Jardim Tempestuoso

7 Capítulo 07 - Narcisos 3


Notas iniciais
Ryan Blanchard - Chris Pratt Paul Storm - Gary Oldman

Os dias passaram de forma lenta, embora surgissem as mais variadas atividades ao longo deles. Tanto meu escritório na empresa quanto o de minha casa continham dois calendários em uma das paredes laterais, ambos contendo marcações dos eventos de cada dia, desde os mais banais, como fazer compras, até os mais importantes, como alocar funcionários e parentes nas bases definidas. O calendário correspondente às atividades de minha família recebia uma nova nota adesiva a cada hora, levando-me a suspirar devido ao cansaço e agradecer a decisão de ter dado a semana inteira de folga a todos os funcionários. Provavelmente enlouqueceria se tivesse de conciliar os problemas familiares com os compromissos de trabalho.

Batidas na porta tiram minha atenção da agenda em minhas mãos. Franzo o cenho sem conseguir pensar quem estaria em minha casa, na metade da manhã de uma terça-feira, ao ver que somente duas notas amarelas ocupavam o grande quadrado do calendário referente ao dia. O que significava que fora os dois compromissos relacionados à minha família, ninguém deveria me incomodar em minha aparente folga.

— Entre.

Autorizo em um tom sem qualquer emoção, ainda buscando adivinhar quem poderia ser.

Um suave sorriso enfeita minha face ao ver Narciso entrar timidamente no cômodo. Balanço a cabeça em negação, sentindo-me um pouco estúpida por esquecer que, além de meus irmãos, somente ele e Arthur possuíam uma cópia da chave de minha residência.

— Bom dia, Lola. — A voz calma e limpa do jovem à minha frente soa, passando uma tranquilidade que contrastava com o estalar de dedos. — Perdão por invadir sua casa e atrapalhar seu descanso sem qualquer aviso. Arthur me ligou mais cedo para avisar que teve um problema com os freios do ônibus e, talvez, não ficará pronto antes da sexta.

— Bom dia, querido! — Levanto da cadeira para abraçá-lo e seguro em suas mãos, não apenas para tranquilizá-lo, como também para interromper o único de seus cacoetes que me irritavam. — A partir do momento que você tem a chave, não considero uma invasão. Então não há porquê se desculpar. — Caminho até o sofá logo abaixo dos calendários, o conduzindo para sentarmos lá. — Além disso, Nathan e eu estamos esperando você decidir ocupar, em definitivo, seu quarto aqui.

Descanso a cabeça no encosto do sofá ao ouvir a notícia, fechando os olhos por um momento para refletir no que fazer. O feriado seria em dois dias e era quase impossível contratar o serviço naquela altura. Detestava utilizar algo da empresa para fins familiares, contudo, não via outra saída que não fosse contatar o gerente da garagem para saber quais veículos estavam em condições de uso.

Abro os olhos repentinamente quando um detalhe dito por Narciso ressoa em minha mente. Encaro os olhos castanhos, identificando a dúvida, surpresa e receio estampados ali. Suspiro com o misto de emoções que me atinge por reconhecer as causas de cada um desses sentimentos.

Ergo a mão esquerda para acariciar o rosto fino de Narciso, apertando um pouco o queixo quadrado. Na maior parte do tempo, esquecia que o rapaz era inseguro quanto à nossa relação, calculando cada passo para não me decepcionar e perder outra figura materna. O apego extremo dele era ainda mais adorável quando comparado com a aversão absurda de sua irmã caçula para comigo, Violet e Daisy.

— Não se preocupe com isso, querido. Posso ligar para o senhor Martinez e ver se há algum veículo da empresa disponível. V ainda não confirmou quantas pessoas ela vai levar, então não temos pressa.

Subo um pouco mais minha mão, arrumando os fios que desalinharam de seu topete. O sorriso volta a enfeitar meus lábios ao perceber que, da mesma forma que reconhecia cada sentimento em suas expressões, Narciso conhecia cada gesto meu e seu significado.

— O único problema foram os freios? — Questiono em um tom suave, sem interromper os movimentos de minha mão em seu cabelo. — Arthur deu mais algum detalhe ou só saberemos a causa do problema em alguns dias?

