Notas iniciais
A VISITA

A VISITA

O tempo estava um pouco fechado por aquelas bandas. O máximo que dava para escutar, era alguns silvos distantes de algumas fabricas ali próximas. Aquele lugar, aparentemente abandonado, guardava algo bastante
interessante. Pelo menos, para os dois homens bem vestidos de terno e gravata, que seguiam tranquilos por aquelas ruas mal cuidadas, malcheirosas e esburacadas.
O homem que aparentemente guiava o outro pela rua parou um pouco observando ao redor, como se procurasse alguma coisa ali. Sentiu que uma moita perto deles estava um tanto que viva demais e resolveu verificar. Ao se aproximar apenas conseguiu enxergar um vulto preto muito rápido passando por entre suas pernas, numa velocidade quase inacreditável.
— Era apenas um rato – falou o que estava atrás ao passo que o outro se assustará.
— Essa sujeira me faz querer vomitar. Como o oraculo mora por essas regiões infernais? impregnados de pragas como essas?
— Ora Jimmy o que a sabedoria tem a ver com escolhas como essas? – perguntou o distinto homem de cabelos brancos e barbas igualmente bem feitas, atrás do que injuriava – Já conheci mentes tão sábias que moravam em casebres aos pedaços. A estética é puramente banal e mundana, acredite nisso.
Normalmente Jimmy não daria o direito aquele jovem senhor de ter a última palavra.
Mas estava cansado demais para começar uma discussão, e realmente não estava em condições naquele momento de subjugar aos seus caprichos aquele bondoso homem que o ajudava naquele momento. Preferiu ceder, como quase nunca acontecia, e lhe dar um breve sorriso irônico, deixando com que o silencio se encarregasse da resposta subtendida, diminuindo assim a humilhação que ele passava diante do ato de auxilio daquele senhor, que se mostrava ser a humildade em pessoa.
O homem maduro seguiu por entre ruelas mais estreitas acompanhado pela sombra de Jimmy. Estava entrando como num labirinto de paredes molhadas cheias de lodo e muitas pichações. O clima daquele lugar era húmido e frio auxiliado pela chuva serena que caia sobre o local. O céu estava num cinza triste e parecia que a qualquer momento cairia de uma vez só, ao passo que, a mesma sensação era sentida por
Orfeu que simbolicamente estava vivendo algo igual dentro de si.
Agora as ruelas se transformaram em becos bem estreitos. A ponto de Jimmy jurar ouvir alguns barulhos por entre as paredes que eles esbarravam. A rua principal agora
estava bem distante e um sentimento de medo começou a amedrontar o coração daquele jovem rapaz.
Por mais leal que Nero fosse, Jimmy se via perdendo-se em pensamentos de traição por parte do humilde senhor que ali estava. Imaginava teorias de conspiração e que acabaria sendo traído, assim como foi seu pai. Por horas ele tentava se convencer da farsa desses pensamentos, mas parecia que alguma coisa o falava ao ouvido.
Contando coisas, o fazendo desacreditar, desconfiar. Algumas vezes parecia um amigo invisível, alguém de fora que o assiste entusiasmado, que sabe qual o caminho
mas que não fala, que o olha com olhos de julgamento a todo instante, que o joga na cara e que o dúvida a todo tempo. Alguém que não parece ter um corpo físico, apenas
olhos, olhos grandes como olhos invisíveis do mundo, um olho que tudo vê, que tudo sabe.
Perdidos em seus pensamentos Jimmy percebeu que o seu acompanhante havia finalmente parado perto de uma pequena casa, como que de fundos de um velho barracão. Ele observou ao redor do que parecia para ele um monte de mato em frente a essa casa e viu algo um tanto curioso. Umas cinco banheiras estavam dispostas do lado da casa, com o que parecia pequenas plantações de matos verdes de variadas folhas diferentes.
Nero se aproximou da porta azul, que tinha uma aldraba de leão dourado – algo bem requintado para aquele lugar – e olhando para um espelho redondo ao lado da porta
bateu três vezes com a aldraba.
— O que exatamente significa esse espelho ai? – perguntou Jimmy, sabendo que aquela era a mais simples indagação das várias que ele tinha para fazer.
— Não sei exatamente. Mas contudo me parece alguma forma de proteção.
— Proteção? – Hesitou Jimmy incredulamente – Como um espelho pode proteger alguém?
Antes mesmo que o Sr. Nero iniciasse uma argumentação sobre o questionamento do seu amigo, a porta a sua frente foi sendo aberta vagarosamente. Como que cautelosamente por alguém desconfiado ou muito calmo, sem nenhum interesse de apressa-se, como se tivesse todo o tempo do mundo.
A figura que se apresentou por detrás da porta, era realmente uma figura curiosa e exótica. Uma mulher de pele alvíssima, como se nunca houvesse tido conhecimento
do sol. Cabelos rebeldes e bem cheios da cor vermelho vivo, que mais parecia está pegando fogo. Um óculos colorido lhe tapando a cara e uma roupa um tanto medieval
para os tempos atuais.
Seu rosto apesar da aparência diferente era de uma serenidade pura. Mesmo com traços considerados fortes para uma mulher, como seu exuberante nariz e os lábios
um tanto finos demais ela trazia uma beleza aparente com requinte e classe. Algo muito peculiar para se achar naquele lugar.
Trazia em uma das mãos um cálice dourado que contrastava com o dourado que decorava, num desenho lúdico, as bordas de sua manga comprida, do que parecia um vestido de feiticeira. E na outra mão um enorme cachimbo de cabo comprido, feito de madeira preta.
Aquela mulher olhou para Nero com um olhar profundo, como se dissesse muitas coisas. Porem permaneceu calada e apenas lhe soltou um sorriso aconchegante, desses que a gente dá quando encontra um amigo querido depois de muito tempo.
Passou a vista rapidamente pelo o jovem de cabelos negros escorridos até a testa. E fez um gesto de saudação rápida.
— Quanto tempo Horácio Nero Bavalarte. – disse a mulher num tom amistoso.
— Minha senhora, estou lisonjeado em compartilhar novamente da sua presença. – retribuiu Nero.

