João e Maria

1 O que é que você quer?


Notas iniciais
Alguns meses após o término do namoro com Dandara, o bronco lutador de Muay Thai ainda não havia conseguido esquecer a professora de canto. Ela, por sua vez, tem medo do que sente por Gael e voltou-se para o ex-marido, de quem anda recebendo inúmeras investidas. Nossa história começa após a noite em que René surpreende Dandara com um beijo na praça e Gael, infelizmente, vê.

'É o jeito que a Ka olhou pra mim, sabe?' Dandara tirou o cabelo do rosto, desviando o olhar de Delma num misto de culpa e vergonha. 'Acho que foi o mais doloroso naquela situação toda… No olhar dela eu consegui sentir toda a tristeza dele. Porque ele nem reagiu, né? Ficou naquela pose de durão… O que por um lado é mais estranho ainda, né? Fiquei esperando uma explosão... E nada.' Dandara desviou o olhar novamente, tentando conter suas emoções. Seu peito parecia sufocado.

Sentindo a fragilidade da amiga, Delma segurou as mãos de Dandara entre as suas.

'Ele deve ter ficado muito abalado... Ele gosta muito de você, Dandara.'

'Eu sei... Mas eu e o Gael... Não é tão simples...' Ela respirou fundo e levou as mãos ao rosto, a fim de se fortalecer.

'Isso aí, amiga.' Delma incentivou. 'Já foi e você tem que entender o que você quer fazer. Eu sei exatamente como é ver quem você ama com outra pessoa... Mas se você acha que vai ser feliz com o René...'

'Claro que não! Foi... Foi um momento de fraqueza, eu sei que é do Gael que eu gosto.'

'Aí complica. Porque não sei como vai ser pro Gael superar isso.'

Dandara concordou com a cabeça.

'Eu sei bem o que isso faz com a gente...'

'Ai, amiga,' Delma se ajeitou no sofá, incisiva. 'Desculpa, mas você não tem idéia do que é que ele está sentindo agora…'

Dandara franziu a testa.

'Como assim, Delma, esqueceu de todas as vezes que o René me traiu quando eu tava grávida do João?'

'Não, não esqueci não, mas você parece que sim, né? Ora, vai me dizer que você não sabia das as puladas de cerca?! Você só fingia que não sabia, né?' Dandara encarou o chão e Delma se desculpou. 'Desculpa, é que esse assunto ainda me dói muito... Não o René, lógico, mas o Marcelo... Sabe que até hoje eu não sei como você conseguia? Eu não aguento nem ver a cara do Marcelo depois do que ele me fez... Nem pensar nele me faz bem…' Delma suspirou contendo a emoção. 'Me desculpe, amiga, mas você não devia sentir pelo René o que o Gael sente por você… Se sentisse você não ia ter conseguido se segurar...'

Por alguns minutos elas ficaram em silêncio, cada uma mergulhada em suas próprias lembranças... Até que Dandara pronunciou de leve.

'Ele se segurou, né? O Gael.' Adicionou, ao ver a expressão confusa no rosto da amiga. 'A minha situação era outra, eu não queria ver porque eu estava com o João na barriga, né, amiga? E mesmo assim não aguentei e veio aquela separação maravilhosa...' Ela falou de forma irônica. 'Digna de novela... Enfim. Eu acabei explodindo, e o Gael, que explode por tanto... Não reagiu, né? Quer dizer, depois de me ver com o René… Eu-- eu tentei falar com ele, ver se ele queria conversar, mas ele não quis. Saiu sem falar nada.'

'Era de se esperar, né, amiga? Ou não, do jeito que é estourado…'

'Mas é isso que eu estou falando, é isso que me preocupa!'

'Ele não ter quebrado o René em pedacinhos?' Delma sugeriu divertida. Dandara esboçou um sorriso, mas seguiu preocupada.

'A falta de reação dele!' Apoiando-se no sofá, Dandara confessou a amiga o que lhe estava tirando o sono… 'A gente se separou justamente por esse jeito estourado dele... E mesmo separado já tivemos várias discussões, ele lutou com o Lobão porque o cara se dirigiu a mim... E aí ontem ele deu um boa noite sarcástico e saiu, se recusou a falar comigo…' Ela deu de ombros. 'Não sei, eu acho que…'

'Pode falar, amiga' encorajou Delma aproximando-se da amiga.

'Acho que o que mais me incomoda é que ele tenha enfim conseguido.' Lágrimas marejaram seus olhos e ela não se deu conta. 'Eu tenho medo de que ele não reagir signifique que ele tenha desistido.'

