Jogo dos Deuses
6 Capítulo VI ♗ O chamado do dragão.
Notas iniciais

♗♗♗ A s g a r d — D e z m i l A n o s A t r á s ♗♗♗
O dia havia nascido ensolarado em Asgard, os comércios da parte central do reino já trabalhavam a mil por hora, como se estivessem em época festiva, algo que demoraria mais alguns meses no calendário nórdico. A guarda real treinava com afinco, cheios de energia pronta para ser gasta nos duros testes que Thor fizera questão de passar para eles, já que o reino estava pacífico demais, ocasionando em desleixos por parte de seus destemidos guerreiros.
− Acho que podemos ir hoje. – Murmurou Bauhir para seu irmão.
Seus golpes com a espada eram perfeitos. Por mais bruto que o mais velho fosse, seus movimentos eram leves, como se sua espada dançasse no ar. Todavia, Bálder não ficava atrás, pois sua percepção aguçada lhe permitia bloquear cada ataque do mais velho com perfeita calma e maestria. Era algo involuntário, sem ele perceber, algo que fazia parte de sua natureza guerreira.
Enquanto seu irmão era perito em atacar, Bálder era o mestre da defesa, complementando assim a arte da luta.
− Espero que sim. – Sorriu, ofegante, desviando de um dos golpes mais letais de Bauhir.
Enquanto os guerreiros treinavam fervorosamente, ao longe da pequena colina acima dos guerreiros, Loki os observava com inferioridade, como se a miserável existência deles lhe incomodasse.
− Bárbaros... – Soltou o desprezo para o nada, perdendo-se na brisa que passava por ele naquele momento.
− Por que não tenta treinar com eles? – Indagou uma voz feminina bem conhecida por ele, fazendo-o se assustar com a repentina aparição daquela criatura medíocre que o enfrentara no dia anterior.
Ela, a jovem que fora capaz de passar por seu orgulho para salvar outra vida tão miserável quanto a dela, estava lá, diante dele, sorrindo como uma verdadeira idiota.
− O que quer aqui? – Indagou o príncipe, abrindo um de seus livros favoritos sobre magia, não se importando nenhum pouco com a presença da garota.
− Bem... −Começou em um tom receoso, temente, como se soubesse que qualquer palavra errada poderia ser seu fim. – Eu vim para o centro para trocar alguns ovos de serpente de fogo por um pouco de... grãos. – Seu tom morrera no exato momento em que Loki fechou o livro com força, irritado, dando a entender que voz dela o incomodasse.
− Errou de lugar, menininha. – Seu tom na última palavra fora áspero, zombeteiro, como se ela não passasse de uma criança para ele. – Aqui, como pode ver, não é a área comercial, selvagem tola.
Como se Sigyn tivesse sido apunhalada por uma afilada espada em seu peito, as palavras de Loki atingem profundamente seu coração, fazendo a ferida aberta sangrar. Mas ela não o odiava, jamais poderia odiá-lo, pois ambos estavam no mesmo barco. Mesmo ele não percebendo o quão desesperados seus olhos verdes esmeraldinos estampassem a verdade sobre ele, a jovem camponesa enxergava sua dor, algo que nem mesmo Frigga, rainha de Asgard, mãe dos herdeiros do trono, conseguia ver por causa do amor cego que ela sentia por ele.
Ela estava magoada, isso era inegável, mas não viraria às costas para ele, deixando-o sozinho como todos sempre faziam. Em seu peito a benevolência prevalecia cada dia mais forte, tornando-a uma moça completamente diferente das outras, algo que chamava muito atenção entre os homens. Homem esses que, como sempre pensando com as partes baixas, acabavam confundindo o coração puro da garota com ignorância e submissão, sendo todos surpreendidos mais tarde quando a jovem, para proteger a sua virtude de mulher, lutava como uma verdadeira guerreira, colocando-os para correr.
Suspirou fundo, ainda fitando o belo príncipe à sua frente, dando um sorriso gentil em sua direção. – Posso me sentar?
Loki a observou incrédulo, descrente, como se tudo o que ele havia dito para ela ir embora de uma vez não tivesse causado nenhum efeito nela, como se ela não se importava de ser humilhada.