— Sim. Arthur estava irritado demais para explicar algo a mais, apenas disse que estranhou a forma que o ônibus estava estacionado e mandou fazer uma vistoria rápida. — O meio sorriso nos lábios bem desenhados reforçou a ironia em suas palavras seguintes. — Estava tudo perfeito, com exceção dos freios que não funcionaram.

Ponho-me em pé, abaixando apenas para beijar sua testa. Caminho de volta para a mesa em busca de meu celular pessoal. Sentia a palma de minhas mãos úmidas, mas conseguia controlar o tremor que iniciava em meu corpo. Fico indecisa por breves segundos sobre para quem ligaria primeiro, optando por iniciar pela realidade que mais me assombrava e parecia ser a mais insistente. Quatro toques foram o suficiente para fazer com que o tremor ficasse um pouco mais forte e visível. A voz do outro lado da linha e as mãos de Narciso, segurando a minha que estava livre, me acalmaram ao ponto de erguer minhas muralhas e retomar a habitual postura firme e prática.

— Sua proposta ainda está de pé? — Não há espaço para qualquer amabilidade ou cordialidade de minha parte. — Se estiver livre, podemos resolver isso agora mesmo.

"— Cissy, é sempre um prazer ouvir sua voz, mas hoje é minha folga e acordei com sua chamada. — Respiro fundo duas vezes para não xingar Hector. — De que proposta exatamente você está falando? Acho que fiz umas cinco. Se juntar às que fiz no jantar de sábado e no almoço de domingo."

— As duas do jantar.

O silêncio preenche não somente a chamada, mas também o escritório. Narciso me olhava com o cenho franzido e cabeça levemente inclinada. Tento sorrir, sabendo que devo ter conseguido apenas repuxar os lábios devido ao arquear de sobrancelha do mais novo. Aperto sua mão, ainda unida à minha, quando o suspiro na chamada me assusta.

"— Confesso que não era o que pretendia ouvir. Já conversou com o Aspen?"

Agora é minha vez de revirar os olhos, primeiro por reprovar o fato de Hector usar o nome que escolheu para o meu filho e que, após muita insistência, coloquei como o segundo. Segundo, não sabia como Nathan reagiria e não havia como consultá-lo no momento. Torcia para que ele não se sentisse traído ou ignorado.

— Surgiu um imprevisto e isso vai ter que ficar para depois. — Afasto-me de Narciso, sem coragem para encará-lo e encontrar seu olhar questionador e a provável decepção que causaria. — Hector, preciso de uma solução rápida e você é uma das pouquíssimas pessoas que confio plenamente. Narciso está aqui. Ele acabou de me informar que os freios do ônibus da família estão com problema. Se Arthur não fosse tão eficiente no trabalho dele, poderíamos ter um acidente envolvendo uma quantidade considerável de parentes nossos. — Sento mais uma vez na cadeira atrás da mesa de trabalho, sabendo que não adiantava mandar Narciso sentar também. — Não consigo ignorar as suspeitas da V, muito menos esqueci a hipótese de Lótus. Não vou ficar tranquila enquanto não tiver certeza de que Nathan ficará bem e com a nossa família.

"— Me dê vinte minutos e te ligo novamente para dizer se consegui. — Concordo e antes que desligue, escuto um gemido de Hector. — Droga! Vou ter que encarar Aspen, Violet, Daisy e pequeno lírio nesse feriado e eles vão odiar a novidade. Convença Narciso a me ajudar, por favor. Ele é o único que vai conseguir acalmar esses quatro."

Não me contenho e acabo gargalhando de seu desespero por um dos ônus de sua proposta. Após ouvir muitas reclamações e conseguir controlar meu riso, me despeço de meu primo e levo as mãos ao rosto, o esfregando para espantar um pouco do cansaço repentino que me tomou. Encaro o rapaz que praticamente adotei desde que ele era um garotinho, mesmo que nossa diferença etária seja pequena.

