Jeyne
19 Jeyne
Notas iniciais
Todos no grande salão de Winterfell pareciam felizes. Todos riam, bebiam e alguns até dançavam sempre sorrindo muito. Todos os vassalos presentes estavam felizes de ter um Stark de volta a Winterfell e pelos Bolton terem sido derrotados.
Jeyne, assim como os presentes, também se sentia feliz por Jon ter vencido e por Ramsay ter sido derrotado. Mais do que felicidade ela sentia também alivio por saber que não teria que fingir ser Arya e muito menos sofrer nas mãos de Ramsay, mas mesmo se sentindo feliz e aliviada, a menina não conseguia sorrir.
Ela não conseguia sorrir por vários motivos. Por sentir falta de Theon. Por sentir os olhares de julgamento que alguns lançavam sobre ela. Os mesmo vassalos que estavam no seu casamento com Ramsay. Eles deviam achar que ela compactuou com a farsa feita pelos Boltons. Eles não conseguiam entender que ela era apenas mais uma vítima... Talvez eles nunca entendessem. Mas o maior motivo para ela não conseguir sorrir era o fato de todo o sofrimento que passou ter apagado o seu sorriso.
Jon também não sorria. Pelo menos não verdadeiramente. Ele sorria mais era de forma artificial, somente para ser educado quando alguém lhe dirigia a palavra ou quando algum cantor lhe dedicava uma canção. Mas Jeyne sabia que no fundo ele não sorria verdadeiramente, pois devia sentir falta dos irmãos dele.
Nos dias que se seguiram a comemoração. Quando todos os vassalos foram embora e ficaram somente as pessoas do castelo. A solidão cresceu ainda mais no coração da menina. Winterfell parecia abandonada. Os corredores quase desertos. Parecia que mesmo depois de Ramsay e os Bolton terem sido derrotados Winterfell continuava marcada e não havia conseguido se recuperar. Assim como Jeyne.
Ela não tinha com quem conversar durante os dias. Passava a maior parte do tempo andando pelos corredores sem parar. Por vezes ela pegava se pensando em Theon e outras vezes em Sansa. Em como seria maravilhoso se tudo nunca tivesse mudado. Tinha vezes, nos dias mais solitários,que jurava ouvir o barulho de tempos passados. Ouvia o riso de Theon e de Robb e o barulho das espadas de treino que os dois usavam quando ainda eram vivos. Ouvia a doce voz de Sansa a convidando para tomar chá e comer bolos de limões, mas quando se concentrava percebia que era apenas o frio vento do inverno a pregando peças. O vento frio que balançava o pesado manto que ela usava e a fazia tremer. Mas a solidão conseguia ser ainda mais fria e cortante do que os ventos do inverno. Quando os dias eram frios demais, ela não saia do quarto que era destinado a ela.
As vezes, enquanto andava pelos corredores, a menina se encontrava com Jon. Eram raras vezes, pois Jon sempre estava ocupado em reuniões e mediando a relação entre os selvagens e os nortenhos. Ele era o rei e tinha muitas obrigações. Sempre que os dois se cruzavam apenas se cumprimentavam. Jeyne o tratava conforme os protocolos exigiam e ele era gentil com ela. Depois cada um seguia o seu caminho em silêncio.
Com o passar dos dias os corredores foram ficando mais movimentados. Ela também esbarrava com outras pessoas. Que para ela eram apenas rostos e nomes. Nunca conseguiu manter uma relação de amizade e nem começar uma verdadeira conversa com nenhum deles. Para eles a menina era apenas mais uma das muitas pessoas que moravam em Winterfell.
A menina esbarrava com os selvagens que auxiliavam Jon. Esses sempre estavam rindo ou falando em voz alta. Pareciam aliviados de terem um lugar quente para passar o rigoroso inverno. Alguns selvagens faziam parte da guarda pessoal de Jon. Ele parecia confiar neles e eles pareciam confiar em Jon. Ter ele como rei.
Algumas raras vezes também via Val, a que chamavam princesa dos selvagens, enquanto andava pelos corredores. Ela as vezes estava na companhia de Jon falando de assuntos que Jeyne não conseguia e nem queria entender e outras vezes estava acompanhada de outros selvagens. Val não era a única princesa que Jeyne via. Ela também viu uma vez a princesa Shireen, que era filha do falecido rei Stannis e da falecida rainha Selyse. A princesa estava morando em Winterfell. Na vez em que ela a viu a princesa estava acompanhada por alguns soldados que eram do rei Stannis e por um bobo da corte bem bizarro. Jeyne teve medo daquele bobo da corte e por isso não se aproximou dela. Se afastou e deixou eles passarem.
A menina também via Melisandre algumas vezes, tanto nos corredores como nas fogueiras noturnas que ela fazia para orar ao seu deus de nome estranho. No começo Jeyne se juntava as orações, mas depois perdeu o interesse.
