João e Maria
27 Preocupações demais
Impaciente, René caminhava de um lado para o outro no corredor que dava para as salas de aula da Ribalta. Nervoso, ele checou o relógio pela terceira vez e constatou que a aula de canto de Dandara já deveria estar no final. Novamente considerou quem deveria procurar: a morena ou o lutador, afinal, era aniversário de Dandara e ele não queria atrapalhar as comemorações. Numa mistura de preocupação e cansaço, ele se apoiou na parede quando uma porta se escancarou e os alunos de canto deixaram a sala, animados. René viu de relance Dandara rindo e abraçando Tainá e virou-se, decidido a não preocupa-la.
'René?' Ela chamou de dentro da sala e ele se virou, receoso.
'Oi- Oi, Dandara.'
A morena franziu a testa e o chamou para entrar.
'Está tudo bem? Você parece pálido!'
'Dandara, na verdade eu estava esperando a aula acabar-'
'O que foi que houve, René? Cê tá me assustando!' Ela segurou a mão dele e sentou-se no degrau do palco. René tentou sentar-se com ela, mas estava nervoso demais.
'O João ele... Ele apareceu na sala dos professores querendo falar com você.'
'O João? Aconteceu alguma coisa com ele?'
'Não, quer dizer, nada de saúde.'
'Como assim, René?'
'Ele apareceu querendo falar com você, eu falei que você tava na aula e ele...' O galã titubeou novamente.
'Ele o que? Fala logo, René!'
'Ele viu seu exame de gravidez.'
Dandara levou as mãos à cabeça e segurou o rosto entre as pernas. Sua cabeça se desatou a imaginar diferentes cenários da reação do menino. Mas como ele havia encontrado esse exame? Por que ainda estava na bolsa? Por que ela ainda tinha aquela caixa! Nossa, agora se fosse positivo ela teria que emoldurar aquele pedaço de papel de tanto história que rendeu... Mas não era hora para pensar no que não dava mais para mudar. Respirando fundo, ela perguntou com uma falsa calma.
'E onde é que ele está agora?'
'Então...'
'Então..?' Dandara percebeu pela pausa do galã que algo havia acontecido e agora ela mesma se levantara. 'O que ele fez?'
'Eu tentei falar com ele, mas ele estava inconformado... Começou a murmurar sobre ter sido enganado – eu disse que você ainda não tinha certeza de nada, mas ele não quis ouvir se virou e saiu desembestado.'
'Saiu pra onde?'
'Eu não sei.' Ele deu de ombros.
'Você não foi atrás dele?!'
'Eu até tentei, mas achei melhor deixar ele esfriar a cabeça... Você conhece o João, não ia adiantar conversar daquele jeito...'
'Tem razão. Eu conheço o João, você tinha que ter me procurado! Deus sabe onde meu filho está e você esperou até agora pra me contar?!'
'Você falou que a aula era importante, eu... Eu não queria interromper.'
Dandara estava prestes a dizer para René o que fazer com sua covardia quando a conversa dos dois foi interrompida pelo avanço de Edgar.
'Gente! Mas o que é que tá acontecendo aqui? Tem pessoas nessa escola que dão valor a arte e estão querendo ensaiar!'
'Ed, me desculpa, é o João-'
'Ah, honey, aconteceu alguma coisa com ele? Ele saiu do ensaio de dança e não voltou mais.'
'Ele teve um choque.' Respondeu René.
'Um choque?' Repetiu Edgar.
'Ele descobriu uma coisa que eu estava mantendo segredo...' Dandara desviou o olhar para que Edgar compreendesse que não ela não iria divulgar a informação.
'Olha, seu filho não é muito normal, mas ele é previsível, né, honey? Se ele ficou nervoso deve ter ido praquele antro do QG, não?'
Dandara suspirou aliviada.
'Tem razão, lógico. Brigada, Ed! E desculpa atrapalhar o ensaio!'
Ed tentou responder que família sempre em primeiro lugar, mas Dandara já havia descido as escadas e não o escutava mais. René agradeceu ao amigo e seguiu no encalço dela. Ao passar pela frente da academia, Gael reparou a morena saindo com pressa e René correndo atrás dela.