— Violet suspeita que ela, Isy ou eu estejamos sendo alvo de alguém. — Começo a explicar, apoiando o corpo no encosto até que a cadeira alcance o ângulo máximo de inclinação. — Nathan está seguro no Solo e isso dos freios me deixou preocupada. Lótus acha que o pai dele pode surgir a qualquer momento. — Fecho os olhos para não encará-lo no momento em que ouvisse a atualização seguinte. — Quando conversei com Hector no sábado, ele propôs casamento e assumir a paternidade de Nathan. Talvez para quebrar o clima tenso ou me tranquilizar de que teria apoio, mas parece que é a melhor opção para manter meu filho seguro e comigo.

Até em momentos de extrema tensão, o silêncio entre Narciso e eu era reconfortante. Meus olhos continuavam fechados e recorri às memórias de infância para acalmar as batidas de meu coração. Sinto mãos grandes em meus ombros, apertando com firmeza e em um ritmo suave, me encorajando a abrir os olhos e encarar o jovem que massageava minha pele com carinho.

— Hector daria a vida pelo pequeno príncipe. Não se preocupe com a reação dele, tenho certeza de que vai ficar feliz em oficializar nossa família meio estranha. — Notando que ainda permanecia um pouco tensa, o aperto de suas mãos ficou mais forte. — Posso contar a ele que a senhora está com receio dele pensar que o ama menos, porém decidiu casar com meu irmão para que ele pudesse ter um pai, ainda mais um que é capitão. Além disso, se conseguir a aprovação para ser minha madrinha, venho morar aqui e Nath só terá motivos para se sentir o garotinho mais feliz e amado do universo.

Embora fosse algo raríssimo, meus olhos umedeceram e rapidamente levei minhas mãos ao rosto, secando algumas lágrimas que escaparam. Antes que pudesse agradecer, meu celular tocou e coloquei no viva-voz ao atender.

"— Pronto, Cissy. Um conhecido vai celebrar nossa união às catorze horas, então separe seus documentos. — Barulhos estranhos podiam ser ouvidos ao fundo, contudo era quase impossível distinguir do que se tratava. — Estou a caminho da sua casa para pegar tudo e levar ao cartório. Precisamos de duas testemunhas, então tomei a liberdade de dar o nome do Narciso e da Elsa. Já estou com os documentos da loirinha e sei que meu irmãozinho não anda sem os dele. — Mais alguns barulhos e a batida de uma porta. — Pode me agradecer na lua de mel, querida. Aguardarei ansioso."

Não consigo dizer qualquer coisa devido ao choque que suas palavras me causam, tentando afastar qualquer receio da mente.

— Se não te conhecesse, diria que está planejando me amarrar há um bom tempo.

"— Você já ia me amarrar com alguém mesmo, por que não fazê-la provar do próprio veneno? — Consigo escutar o som de um carro sendo ligado. — Quinze minutos para organizar tudo, Cissy. Ainda preciso resolver umas coisas no quartel."

A chamada é encerrada sem qualquer despedida, me fazendo bufar e jogar o celular de qualquer forma sobre a mesa.

— Parece que o intervalo acabou.

Reviro os olhos para Narciso, me limitando a abrir a segunda gaveta do lado esquerdo e tirar de lá uma pequena pasta cinza. Estendo-a na direção do rapaz.

— Entregue a Hector quando ele chegar. Vou fazer nosso almoço e separar algo para vestir mais tarde.

Não espero por qualquer comentário ou questionamento do rapaz, saindo do escritório rapidamente em direção à cozinha. Mover-me no espaço amplo, durante o preparo de alguma refeição, na maioria das vezes servia para acalmar meus nervos e possibilitava que eu organizasse os turbilhões de pensamentos que, vez ou outra, tomavam minha mente.

Desisto de lutar contra os utensílios no exato momento em que derrubo o quarto prato de porcelana. Não me dou ao trabalho sequer de limpar os cacos do chão, decidida a ligar para meu restaurante favorito e pedir o almoço.

Eu não estava bem e isso era evidente para qualquer pessoa que olhasse minha aparência, mesmo aqueles que não me conheciam. Frustrada, vou jogando no chão vários cabides com vestidos e tailleurs pendurados, indecisa sobre qual roupa formal seria adequada para o evento inesperado.