Porém naquela tarde algo diferente ocorreu. A menina em suas andanças não encontrou nenhuma das pessoas que costumava ver. Encontrou alguém que nunca havia visto antes. Viu o novo intendente do castelo.O ver a fez lembrar do pai que foi intendente antes de tudo ocorrer. Sem que reparasse seus olhos se encheram de lágrimas da mais profunda dor e saudade. Ela estava tão afundada em sua dor que nem se importou de alguém a ver chorar. Ela mal percebeu o rei Jon e uma parte da sua guarda se aproximando.
—Lady Jeyne.- ele lhe cumprimentou primeiro e lhe estendeu um lenço. Jeyne foi pega de surpresa pela atitude dele.
—Vossa Graça. – disse Jeyne pegando lenço com as mãos tremulas e fazendo uma reverencia como era o certo a se fazer.- Obrigada pelo lenço. Lamento que tenha me visto nesse estado.
—Não precisa pedir desculpas, assim como não precisa me chamar de Vossa Graça. Já disse isso.
Jeyne apenas concordou com a cabeça e tentou forçar um sorriso. Quando Jon estava já alguns passos distantes ela lhe chamou. Jon virou a cabeça e a olhou.
—Obrigada. Obrigada por tudo, mas principalmente por ter me deixado ficar.- Jeyne se sentia muito grata por isso e ela nunca havia agradecido de forma direta a Jon.
—Não precisa agradecer. Aqui foi seu lar, assim como foi o meu. Foste a melhor amiga de minha irmã Sansa.
—Sinto falta dela, ou melhor deles.- falou Jeyne se referindo aos irmãos de Jon, ao seu pai, as pessoas da antiga Winterfell, mas principalmente ao passado.
—Também sinto.-disse Jon com um pesar na voz. Era obvio que ele assim como ela queria a antiga Winterfell de volta, mas principalmente queria os irmãos. Isso ficou claro em sua voz, que soou esperançosa, quando disse- Melisandre me disse que em breve iria encontrar um dos meus irmãos. Ela disse que viu isso nas chamas.
*
As chamas se mostraram corretas. Uma semana depois daquele encontro localizaram o irmão mais novo de Jon, o menino aleijado chamado Bran. Encontraram ele, os amigos chamados Meera e Jojen e Hodor em um abrigo perto da Muralha. Eles afirmaram estarem fugindo de um tal de um corvo de três olhos ou algo assim. A história não importava o que importava era que eles estavam de volta. Jon mandou preparar um grande banquete para comemorar a volta do irmão.
Jon nesse banquete sorria verdadeiramente e parecia emocionado. Quando o banquete terminou ele fez questão de carregar o irmão até o quarto. Bran também sorria.
A volta de Bran fez Jeyne ter curiosidade de falar com Melisandre. Queria saber o que as chamas poderiam mostrar sobre seu futuro. As chamas pareciam realmente mostrar fatos que ainda iriam ocorrer. A menina queria saber se um dia seria feliz. Queria saber se algum dia iria superar todas as perdas. Com esse desejo em mente ela foi até a fogueira noturna no dia seguinte.
Ela esperou que todos saíssem. Esperou que ficasse somente Melisandre para que se aproximasse dela e perguntasse se ela poderia ver seu futuro nas chamas. Jeyne se sentia nervosa de falar com ela. Jeyne acabou se tornando muito tímida depois de tudo.
—Já vi seu futuro nas chamas, lady Jeyne.- disse a mulher depois de a ouvir fazer o pedido
Jeyne se espantou e acabou perguntando assustada:
—Já? Então porque não me falou logo?
—Porque eu sabia que vinha até mim para questionar a cerca do seu futuro. As chamas me mostraram.
—Então... O que o futuro me reserva.? O que as chamas mostraram?
— As chamas mostraram que Winterfell será seu lar para sempre. Também mostraram que seu nome não será lembrado. No futuro terão canções sobre a guerra dos cinco reis, sobre como o rei Jon salvou o Norte dos Boltons, sobre a batalha da Alvorada e sobre outros fatos e reis marcantes, mas não haverá nenhuma canção sobre você ou que pelo menos a cite... Isso não é algo ruim como pode parecer agora. No futuro entenderá.
Melisandre falou muitas coisas, mas não falou o que Jeyne queria mais ouvir, por isso a menina perguntou:
—No meu futuro terei felicidade?
—Terá. Você a encontrará aqui, em Winterfell, de uma forma inesperada. Um dia as feridas irão cicatrizar, algumas delas, pois a ausência de alguém sempre vai a assombrar.
Havia verdades nas palavras dela, principalmente sobre a ausência de Theon que sempre ia a assombrar. Mas ela estava mais calma, pois ouviu que um dia encontraria a sua felicidade e que Winterfell seria seu lar para sempre. Winterfell, mesmo que não fosse mais o que era antes, representava segurança.
Ela iria aguardar ansiosamente o dia em que voltaria a ser feliz. O dia em que as feridas de sua alma finalmente cicatrizassem. O dia em que encontraria o seu final feliz, como as donzelas das canções que ela ouvia no passado. Por algum motivo naquele momento ela se permitiu sonhar um pouco. Sentiu-se um pouco esperançosa. E quase chegou a sorrir...
Mas até esse dia chegar ela já se sentia satisfeita por poder ser ela mesma. Por poder ser Jeyne.
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