Jardinagem Contemporânea
1 Jardinagem Contemporânea
O senhor e a senhora Mercedes eram trabalhadores, ávidos trabalhadores de cujos negócios dependiam milhares de pessoas. Empresários de sucesso, heróis financeiros da política e da gestão. O dinheiro para eles era tudo menos problema (literalmente tudo). Nas suas posses constava uma magnífica vivenda, mobilada com luxo e elegância pelos melhores designers de interiores conhecidos. O casarão elevava-se sobre um enorme terreno do vilarejo de Cerdha. A vizinhança era amigável e acolhedora. O clima era afável e morno. O céu, sempre azul.
Apesar da riqueza, trabalhavam imenso. A senhora Mercedes empregava atualmente uma reunião de negócios no estrangeiro e deixara o seu excelentíssimo esposo comandar a casa. Este último, que era também homem extremamente ocupado, pouco tempo tinha para assegurar a constante manutenção da habitação. Pode parecer estranho, mas os Mercedes tinham tudo menos empregados. Incomodava-os a ideia de empregar alguém para tratar daquilo que era seu e só seu, daquilo que fora conseguido através do seu esforço e talento. Porém, o senhor Mercedes não encontrara outra solução: contratara um jardineiro.
Conan Downleef era um jovem nos seus vinte e tal anos. Tez pálida. Seus olhos verdes, claros e penetrantes faziam um interessante contraste com os seus despenteados cabelos negros. Vinha trabalhar enfiado no interior quente de um macacão esverdeado e, quando estava mais frio de manhã, usava um gorro castanho-escuro. Era um rapaz simpático, bastante educado e civilizado. Dele só eram recebidas boas recomendações. Por isso, Mercedes confiou-lhe a ele o vasto jardim em frente à sua casa.
A senhora Mercedes estaria fora durante uns sete dias. Durante os primeiros dias, nada se passou digno de menção. Foi só para o final da semana que se deu a maior parte da ação desta nossa história.
Mercedes, o marido, estava sentado no seu gabinete, trabalhando, quando o telefone tocou. Era Paul, o seu vizinho da frente. Algo estranho se passa, Mercedes. Há um grande buraco no teu jardim. Como assim? Escavaram um enorme buraco em frente à tua casa. Achei que irias gostar de saber.
O empresário pegou no carro, um carro negro, brilhante e caro. Claro que seria caro. O seu pé caro no acelerador caro, e lá foi, caramente, o caro senhor Mercedes. Com a pressa que tinha, pouco demorou a chegar ao seu destino. Lá estava ele: um enorme buraco escavado no seu terreno. A esposa ia chateá-lo tanto com isto. As flores, arruinadas. As ervas, arruinadas. A terra, espalhada por todo o lado. A imagem era muito importante. Era preciso manter as aparências. Sempre. Principalmente quando se tem dinheiro. O jardineiro tinha de ser urgentemente repreendido pela sua incompetência.
Telefonou-lhe. Era tarde. Aquela hora não fazia parte do horário de trabalho do jovem Conan. Downleef apareceu com uma velocidade surpreendente, num estado de pânico palpável. Não fui eu, senhor Mercedes. Juro pela minha mãe que não fui eu. Então quem foi, senhor Downleef? Não sei, não faço a mínima ideia. Mas vi o senhor Madson a contemplar o seu jardim ontem. Ele tem o hábito de parar todos os dias em frente à casa para admirar as flores. Madson? O senhor Bob Madson? O meu vizinho da esquerda? Esse mesmo, senhor Mercedes. Esse mesmo.
Bob William Madson, um velho rabugento, viúvo e solitário que morava numa modesta vivenda à esquerda da sumptuosa mansão. Era um militar reformado, um ex-apoiante de certos e determinados governos radicais. A sua presença no bairro sempre incomodara os Mercedes. Era costume acordarem de noite devido ao abafado barulho dos seus tiros de caçadeira. O facto de possuir uma arma em casa assustava e muito todos os habitantes de Cerdha. Acreditavam estar próximo da senilidade. Aquele velho maluco. É bem possível que tenha sido ele. Madson odiava o casal. Odiava-os imenso. Costumava fazer-lhes ameaças de morte de vez em quando. Aqueles malditos "bastardos do dinheiro".