Embora minha vontade fosse escolher alguma das muitas peças pretas, representando meu humor, não poderia ofender Hector dessa forma. Especialmente quando ele se disponibilizou a ser a solução dos meus maiores problemas.

Ao retornar ao andar inferior, encontro Narciso sentado no sofá da sala, com a cabeça apoiada no encosto e os olhos fechados. O cansaço evidente em suas expressões lhe dava a aparência de ser alguns anos mais velho.

— Não sei se tenho mais medo de acordar desse pesadelo e ser internado por insanidade, estar preso em uma realidade alternativa ou esse ser o início do apocalipse.

Sorrio com os lamentos do mais novo, já com as mãos em seus ombros para apertar brevemente os músculos daquela região.

— Não esqueça que teremos furacões descontrolados no Solo.

Não contenho a gargalhada diante de seu resmungo e encolhimento, como se quisesse ser fundido ao sofá. Conversamos sobre assuntos da empresa para não pensarmos nas consequências daquele casamento, quase perdendo a hora de sair.

Trajando um vestido floral longo, maquiada apenas com o básico e com meu longo cabelo liso solto, me dirijo ao que considerava o pior dos castigos e o mais alto grau de insanidade, controlando meu temperamento para não arranhar o rosto sorridente da recepcionista, que tentava nos convencer a ter um casamento temático.

Cansada de argumentar e negar, apenas dou as costas e sigo até a sala onde Ryan, o conhecido de Hector, nos aguardava para celebrar a união. Reviro os olhos quando escuto, um pouco mais distante, Hector dizer à recepcionista que eu não era fã de Elvis e não gostava de Marilyn por não ter nascido loira como a diva norte americana.

Possivelmente por saber a finalidade daquele enlace, o juiz de paz é breve em seu discurso e finaliza a cerimônia em menos de cinco minutos. Ainda que tenha brincado mais cedo sobre a lua de mel, Hector me surpreende ao beijar minha testa quando recebe a permissão de seu amigo. Enquanto Narciso e Lótus assinavam o livro na linha destinada às testemunhas e a certidão era preenchida, Ryan me convidou para ser testemunha de casamentos relâmpagos por um dia e me divertir ao assistir os temáticos.

Antes de respondê-lo, meu olhar encontra a figura de Lótus e um sorriso irônico enfeita minha face. Não apenas aceito seu convite, como pego seu contato para que ele seja o intermediário entre minha representante jurídica e o dono do cartório e da loja de roupas matrimoniais. Faria questão de dar os créditos da ideia da agência matrimonial quando fosse anunciá-la aos demais Storm, considerando as reclamações deles como uma boa punição para as caraminholas que ela colocara em minha cabeça e que resultou na alteração de meu estado civil.

Encaro o documento em minhas mãos, incomodada com o brilho suave emitido pela aliança, a cada vez que a luz de alguma lâmpada a atingia, lembrando-me que agora eu era uma fraude.

Tantos anos afirmando que não precisava de homem algum para exercer meus deveres como futura líder da família e das empresas com maestria estavam sendo pisados por um pedaço de papel.

Uma lágrima caiu de meu olho, sendo discretamente enxuta, e pus-me a lembrar dos abraços de Nathan. Tia Agatha, minha… sogra, costumava dizer que mães faziam loucuras pelos filhos, até negar a si mesmas, se isso significasse o melhor para eles.

Meu indicador direito passa suavemente sobre o nome de Agatha Storm gravado ali, como genitora de Hector. 'Oh tia, eu preciso do meu cariño. Preciso tanto que não me importo com o que vou ouvir ou ter de lidar quando chegar ao Solo. Perdoe-me por condenar seu filho à infelicidade. Perdoe-me por condená-lo a um casamento sem amor. Espero que entenda.' Sou retirada de minha prece silenciosa ao sentir um toque morno em minha bochecha. Pisco os olhos, um pouco desorientada, vendo que somente Hector e eu permanecíamos no carro.

