Jogo Da Amizade

8 Sábado: O dia do casamento


A noite dos paulistas fora resumida a procurar um hotel e dormir, enquanto que Kyara resolvia os últimos preparativos para o dia seguinte. Em menos de vinte horas, estaria desfilando ao som da marcha nupcial no corredor todo enfeitado com centenas de amigos a assistindo.

— Borboletas no estômago, é o que eu sinto – dizia ela sempre que alguém perguntava como estava. E foi assim a noite toda, sem conseguir dormir mais que uma hora seguida.

Pra compensar a insônia de Kyara, o sono de Elvis e Fernando parecia os afundar no fundo do oceano, onde nada os perturbava, nenhum barulho, nem movimento. Os dois prometeram à amiga que manteriam contato caso estivesse inquieta. Promessa não cumprida. Kyara não conseguia entender como o noivo dormia feito pedra ao seu lado, na véspera de um dia tão cheio de expectativas.

— Relaxa, vai dar tudo errado – brincava Elvis no dia anterior. Segundo ele, quando se espera que tudo dê errado, apenas uma parte do que você esperaria dá errado.

— Esse pensamento não me anima muito, Elvinho.

[...]

A cômoda ao lado começou a vibrar, fazendo Elvis despertar do sono e pegar o celular que estava causando um ruído absurdamente alto. Ele se sentou na cama e atendeu:

— Alô.

— Elvis, – disse uma voz feminina do outro lado da linha – já acordaram?

— Ãn... Claro.

— Que bom, porque preciso de vocês.

— Sei... vou acordar o Nando, calma aí – Elvis jogou seu travesseiro na cama do lado, fazendo o amigo gemer – Acorda! Kyara precisa da gente – resmungou ele.

— Hum, diz que não.

Outro travesseiro o atingiu:

— Anda logo, eu já disse que sim. Ela precisa do jipe.

Fernando se sentou na cama, os dois se encararam preguiçosamente: — Mano, como você é feio de manhã.

Elvis falou um palavrão enquanto procurava outro travesseiro para atingir o amigo. Ao som da risada de Fernando, e não achando nada para acertá-lo, Elvis jogou seu próprio celular. O aparelho voou na direção exata, atingindo a testa do garoto.

Fernando viu apenas um flash, um som surdo, depois a dor e, em seguida, Elvis veio correndo para acudi-lo, sabendo que aquilo havia doído.

— Uow! Desculpa, Nando! Doeu? Tire a mão, deixe-me ver.

— Você tem problemas? – choramingava bravo o garoto, enquanto tirava o cabelo claro da teste para olhar no espelho. Elvis não sabia se ria ou se sentia remorso. Fernando não sabia de ria ou se chorava, portanto fazia os dois ao mesmo tempo.

— Putssssss – exclamou Elvis ao ver a testa vermelha do parceiro – Deve ter doído.

— Puta que o pariu, Elvo! – dizia pausadamente – Olha isso! Vai ficar roxo! VAI FICAR ROXO! Como é que eu vou pro casamento da Kyara com a testa roxa, Elvis? Me diga!!!

— Ãn, calma, não está tão feio. Só passar uma pomada. E seu cabelo tampa. Faz franjinha.

— Vai ter volta, Elvis, vai ter volta!

Então Elvis se lembrou que Kyky estava na linha ainda e correu para procurar o celular.

— Ky! Está aí ainda?

— QUE PORRA FOI ESSA? – exclamou a garota.

— Nada, não. Está tudo bem.

— Por que Fernando está mandando você se foder agora?

— Imagine, Kyky, é o espírito esportivo dele. Você sabe como ele é, né.

— Parem de brigar vocês dois. Estou no salão, preciso que busquem uma coisa pra mim.

[...]

— Uma coroa? Pra que? – disse Fernando enquanto saia do estacionamento do hotel com o carro.

— Não é exatamente uma coroa, Nando, é tipo uma tiara, um diadema. Não sei.

