Os cabelos esvoaçavam, as pernas corriam desajeitadamente pelo extenso bosque, a respiração arfava, o peito subia e descia desesperadamente, estava tão entretida não percebeu na enorme raiz que cobria o chão, tropeçando na mesma, fazendo com que o corpo fosse de encontro as folhas que cobriam a grama. Sentiu uma ardência no ante braço esquerdo, vendo que sangrava lentamente.

Respirou fundo exatamente três vezes, sentando no chão.

Lovy soluçava, cobrindo o braço machucado, manchando os dedos com um pouco do sangue.

Por quê?, indagava para si mesma. Lovy não compreendia o que fazia ali, porque ela estava participando de um jogo tão brutal. De primeiro ela acreditou que aquilo fosse uma pegadinha de muito mau gosto, Lila tinha lhe convidado para mais uma temporada, um spin off, ela disse. Assinou um contrato confiando na mulher, deveria ter lido, deveria ter suspeitado de algo. Mas sempre confiou demais nos outros, sempre pensou bem demais dos outros.

Luxy estava morta.

Luxy foi a primeira vitima, e de Renata ainda por cima.

De agora em diante ela precisaria matar para continuar viva.

Matar...?

A palavra ecoou na sua cabeça. Ela jamais mataria alguém, ela era boa demais para isso, não conseguiria suportar sua própria consciência, não conseguiria carregar o peso de uma morte.

Os olhos de Lovy encontraram a bolsa que lhe foi entregue. Engoliu em seco, sentindo o colar espremer em seu pescoço. Abriu o zíper, vendo uma garrafa de água de dois litros, alguns sacos de salgadinhos, pacotes de bolacha de água e sal, e avistou uma pequena pasta, abriu eufórica, era um mapa. Era exatamente idêntico ao desenho explicado no quadro pela sádico Renata.

Remexeu mais ao fundo, sentindo um objeto frio e pesado. A respiração dela travou por alguns segundos, puxando aquilo que ela tinha certeza do que era.

Era uma beretta M92, uma pistola pequena, percebeu que junto da arma tinha um papel, onde em inglês era explicado como colocar a munição na arma, e como utilizá-la da melhor forma possível.

Com ambas as mãos, Rubbi tocou-a levemente, até que segurou o gatilho, disparando acidentalmente um tiro no alto. E por puro impulso jogou a arma, escutando-a bater numa árvore qualquer.

— Eu... Eu não quero participar disso... Eu quero... Eu preciso... — respirou. Precisava encontrar Dobby e Gina. Dobby havia acenado para ela, com certeza era uma pista, deveria ter falado algo mas ela não lembra de ter ouvido, estava assustada e com muito medo.

Quando saiu da velha cabana não encontrou ninguém do lado de fora, por algum motivo esperou que Dobby, Gina, qualquer um estaria ali fora para lhe fazer companhia, lhe orientar, qualquer coisa... Mas não tinha ninguém.

Por impulso desatou a correr e foi para aonde estava agora.

Respirou fundo.

Ia achar Dobby.

Guardou calmamente tudo na bolsa, girou nos calcanhares até que seus olhos encontraram a pequena arma que ela jogou próximo a uma moita. Se aproximou pronta para pegá-la, mas um enorme som se fez presente.

Clanc.

Uma dor aguda sobre seu joelho. Não conseguiu guardar o grito que saia de sua garganta, ecoou por todo aquele bosque, abaixou-se e viu o pé esquerdo preso por uma armadilha de urso, seus olhos lacrimejavam demais, grossas e ardidas lágrimas desciam pelo rosto, a dor era insuportável.

Seu grito diminuiu e tentando usar a pouca força que lhe restava Lovy pensou em tocar na armadilha para livrar seu pé, mas um som metálico a assustou e fez olhar para cima.

Alice apontava a arma de Lovy para a sua testa, no rosto belo da japonesa uma expressão séria tomava conta.

— Alice...? — Lovy pareceu surpresa, mas a voz também tinha uma mistura de dor e desapontamento. — Alice, por favor...