— É pelo Aspen, Cissy. — A voz de barítono preenche o silêncio e seu dedo inicia uma suave carícia em minha pele. — Ainda somos melhores amigos e não espero qualquer outro sentimento de você, além de amor fraternal. Todos vão aceitar nosso casamento, até mesmo a Violet, quando entenderem que é pela segurança dele. Já dei entrada na alteração da certidão de nascimento do nosso garoto. Logo ele vai poder me chamar de pai sem que você ameace colocá-lo de castigo. — Não contenho a risada com suas últimas palavras, sentindo a maciez do banco em minhas costas ao relaxar. — Infelizmente, só não posso salvá-la da festa extraordinária que sabemos bem que tia Orchid vai exigir.

Levo a mão até a altura dos olhos, apertando, com o indicador e polegar, o osso de meu nariz. Nem mesmo poderia reclamar ou contrariar minha mãe dessa vez.

— ¡Por Dios! — Solto um baixo bufar diante dos cenários que se formam em minha mente. — Eu ainda estava me preparando para ignorar as perguntas sobre a aliança até a reunião. Não precisava me lembrar que ainda tenho que enfrentar o pior furacão!

Lembrando brevemente do olhar angelical de Susan, minha irmã caçula, quando queria algo, levo minha mão até o ombro de Hector, passeando os dedos com calma pelo tecido de sua camisa.

— Tem certeza de que não consegue chegar antes do sábado? Se demorar muito, vai se tornar viúvo antes de aproveitar a lua de mel.

— Cissy. — Foco meu olhar em seu rosto, torcendo para ter conseguido convencê-lo a tentar conseguir a folga. — Você é o pior de todos aqueles furacões. Tenho certeza de que minha flor vai conseguir fazer as demais flores aceitarem sua vontade, como a rainha perfeita que é. — O traço de diversão era nítido em seus olhos esverdeados, me fazendo bufar mais uma vez e tentar me afastar, sendo impedida por sua mão que segurava meu queixo. — Depois do feriado, alguns soldados vão ser enviados para ajudar os países vizinhos. Tenho muitas tarefas a atribuir, minha flor. Esqueça os furacões e foque no Aspen, pois é o que estou fazendo. Já estamos casados, nenhuma das flores pode fazer nada, seja gostar ou desgostar. Nem mesmo a tia Orchid. Ele é o único que importa pra nós dois. A noite faço minha mudança definitiva. Até depois, minha flor.

Não espero por seu cavalheirismo, segurando a certidão antes de sair do carro e seguir em uma pose altiva para o interior de minha casa.

Passo pelo escritório apenas para guardar a pasta cinza que continha todos os meus documentos e de Nathan, esses que agora tinham por companhia o documento que mais abominei em minha vida. O celular tremulava sobre a mesa, indicando que muitas mensagens estavam sendo recebidas. Franzo o cenho, incomodada por perceber que estava tão perturbada ao ponto de esquecer o aparelho em casa enquanto tinha compromissos a resolver.

Reviro os olhos quando constato que todas as mensagens vinham do grupo familiar. Limito-me a gravar e enviar um curto áudio.

— Boa tarde, meus amados familiares. Ainda estou lúcida o suficiente para saber meus compromissos e responsabilidades, portanto não era necessário incomodar os demais com tantos alertas de mensagens. Dei folga para todos, por isso vão fazer qualquer coisa e esqueçam esse grupo até a próxima terça! Aqueles que desejarem ir ao Solo, aproveitem para ajudar na finalização do novo bloco. Os que vão no ônibus, parem de perturbar o pobre Arthur. Vocês tem um horário de saída e chegada. Agora me deixem trabalhar em paz, pois tenho uma reunião para participar enquanto todos estarão se divertindo.

Respiro fundo após enviar o áudio, permitindo um sorriso aparecer ao ver que, à medida em que todos vão ouvindo minhas palavras, os ânimos se acalmaram. Aperto o aparelho em minhas mãos com um pouco de força ao sentir a nova vibração, desbloqueando a tela para saber quem havia sido estúpido ao ponto de contrariar minhas ordens.

