Jogos Divinos - A Faísca
8 Annabeth
Notas iniciais
Minha equipe de preparação havia feito um bom trabalho. Não era nada original e chocante como o fogo que envolvia Percy durante a cerimonia de abertura, mas sem dúvida era um belo vestido. Ao contrário da maioria das vestes da Capital, ele não era armado e de cores berrantes, era branco e delineava cada curva de meu corpo. Da cintura para cima era encrustado de cristais prateados que ressaltavam o fato do Distrito 1 fornecer artigos de luxo á capital. Meu cabelo foi penteado em um coque alto, envolto por uma rede também prateada.
Eu jamais usaria algo do tipo em outras circunstancias, era desconfortável andar naqueles saltos, gostava de seu cabelo solto ou simplesmente amarrado e de onde vinha um vestido como aquele, onde não tinha como esconder uma adaga, poderia causar minha morte no caso da aparição de um monstro. Ali eu não sofria dessa preocupação, os monstros que poderiam me atacar pareciam mais inofensivos, não eram mascarados pela névoa e não se tornariam pó quando atacados com bronze celestial. Mas se não tomasse cuidado poderiam se mostrar ainda mais perigosos.
Eu havia passado longas horas em claro apenas pensando em meu próximo passo. Enfrentar os Idealizadores como havia feito fora um grande e estúpido erro. Eu me deixei levar pela raiva momentânea e compliquei minha missão. Não conseguia compreender totalmente os pensamentos dos líderes da Capital, nós havíamos os confrontado diretamente, havíamos os alertado sobre a ameaça que representávamos, nós literalmente esfregamos nas caras deles as nossas identidades, como podiam nos dar a nota mais alta e agir como se nada tivesse acontecido?
Deveriam prever que algum de nós tentaria algo durante as entrevistas, quando tanto as pessoas da Capital, quanto as dos Distritos estariam assistindo atentamente. Mas então porque não haviam feito absolutamente nada? Pretendiam nos cortar a qualquer menção de problemas? Não... De súbito compreendi. Compreendi o porquê de não terem parado as demonstrações ao serem atacados por mim e logo depois por Clarisse. Eles precisavam continuar, pois precisavam saber quais entre os tributos tinham intenções de rebelião. Na demonstração de Thalia deveriam ter descoberto que realmente éramos semideuses, e a necessidade de nos identificar aumentou. Não haviam nos matado pois algo os levou a acreditar que não conseguiriam nos matar fora da arena ou que isso lhes seria inconveniente. Pois havia uma forma de acabarem completamente conosco e com qualquer indício de rebelião. Eles queriam que dissemos algo que incitasse uma rebelião dos distritos, pois quando o fizéssemos eles nos matariam em frente a todos os telespectadores, dessa forma fortaleceriam o medo das pessoas dos Distritos para com a Capital, o fato de termos tirado 12 nas demonstrações nos identificava como fortes aos olhos das pessoas, nos matando daquela forma mostrariam também que ninguém tinha o poder de ir contra a Capital, mesmo os mais fortes entre todos os tributos.
Era um plano tão maquinado e tão inteligente que por um momento eu admirei o presidente Snow. Eu sem dúvida era a única que perceberia aquilo. Clarisse iria dizer algo logo no início e eles a atacariam. Eu considerei suas chances e a da Capital, ela estaria desarmada, em um vestido desajeitado e sambando em saltos inúteis. Eles com armas estrategicamente posicionadas, com Pacificadores treinados especificamente para esta situação, prontos para atirar a qualquer instante. Eles atacariam de todos os lados ao mesmo tempo, Clarisse não teria chance nem mesmo para esboçar uma reação. Isso se estivesse sozinha.