Lovy não conseguiu terminar, a arma disparou mais uma vez, o tiro pareceu ecoar ainda mais alto do que antes. Alice olhou para os lados, como se conferisse que ninguém a virá, andou até corpo inerte e tirou a bolsa do ombro. Abriu a própria bolsa colocando todos os itens de Lovy ali dentro, juntos com as balas da pequena arma.

— Eu achando que ninguém seria sonsa demais para cair numa armadilha de urso... — falou calma ainda olhando ao redor para ver se ninguém a espreitava. Agradeceu que já era noite e aquela parte do bosque parecia mais escura que o resto dele todo.

Abriu a garrafa de água dando um leve gole só para molhar o bico. Voltou para dentro das árvores, deixando a armadilha e a primeira morte do jogo para trás.

[...]

Não muito longe da cabana principal, Buffy e Dekka encontraram um barranco, era íngrime demais e parece que havia chovido por uma semana inteira antes dele chegarem, já que a terra ainda estava úmida, tomando um pouco de cuidado as duas o desceram e aproveitando a pouca iluminação do luar olharam o mapa de Dekka. Aparentemente ambas já estavam em H9, um ponto abaixo do quadrante onde a cabana se localizava. Claro que as duas agradeceram por saírem logo, assim teria mais chances de sair do quadrante antes que ele fosse proibido. Ironicamente, não havia nada naquela região que poderia ajudá-las. No mapa indicava um alçapão, mas ambas acreditavam que alguém já deveria estar escondido ali então optaram por seguir um caminho oposto, tentando seguir para H10, que mostrava ser uma área residencial urbana.

A bolsa de Buffy continha uma garrafa d'água, comida, o mapa e a sua arma era um picador de gelo de 12cm. Quanto a de Dekka continha três seringas de ácido sulfúrico. No momento a arma de Buffy parecia mais útil.

Tomando a dianteira Buffy caminhou, olhando para o chão enquanto Dekka olhava tanto para frente como para trás, torcendo para não confrontar ninguém. Não levou muito tempo para ouvirem um tiro, silêncio, um grito e mais um tiro.

— Acha que alguém morreu? — questionou Dekka, a voz muito baixa e muito assustada.

— Na melhor das hipóteses.

— Eu não sei como você consegue falar isso com calma. — por incrível que pareça Dekka não quis repreender mas foi o que pareceu.

— Você sabe que quanto mais gente morrer é mais fácil de sairmos vivas daqui. — finalizou Buffy.

A outra ponderou por um tempo, até que bruscamente fez com que Buffy parasse de andar e a encarasse. A pouca claridade da lua brilhava sobre o rosto redondo e assustado de Dekka.

— Você quer me matar agora?

— Por quê?

— Eu sei que vou morrer logo. Prefiro morrer pelas suas mãos agora.

— Não.

— Por quê?

— Nesse jogo há mais chances de se ir longe com alguém do que sozinho. Você acabou de dizer que "não vai longe", mas eu quero que você vá longe. Não podemos ganhar juntas, mas vamos ficar juntas até o último momento.

Apesar de fria, a analogia de Buffy fazia total sentido em sua cabeça. Amava demais a sua namorada, mas assim como Dekka, ela mesma sabia que a outra não iria muito longe. Adoraria se livrar de Dekka agora e não ter que pensar mais no assunto, todavia, preferiu mantê-la ao seu lado. Poderia ser útil. Seria útil.

[...]

Gallatea esperou Metalica sair, virá Gina se encontrar com Dobby, virá Laquanda tirar a arma de bolsa, também virá brevemente quando Marria correu desesperada na direção oposta, e quando a amiga finalmente se fez presente em seu campo de visão a chamou, ambas correram em direção a H9, caíram o barranco macio, e se aproximaram de algo que lembrava um alçapão, a porta estava levemente aberta.

Entraram tão rapidamente, e logo após fecharam a enorme porta que rangeu ante ao ato.

