João e Maria

26 Tudo sendo diferente


Durante os últimos dezessete anos de sua vida, Dandara havia passado a data de seu aniversário aninhada com João. Desde que o menino nasceu eles se tornaram uma unidade, um time inseparável. A princípio ele era um bebê que precisava dos cuidados da mãe mas com o tempo Dandara sentia os papeis se inverterem. Hoje em dia ela era tão dependente do filho quanto ele dela – se não mais. Acordar em seu aniversário e ouvir parabéns dos lábios de outro homem que não o seu filhote não era algo que ela pensava plausível de acontecer. Todos seus últimos relacionamentos tinham sido conturbados, com homens em quem ela não podia confiar, e ela havia tomado a decisão de não misturar os casos com o filho. Mas naquela manhã tudo estava sendo diferente.

Primeiro porque Gael havia convencido João a dormir na casa do Pedro, segundo porque Dandara havia gostado dessa proposta. Ela passara a noite nos braços do homem que amava, sendo por ele amada, de todas as possíveis formas de se manifestar amor. Ela acordara em êxtase e por um tempo somente assistiu ele dormir.

'Gael...'

Ela pronunciou seu nome baixinho. enquanto passava os dedos por seu peitoral. Ele tinha sido o melhor presente de aniversário que ela já havia ganho. Depositando um suave beijo no ombro do lutador, a morena se levantou para tomar um banho. Não muito tempo depois, o vapor d’água já embaçava os vidros, Gael abriu a porta do chuveiro e entrou como veio ao mundo, enlaçando a morena pela cintura e depositando beijos por seus ombros. Dandara deixou o rosto cair de lado, aumentando o contato com os lábios do lutador.

'Bom dia...' Ele sussurrou em seu ouvido antes de virá-la e transformar aquele banho em algo muito mais duradouro.

Com esse desvio de percurso, já passava da hora de João estar na escola quando eles chegaram na casa de Pedro para buscá-lo.

'Por favor, mãe, é seu aniversário, eu já tive que dormir com o ronco do Pedro a noite toda, preciso mesmo ir pra escola?' Ela o abraçou e permitiu que ele faltasse aquele dia para tomar café com eles, em família, como colocou Gael.

'Ai, chegaram, que bom!'

'Ufa, eu to morrendo de fome!' exclamou Karina se dirigindo para a mesa de jantar. 'Pai, a gente tem que correr porque daqui a pouco já tem que abrir a academia-'

'O Duca vai abrir pra mim hoje' ele interrompeu, entrando com Dandara e João. 'Hoje meu tempo tem dona...'

Dandara sorriu para ele e para as meninas.

'Bom dia, Bi... Bom dia, Ka...'

'Bom dia, Dandara' Cumprimentou Bianca, se levantando para um beijo. 'Parabéns madrasta!'

'Puxa saco...' João passou por Bianca em direção a Karina. 'O que tem pra comer?'

'Nada pra você.' Reclamou Karina, tirando uma torrada das mãos do menino. 'Poxa, pai, você não vai pra academia mas e eu? Daqui a pouco já é hora da aula e eu ainda nem treinei. Vamos tomar café, vai...'

Dandara olhou pra Gael com um sorriso envergonhado no rosto enquanto se juntou à menina na mesa. Gael e Bianca seguiram.

'Desculpa, minha flor, a gente acabou dormindo demais...'

'Pois é, acordamos tarde porque dormimos tarde, sabe como é, né?' Adicionou provocando João. O menino levou a mão aos ouvidos e virou-se para Bianca e Karina.

'Tão de bom humor, né? Vieram trocando sorrisinhos desde a casa do Pedro até aqui.'

'A noite foi boa, então?' Indagou Bianca, simpática.

'Perfeita.' Dandara deu um selinho em Gael e seguiu para a cozinha arregaçando as mangas do vestido. 'Vamos lá, o que eu posso ajudar?' O olhar de Gael a acompanhava como se a estivesse vendo pela primeira vez.

'Ei, ô lutador,’ João chamou a atenção 'cê já teve uma noite inteira, da pra maneirar na minha frente, vai?'

'João deixa de ser bobo!'

'Eu também acho, vocês andam muito melosos.'

'Ai meu saco, agora são dois pra ter ciúme. Cê não tá muito grandinha não, Karina?'

'Olha quem fala, né? Ou quer ficar me ouvindo falar do Pedro o dia todo?'

'Não, já escuto aquele capiroto mais do que o necessário. Mas amor,' ele se dirigiu a Dandara 'quem vai ajeitar as coisas aí sou eu porque é seu aniversário e você só aproveita, lembra?' Ele sorriu sugestivo e ela retribuiu.

'Lembra?' Karina repetiu, debochando em voz baixa.

'Aposto que a gente não quer saber.' Completou João.