Nós poderíamos nos preparar. Eu, Travis e Connor poderíamos facilmente descobrir aonde se escondiam os pacificadores, quando tentassem atirar nós não teríamos dificuldades em detê-los. Causaríamos uma grande confusão e então fugiríamos, mas para onde iriamos? Não, este plano tinha muitas falhas, nós tínhamos que participar dos Jogos, era crucial que os destruíssemos de dentro. Isso causaria muito mais impacto e parecia ser o que Hera desejava. Caso contrário não nos teria feitos voluntariarmos.
Mas como poderia avisa-los antes que fizessem qualquer estupidez? Seria muito suspeito se fossem vistos todos juntos conversando. Por outro lado, eles provavelmente interpretariam errado. Eles na verdade deveriam esperar que nos reuníssemos e discutíssemos sobre o que falaríamos em nossas entrevistas. Apenas se enganariam sobre nossas pretensões. Deuses, como queria que aceitassem sem objeções, se resolvessem questionar-me teríamos discussões e levantaríamos suspeitas. Só me restava confiar no bom senso dos semideuses. Embora eu não tivesse certeza que todos eles o possuíssem.
Todos estavam presentes, pude ver que poucos Tributos estavam caracterizados de acordo com seus distritos, na verdade eu mesma não deixava claro de onde havia vindo, apenas aqueles mais observadores poderiam perceber a presença dos cristais ou o que representavam. Meu mentor dava os últimos conselhos de forma displicente, tanto eu quanto Marvel sabíamos como deveríamos agir e nenhum de nós teria dificuldade quanto a isso, ao contrário de Percy. Pude perceber Effie falando e gesticulando de forma nervosa, deixando explicitas as suas preocupações. Não a culpava, em seu lugar também me preocuparia com os Tributos do 12. Percy era lerdo e demasiado sincero, o conhecendo como conheço, sabia que poderia deixar escapar, mesmo que sem querer, algo ofensivo em relação a Capital. Quanto a Katniss, ela não era simpática o suficiente, não era ameaçadora o suficiente assim como não era sexy. Os Tributos femininos normalmente recorriam a essas três qualidades para impressionar os telespectadores, mas Katniss se mostrava indisposta e mal humorada. Eu não conseguia imaginar de onde tirara a simpática garota em chamas que acenava durante a abertura.
Não muito longe de onde eu me encontrava, Rue do Distrito 11 ajeitava seu vestido com mãos nervosas. Logo atrás dela, misturando-se nas sombras, estava Nico di Angelo. Alguém que não o procurasse não o veria, haviam tido o bom senso de vesti-lo em tons escuros no lugar do verde árvore da abertura. A alguns metros á sua esquerda Travis e a garota de seu Distrito eram aconselhados por seu mentor, ele não parecia realmente ouvir a alguma palavra, olhava distraidamente para a parede oposta como se contasse os furos. Seu irmão Connor parecia animado, eu não podia deixar de imaginar que tipo de loucura havia planejado para sua entrevista... Que os deuses não o permitissem. Infelizmente, os deuses nada fariam, cabia tão somente a mim.
– Volto dentro de pouco tempo. – eu disse contornando meu mentor e saindo sem ouvir sua resposta.
Toquei Clarisse levemente no ombro e lhe lancei um olhar que dizia claramente Venha. Thalia que observava escorada na parede se aproximou, seguida por Connor que fez um sinal para o irmão que se afastou da garota de seu Distrito aparentemente satisfeito por ter algo para prender sua atenção que não fossem os furos na parede oposta. Não vi Nico sair de onde estava antes, mas o vi chegar furtivamente, por um segundo indaguei se ele havia feito uma viajem pelas sombras ou se simplesmente havia andado silenciosamente por qualquer canto desprovido de luz. Por último Percy se despediu de Effie com um sorriso e se juntou a nós.
– Pronto para por fogo no barraco? – perguntou Travis a Connor.
– Sempre estive pronto. – respondeu Connor sorrindo de maneira ainda mais escancarada que o irmão.