Balanço a cabeça de um lado para o outro, voltando a sorrir, assim que leio a mensagem de Narciso. Ele era um garoto precioso demais e seu cuidado comigo era uma das poucas coisas que derretia meu coração de gelo. Antes que pudesse lhe agradecer por resolver o problema do ônibus, uma chamada de meu pai interrompeu o fluxo de meus pensamentos. Atendo antes do segundo toque finalizar.

— ¡Hola, papa! — Saúdo sem sorrir, embora estivesse feliz em ouvir sua voz.

"— ¡Hola, mi ciclone!" — A voz calma e amável de meu pai, ao contrário da maioria de seus filhos, tranquiliza-me como sempre. "— Está tudo bem, pequeña? Não recebi sua ligação no horário marcado e ouvi sua mensagem no grupo. Mi regalo também estava estranhando você não ter ligado ainda."

— ¡Por Dios! — Levo a mão direita até o espaço entre minhas sobrancelhas, apertando o osso de meu nariz com o dedo indicador e polegar. — Aconteceu algo, mas prefiro conversar com o senhor quando chegar aí. Tive que resolver uma coisa e esqueci o celular em casa. Cariño está perto do senhor? — Aperto um pouco mais forte, tentando controlar a ansiedade que sempre me tomava quando se tratava de Nathan. — Acho que vou deixar Vida responsável por levar nossos primos e os alunos dela na quinta-feira. Hoje não dá mais tempo, então amanhã pela manhã estarei indo para o Solo.

"— Não sobrecarregue seus ombros com tantas responsabilidades, mi ciclone. Narciso é um bom garoto e não deve se opor em vir com você, aproveite para dividir a direção. Tyler já está aqui, irritando sua mãe, e disse ter algo pra conversar com ele e os outros filhos. — Mordo o lábio com a menção de meu tio, contendo qualquer reação ao fato de que agora ele também é meu sogro. — Se bem que o coitado já está sendo sobrecarregado junto com você. Avise ao Roger que traga vocês. Surgiu um boato de que ele cedeu alguns negócios para aquela família e me recuso a acreditar que um Don se comportaria de forma tão baixa por uma mulher qualquer."

— Papa, sabes bem que não é uma mulher qualquer. — Retorno minha caminhada em direção ao meu quarto, já prevendo a dor de cabeça que teria com uma das pautas da reunião. — Roger deu a pulseira dele para aquela maldita ruiva. Não podemos ignorar isso. Ela é uma flor e temos que conseguir chegar a um meio termo. Sei que abuelito está irredutível quanto a falar com aquela víbora, porém essa situação já está se prolongando a muito tempo. Minha paciência não é tão longa e pretendo resolver isso nessa reunião.

A risada de meu pai é ouvida assim que termino minha fala, o que me leva a formar um pequeno bico em meus lábios, como acontecia quando era criança e era obrigada a brincar com meus irmãos mais novos.

"— Te esperamos para o jantar, mi ciclone. ¡Mi corazón es tuyo!"

— Se Roger dirigir tão rápido quanto arruma problemas, chegarei um pouco depois do jantar, papa. Não deixe cariño dormir depois do horário, por favor. ¡Mi corazón es tuyo!

Desligo a chamada e já pego uma bolsa grande para colocar apenas algumas mudas de roupas e a pasta de documentos. Comunico Narciso e Roger da partida repentina, revirando os olhos para as reclamações que recebo do mais velho. Não me dou ao trabalho de trocar de roupa, já que poderia tomar um banho quando chegasse.

— Seu chofer chegou, madame.

Dou dois tapinhas no rosto quadrado de Roger, encarando com desprezo seus olhos cinzentos.

— Sua carrasca agradece.

Devido a minha resposta, apenas Narciso percebeu que não era um bom momento para conversas e as próximas cinco horas seriam em total silêncio. Para nós dois não seria algo incômodo ou incomum, mas não poderia dizer o mesmo sobre Roger. Deixo o banco do passageiro para meu pupilo, ajustando o cinto de segurança em meu corpo ao sentar no banco de trás, antes de pegar o celular dourado e responder algumas dúvidas de parentes que não trabalhavam na companhia Storm.