Com o tempo, a bronca de Karina e João deu lugar a uma implicância amigável, quase familiar. Dandara foi possuída por uma energia boa e sentia que aquele ano tinha de tudo para dar certo. Ainda juntos, eles deixaram o apartamento de Gael – Karina seguiu para o ponto de ônibus e os outros quatro pra Ribalta.

'Ó seu João, hoje foi exceção, hein? Amanhã quero o senhor de volta na escola.'

'Não sei porque eu preciso ir se eu já perdi o ano.'

'Porque você já perdeu o ano, mas eu ainda to pagando o colégio, então alguma coisa você vai aprender.'

'Ai.' Provocou Bianca.

'Também não precisa ser tão incisiva!'

'Incisiva?' Perguntou Gael ‘É... Pelo visto Português tá aprendendo.'

'Vindo de um lutador, com o vocabulário tão farto, não sei nem se é elogio.'

'Bom dia, família feliz' René interceptou-os na porta da fábrica. Bianca seguiu cumprimentou com um aceno e seguiu para a fábrica enquanto João parou para cumprimentar o pai. 'Dandara, Gael, tudo bem?'

'Tudo ótimo, René e você?' Dandara deu dois beijinhos no galã e Gael meramente assentiu com a cabeça.

'Também, como estão as comemorações do aniversário?'

'Melhores impossíveis.' Respondeu Gael e Dandara abaixou a cabeça prendendo o riso. 'Estou indo amor, nos vemos mais tarde?' Ela assentiu e ele se virou para entrar na academia mas logo retornou e segurou a morena pela cintura, tascando um beijo de tirar o folego.

'Liga não, eles tão meio exibidos hoje.' João comentou enquanto Dandara se recompunha, sem graça. René desviou o olhar e passou a mão na nuca.

'É... Cê sobe comigo, Dandara? Tenho que te entregar seu presente.'

'Presente?' Ela ergueu a sobrancelha, surpresa. 'Não precisava, René, que isso!'

'Mas é claro que precisa, você merece o mundo.'

Ele encarou-a com nostalgia e Dandara não sabia como retribuir até que João interrompeu-os, passando entre os dois em direção a escola de artes.

'Eu vou indo pra aula porque até dançar de malha é menos confuso do que o que tá rolando aqui.' Ele seguiu subindo as escadas.

Já na sala dos professores, René abriu seu armário e retirou um embrulho do tamanho de um livro. Ainda um pouco constrangida, Dandara abriu o pacote sem rasgar e surpreendeu-se ao ver que era, na verdade, um porta retrato.

'Sei que não é muito,' falou René, 'mas na mudança eu encontrei essas fotos que eu tirei na época da gravidez do João... Não tinham muitas, mas essa... Achei que você merecia ter.'

Dandara encarava o retrato de si mesma, abraçando uma barriga que não lembrava que era tão redonda, onde habitava o bebê que fora João. Os olhos da professora de canto estavam marejados quando ela finalmente voltou a encarar René. 'Eu adorei.' Ela sorria, sincera 'Engraçado que eu estava justamente pensando nisso outro dia... Em como eu ficaria grávida... E agora você vem com essa foto e--'

René a interrompeu.

'Se imaginando grávida? Você e o Gael... Vocês estão tentando ter um filho?'

'Não.' Ela tentou se corrigir. 'Quer dizer, sim? Não sei, a verdade é que eu tenho uma suspeita, mas ainda tenho que fazer o exame de sangue para confirmar.'

'Bem, que coincidência, hein?'

Ele não sabia o que responder, sem graça.

'É... O João que vai curtir essa foto, vou colocar na minha cabeceira, obrigada, René. Agora eu preciso ir porque eu preciso ensinar música nova pro espetáculo se não o Ed me mata.'

'Claro, vai lá'

Ela saiu, ainda corando, em disparada e René sentou-se no sofá, absorto em seus pensamentos até que a presença do filho chamou sua atenção.

'João?' Ele apertou os olhos tentando compreender o que estava vendo. ‘O que é que é isso?’

'Ta achando engraçado?' René tentou forçar uma cara de sério 'Você é bom ator, valeu aí pelo esforço, mas tá ridículo, né?' João estava usando uma malha cor de rosa. 'Sabe da minha mãe? Vim ver se por acaso a dona Dandara trouxe uma malha pra mim porque eu esqueci e a Bianca topou me emprestar essa, ou seja, preciso de outra.'

'Sua mãe saiu batida pra aula, mas a bolsa ela deixou no armário.' O menino saiu na direção que René apontou 'Vem cá, moleque, cê não traz as suas próprias roupas não?'

'É que eu dormi na casa do Pedro e o gênio só tem uma. É meio nojento mas ele disse que não precisa ter mais de uma malha. O que eu dou razão a ele, uma já é até demais.' João sacou a bolsa de Dandara e começou a tirar coisas de dentro. As chaves de casa, o embrulho do presente de René, algumas pétalas de rosa, uma agenda...

'O que é que houve, meu filho, ficou branco de repente.'

João tirou o exame de gravidez de dentro da bolsa. 'Eu não acredito.'