– Não, vocês não podem por fogo em nada. – eu disse mantendo o tom de minha voz baixo o suficiente para protegê-la de ouvidos curiosos. – Não façam perguntas agora, por favor. – continuei de forma impaciente sob os olhares confusos dos outros seis semideuses. – Não posso explicar em detalhes aqui, mas nenhum de nós pode, de forma alguma insinuar não sermos os Tributos normais que todos, ou quase todos, pensam que somos. Se algo que fizermos, seja isso um gesto ou uma palavra, puder de alguma forma explicitar nossas verdadeiras intenções nós estaremos com problemas. Nossa missão vai fracassar se não agirem de acordo com o que falo agora.
– Nossa missão é levar os Distritos á rebelião. – disse Thalia com um ar duvidoso. – Deixar que vejam nossas verdadeiras intenções nos livraria dessa maldita missão mais rapidamente.
– Acredite em mim. – pedi. – Sei o que falo. Se isso não nos levar ao fracasso, dificultará consideravelmente nossa missão.
Houve um curto período de tempo onde os semideuses pareceram considerar, mesmo que contrariados, o que eu dizia. Não era difícil imaginar o que pensavam: Ela é filha de Atena, nunca diria algo que não condiz com a realidade. Por outro lado, o que diz me parece absurdo. Surpreendi-me quando Nico deu um paço a frente e disse com convicção:
– Eu acho que compreendo seus motivos Annabeth. – surpreendi-me ainda mais ao constatar que apesar de já não estar nas sombras, as sombras pareciam estar sobre ele, como se se curvassem em sua direção. Sem dúvida teria percebido algo assim antes, mas poucas vezes havia estado com Nico di Angelo, não ficava por muito tempo no Acampamento e quando ficava tendia a esconder-se no Chalé 13. – Vi um Pacificador, estranhei sua presença, mas pouco sei sobre os Jogos e imaginei que deveria ser normal. É o que imagino?
– Sim. – eu respondi com firmeza. – É exatamente o que imagina.
– Effie me deu mais de mil dicas sobre postura e coisas assim. – disse Percy quebrando o suspense que havia se instalado. – Acho que eu faria bem em usa-las. E então pessoal.
– Farei o que disse Annabeth. – disse Thalia.
– É um saco, mas vou fazer o que puder. – Clarisse falou a contragosto.
– Vamos ter que deixar aquela parada para outra ocasião. – disse Connor.
– É uma pena, eu queria tanto fazer aquela parada. – disse Travis em um tom desejoso.
– E que parada seria essa? – perguntou Percy.
Travis e Connor se entreolharam com expressões serias, por um momento eu realmente acreditei que fossem dizer algo relevante. Mas foi apenas um momento de ilusão, pois ambos começaram a gargalhar, escandalosos como apenas eles sabiam ser. Os Tributos e mentores a nossa volta se desviaram do que faziam e analisaram com surpresa os gêmeos. Aquilo era um problema, Travis havia cortado o cabelo de forma que estaria exatamente igual à Connor se não fosse pela maquiagem que variava entre eles. Era uma grande sorte que os garotos na Capital também utilizassem de artifícios para beleza.
– Imagino que tenham sido treinados para as entrevistas. – meus amigos anuíram e eu prossegui. – Sei que para alguns de vocês isso poderá ser difícil, mas tentem agir de acordo com os conselhos que lhes foram dados.
Sem mais uma palavra me virei e caminhei com passos apressados na direção de Marvel. Pus-me ao seu lado como se dali nunca tivesse saído e ele me lançou um olhar desconfiado como já se habituara a fazer. Eu seria a primeira dos Tributos a ser entrevistada, levei isso como algo bom, sendo a primeira os outros poderiam ver como eu agi e poderiam tentar fazer algo parecido.
Posicionaram-me na lateral do palco, onde Ceaser Flickerman já falava de forma desenfreada com os telespectadores. Mantive-me oculta pela coxia até que o apresentador se virasse para mim com seu largo sorriso estampado no rosto, fizesse um gesto amplo com a mão desocupada e praticamente gritasse, embora eu não tivesse certeza se ele realmente gritara ou se sua voz simplesmente fora amplificada.
