Jogo Da Amizade
11 O retorno dos tênis
Notas iniciais
Na visão de Fernando, o padrinho de casamento de Kyara estar um tanto alterado não era tão grave. “Ele ainda consegue andar, ninguém vai notar”, dizia ele. Mas para Elvis, era o fim do mundo, irresponsabilidade total.
— Vamos ser categóricos – concluía Fernando – De um jeito ou de outro a aliança tem que ser levada até o altar. Vamos pra fazenda e lá resolvemos o que fazer.
Elvis acenava positivamente enquanto levava o menino e sua irmã tagarela de volta ao carro, ordenando aos dois que colocassem o cinto de segurança. Nando se sentou no assento do motorista olhando para Elvis com cara de paisagem, esperando a reação do amigo, que retribuiu com um suspiro debochado.
— Sabe, esse tipo de coisa não acontece normalmente na minha vida – comentou Elvis, assim que o jipe começou a sair do lugar.
— Como assim? – questionou Fernando, um tanto curioso, mas atento ao trânsito e ao caminho que o GPS indicava.
— Quer dizer, essa correria toda... Gente doida, praticamente nada acontece conforme o padrão da sociedade.
— Padrão da sociedade?
— Sim, modo de falar, nem sei se existe essa expressão. “Padrão da sociedade”. O que eu quis dizer é que, nos casamentos que eu vou é sempre a mesma coisa; você senta na igreja, assiste o sermão, revê parente e algumas tias chorando de emoção... Depois todo mundo corre pro salão de festa e pronto.
— Lá também vai ser assim.
— Pode ser que sim, mas até agora não ocorreu nada conforme o tal padrão – explicou ele, dando uma olhada para as crianças no banco de traz.
— Acho que estou entendendo – mentiu o jovem engenheiro.
— Outro exemplo: uma viagem normal seria apenas rodar na estrada, parar em um posto, dormir em algum canto, chegar e descansar. Essas são as minhas viagens. Não sei se com você é sempre assim, mas já aconteceu tanta coisa louca neste fim de semana que nunca acontecera na minha vida toda – explicou novamente o Elvis.
Enfim, Fernando entendera o que o colega quis dizer. Entendera também que a vida do colega não era tão louca ou imprevisível como a dele. Isso o fez pensar no quanto seria legal se o amigo não morasse tão longe, se fossem amigos mais próximos, no quesito distância. Infelizmente as coisas nunca são como nós queremos, pensou ele.
Logo perceberam que já estavam chegando na fazenda. De longe era possível notar que haveria alguma festa por ali, por conta das luzes no meio da escuridão. Algumas piscavam, outras percorriam o céu... Não economizaram na decoração, comentou Elvis. A entrada já estava florida e havia pessoas só para direcionar os carros ao estacionamento. Ainda chegavam outros carros, sinal de que não estavam tão atrasados.
O jipe foi direcionado para uma direção diferente dos demais quando Fernando avisou que estava com padrinhos de aliança da noiva. Estavam agora na lateral de uma imensa casa típica de fazenda, ali não havia tanta luz. Quando estavam na dúvida se aquele era mesmo o local certo, uma senhora estava acenando para eles, dando sinal para pararem. No mesmo instante, o jipe deu uma freada brusca, arrastando os pneus pela grama.
— O que foi desta vez? – esbravejou Elvis, ele odiava essas freadas.
— É a mãe da Paty! – apontou Fernando, de olhos estalados, quando notou que a mulher que estava acenando para eles era a mesma que o viu quase sem roupa pulando a janela do quarto da filha logo de manhã. Houve um momento em que tudo ficou parado: dona Hermínia com as mãos na cintura aguardando os rapazes com cara de poucos amigos, Elvis ainda com uma das mãos no painel do carro que usara para não cair de cara no para-brisa e as duas crianças se recuperando da freada.
O jipe recomeçou a andar e se aproximar da senhora que os esperava na porta. Fernando pensou ter visto o pé dela batendo de impaciência no chão.
— Vamos, chegamos – avisou Fernando às crianças. Os quatro desceram do carro; os rapazes andavam como robôs, sem olhar para cima, apenas ajudavam as crianças a descerem, fecharam as portas e, quando não havia mais o que fazer, Elvis se abaixou atrás do capô do carro, talvez fingindo que estava arrumando os sapatos. Fernando o procurou com os olhos e se desesperou silenciosamente quando ouviu que a mulher estava se aproximando pela grama.
— Tiiiiiiiiiia, o Israel fez mijo em mim! – correu a garotinha para os braços da senhora.
— Não fiz nada!
— Fez, sim!
— Olá, Fernando – chamou-o a dona Hermínia.
Neste momento o garoto notou que não sabia o nome dela, e por isso não falou nada, apenas um gesto com a mão e um sorriso amarelo.
— Olá, Elvis – disse ela mais alto desta vez. O garoto percebera que não podia ficar atrás do carro mais tempo e se levantara. Fernando estava segurando o riso, notando a testa suada do amigo – Podem deixar o carro aí mesmo, a cerimônia é por ali – explicou ela, apontando para a lateral da casa, onde havia luzes e barulho de gente conversando.
