer dizer que você é...oh, nada contra garoto, mas podia ter me avisado antes. Sabe, não tenho preconceito com gays, apenas saiba que não vim aqui com outras intenções!
— Não, não é isso! De modo algum! Você entendeu errado, senhor!
— Ora, garoto, não se preocupe, seu segredo está seguro comigo. Apenas ande na linha e não vai aparecer no noticiário.
Ele parecia muito envergonhado.
— Esse roupão é da minha namorada, senhor. Desculpe ter entregado ele, mas era a única roupa limpa.
— Não precisa mentir. Não tem problema se você gosta de aventuras alternativas, apenas não confunda as coisas entre nós e manterá sua cabeça sem um furo de bala.
— Eu tenho uma namorada, esse roupão pertence a ela!
— Tudo bem, então como ela se chama?
— É, ela se chama Brigitte.
Apertei bem os olhos, enquanto inclinei levemente o rosto para frente.
— Você inventou esse nome e sabe disso.
— Não estou mentindo, eu e Brigitte namoramos já há dois anos. O motivo de ela não estar aqui hoje é devido os acontecimentos no caso. Não quero que ela corra nenhum risco.
— Brigitte deve ser sua outra face, sabe, segunda personalidade, lado feminino. Mas tudo bem, não vou mais te incomodar com isso, precisamos dormir para estarmos dispostos amanhã. Mas você no quarto e eu aqui na sala.
— Tudo bem. Boa noite, senhor Widmore.
— Boa noite, Brigitte.
Peguei minha garrafa de whisky e fui para o sofá de Bukowsk, tomar algumas doses para tentar dormir. E enquanto acendia um cigarro, me peguei perdido em meio a tudo isso. Já presenciei coisas horríveis e coisas estranhas, coisas cruéis, mas isso estava perturbando minha mente, literalmente.
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