— Esse deve ser o menino, o herdeiro do poder, de quem todos falam? – disse ela num tom mais afirmativo que interrogativo.
— Certamente! – concluiu Orfeu num tom um pouco irônico – Acredito que você como oráculo sabe certamente quem sou, assim como o que vim fazer aqui e com certeza sabe as minhas indagações.
Se nesse momento Jimmy tivesse olhado para Nero veria o velho lançando um olhar repreensivo, que certamente o atingiria na alma. Porém o garoto permaneceu fitando a
exuberante mulher a sua frente, estudando com cuidado todos os seus movimentos.
— Saber de tudo não faz de ninguém um oraculo. Talvez o faça louco, mas nunca um oráculo.
Jimmy teria indagado a resposta daquela mulher, porem por um motivo que ele não sabia bem qual era, permaneceu calado. E se pegou pensando no que ela estava querendo dizer com suas palavras um tanto vazias para ele naquele momento.
— Vamos, entrem. O chá já deve estar fervendo. – concluiu o Oráculo antes que alguém pudesse falar mais alguma coisa.
A casa tinha cheiro de incenso, vela perfumada, tabaco e chá. Era uma mistura de aromas que poderia enlouquecer qualquer um que precisasse passar muitos dias ali.
Porem aquela mulher de vasta cabeleira vermelha parecia conviver bem com aquilo.
Assim que entraram na casa perceberam também um som ambiente peculiar, do que lhes parecia um canto de fadas, cantarolado suavemente como um mantra. A mobília era bem antiga, mas bem cuidada. Havia muitas coisas em cima dos moveis dispostos por aquele corredor inicial que os acolhiam. Jimmy percebeu uma variedade de cristais e minerais de vários tipos e tamanhos, rochas arredondadas e umas palhas secas. Uma coleção de vários quadros de borboletas mortas lhe chamou atenção, havia ali borboletas de cores e formas nunca antes imaginados pelo garoto, que pelas suas recordações só lembrava de ter visto em toda a vida algumas borboletas azuis ou amarelas e pretas.
Passaram por uma sessão do corredor que só tinha agora quadros de rostos de várias pessoas, que pareciam estarem mortas – pensava Jimmy – os quadros eram enumerados e pareciam seguir uma ordem cronológica a medida que ia chegando mais perto do chão o tamanho dos quadros diminuíam também, chegando alguns a terem uma dimensão mais ou menos de três por quatro.
Eles atravessaram o corredor em silencio seguindo a dona da casa que arrastava uma esvoaçante calda. Com o brilho da luz que vinha do cômodo a frente, ela se assemelhava a um fantasma ou o que Jimmy achava que seria um fantasma.
Agora na sala Jimmy identificou de onde estava vindo aquela bela trilha sonora melódica e harmoniosa. Um enorme gramofone rodava a todo vapor um vinil negro lustroso, enquanto a agulha riscava vagarosamente a lâmina produzindo ondas sonoras, que incrivelmente saia daquele disco girante.
Ao passar os olhos pela sala os visitantes puderam apreciar por todos os lados uma grande quantidade de moveis élficos, esculpidos de uma forma artística delirante. No centro uma lareira que aquecia toda a sala. Em cima da lareira uma cabeça de alce fincado, todo pintado de branco, como todas as paredes daquele lugar, que realmente não parecia ser o mesmo que eles haviam entrando. Uma janela dava visão para um penhasco ali próximo e no seu fim um rio comprido que causava arrepios só de imaginar o quanto estava congelado.
Algumas pequenas luzes pendiam do teto sobre o centro de madeira no meio da sala.
E o sofá que tinha um revestimento como pele de urso fedido, se mostrou bastante confortável e quentinho quando os visitantes se sentaram.
A anfitriã se acomodou bem perto da lareira e tirou de dentro do fogo ali disposto um caldeirão pequeno com um liquido verde, o depositando sobre as xícaras que estavam
no centro. Ofereceu aos dois convidados, que aceitaram e serviu para ela própria, tomando um gole sem temor, como se bebesse algo frio.
— Marie quero agradecer mais uma vez por nos receber. – iniciou o dialogo Nero.
— Como não poderia fazê-lo, meu amigo? Se já estava nos planos não é mesmo?
— Então você realmente sabia que eu viria aqui. – indagou Jimmy.
— Querido o saber lhe perturba muito o coração. Há mais coisas para se preocupar.
— Como o que por exemplo?
— Ora filho de Saulo. Com as coisas mais importantes. – Marie terminou sua frase olhando bem nos olhos de Jimmy que nesse momento havia pigarreado levemente e levado os olhos a outra direção. – Você não gosta muito de escutar o nome de seu pai não é?
— Você não é muito boa em respostas, não é? – retrucou ele.