Porém, isto de fazer buracos nos quintais dos outros era curioso. Por que raio haveria alguém de fazer aquilo? Não via uma razão para tal a não ser um sinal de ódio ou protesto. Ou seja, vandalismo. Puro, nu e cru vandalismo. Mas não possuía qualquer prova contra o bom e velho Madson. O jardineiro continuava a ser para ele o principal suspeito. Bob refugiava-se em casa. Quase nunca se via. Apenas saía a meio da manhã para dar um pequeno passeio. Por que raio haveria ele de fazer uma coisa destas? Pois. O novo jardineiro continuava a ser o principal alvo das suas desconfianças, dissesse o que dissesse do idoso maluco.
Ordenou a Conan que tapasse o buraco sem mais demoras. Em breve, talvez fizesse algumas perguntas por aí, para corroborar a história do seu empregado.
O sol estava a pôr-se. Não era costume seu vir a estas horas para casa. Costumava passar sempre pelo seu bar favorito antes de regressar. Ia sempre do trabalho para o bar e só depois para casa. Hoje, o telefonema abrupto havia provocado a exceção. Pode voltar aos seus empreendimentos, senhor Mercedes. Foi o que disse o jovem jardineiro. E assim o fez.
Horas passaram. Ia bebendo e bebendo. Copos, uns atrás de outros. Mas não se enganem. Mercedes era portador de uma esmerada resistência ao álcool. Foi aí que o seu destino acabou por mudar. Uma mensagem de telemóvel. Era de Conan Downleef.
"VENHA PARA CASA DEPRESSA"
Só isso. Mercedes percebeu que algo sério se estava a passar. Pegou nas suas coisas, ajeitou a sua gravata e correu. Abriu a porta do carro, aquele que era caro, fechou a porta. Acendeu um cigarro para se tentar acalmar um pouco. O teor da mensagem transmitira-lhe uma pulsante onda de nervos.
Em poucos minutos, estava em frente ao edifício. E lá estava ele: o buraco que mandara tapar, aberto. Em frente a essa obra de vandalismo estava Bob Madson, suas costas curvadas para a frente, observando o fundo da enorme fissura na crusta terrestre. Bob Madson. Aquele aberrante velho.
Mercedes saiu do carro e aproximou-se do vândalo. Madson sentiu-o próximo. Fitou-o nos olhos. Aquele olhar frágil, quase sem vida. A pele gasta e enrugada, o corpo decrépito. Dentes deformados pelos anos, o cabelo, alvo, caindo aos poucos. Seu rosto avermelhou na presença do homem de negócios, empunhando um fato negro digno da sua profissão. Mercedes gritou-lhe que se afastasse do seu quintal. Madson respondeu tentando empurrar o vizinho com as forças que lhe restavam. Cada palavra sua, cada movimento sujo dos seus lábios secos, soltava um troço de saliva. Estúpido velho. Volte para a sua casa. Volte para as suas coisas. O velho barafustou com violência. Só bateu em retirada quando Mercedes ameaçou chamar a polícia.
Estúpido velho.
Quando o estúpido velho se foi, Mercedes observou o abominável buraco, o profundo fundo daquele abominável buraco. A minha mulher vai matar-me. Mas estava enganado. Não seria a sua mulher a matá-lo. Seria a pá que o atingiu na nuca.
No dia seguinte, quando a senhora Mercedes chegou finalmente a casa, a primeira coisa que notou foi o horroroso buraco no seu jardim. Note-se que não se trata do mesmo buraco, mas de um buraco numa localização adjacente ao primeiro. O primeiro já havia sido coberto de terra. Aproximou-se um pouco, até notar algo ainda mais estranho no terreno.