'Biancá!'
'A Bi já subiu pra Ribalta, mestre.'
'Fica de olho aqui na academia que eu já volto.' Tirando as luvas, ele saiu para a praça buscando o casal. Seus olhos avistaram René, parado ao lado de fora do QG e ele seguiu de imediato naquela direção.
'Tem certeza que ele não tá aqui, Cobra?' Dandara seguia até o final do QG, onde o menino costumava passar as noites.
'Não, eu já disse, o viciadinho não aparece aqui tem tempo... Achei até que ele tava se curando.' Dandara se apoiou na parede, uma mão na cabeça. 'Que foi? Achei que cês iam curtir que ele tá vivendo no mundo real.'
'É, é uma ótima notícia, mas acontece que no mundo real tem muito mais lugar pra procurar...' Ela levou uma mão ao peito. 'Ai, que aflição não saber onde ele está...'
'Onde quem está?' Gael passou por René e se dirigiu ao interior da loja, amparando Dandara. 'Tá tudo bem?'
Ela fez que não com a cabeça.
'O João encontrou o exame de gravidez e desapareceu. A gente achou que ele pudesse estar aqui, mas... Ele pode estar em qualquer lugar.'
'Será que ele não foi pra casa?'
Ela deu de ombros.
'Eu não estou conseguindo pensar direito, to tão aflita... Claro, em casa.' Ela fez menção de sair mas Gael a segurou.
'Deixa que eu vou. Você não precisa dar aula? Eu posso ir.'
'Não sei como eu vou conseguir me concentrar em aula alguma... A turma que eu tinha que treinar já foi, tenho certeza que o Ed vai entender.' Gael segurou os ombros dela.
'O Ed vai entender, mas eu não.' Ele direcionou o olhar para a barriga dela. 'Acho melhor evitarmos que você tenha fortes emoções...' Dandara encarou Gael e René, compreendendo a troca, se ofereceu para ajudar.
'Dandara, o João é meu filho também, eu que deixei ele ir, eu trago ele de volta.'
Dandara assentiu e virou-se para Gael.
'Vamos pra casa, pode ser? René, eu não sei se ele iria pra sua casa, mas a gente pode procurar lá...'
'Eu vou avisar a Beth pra ligar se ele aparecer lá em casa.'
'Gael, eu acho que a sua casa é o último lugar que ele estaria...' René tentava se impor. 'Vou passar na Delma, quem sabe ele tá no Pedrinho...'
'Não adianta' respondeu Dandara 'o Pedrinho tava lá na Ribalta ensaiando com o Ed...'
'Vai ver o verdadeiro amigo do João naquela casa é Tomtom... Eles tem idades mentais parecidas.' Brincou Gael, mas Dandara o fuzilou com os olhos. 'Não é hora pra brincadeiras, entendi. Vamos?'
'Vamos. Ah, René' ela adicionou, virando-se para o galã e segurando-o pelo braço. 'Desculpa o jeito que eu descontei tudo em você... Você não tem culpa da minha falta de diálogo com meu filho.'
'Fica tranquila, eu devia mesmo ter ido atrás dele.'
'Pois é, devia.' Gael argumentou e ninguém mais falou por alguns segundos.
'Aí, se tiver algo que eu possa ajudar também...' Cobra ofereceu tentando quebrar o gelo.
'Tem sim, Cobra, tem sim. Avisa a gente se ele aparecer aqui?' Dandara já estava debruçada sobre a mesa escrevendo seu telefone em um papel. 'Aqui. Me liga se você tiver qualquer notícia, por favor.'
*
'Era o René' ela desligou o telefone 'nenhuma novidade e ele não está por lá. Eu acho melhor a gente esperar por ele aqui, ele vai ter que voltar eventualmente... Só não sei como vou aguentar meu coração até lá.'
'Ah, mas eu tenho uma ideia...' Gael se direcionou ao pescoço da morena. Ela sentiu os pelos de seu braço arrepiarem.
'Não é hora, Gael.'
Ele se afastou, respeitando o desejo da morena.
'Só queria te distrair...'
'Eu sei, amor, mas acho que nada vai funcionar agora. Será que não é o caso de ligar pra polícia?'