— E você não é muito bom nas perguntas, não é? – disse ela com um sorriso. – Devemos nos preocupar mais com as perguntas certas, que com as respostas certas. Afinal são as perguntas que movem o mundo e não as respostas. Foram as perguntas que te trouxeram até aqui filho de Saulo, e serão elas que vão te levaram a outros lugares.
— Jimmy se concentre no que você veio perguntar ao oraculo. – disse o Sr. Nero
severamente – Não devemos desperdiçar o tempo dela.
— Já vi que ela tem bastantes coisas para se ocupar aqui nesse fim de mundo.
— Ora, garoto deixe de seus insultos, a senhora Marie merece respeito.
— Ok. – disse Jimmy fitando os olhos na senhora Marie – Desde quando você e o senhor Nero são apaixonados um pelo outro?
— Eu não vou deixar essa senhora ouvir mais nenhum desaforo seu garoto – Concluiu Nero se levantando bruscamente – Vamos embora, foi um erro trazer você aqui, foi um erro acreditar que você seria... – ele calou-se imediatamente.
— Continue – Bravejou Jimmy também se levantando – igual ao meu pai você quer dizer? O escolhido? Não sou o que vocês do clã esperavam não é? Não sou bom o suficiente como o meu pai foi? Não estou disposto a dar a minha vida pela vida de vocês não é mesmo? Não estou disposto a sacrificar a minha família assim como o meu pai sacrificou a nossa para estar do lado de vocês não é mesmo? Você sabe que eu convivi com você mais tempo do que com meu próprio pai? Você sabia que você esteve mais presente nos momentos mais importantes da minha vida que o meu próprio pai? E tudo isso porque Nero? Por um bando de gente que não o soube protege-lo na hora que ele mais precisou. Por um bando de gente que o apunhalou pelas costas. Por um bando de invejosos, corruptos e traiçoeiros.
— Ai, ai, ai... as escolhas. – disse Marie se abaixando mais uma vez calmamente enquanto ascendia mais uma vez seu charuto. – elas podem ser mais afiadas que uma espada de dois gumes.
Os dois se sentaram apavorados e chorosos ao mesmo tempo. Eram tempos difíceis para todos e a morte de um dos maiores bruxos daquela época tinha sem dúvida enfraquecido todo o clã, ou o que sobrou dele. Era por isso que estavam ali com o oráculo, em busca de respostas de como prosseguir. De saber qual deveria ser o próximo passo para eles não entrarem novamente em dias sombrios e negros.
— Eu vou te dizer uma coisa garoto. Eu pude sentir a sua raiva antes mesmo de você aparecer na estrada de terra que chega até essa casa. Você está umbroso de trevas dentro do seu coração, posso sentir daqui o mau cheiro que sai de dentro dos seus poros... posso ver a história do homem mais maligno do mundo se repetir em você.
— O que você está querendo dizer Marie? – perguntou Nero assustados com as últimas palavras do oráculo.
— Raiva leva ao ódio e o ódio leva as trevas. – concluiu o oraculo aos olhos atento dos dois naquela pequena sala – e você sabe como é o lado negativo da força não é mesmo Nero? Não se brinca com a força. A força é o que nos move todos os dias, é o que mantem aceso dentro de nós o poder. Mas esse poder também pode ser alimentado pelos maus sentimentos. E esse é um caminho sem volta. Até hoje não
conheci ninguém que chegou no lado negro e voltou para contar história.
— Eu não consigo me controlar... Eu estou com tanto ressentimento dentro de mim, eu estou tão magoado, ferido... Eu estou tão irritado o tempo todo... Infeliz o tempo todo...
— Eu sei querido. Eu sei. E não tem nada que eu possa fazer por você. Você escolheu o seu destino quando plantou esse sentimento dentro de você. E vai chegar uma hora que você não mais vai poder lutar contra ele. E então ele vai tomar conta de você por inteiro.
— É pra isso que você serve? Para tirar as esperanças das pessoas?
— E você tinha alguma esperança Jimmy? Ou esperava que eu te desse alguma?
— Você está certa. Eu não tinha nem tenho nenhuma esperança. Mas eu esperava que com essa visitar pudesse encontrar alguma, não por mim, mas por aqueles que ainda
acreditam em mim. Aqueles que me amam.
— Você pensa neles? Você os amam? Mas não quer se sacrificar como o seu pai fez. E não entende o porquê do seu pai se sacrificou daquela forma. Você realmente acha que seu pai foi traído? Não passou pela sua cabeça que ele se entregou, como um verdadeiro mártir?
— Como um suicida? Você acha que meu pai foi um suicida?
— Eu não acho nada. Eu apenas sinto e o que eu sinto eu falo.
— Eu acho que isso é o bastante para mim hoje. – protestou Jimmy se levantando do seu acento mais uma vez.