Os dois começaram a andar roboticamente para a direção apontada depois do “Sim, senhora” do Elvis. Fernando ficara feliz em ver que Israel não estava alterado a ponto de cair no chão ou da dona Hermínia notar. Mas logo foram surpreendidos por ela mesma quando os chamou novamente.
— Seu tênis está aqui – falou, rispidamente. Fernando se lembrara feliz do tênis que deixara no dia em que dormiu na casa de Paty, e notara que ela não estava olhando diretamente para ele. A mulher intercalava o olhar entre os dois, que estavam parados lado a lado. Ele percebeu que ela não sabia de quem era o tênis, exatamente. Então deu um passo para trás e empurrou o amigo de leve, que o olhou sem entender, mas não parou de andar na direção da mulher.
— É dele – comentou Fernando. Elvis foi nervoso, sem pensar e com medo, sem considerar o motivo pelo qual era ele quem estava indo receber os sapatos, em vez de ser o verdadeiro dono. Quando ela esticara o braço para lhe entregar os tênis, Fernando completou por pirraça: — Foi ele que agarrou sua filha.
— SEU FILHO DA MÃE – esbravejou ela, lançando os dois tênis no rapaz, que os agarrou milagrosamente no peito. Dona Hermínia tentou correr atrás dos garotos, mas seu vestido apertado e brilhoso e o salto alto dourado não permitiram.
Fernando saiu na frente dando risadas escandalosas quando vira que o colega quase fora pego pela senhora, mas correra de consciência limpa, já que seus tênis estavam a salvo agora com o amigo. Era de seu feitio aprontar esse tipo de coisa, talvez era por essas e outras que sua rotina não era tão monótona, como comentara o amigo alguns minutos atrás.
Logo as luzes o atingira e ele pôde ver a enorme tenda branca, sem parede nas laterais, lotada de cadeiras brancas enfeitadas com flores e vasos em cada canto das fileiras. No meio havia o tradicional tapete vermelho que guiaria a noiva até o altar. O noivo já estava a posto, juntamente com o padre, em um altar um pouco mais alto que o nível do chão, erguido de madeira rústica envernizada com detalhes brancos e mais flores nos cantos. Quase todos os lugares já estavam ocupados e a organizadora já estava posicionando os padrinhos dos noivos em fila para passar pelo tapete até o altar.
Fernando se virou para traz procurando o amigo e foi surpreendido com seu próprio tênis voando em sua direção. O sapato o atingira com força bem no nariz, fazendo-o cair na grama. Em um segundo Elvis o alcançou, sem saber se pedia desculpas por ver o rapaz no chão apertando o nariz com as duas mãos gemendo e xingando, ou se dizia “Bem feito” por fazer dona Hermínia enfurecer-se.
Apesar de estarem atrás da ultima fileira de cadeiras, causaram certo alvoroço: duas senhoras foram ver o que acontecera. Uma delas ajudou o rapaz a se levantar e se espantara assim que Fernando tirara as mãos do nariz. Havia sangue lambuzando seu rosto e suas mãos. O rapaz fazia algumas caretas olhando para cima para verificar se havia algo fora do lugar em seu precioso rosto. A outra senhora tirou um lenço de uma bolsa e iniciou um momento de tortura no rapaz passando com veracidade o lenço por todo seu rosto. O cabelo amarelo já estava despenteado e o terno um tanto sujo de grama.
A senhora do lenço olhava para ele perguntando se estava bem, a outra estava agarrada a sua cintura e Elvis ainda não sabia se era seguro rir naquele momento. Não descartava a possibilidade de ser atacado pelo colega ali mesmo.
— Ei – chamou Elvis; pegou o lenço do próprio terno e passou embaixo do nariz do amigo – tudo certo? – perguntou ele, ao ver as sobrancelhas unidas do colega. Fernando abriu um sorriso largo e se desvencilhou da senhora mais gorda que o abraçara.
— Seu retardado. Você tem parar com essa mania de jogar tudo o que tem em mãos. Eu estou bem, obrigado – disse para quem estava em volta. Mas Elvis ainda não estava seguro de que Fernando deixaria isso passar em branco, por isso ainda estava agindo com cautela. Ele começou a dobrar o lenço que acabara de usar, mas abrira novamente, vendo a sujeira no pano.
— Nando – começou ele ainda olhando para o pano branco, um tanto manchado de vermelho, enquanto Fernando limpava a grama da bunda – Você passou maquiagem?
— O que? – assustou o jovem, sentindo suas orelhas ficarem vermelhas.
— O pano está manchado de maquiagem...
— Cala a boca, não fala abobrinha! – interrompeu-o, pegando das mãos do garoto e jogando para longe o lenço – Vamos sentar – disse rapidamente, encurtando conversa, sem dar espaço para delongas.
— Maquiagem, velho! – caçoou Elvis logo atrás, com os tênis do amigo nas mãos.
Então uma musica clássica alta se iniciou: estava na hora do desfile dos padrinhos pelo tapete vermelho. Fernando pensou no garotinho bêbado, mas logo sua mente se desviara para Kyara; notara que estava ansioso para vê-la. Por isso ficou em um local onde pudesse ver cada detalhe da passarela.
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