Como se por um instinto humano ou hábito Gallatea procurou um interruptor e quando o achou uma fraca luz amarela tomou conta do ambiente. Não era muito grande, internamente parecia mais um celeiro do que um alçapão, havia alguns tambores jogados a direita, algumas madeiras velhas a esquerda, muito lixo, muita teia de aranha, estava completamente abandoado e parecia mil vezes pior do que a cabana.

Metalica prontamente correu para o interruptor e o desligou.

— Você pode chamar atenção assim. — repreendeu.

Gallatea bufou levemente e voltou a ligar o interruptor.

— A luz é muito fraca, e olhe ali. — apontou para dois lugares, onde já foram janelas, que agora estava tampada com pedaços de madeira, completamente. — Ninguém vai conseguir ver que tem luz aqui dentro. Ainda mais com essa porta fechada.

— E se alguém também tiver a brilhante ideia de vim para cá. — sibilou.

— A porta range, e também é muito pesada, antes de alguém conseguir abri-la vamos ter tempo de nos escondermos.

Metalica pareceu analisar a situação. Com receio soltou um "você tem razão", fazendo com que Gallatea sorrisse triunfante.

As duas se posicionaram sobre a fraca luz, abrindo as bolsas para conferir o que haviam recebido. Gallatea soltou uma exclamação ao puxar o que estava ali dentro, era um revólver, calibre 38. Aquela era a primeira vez que ela tocava numa arma em toda a sua vida, o frio metálico a fez estremecer. Já Metalica pareceu desapontada, sua arma era uma tesoura longa pontiaguda.

Um breve silêncio se fez presente até que as duas q ou uebraram ele em uníssono:

— Acha que podemos sair daqui?

— Eu quero acreditar que sim. — falou Metalica, puxando a garrafa de água e dando um leve gole.

— Acha que alguém vai realmente tentar levar isso a sério?

Não houve tempo para uma resposta, ao fundo pareceu que um grito ecoou, as duas se encararam com olhos arregalados. Ficaram em silêncio mas infelizmente, ou felizmente, não ouviram mais nada.

— Sei que vai parecer idiota. — começou Gallatea. — Mas quero achar uma galera que acredite que sair vivo é a melhor escolha. Não quero matar ninguém, quero arranjar uma forma de sair daqui com vida, levando o maior número de amigos do meu lado.

Metalica pareceu ponderar.

— Realmente é bem idiota. — riu, e também conseguiu arrancar um riso da amiga. A garota olhou para a garrafa em suas mãos, perdida em seus pensamentos, pareceu levar minutos até conseguir falar novamente só que isso durou apenas 5 segundos. — Existe alguém que você possa confiar nesse jogo? Além de mim é claro.

— Cleo. — Foi tão repentino falar o nome da garota, ele não pensou, não ponderou, não se questionou, sabia que dentro as outras vinte e quatro pessoas sabia que Cleo era a mais confiável.

Um barulho de metal atingindo o chão fez as duas se assustarem, Metalica pensando mais rápido pegou a arma de fogo e apontou na direção de onde o barulho viera, soltou um grito autoritário e assustado, algo como "quem está ai?", "aparece", "estou armada". Não demorou muito tempo para que a figura de Cleo surgisse.

Os olhos dela estavam inchados, ofegava demais, como se estivesse dias sem saber o que era respirar direito, os braços estavam levantados e olhava fixamente para Gallatea.

— Eu... — começou. — Eu estou tão assustada. — parecia que ela estava prestes a voltar a chorar.

Gallatea ia de encontro a garota mas Metalica a impediu.

— Joga a bolsa. — ordenou.

Cleo pareceu levar um tempo até entender o que fazer, tirou a bolsa do ombro e a jogou no chão, deslizando e se agarrando a poeira. Metalica ainda apontando a arma para Cleo pegou a bolsa e entregou a Gallatea, mandando-a revistar, a amiga fez muito a contra gosto, quando na mão direita Galla retirou a arma de Cleo, que era uma peixeira, Metalica abaixou a arma e se desculpou.

