Jardim de Memórias
2 II - Alice
Notas iniciais
Alice Rosa veio de um mundo muito longe e diferente dali chamado Terra.
Era apenas uma garota comum. Sempre foi. Suas notas na escola não eram as melhores, mas dava para passar de ano. Com dezessete anos, estava sofrendo com o estresse de estar no último ano do Ensino Médio e ter de se preparar para uma prova que tinha o potencial de decidir a vida dela, sendo que ela ainda nem tinha ideia do que queria para o seu futuro.
Não tinha nada sobre ela que não fosse comum.
Talvez pudessem argumentar que ela não era assim, tão comum, por conta do autismo que lhe fora diagnosticado no início da adolescência. Ser do espectro autista não era exatamente considerado normal, ainda mais quando não se encaixa num estereótipo de como as pessoas esperam que pessoas autistas sejam e se comportem. Ao mesmo tempo, não era como se Alice soubesse ser de outra forma que não fosse ela mesma, com todos os seus altos e baixos, e não é assim para todas as pessoas?
Também tem o fato de ter um pai desconhecido e uma mãe desaparecida. Foi criada pela tia, Olinda, com quem morava em um aconchegante apartamento perto da escola onde Alice estudava e Olinda lecionava História e Literatura. Não era exatamente uma formação familiar considerada comum, tia criando sobrinha, mas quem são as outras pessoas para decidir o que é ou não uma família comum?
E tem também os sonhos.
Eles sempre estiveram lá. Desde quando Alice se entende por gente, no ponto em que suas memórias começam, ela sonhava com o mesmo lugar. Os personagens eram variados, e os cenários também. Mas, quando percebeu que eram recorrentes, Alice notou que nada mais eram que partes diferentes de um todo.
Apesar de saber que sonhos não funcionam assim para a maioria das pessoas, Alice nunca pensou que fosse algo realmente extraordinário. Fazia parte dela, assim como ela gostar de jogos, livros e filmes de fantasia, o autismo que lhe fora diagnosticado no início da adolescência, e se sentir atraída por garotos e garotas, e tudo o mais. Era algo que ela não conseguia se imaginar sem.
Mas ela já estava divagando.
O ponto é, ela era diferente, mas de um jeito comum. Alice era Alice, e Alice era normal, mesmo que fosse um normal considerado esquisito por outras pessoas. Nunca tinha nada que a fizesse pensar que fosse diferente a ponto de ser considerada especial.
Até agora.
Era difícil de pensar que, poucas horas antes, estava em casa, e na escola onde estudava, a Flor de Lis.
:ii:
Naquele dia, Alice acordou de mais um sonho.
O corpo protestava contra o horário cedo em que era obrigada a acordar, enquanto o celular gritava em algum ponto escondido de sua cama. Tateou, procurando o objeto, e o encontrou emaranhado nos lençóis, quase caindo da cama. Assim que o pegou, olhou para o horário por um bom tempo antes de adiar o despertador e cair de volta no travesseiro.
Só mais cinco minutos.
Era tudo o que queria.
Uma batida na porta de seu quarto a despertou novamente. Quando olhou para o relógio de seu celular, percebeu que haviam se passado apenas dois minutos desde que adiou o alarme.
— Eu ouvi seu despertador, Alice! — tia Olinda chamou do outro lado, e bateu na porta mais uma vez. — Levante-se e vá se arrumar!
Alice afundou o rosto no travesseiro e grunhiu alto, perguntando-se porque tinha que passar por aquela tortura todo dia.
— Alice! — Olinda chamou outra vez, bem menos paciente do que antes.
— Já estou me levantando. — A voz dela saiu bem mais arrastada do que queria, e um bocejo no final só tornou as coisas piores.
Quase caiu da cama ao tentar se levantar, o lençol ainda embolado nos pés. Nem mesmo o banho de água fria foi capaz de espantar a sensação de lerdeza que acordar cedo lhe trazia.
Na mesa do café, mal conseguia se mover. Suas mãos tinham que ficar apoiando o rosto para que ele não caísse direto na superfície. Honestamente, que pessoa desumana decidiu que fazer as aulas começaram às sete da manhã seria uma boa ideia?
Do outro lado da mesa, tia Olinda bebia uma caneca de café com leite enquanto lia algo em seu celular. Os olhos negros como botões voltaram-se para a sobrinha quase adormecida em cima da mesa, e um estalo de desaprovação saiu da sua boca.
— Você tem que se alimentar, Alice. — Olinda disse, desligando a tela de seu telefone e o colocando na superfície na mesa. — Desse jeito, vai dormir na aula de novo.
— Não vou... — Alice respondeu, a voz saindo em um grunhido involuntário.
— Você sempre diz isso. — Olinda estalou a língua novamente, e voltou a beber da caneca.
Olinda olhou para o relógio de pulso e quase engasgou ao ver a hora. Por algum motivo, achou que virar a caneca de café quente seria uma boa ideia, mas acabou apenas com lágrimas nos olhos e uma garganta queimando. Recusou qualquer ajuda oferecida por Alice e a apressou para que fosse com ela até o carro na garagem.
A viagem foi silenciosa, com apenas a música de Olinda tocando no rádio. Um clima agradável e Alice, ainda sonolenta, não resistiu em fechar os olhos e relaxar com o as notas do violão, o ronronar do motor, o vibrar do assento do carro a andar...
Estacionaram perto do portão da entrada da escola Flor de Lis. As duas o atravessaram, e Olinda se virou para a sobrinha.