− Não. – Seu tom saíra extremante grosso, fazendo-a recuar um passo para trás. – Você pode me passar raiva.
Sentindo-se insultada com o que ele havia dito, irritada, ela caminha até ele em paços duros, pegando o livro das mãos do Deus da trapaça e o jogando longe. – Escuta aqui, príncipe, eu até posso viver em unohtuneen metsän, mas não possuo nenhum tipo de doença não. – Seus olhos o fitavam com raiva, mas não aquela que queima e tortura por dentro, apenas algo passageiro. – É bem mais provável você me passar raiva, sabia? – Um sorriso se formou nos lábios da garota, vendo a face de Loki ficar vermelha de raiva.
Humilhado. Se tinha uma palavra para descrever como o príncipe mais novo estava se sentindo naquele exato momento diante da garota, a palavra humilhado era a palavra que se encaixava perfeitamente naquela ocasião.
Como aquela selvagem, pela segunda vez em que se encontram, ou melhor, em que ela corre até ele como um cachorrinho sem dono, desesperada por amparo e atenção, poderia de insultar daquela forma?
Se ele deixaria aquilo passar? Não, ele não deixaria. Já fora benevolente demais ao poupar a vida dos traidores que iriam levar comida para ela escondido. Como tudo há um certo limite, sua cota de gentileza já havia se esgotado. Ela pagaria pelo insulto da pior maneira possível.
− Guardas! – Gritou o herdeiro mestre em magia, sendo prontamente atendido. – Prendam−na já!
Bálder não pôde conter um sorriso de felicidade ao vê-la novamente, irritando ainda mais Loki. – Joguem-na nas masmorras. – Ordenou, imponente, sendo obedecido rapidamente por causa do medo que ele fazia questão de impor em todos ao seu redor.
Thor, que até então estava passando os últimos exercícios físicos daquele dia, deixa seus soltados e vai até o irmão, o fitando com reprovação.
− O que houve aqui? – O loiro possuidor da mjölnir perguntou, parando ao lado de Loki.
Para o Deus da trapaça e das mentiras, enganar o idiota do irmão seria fácil demais, principalmente quando seu orgulho estava posto em jogo.
Discretamente, sem que ninguém percebesse a magica de Loki agindo, o corpo do Herdeiro mais novo cai no chão, ensanguentado, como houvesse sido apunhalado diversas vezes por uma lâmina cega.
− A selvagem maldita... – Murmurou, mantendo uma feição sôfrega. – Eu não sei o que houve para ela... para ela me atacar... – Sua respiração acelerada batia contra o rosto de Thor.
− Um ataque surpresa? – Murmurou o Deus do trovão, pensativo, ainda não muito convencido.
Vendo que o irmão que costumava enganar com tanta facilidade já não era mais tão tolo como costumava ser, Loki improvisa algo para fazê-lo esquecer daquele assunto por algum tempo.
O grito de dor saíra alto, fazendo com que Thor não mais tocasse naquele assunto, pedindo por socorro o quanto antes.
− Aguente firme, meu irmão. – O príncipe mais velho pediu em um tom aflito, segurando uma das gélidas mãos de Loki.
Enquanto levavam ele para a ala hospitalar do palácio, sem que ninguém percebesse, o verdadeiro mestre da magia aparece em unohtuneen metsän, próximo à vila em que a selvagem morava, alargando um maléfico sorriso entre os lábios. − Fogo e Sangue. – Murmurou o Deus, sobrevoando acima das árvores secas, inquieto, como se soubesse que era errado.
Contudo, por mais que o pequeno fragmento de luz de Loki tentasse abrir os olhos dele, a escuridão era mais forte, dominação assim o implacável e gélido coração dele com a maldade que crescia dia após dia, levando-o ao estado psicótico.
Para ele, um Deus tratado como a pior praga entre os nove reinos, nada mais justo que tratar igual todos ao seu redor da mesma forma que era tratado pelos outros Deuses não tão importantes de Asgard, aumentando assim a sua péssima fama. Todos não passavam porcos prontos para o abate aos seus olhos.