Delma envolveu-a num abraço e Dandara limpou novamente as lágrimas que teimavam em se formar em seus olhos.

'Você sabe que eu sempre achei vocês feito dois adolescentes, né?' Brincou Delma. 'Tanta paixão, tanto fogo!'

Dandara deu um riso de leve e Delma levantou seu rosto de forma maternal.

'Ele te ama sim, eu tenho certeza…' uma leve pausa enquanto as duas trocavam olhares e Dandara se preparava para o que viria a seguir 'Mas como sua amiga eu preciso te dizer que você pode estar certa. Talvez ele tenha desistido sim… E honestamente, amiga? Será que ele tá errado?'

**

O questionamento de Delma permaneceu ecoando nos ouvidos de Dandara ao longo do dia. Após o almoço na casa da amiga, ela seguiu para dar suas aulas na Ribalta, onde esperava cruzar com Gael, mas não encontrou-o dando aulas na academia. 'Ele deve estar me evitando…' pensou, sem saber o que deveria interpretar daquilo. Seu tempo no coral, que costumava ser terapêutico, hoje fora de reflexão.

Seus alunos ensaiavam o dueto “Sorte” de Gal Costa e Caetano Veloso. A mesma música que Dandara cantara para Gael em um de seus primeiros encontros… Aquilo agora parecia um filme distante… E aquela historia de sorte parecia pertencer a outra pessoa...

Dandara ainda estava absorta em seus pensamentos quando uma voz a despertou.

'Mãe? Tá tudo bem?'

'Hm?' Ela levantou a cabeça e percebeu que estava sozinha na sala. 'Oi meu filho!' Dandara jogou o cabelo para o lado e abriu um sorriso convidativo para que João se aproximasse. 'O que tá fazendo aqui? Fugiu da aula de dança de novo?

João olhou-a sem esconder a confusão.

'Aula de dança? Ih… Já sei, tá passando tempo demais com o René. Já tá entrando nas drogas também?'

Dandara se levantou de imediato.

'Para de gracinha, João. Não brinca com isso que é sério.'

'Tá bom, não tá mais aqui quem falou.'

Dandara mordeu os lábios.

'Anda, fala, o que é que você quer?'

'Eu só queria ir pra casa, mas já que você tá perguntando assim, tão disposta, eu aceito também uma pizza… Dez mil reais…' João encarou Dandara e compreendeu que a mãe não estava achando graça. 'Na real, eu estava aguardando ansiosamente você me resgatar da aula do meu pai- quer dizer, do René, mas já que a salvação não veio eu resolvi fugir.'

Dandara segurou o braço do menino para ver as horas.

'Nossa, João! Já está tarde!' Ela sacudiu a cabeça e logo colocou a bolsa no ombro. Acompanhando o menino em direção a porta, lembrou-se novamente de seus pensamentos. 'Eu tava pensando numas coisas... Nossa! Acabei perdendo a hora.'

'Essa coisa tem nome né? Só resta saber se é Cruel ou Pastel' As piadinhas de João sempre conseguiam fazer-na rir, mesmo quando o assunto era sério.

'Não era coisa com nenhum os dois, tá, espertinho? Estava pensando em mim.' Dessa vez, Dandara preferiu mentir. Normalmente ela não via problema em conversar com seu filho sobre sua vida pessoal, mas ela não havia contado a ele sobre o beijo que trocara com seu pai na noite anterior.

Além disso, o olhar de Karina não lhe saia da cabeça… 'Tchau, Dandara', a menina tinha pronunciado com a mesma força com a qual ela própria havia dito 'Adeus, Gael' apenas uns meses antes… Será que agora acabou de verdade?

'Oie! Terra pra Dandara!' João balançava os braços de alguns degraus abaixo. 'To aqui há meia hora falando sozinho! Tem certeza que não tem nenhum bagulho na parada? Pode me contar, não vou julgar não! Posso até querer pra sabe, experimentar—'

Mas Dandara já descia as escadas e segurava-o pelo braço firme.

'Vambora, João.'

Ao sair da Escola de Artes avistou o carro de René dando a partida. Com a voz mais suave, chamou a atenção do filho.

'Isso é brincadeira, né?'

'O negócio do bagulho? Lógico! Todo mundo sabe qual o meu único vício… Agora, que você tá sob alguns efeitos aí, você tá, dona Dandara!'

Ela revirou os olhos contendo um sorriso e abraçou-o enquanto estendia o braço para pedir um táxi. 'Estou sob efeitos sim, meu filho.', pensou 'efeitos da paixão…'.