Janela Azul
1 A canção do fim do dia
Notas iniciais
Bateu a porta. Estava nublado e este parece ser um começo típico de uma historia qualquer. Mas talvez essa seja sua relevância tão acentuada: a que nada aqui descrito representa algo de tanta importância. Poderia ser uma fantasia, além da imaginação, que ainda seria aquele mesmo dia nublado que deixou atrás da porta quando a cerrou, quase da mesma forma e tempo de um arquejo cansado.
Seu cabelo castanho avermelhado grudava um pouco no couro, suava. Mas o vento que adentrava suspirava um pouco de paz em seus ouvidos. Carregava algumas verduras e frutas, pronta para fazer o jantar. O apartamento ficava em uma rua movimentada do centro – ainda que mal pudesse pagá-lo – e era arejado com suas janelas amplas e azuis.
Deixou as compras em cima da mesa e marchou para o banheiro. Era espaçoso, o suficiente para fazer dele uma pista de patinação – sim, era infantil, mas extremamente e singelamente prazeroso. Prendeu os cabelos em um coque tão murcho graças ao calor e a pouca quantidade que possuía e despiu-se. A camisa social azul claro, a calça preta de tecido oxford, as meias coloridas que não abria mão de vestir, – o verde fluorescente era encantador – sutiã e calcinha pretos, estes que deixavam seu corpo branco e pálido mais branco e mais pálido no contraste que ela, particularmente, adorava; jogou tudo em cima da pia perola que havia no banheiro e ligou o chuveiro. Precisava sentir um pouco de água escorrer por sua carne, já que não chovia há tanto tempo, mesmo que as nuvens se pintassem de cinza todas as manhãs ao acordar e todas as tardes ao chegar.
Embalou-se em um jazz suave, selecionado na playlist do celular deixado na estante marrom.
Precisava descansar.
Como todos no final de um dia.
Precisava sentir um pouco de verdade naquela tarde surda.
Abriu a boca, sob a água, enquanto permeava os dedos entre os fios de cabelos, os braços erguidos e dobrados, como asas de uma xicara. Puxou ar e esse som molhado e profundo era o único fundo que representava algo de vida.
Lá de fora o vento brincava sinuosamente com seu sino dos ventos de cobre. O som se parecia com uma criança no recanto de uma sala desenhando um céu azul: tão claro e inocente, enquanto contínuo e sutil, ainda que sua presença seja quase etérea, pode ser percebida.
Era uma canção. A canção do fim do dia.
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