− Veja só isso, mamãe! – A voz de uma pequena criança ecoou pelos ouvidos de Loki, chamando-lhe atenção. – Não é bonito? – A garotinha de olhos claros, cabelos loiros platinados, pele alva e corpo desnutrido sorria alegremente, apontando para uma flor não muito longe dela.
A senhora que a acompanhava sorriu, acariciando os longos cabelos da filha, dando um sorriso fraco. – É sim, minha criança.
− E se o buque de casamento da Sigyn fosse com flores como essa? – Perguntou em um tom leigo, fazendo a mulher desfazer a feição acolhedora de poucos segundos atrás.
− Sigyn não irá se casar. – Decretou. – Pelo menos como ela gostaria.
Confusa, sem compreender o que as palavras que sua progenitora queria dizer, a garotinha pergunta com inocência. – Então como ela irá se casar, mamãe?
A senhora comprimiu os lábios, entreabrindo-os, incerta se falaria ou não sobre aquele assunto para a caçula da família.
− E então? – Perseverante como sua irmã, Sigyn, a jovem insiste em perguntar.
A matriarca sabia que a pequena não desistiria enquanto não recebesse uma resposta satisfatória, característica essa herdada de sua segunda filha mais velha. Vendo-se sem outra opção, a mulher decide contar a verdade para Singrid.
− Bom, minha filha, o Fauhir comprou Sigyn como esposa dele assim que ela foi no centro tentar arrumar um pouco de grãos. – Explicou a senhora, indiferente, acariciando os cabelos da filha.
− Então ela...
Os olhos da pequena estavam cheios de lágrimas doídas, descrença e decepção. – Como a senhora pôde vender a minha irmã como uma mercadoria? – A voz aguda e infantil saíra afrontosa, cheia de asco.
− É o único jeito que encontrei para mudar de vida. – Respondeu com frieza, como se a felicidade da filha mais velha não significasse nada para ela.
Singrid, com apenas doze anos, já sabia mais coisas que uma criança das províncias mais nobre de Asgard poderia saber com tão pouca idade. Criada em meio à selvagens, a jovem aprendeu a sobreviver com o pouco que tinham, compreendendo assim o valor das coisas ao seu redor.
− A senhora é um monstro. – Cuspiu as palavras com frieza, afastando-se da zona segura que brincava com frequência junto com outras crianças.
O Deus da trapaça ouvira tudo em silêncio, sem esboçar qualquer reação, sem se importar com o triste futuro que aguardava pela garota que o enfrentara duas vezes. Para ele, um nobre, ver pais casando suas filhas por pequenas mordomias recebidas do homem que pagou por ela era algo comum, sem importância. Mas algo o incomodava por dentro, deixando-o inquieto. Era como se o casamento daquela atrevida lhe fizesse sentir-se irritado por dentro, deixando-o confuso.
− Droga... – Murmurou, pousando uma de suas mãos na cabeça, balançando-a de um lado para outro em reprovação. – O que está acontecendo comigo? – Perguntou para o nada.
− Olá, Senhor Johair! – A falsidade na voz da mais velha ecoou, gananciosa, fazendo Loki a escarar de forma maldosa. – Em que posso ser útil?
O velho ferreiro de aparência grotesca e rechonchuda sorriu, chegando perto dela com muita intimidade, como se estivessem prontos para tramar. – Antes que nossos filhos se casem, preciso ter certeza se sua filha é uma mulher em todos os sentidos da palavra.
− Deseja passar uma noite com ela? – Indagou a senhora, o fitando surpresa.
− Sim. – Sorriu. – Lhe pagarei com trinta moedas de prata.
Apesar de saber sobre os casamentos arranjados, de tudo o que os porcos da classe inferior faziam por pouca mixaria, aquela conversa o deixou enojado.
− Bom, quem sou eu para negar tal pedido? – A mulher sorriu vangloriosa, pegando o pequeno saco de dinheiro das mãos do velho.
− Quando poderei buscá-la? – O homem perguntou um tanto sem graça.
− Assim que a noite cair.
Satisfeito, o homem sorri, dando as costas para a mulher, rumando para algum lugar próximo das redondezas.