– Helena Chance!
Endireitei-me e no ultimo segundo decidi de que forma agiria durante a entrevista, eu não era doce e não fingiria. Entrei de cabeça erguida, andando elegantemente em direção a Ceaser sem lançar um único olhar ás câmeras ou aos telespectadores. Eu teria que, de alguma forma, demonstrar o quanto inteligente eu era. Por ser loira as pessoas logo me julgavam burra pelo estereótipo de que todas as loiras são estúpidas. Cumprimentei Ceaser com um breve abraço e ambos nos sentamos.
– Helena, Helena... – começou Ceaser me analisando ainda com o mesmo sorriso escancarado. – Quando a vi pela primeira vez durante a Colheita tudo que consegui pensar foi: Aí esta a perfeita representante para o Distrito 1! E então recebemos de você uma nota 12! Nunca houve notas tão altas como as deste ano! Conte-me, como conseguiu tal proeza?
– Tudo que fiz foi atirar algumas adagas em bonecos. – eu disse sorrindo de lado, sem me atrever a sorrir completamente. – Os Idealizadores foram realmente generosos ao conceder-me tal nota. Imagino que eu tenha a recebido não só por minha técnica mais também por minha personalidade que, imagino eu, é tudo que preciso para ganhar os Jogos.
– Da forma como fala não duvido tê-la sentada neste mesmo lugar depois dos Jogos. – disse Ceaser rindo bem humorado.
– Estou convencida de que isso acontecerá.- eu disse abrindo, pela primeira vez, um sorriso radiante. Nossa conversa a partir de então se resumiu a piadas de Ceaser e perguntas sobre a Capital. Respondi a cada uma delas sem dizer uma única mentira, e no entanto não lhe disse a verdade completa e não dei motivos para que alguém pensasse que eu tinha a intenção de causar uma rebelião. Na maior parte das vezes falei sobre a arquitetura da Capital, tomando cuidado para não aprofundar além do que alguém do Distrito 1 pode saber.
Ao fim de minha entrevista me sentei e devaneei enquanto Marvel falava com simpatia, até onde eu sabia, os Tributos do Distrito 1 quase sempre eram os favoritos e costumavam recorrer á uma personalidade calorosa. Somente voltei a realidade quando Ceaser se despediu do Tributo que se sentou ao meu lado sem uma única palavra, o que era normal, nós não nos falávamos desde que o trêm deixou o Distrito 1. Ou seja: há muito tempo.
Quando Clarisse foi chamada prendi a respiração temendo o que poderia estar por vir. Não pude deixar de suspirar aliviada quando ela respondeu a Ceaser com uma educação forçada que eu não sabia existir. Suas repostas sempre eram curtas e grossas, mas nem uma delas poderia de alguma forma a incriminar. Ao fim de sua entrevista me permiti desligar-me novamente. Eu sentia falta do Acampamento, sentia falta de meus meio-irmãos, sentia falta de estar nos Estados Unidos, onde não me jogariam em uma Arena para que morresse no intuito de divertir aos ricos. Perdi-me nas doces lembranças das últimas semanas no Acampamento, os campos de morango cuidados pelos sátiros que tocavam suas flautas suavemente. Os semideuses dos deuses menores que pouco a pouco chegavam, felizes por também possuírem um lar. O Chalé de Hermes esvaziando cada vez mais à medida que os semideuses descobriam aonde pertenciam. Tudo aquilo me parecia cada vez mais distante, e cada vez mais desejável. O que eu não daria por um desjejum no pavilhão do Acampamento, na companhia de todos os meus irmãos e irmãs discutindo sobre assuntos que a todos nós interessava? Queria poder voltar ao Chalé 6 e ler um bom livro deitada em minha cama.
– Júlia Grace! – anunciou Ceaser me levando a novamente focar-me.