'Polícia? Primeiro que eles só dão como desaparecidos em 24 horas e o João não está sumido nem há duas horas...'
'Não sei onde procurar.'
'Mesmo? Nem imagina?'
'Você sabe alguma coisa?' Gael respirou fundo e Dandara insistiu, nervosa. 'Fala, Gael, onde você acha que ele está?'
'Ele não gostava da psicanalista?'
'Aquela... Ah, não, ele não ia fazer isso comigo.' Ela deu uma longa pausa e falou em voz baixa. 'Ah, mas ia sim.' Dandara levou novamente as mãos à cabeça. 'A gente combinou que as consultas estavam suspensas, eu ainda ia pensar nessa situação toda... Será mesmo que ele foi pra lá?'
Gael encarou-a como quem já soubesse da resposta. Passando uma mão no ombro da morena, ele sugeriu que ligasse para a psicanalista.
'Não.' Dandara segurou a mão dele que já estava pegando o telefone no bolso.
'Amor, o João não tem telefone, se a gente quer saber onde ele está, é melhor eu ligar para a Olga.'
'O João sumido, agora você falando com a doutora Olga...' Gael reparou que ela enfatizou o doutora 'são preocupação demais pra uma mulher só!'
Ele riu-se.
'Eu não tenho nada com a doutora Olga' brincou, imitando-a, 'mas é bem possível que o João tenha...'
Dandara revirou os olhos e pôs-se a pensar... Depois de um tempo, durante o qual Gael tentava uma massagem nas costas da morena, ela se virou, decidida.
'Pode ligar. Meu filho em primeiro lugar, e eu confio em você.' Ela pronunciou a última parte com a sobrancelha erguida e ele não resistiu e beijou-a antes de sacar o celular. Ela desviou o olhar enquanto ele procurava o nome dela nos contatos do celular. Saber que o contato dela estava salvo causava um pequeno desconforto.
'Ela não está atendendo. Caixa postal.'
'Eu vou lá, não vou conseguir aguentar essa aflição de ficar aqui esperando!'
'Vou com você.' Ele se levantou para segui-la, mas ela o impediu.
'Por favor, não me da outra preocupação, fica aqui?'
Nesse momento eles escutaram a chave na porta e Dandara sorriu aliviada ao ver João entrar no apartamento. Ela caminhou em direção a porta e abraçou o menino que permaneceu imóvel.
'João! Como é que você me faz uma coisa dessas, meu filho! Sumir, assim, sem dizer para onde ia!'
'É, eu não sou mesmo um bom filho, né? Quem sabe você tem mais sorte com o próximo.'
'João, eu não sei ainda se estou esperando um filho,'
'Mas acha que pode estar.'
Ela decidiu ser sincera.
'Sim, existe essa possibilidade.'
João olhou de Dandara para Gael e de novo para a mãe.
'Você vai gastar uma fortuna em análise.'
'Já disse isso uma vez e repito, se for o preço da minha felicidade eu pago.'
'Se for menino, então, acho que o seu salário todo vai embora.'
'Não tem problema' interrompeu Gael, 'eu tenho minhas economias.'
Dandara sorriu para o lutador e virou-se para João.
'Filho, eu sei que a análise é bom pra você, mas será que não podemos tentar outra psicóloga?'
'Psicanalista.' João a corrigiu, andando em direção ao quarto. 'E não, eu gosto da doutora Olga e não tenho culpa se ela também tem uma queda por esse lutador. Não entendo o que vocês veem nele?' A voz de João ia diminuindo e Dandara lançou um olhar de desculpas a Gael e seguiu o menino para dentro de casa.
O lutador, por sua vez, jogou-se de volta no sofá. Ele não queria se meter na conversa de mãe e filho, mas ao mesmo tempo não estava preparado para deixar Dandara – em nenhum dia, ainda mais em seu aniversário. Ele estava absorto em pensamentos quando seu celular tocou.
Olga chamando.
Ele silenciou o toque e continuou segurando o aparelho, considerando o que deveria fazer. Seus dedos contornavam o botão de ignorar, mas ele não conseguia se convencer a apertar.
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