Um dedo. Dois dedos, três dedos, uma mão inteira. Depois, um braço. Um corpo. Era o senhor Mercedes, saído dos confins da terra. Seu rosto vermelho, inchado, estava ligeiramente azulado nas regiões dos dilatados vasos sanguíneos. Seus olhos procuravam uma saída das saliências oculares, redondíssimos, sangrando. Sangue fluía também das suas narinas apertadas. O ar procurava entrar no nariz afogado pelo sangue, mas não era capaz. Procurou entrar pela boca até aos fracos pulmões, mas esta também estava impedida por toda a terra engolida. Ali ficou ele, deitado, ofegante, peito subindo e descendo sem misericórdia, pedindo uma morte mais rápida.
Bom dia, senhora Mercedes. É um prazer conhecê-la. O meu nome é Conan Downleef e sou o vosso novo jardineiro. Muito prazer. Muito prazer.
Os lábios vermelhos esboçando aquele sorriso inocente. A mala com as suas ferramentas de jardinagem numa mão, uma enorme pá na outra. Uma pá para escavações.
Mercedes, a senhora, correu, deixando para trás o corpo imóvel do marido. Inseriu amedrontada as chaves na porta, gritando. Apesar das tremuras, não demorou muito a abri-la. Entrou. Empurrou-a. Fechou-a. Observou-o pela janela. Sem remorsos, andando lentamente, cantarolando. Primeiro bateu à porta gentilmente. Depois tocou à campainha. De seguida, encolheu os ombros. Com a pá, estilhaçou completamente a janela de vidro.
A mulher gritou, correu para a sala de estar e escondeu-se a um canto, por trás de um móvel, enquanto o seu perseguidor vagueava pela casa à sua procura. Assobiava alegremente, batendo com o metal da pá no chão e nas paredes. Tuuu tutururu. Aquele buraco, ao lado daquele onde o seu marido fora enterrado vivo, era para ser a sua sepultura.
Ouviu-se uma voz. Senhora Mercedes. Senhora Mercedes. Gritava o seu nome. Uma figura passou pela janela das traseiras, o dono da voz. Não era o jardineiro homicida. Era Bob Madson.
O velho entrou pela janela desfeita, segurando firmemente a sua caçadeira, gritando pela sua vizinha. Aquele psicopata deve ter-lhe feito mal. Mas Mercedes não podia fazer barulho. O assassino podia ouvi-la. Madson procurou-a por todo o lado. Sempre atento, confiando nos seus longos anos de serviço militar. Contudo, no fim, de pouco lhe serviram esses anos.
O assassino silencioso viu-a. Conan encontrou Mercedes escondida atrás do móvel. Tapou-lhe a boca com força mas não a matou. Ainda não. Colocou depois o dedo indicador da mão livre em frente aos lábios. Não faça barulho, senão mato-a. Quando Bob entrou na sala uma pá atingiu-lhe a testa. Um tiro foi disparado contra o teto, a caçadeira largada, caída no chão. Downleef largara a sua caixa de ferramentas. De lá, retirava uma enorme tesoura de jardinagem. Suas duas lâminas reluzindo no escuro daquela casa, na sombra daquele momento de terror. A mulher gritou pelo vizinho que a tentara ajudar. Gritou mesmo e com vontade. Mas já era tarde. O pescoço do velho fora dilacerado, antes que este tivesse a oportunidade de se recompor. Faleceria ali, seu fluido vital escorrendo pela fissura, sua boca cuspindo-o também.
Mercedes conseguiu escapar pela outra janela, aquela de onde vira o vizinho chegar. Correu para a frente da casa, gritando desesperada por ajuda, em plenos pulmões. Quando se virou, Downleef aproximava-se, com a sua gigantesca tesoura, pronto para terminar a sua semana de trabalho. O que o jardineiro não previu foi a mão avermelhada que lhe prendeu o tornozelo e o fez cair de frente. Era a mão do senhor Mercedes que, a muito custo, ainda se mantinha consciente. Ainda desejava proteger a sua esposa. Numa descarga de adrenalina, num rápido pulsar de pensamentos velozes, a senhora Mercedes pegou na arma mais próxima de si e usou-a. Com um tijolo, terminou tudo, esmagando a cabeça do malvado jardineiro.
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