Durante a entrevista Thalia se mostrou simpática, ao seu modo, não era exatamente como se estivesse realmente se sentindo grata, se não a conhecesse e a estivesse vendo pela primeira vez eu diria que odiava estar ali, mas não queria ou não podia dizer aquilo em voz alta, portanto falava com simpatia ao mesmo tempo em que não sorria e parecia com raiva. Eu não podia esperar algo melhor. Ao menos ela tentara responder de forma descente ao contrário de Clarisse que não se dera ao trabalho.
Ao decorrer das entrevistas seguintes eu só conseguia pensar em Travis e Connor. Entre todos os seis eles eram os que mais me preocupavam. Não conseguia imagina-los elogiando a Capital ou agradecendo aos telespectadores sem motivo algum. Quando finalmente Ceaser chamou Jorge do Distrito 11 eu fiz uma prece silenciosa a todos os deuses, para que não o permitissem ser como ele era normalmente. Senti-me realmente aliviada quando Travis se portou como um garoto normal de seu suposto distrito, trocando piadas com o apresentador e arrancando risadas do público. Connor seguiu o exemplo do irmão, embora tomando cuidado para não assemelhar-se demais a ele, o que me fez suspirar internamente.
A garota chamada Rue do Distrito 11 foi realmente bem, eu me sentia mal em saber que, embora tenha se saído tão bem os patrocinadores não iriam investir nela. Por outro lado, Nico parecia tê-la adotado, o que me era assustador. Nunca pensei que o filho de Hades fosse se dar bem com uma garotinha. Quando ele entrou parecendo procurar pelas sombras eu não me surpreendi. Mas aparentemente nem mesmo ele podia criar sombras do nada quando haviam luzes vindas de todas as direções. Aquilo pareceu deixa-lo desconfortável, mas apenas eu deveria ter percebido a leve inquietação em seus dedos envoltos pelos bolsos de suas calças. Ele nem ao menos tentou ser simpático, respondeu a todas as perguntas de forma breve e secamente. E no entanto Ceaser não se abalou, chegou a lhe perguntar sobre alguma garota por quem ele nutria uma paixão secreta. Nico respondeu com um curto e mal humorado “não”, pondo o assunto como encerrado. Nunca passara por minha cabeça que Nico poderia se apaixonar, ele não parecia se interessar por ninguém e preferia estar sozinho no Mundo Inferior. Mas a forma como ele pareceu se aborrecer com a pergunta me levou a questionar-me sobre o assunto. Se fosse realmente possível que alguém tivesse conquistado Nico di Angelo, só poderia ser... Não, impossível.
– Katniss Everdeen! – Ceaser exclamou me tirando de meus devaneios.
Katniss subiu ao palco central parecendo perdida por um segundo, deveria estar distraída antes de fazê-lo. Ela apertou a mão estendida de Ceaser e ele sorriu radiante para ela. Todos queriam conhecer a Garota em Chamas.
– E então Katniss, a Capital deve ser uma mudança e tanto em relação ao Distrito 12. O que mais te impressionou desde que chegou aqui? – perguntou em um tom animado como se esperasse por aquele momento desde que as entrevistas tiveram início. Katniss hesitou, como se analisasse a pergunta. E eu imaginei se sua indecisão devia-se ao medo de ser sincera e admitir que o que mais a impressionou foi à estupidez da população. Ela balançou a cabeça como se tentasse decidir. Por um momento olhou para o público, percebi seus olhos caindo sobre seu estilista, Cinna.
– O cozido de carneiro. – disse enfim. Ceaser respondeu com um riso juntamente com parte do público.
– O que vem com ameixas secas? – ele perguntou bem humorado. Katniss anuiu levemente. – Sou capaz de comer uma panela inteira daquilo. – disse ele se virando para o público com uma mão sobre a barriga e uma expressão de nojo. – Nem parece, não é? – as pessoas da Capital deram gritos de incentivo e aplaudiram com energia.
– Agora Katniss. – começou ele subitamente sério. Imaginei se falaria algo realmente importante. – Quando você apareceu na cerimonia de abertura, eu confesso, meu coração quase parou. O que você achou daquela roupa?
