Janela

2 Onze Anos


Notas iniciais
Esse capítulo é um tanto menor que o anterior, hm.

Onze anos é uma idade meio complicada, você sabe. Tem muita coisa acontecendo com você, e, mesmo que nem seja hora ainda, você começa achar que tem que crescer – ou que já cresceu. Ryan não foi diferente.

Com seus onze anos, ele já havia jogado todos os seus brinquedos fora, e se ocupava de estudar, pois sabia que sua mãe só trabalhava tanto daquele jeito por que queria que ele tivesse as oportunidades que ela não teve, e uma vida melhor. Ele não podia desperdiçar isso. Na sua mente não havia mais lugar para sonhos sobre caras estranhos que viajam no tempo e saem por janelas fechadas de salas escuras e abafadas.

Há muito ele já se convencera que fora sua imaginação de menino bobo. Não, Brendon sequer existira, ele estava certo disso. Nem pensava nisso.

Naquela Quarta Feira sem graça, Ryan chegou da escola para entrar numa casa com o delicioso cheiro da comida de Julie. Depois de um almoço regado a tagarelices sobre coisas que Ryan não realmente se importava, o menino foi até a sala fazer o que mais fazia naqueles tempos: estudar.

Sentou-se no chão, fazendo do assento de uma das poltronas sua mesa, e abriu seus muitos livros para começar seu dever de casa de matemática. Foi quando aconteceu algo que o fez lembrar de seu amigo imaginário da infância.

Havia luz na janela novamente.

As sobrancelhas de Ryan se uniram.

- Isso não é possível – ele murmurou para si mesmo – simplesmente não é possível.

As cortinas balançavam suavemente como se uma leve brisa batesse nelas. Uma brisa que não deveria existir.

- Brendon? – chamou o menino, com a voz cheia de dúvida, e sentindo-se um tanto idiota – hm... Brendon? É você? – levantou-se lentamente, caminhando até a janela, meio receoso.

Foi quando aconteceu; algo saiu da janela, mas não era Brendon.

- Q...Que? – gaguejou o menino.

Era um gato.

Um gato magricela e negro, com um certo ar doentio. O gato miou, e enrolou-se nas pernas do menino, como que pedindo carinho. Ergueu a cabeça, mostrando que um de seus olhos era amarelado, e o outro azul – tão azul que parecia cego.

Ryan olhou para o gato intrigado por no máximo três segundos. Quando se lembrou da janela, e ergueu os olhos para ela, ela voltara ao seu normal. Escura e imóvel. Ryan ignorou o gato por um momento e afastou as cortinas, só pra ver o que ele tinha certeza que veria: concreto.

Frustrado, largou o tecido, virando-se de costas para a maldita janela. O gato miou lembrando o garoto de sua existência. Ryan abaixou-se, acariciando a cabeça do gato, que se encolheu todo, ronronado.

- Você veio do mesmo lugar que Brendon, foi? – perguntou baixinho, sem obter resposta – você conhece ele? Ele é real, heim, gatinho?

O gato apenas ronronou em resposta, entrelaçando o rabo fino nos dedos do garoto.

- Se ele é real, por que é que não voltou? Se essa tal fenda idiota existe mesmo, então cadê ele? – disse, ficando meio bravo.

O gato não respondeu, só esticou as patas, arranhando de leve a calça de sarja de Ryan com suas garras, pedindo por mais carinho.

O garoto passou vários minutos só acariciando o gato e pensando no que isso podia significar. Acreditar naquilo tudo quando se tem sete anos é muito fácil; agora não era mais. Era difícil, e a mente de Ryan ficava o tempo todo tentando convencê-lo de que era tudo um erro. Mentira. Ilusão de ótica. Pegadinha da sua mente.

Mas o gato estava ali para provar o contrário. Ele vira aquele estranho gato magricela de um olho de cada cor sair da janela, e não havia como negar isso.

Ryan pegou o gato por baixo das patas dianteiras, segurando-o em frente ao seu rosto.

- Eu vou te chamar de Brendon – disse, decidido, e passou o resto da tarde alheio ao seu dever de casa, acariciando a cabeça do gato e olhando para a janela.

Mas o verdadeiro Brendon não passou por ela naquela tarde. E nem em muito tempo.