— Mas, não terminou Jimmy. – indagou Nero ao espanto.
— Terminou sim Nero, meu grande amigo. Infelizmente não há mais nada que eu possa fazer pelo seu menino. – disse Marie se levantando delicadamente com uma elegância que estava em qualquer movimento que ela fizesse. – além do mais, já é hora de me mudar mais uma vez. Com o cheiro que o seu menino deixou por essas bandas, os soldados das sombras já devem estar a caminho a mando do seu senhor.
— Eles estão te procurando? – indagou agora curioso Jimmy.
— Na verdade eles já estão aqui, na rua principal para ser mais exata. Não fui muito de ajuda para você menino, talvez possa ser para eles.
— Não Marie, você vai conosco embora. – asseverou Nero.
— Ora meu amigo, até parece que você não me conhece. Sempre tenho uma carta na manga. Não sou tão fácil como você pensa. Vocês é que tem que sair daqui depressa. Eu já tenho um plano e vou ficar bem.
— Tem certeza? – quis saber Nero, olhando nos olhos de Marie.
— Sim. Eu mandarei notícias para que você fique despreocupado. Agora saiam pelas portas do fundo. Eles já estão nos becos das casas abandonadas.

— Vamos então Nero, rápido!

— Menino antes de sair pegue esse livro que está a sua frente, é um presente meu.


Jimmy pegou o livro e seguiu para a porta dos fundos apressado. Enquanto Nero fazia um gesto de agradecimento a mulher encantadora.
Marie permaneceu serena em pé no canto da sala. E aquela imagem daquela grande mulher de fartos cabelos vermelhos parada com uma xícara de chá nas mãos, numa calma extraordinária, ficaria para sempre na cabeça de Nero.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.