– Você quer dizer logo depois de superar pavor de morrer queimada? – perguntou ela fazendo que quase todos rissem, inclusive Travis e Connor.
– Exatamente, comece por aí. – Ceaser a incentivou á continuar.
– Achei que Cinna foi brilhante e foi o traje mais maravilhoso que vi em minha vida, e não podia acreditar que era eu quem o usava. Também não consigo acreditar que estou usando este aqui. – ela levantou um pouco a saia para mostra-lo ao público que respondeu com suspiros.
Ela deu uma volta fazendo-o ondular a sua volta, estava realmente bela. Ceaser a pediu que o fizesse novamente e ela lhe concedeu. Na metade da segunda volta é engolida por chamas que dançam por suas saias sem queima-la. Eu achei impressionante, e aparentemente o publico também, que não se deu ao trabalho de conter seu entusiasmo. Ao parar ela se desequilibrou e se apoiou no braço de Ceaser que lhe pediu que não parasse.
– Eu preciso! Estou ficando tonta! – ela estava rindo, o que surpreendeu a mim e aparentemente também a ela. Ceaser pôs o braço sobre seu braço também rindo a toa.
– Não se preocupe, você está comigo. Não posso deixar que siga os passos de seu mentor.
As câmeras se viraram para o mentor do Distrito 12, que havia estado bêbado durante a Colheita. Todos vaiaram em desaprovação. Mas ele não pareceu dar importância ao fato, não deveria ligar para o que pensavam as pessoas da Capital.
– Está tudo bem. – disse Ceaser tentando acalmar os ânimos da plateia. – Ela está a salvo comigo. Então quanto ao treinamento. Onze! Você poderia nos dar uma idéia do que aconteceu lá?
Vi Katniss olhar de relance para os Idealizadores dos Jogos na varanda e morder o lábio. Tentei imaginar o que ela tinha feito.
– Tudo que sei é que deve ter sido a primeira vez que algo como isso aconteceu.
As câmeras estavam focadas nos idealizadores que anuíam um tanto nervosos, disfarçando com risadas forçadas. Katniss não fazia idéia do que aqueles homens haviam vivenciado. Ceaser insistiu por detalhes, mas Katniss nada disse depois de pedir permissão aos Idealizadores que negaram ainda forçando risos. Naquele momento tive certeza de que Katniss havia feito algo quase tão ruim quanto eu.
Ceaser lhe fez mais algumas perguntas relacionadas à sua irmã mais nova Prim, por quem havia se oferecido como Tributo. Ela respondeu de forma que julguei sincera e lhe disse havia jurado que venceria. Senti-me mal por ela, havia feito um juramento perigoso a sua irmã. Assim como Percy fizera a Nico anos antes. Eu me perdi pensando em como Katniss deveria se sentir, ela, Rue e todos os outros Tributos que antes delas passaram por situações parecidas. Não era justo, simplesmente não era certo. Quando Percy foi chamado tentei afastar tais pensamentos e me atentar a sua entrevista. Ele desempenhou bem seu papel de pobre garoto do Distrito 12. Desde o início conquistou a plateia que soltava muitas exclamações e risos.
– Agora uma última pergunta Percy. Diga-me, você tem uma garota especial? Não esconda nada, me diga o nome dela. – disse Ceaser em um tom confidente.
Percy hesitou, pareceu considerar suas opções. Por fim olhou para Ceaser de forma enigmática e então para seu próprio colo.
– Tem uma garota. – ele começou e eu senti que falaria algo estúpido. – Mas ela não iria gostar que eu falasse seu nome aqui. – suspirei internamente, aliviada.
– Pense assim. – disse Ceaser. – Essa pode ser sua última chance de dizer a ela o quanto a ama.
– Tudo bem. – disse ele. – O nome dela é... Annabeth Chase e ela é muito mais do que todos vocês podem imaginar...
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