— Pra que isso? Ela só vai casar.

— Você sabe que a gente não entende essas coisas. Dirige isso aí.

Com as coordenadas que o GPS dava, os garotos chegaram sem complicações no destino final: uma loja de joias em uma avenida movimentada, toda ornamentada com arquitetura romana, grandes portas de vidro, que chamavam bastante atenção. Por dentro, estava bem iluminada, com pequenas luzes focando as joias mais elegantes. Os dois se sentiram fora de contexto, vendo que vestiam apenas roupas normais, enquanto que na loja não havia ninguém vestindo menos que um terno.

— Faz cara de esnobe e sai desfilando – cochichou Fernando.

A senhora que os atendeu era tão esnobe quanto os dois fingiam ser, mas foi uma interação rápida, apesar de a senhora ter dado indícios de que achava que os garotos não entendiam nada de joias e pedras preciosas.

Quando ela se virou, Fernando mostrou-lhe o dedo do meio e Elvis fez careta de nojo.

— Não era só uma coroa? – indagou Fernando à senhora.

— Não, meu filho, é o kit completo, com pulseira, brincos, colar e o véu acoplado á TIARA – ela fez questão de corrigir o garoto.

Por fim, eles saíram de lá com uma caixa branca um pouco pesada, Quatro vezes maior que uma caixa de sapato.

— Caberia tudo em metade disso – resmungou Fernando, enquanto saíam da loja – Segura isso – disse entregando desajeitadamente para Elvis.

— Cuidado! Isso deve ser caro.

— Fala sério, tem tanta almofada aí dentro que não quebraria nem que caísse de um prédio.

— Vamos tentar ser responsáveis desta vez, tá!? Só pra variar um pouco – disse Elvis caminhando em direção ao jipe.

— O quão difícil pode ser levar uma caixa desse tamanho pra um salão de beleza? – disse Nando andando na frente.

Neste exato momento, Fernando ouviu Elvis soltar uma exclamação de surpresa e virou-se para ver o que era: Elvis estava se equilibrando novamente, olhando com pavor para os lados sem entender o que havia acontecido. De soslaio, Fernando notara um homem atravessando a rua correndo... Com a caixa branca em mãos.

Na mesma hora, Elvis começou a gritar:

— LADRÃO! FOI ELE!

Ninguém falou mais nada. Os dois iniciaram uma corrida silenciosa atrás do homem que já estava do outro lado da rua, virando a esquina. Os garotos tiveram um pouco de dificuldade de atravessar a rua com os carros que passavam; várias buzinas foram ouvidas até chegarem do outro lado. “POR ALI” Elvis gritou. A calçada era larga, mas havia uma boa quantidade de pedestres. Eles esbarravam em um ou outro sem se importar em pedir desculpas. Os dois viraram a esquina. Elvis parou para procurar o ladrão, mas Fernando seguiu em frente, correndo às cegas, tentando enxergar por cima das pessoas.

Em um flash de segundo, Elvis viu o indivíduo já do outro lado da rua, e não pensou duas vezes em atravessar. O pequeno congestionamento facilitava a travessia, ainda assim, o ladrão parecia se afastar cada vez mais.

Elvis esbarrou violentamente em uma motocicleta que passava pelos corredores entre os carros, quase derrubando o motociclista. Ele apenas ouviu o senhor gritando palavrões atrás dele. Enquanto corria pela calçada, viu Fernando correndo na mesma direção que ele. Elvis entendeu quando o amigo, ainda atravessando a rua, apontava para a próxima esquina: o bandido virara a esquina.

Já sem fôlego, o garoto alto se dirigiu até a esquina e pôde visualizar o homem com a caixa na mão entrando em um ônibus. Em questão de segundos, o carro de transporte público fechou as portas e começou a sair do lugar. Elvis parou onde estava, com testa suada e mãos nos joelhos, observando o ônibus se afastar pela pequena avenida. Ele olhou para trás, à procura do amigo, mas nem sinal.