— Por favor, tente prestar atenção nas aulas. — Instruiu, como sempre fazia todas as manhãs. — Lute contra o sono o máximo que puder e respeite os professores.
— Fala isso como se eu fosse um estorvo nas aulas. — Alice reclamou, apesar de o tom ter saído tão monótono que talvez não tivesse ficado claro para a tia que estava tentando fazer uma piada.
— Qualquer coisa, não tenha medo de me chamar, tudo bem? — Olinda continuou, e colocou uma mecha do cabelo da sobrinha atrás da orelha. — Agora tenho que ir. Até mais tarde. — Deu um beijo na testa da menina, e andou a passos rápidos até a sala dos professores.
Alice ajeitou a mochila nos ombros e seguiu o caminho até a sala de aula. Estava no meio de um longo bocejo quando unhas compridas cravaram em sua cintura, o que a fez pular com o susto. Sofia, dona das unhas, riu da reação da amiga, enquanto Fábio, do outro lado, estalava a língua em desaprovação.
— Sô, assim você vai acabar matando ela.
— Não seja tolo, Fábio. — Ela respondeu, colocando uma mecha do cabelo ruivo atrás da orelha. — Você mesmo sempre diz que se mata um zumbi apenas com um tiro na cabeça.
— Dois. — Fábio murmurou, ajeitando os óculos de armação grossa que escorregavam do nariz. — Para garantir.
— Exato. — Sofia assentiu, e envolveu os ombros de Alice com os braços. — Precisa de bem mais do que um cutucão na cintura para matar nossa preciosa Alice quando ela está nesse estado semimorto.
— Por favor, não falem da zumbi como se ele não estivesse ouvindo. — Alice murmurou, coração ainda palpitando com o susto da amiga e voz ainda arrastada pelo sono da manhã. — Ela também tem sentimentos.
Sofia e Fábio a encararam por um breve momento antes de explodirem em risadas com o comentário espontâneo de Alice. Risada contagiante, ela também acabou por ceder à gargalhada ao perceber o que havia dito.
Com sorrisos e risadas, e braços entrelaçados, os três amigos subiram as escadas da escola. Ao chegar na sala, dirigiram-se até os lugares típicos ao fundo da sala. Sofia sentou-se na carteira à frente de Alice e se virou na cadeira, apoiando o queixo no encosto do assento.
— Então, ‘Lice, como foi o sonho de hoje? — Perguntou, com um sorriso nos lábios.
— Não, espera! — Fábio interrompeu no momento em que Alice abriu a boca para começar a contar. Ele mexia de forma afobada na mochila, a procura de um caderno onde anotava e organizava os sonhos de Alice, o terceiro da coleção desde quando começaram a registrar tudo, e uma folha A3 já amassada e que começava a rasgar, onde tinha um mapa improvisado e incompleto. — Não conte ainda! Tenho que pegar as anotações!
Assim que ele tinha ambos caderno e mapa abertos em cima da mesa e a lapiseira em mãos, ele assentiu para as duas, dando permissão para continuar. Sofia estalou a língua em um muxoxo.
— Se vocês dois tivessem essa mesma dedicação com os estudos... — Comentou antes de ser prontamente silenciada por Fábio.
Então, Alice começou a narrar o sonho que teve naquela noite.
Ainda se lembrava dele, tão bem quanto um sonho se permitia ser lembrado. O cheiro de água salgada, os navios atracando no porto de um grande reino, trabalhadores de rostos borrados e vozes abafadas carregando caixas até seus devidos lugares, alguns claramente usando magia para as cargas mais pesadas...
Fábio anotava freneticamente cada detalhe que ela proferia, enquanto Sofia escutava com o um olhar atento. Quando o professor de matemática entrou e começou com a aula, Alice teve de interromper e esperar até o próximo intervalo. Com sua tia trabalhando na escola naquele dia, queria evitar o máximo possível qualquer “desvio de comportamento”.
E até que estava indo bem. Durante os dois horários seguidos de matemática e a aula de biologia que veio logo depois, Alice conseguiu se manter acordada e controlar a própria língua para não terminar de contar sobre o sonho do dia, ou até mesmo conversar sobre outro assunto banal.
Quando chegou a hora do intervalo, continuou a contar o sonho enquanto dividia um pacote de biscoitos com Sofia e Fábio em um canto da sala. Fábio continuava com suas anotações, e às vezes pedia para repetir ou especificar algum detalhe — “A casa era para Norte ou Leste?,” respondido por um exasperado “Fábio, eu mal sei a diferença entre esquerda e direita!” —, enquanto Sofia ouvia cada palavra do conto em silencio. Ás vezes, interrompiam para verificar se entenderam algum fato direito ou não, mas logo voltavam a prestar atenção.
Quando Alice terminou, Sofia deitou-se no chão de forma dramática e soltou um suspiro exasperado.
— Enquanto isso, eu sonhei que estávamos na aula, todos os meus dentes explodiram quando foi minha vez de falar e uma vaca amarela riu de mim da janela. — Alice sentiu um arrepio na espinha com o desabafo da amiga. Sofia sentou-se novamente, com a graça e agilidade de quem fez ginástica olímpica por sete anos.
— Diz isso, mas nos chama de irresponsáveis por anotar e organizar tudo. — Fábio murmurou.
Em resposta, Sofia pegou o corretivo do estojo dele e pincelou um ‘X’ na testa do rapaz. Irritado, ele esfregou a mão para limpar, o que acabou por apenas espalhar a tinta e manchar as pontas dos dedos.
Alice apenas sorria distraída, olhando os amigos em suas disputas bobas sem realmente prestar atenção.
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