A gananciosa senhora cantarolava e cantarolava, comemorando o bom negócio que havia feito. Loki, aproveitando a distração da mãe de Sigyn, usa seu teletransporte, aparecendo diante dos olhos dela, assustando-a.
− Príncipe Loki... – O medo nos olhos da mulher era visível. O Deus da trapaça gostava disso.
− Selvagem... – Murmurou, pigarreando logo em seguida, tomando uma postura imponente.
− O que o senhor deseja nessa área tão indigna de sua presença, Milorde? – A voz era trêmula, amedrontada, falha.
Loki deu um sorriso maldoso, pondo-se a caminhar na direção da asquerosa mulher, indo direto ao ponto. – Por que vender a garota para alguém como esse ferreiro, que de dará poucas moedas que acabarão logo, do que para mim, que posso te dar muito além do que a sua mente limitada pode imaginar? – Seu tom saíra arrogante, mas muito convincente.
− E de quantas moedas estaríamos falando? – Questionou, interessada, perdendo totalmente o medo que sentia dele.
− Que tal... mil moedas de ouro? – Sugeriu o Deus da trapaça, dando um sorriso convincente para a mãe da insolente, a encantando com sua inegável beleza.
A senhora arregala os olhos, boquiaberta, ainda descrente com a oferta feita pelo príncipe. – M-mil moedas de ouro?
− Sim. – Assentiu positivamente com a cabeça. – Mil moedas de ouro.
− Claro que aceito sua oferta, meu príncipe. – Sorriu, acreditando nas palavras do mentiroso, mas o que ela recebera fora uma um golpe certeiro no peito pelo punhal de Loki, fazendo-a cair no chão, sem qualquer resquício de vida em seus olhos.
Limpando sua arma com um pano de cetim que sempre carregava consigo, o herdeiro mais jovem, a guarda em seu sobretudo, caminhando para fora daquele lugar asqueroso, mas gritos de uma única criança o faz parar subitamente, como se soubesse quem estava gritando. – Aquela garota e sua família já estão me causando muitos problemas... – Murmurou, seguindo os ecos dos desesperados gritos da menina, deparando-se com lohikäärmeitä.
− Era só o que faltava... – Seu tom era baixo, como se fosse um sussurro se perdendo no vento. – Agora as coisas complicaram feio.
Uma das quatro montanhas que sustentavam o altar de Vasterya desabou, caindo na direção da garotinha, obrigando a agir sem ao menos pensar. – Cuidado! – Gritou, jogando a menina para longe das pedras que caiam.
− O que está acontecendo? – Perguntou ela, assustada, tremendo de medo ao ver criaturas iguais aos dos contos que sua irmã costumava contar.
− taivaallisen lohikäärmeen herääminen! – A voz de Loki era alta e impaciente, algo que não passou despercebido por Sindrid.
− O que? – Confusa com a língua estrangeira que o príncipe havia lhe explicado a situação, a jovem o indaga novamente.
− Vamos sair logo daqui! – Mesmo sabendo que uma chuva de perguntas cairia sobre si no palácio, Loki não pode evitar de pegar a garota com rapidez, usando seu teletransporte para voltar ao conforto do palácio do qual não deveria ter saído naquele dia por nenhum motivo.
♗♗♗ P a l á c i o R e a l — M a s m o r r a s ♗♗♗
Nas masmorras do palácio real, na cela mais suja, fria e escura, Sigyn encontrava-se desolada, perdida e magoada. – Como sairei desse lugar? – Lágrimas escorreram de seus olhos, manchando sua face pálida. – O príncipe Loki jamais me deixará sair com vida daqui.
− Talvez sim, minha criança. – A voz reconfortante de uma mulher ecoou pelo lugar, assustando-a. – Talvez Meu filho permita que você saia.
Esperançosa, Sigyn limpa as lágrimas, recompondo-se, indo de encontro com a mulher, mas quando a jovem tocou nela, como se fosse pura mágica, a mulher desaparece diante de seus olhos.
− Só posso estar ficando louca... – Sussurrou, balançando a cabeça em negação. – Não existe esperança para mim, não se depender da bondade de Loki.
Ao dizer isso, um rugido ao longe ecoa por sua mente, um rugido igual ao de um dragão, levando à inconsciência.
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