A garota apesar de contrariada pareceu entender que aquilo era necessário.

Gallatea andou até a menina e a abraçou, mas abraçou com tanta força que Cleo voltou a chorar. Naquele instante Metalica entendeu porque a amiga confiava na mais jovem.

[...]

Amai abaixou-se automaticamente ao ouvir o primeiro tiro, o coração palpitava desesperadamente, o suor preenchia a testa, molhando alguns fios rebeldes do cabelo louro. O peito doía, comprimia. Ainda estava se recuperando de toda a situação, da morte de Luxy, da Renata apontando uma arma para seu rosto. Das regras. Do jogo. Respirou fundo, tentando se concentrar, ela não podia fraquejar.

Não agora.

Amai pôs-se a pensar pela primeira vez desde aquela situação. Pegou o mapa que estava na mão direita, estava difícil de ver devido a pouca claridade, mas conseguiu se encontrar no mapa, vendo que um pouco acima de uma imagem que ela julgou ser a cabana, e depois se lembrando que era G9, viu que na parte esquerda, G8 tinha um extenso bosque. Acreditou que era ali onde estava, segurou com mais força a arma que recebera — uma Colt Office, calibre 45. — e soltou um suspiro.

Um grito ecoou.

Amai apontou a arma em todas as direções possíveis, não soube distinguir de quem era o grito, mas ele pareceu estar próximo. Aquilo a apavorou de verdade, alguém com certeza iria localizá-la se continuasse ali parada, e como se fosse um estímulo para que corresse mais um tiro foi dado.

Desta vez Amai não olhou para trás, sumiu entre as árvores sentindo o corpo já começar a doer, a cabeça parecia que ia explodir, lágrimas já caíam pelo rosto alvo. Quando achou um lugar que parecia tranquilo abaixou a guarda, soltando um suspiro aliviado, controlou as sensações para que não começasse a chorar. Agarrou a alça da bolsa do seu kit, virando o corpo, pronta para sair daquele bosque. Mas não conseguiu dar um único passo.

Fora surpreendida por um corpo se jogando sobre si, empurrando-a para o chão, batendo as costas numa raiz grossa de árvore. Grunhiu alto, mas conseguiu recobrar a consciência, sentindo uma leve ardência no antebraço esquerdo, onde um filete de sangue saía lentamente, ergueu os olhos, vendo uma Creolle. Ela segurava uma pequena faca, concluiu que aquele objeto lhe machucou o braço, e vira como a garota tentando lhe atacar novamente.

Com movimentos rápidos Amaj empurrou a Creolle com o joelho livre, acertando a costela direita, que soltou a faca para colocar ambas as mãos na região atingida.

Ambas se afastaram e se encararam na mais profunda cólera.

— Sua vadia. — as duas proferiram ao mesmo.

Amai foi de encontro a Creolle, as mãos foram de encontro ao cabelo, tentando puxar para dar diversos socos no rosto, já Creolle, que tinha um corpo magro conseguiu se desvencilhar do golpe dando um murro nos peitos de Amai que recuou um pouco. Amai se ajoelhou, fingindo estar machucada pegou um pouco de terra e jogando no rosto dr Creolle.

A garota não esperava aquela atitude e cambaleou, tropeçando na mesma raiz de árvore.

Raciocinando rápido, Amai olhou ao redor do chão, procurando sua arma, que só agora ela pareceu reparar que escapou de suas mãos. Virou os olhos para todos os lados, procurando a pistola. Sentiu um certo desespero ao perceber que não a encontrava.

Um som metálico fez o corpo travar.

Com calma, Amai virou o rosto, trinta graus, vendo o cano de sua pistola apontando para si mesma. Creolle jogada no chão e com os olhos estreitos a segurava com firmeza, sorrindo sadicamente.

— Eu que vou vencer esse jogo... — sibilou, pressionando o dedo no gatilho. Assustada, Amai fez uma posição de auto defesa, aguardando o tiro.