Jack's Road
1 I
Notas iniciais
A ideia geral do amor que lemos nos livros românticos ou vemos nos filmes que passam às nove da noite, para Kyle, era algo paras se repensar. Embora fosse mágico e desejável a qualquer um que almeja ter alguém para amar um dia, era quase fantasioso. Seus pais se amavam, mesmo com todas as discussões e brigas e provocações e dias sem se falarem até que um deles se desculpasse, e todos os obstáculos que um casamento de mais de uma década ganhava com o passar dos anos. Ele não entendia como ainda podiam se amar depois de todos esses anos, como ainda podiam acordar de manhã e estarem felizes e satisfeitos com as decisões que os levaram até aquela vida. Mas talvez esse fosse o segredo para o que Kyle conhecia apenas por uma fantasia. Pessoas como seus pais entendiam, e talvez, somente eles poderiam entender
Não existe uma formula mundial, ou regras ou passos a serem seguidos, apenas duas pessoas que precisam se compreender como a si mesmos acima de tudo e compartilhar do mesmo sentimento, até mesmo quando pensarem em sair correndo. É lembrar do porquê de estarem ali por tanto tempo e manter isso vivo. Era o que Kyle acreditava, como também acreditava que casais como seus pais não fossem fáceis de encontrar. Achava que era jovem demais para pensar em amor e quando pensava, se perguntava se teria sorte como seus pais, como poucas pessoas tinham.
Não sabia dizer se se classificava como do tipo romântico. Todos os seus relacionamentos (que não foram muitos) se basearam no agora. Embora sentisse atração pelas pessoas que teve ao seu lado, não havia o que se planejar além de um encontro na sua lanchonete favorita ou uma noite de filmes em casa em uma noite chuvosa. Não havia muito para se planejar porque era temporário, e Kyle sabia disso. Porque Kyle nunca se apaixonou de verdade.
Bem, nunca até o início do outono de 1981.
Era início do ano letivo e o último de Kyle no ensino médio. Todos estavam fazendo planos para o futuro, falando sobre as melhores faculdades e os melhores cursos. Na quarta série, Kyle decidiu que seria um advogado, como seu pai. Mas isso naturalmente mudou depois de alguns anos, quando substituiu a formação do pai por algo mais artístico, como teatro ou artes. É, era isso. O mundo artístico era definitivamente a praia dele. Stan o questionou em algum momento sobre o que faria quando terminassem o ensino médio, e depois de receber a resposta, perguntou “Tem certeza? ” e Kyle pensou por um momento, dizendo: é, eu tenho. Mas às vezes duvidava.
Kyle se apoiou no seu armário após fecha-lo, dando um descanso a si mesmo depois das últimas aulas. Ainda não havia se recuperado da preguiça das férias de verão. No topo da escada, Kenny mordiscava o lábio inferior sem perceber, com foco no garoto de cabelos ruivos encostado no armário logo abaixo no corredor quase vazio. Durante várias vezes nos últimos meses, Kenny tentou se aproximar do garoto ruivo de olhos grandes que reluziam como duas esmeraldas, mas este sempre parecia estar ocupado demais, sempre cercado por um grupo de amigos. Bem, teve vezes em que teve oportunidade; abria seu melhor sorriso e preparava sua melhor frase já na ponta da língua, mas então travava. Kenny não entendia. Ele era Kenny McCormick, oras! E Kenny McCormick nunca falhava.
Isso mesmo, Kenny McCormick nunca falha, repetiu para si mesmo antes de descer aqueles poucos degraus. Segurou firme os panfletos no braço e se aproximou de Kyle. Este tinha os olhos fechados, mas foi obrigado a abri-los pela sua curiosidade ao ouvir um pigarreio extremamente forçado.
E lá estava Kenny, arrogantemente sorridente, olhando para Kyle como se esperasse por algo ou distraído com algo no rosto do ruivo. Kyle olhou para os lados, meio confuso, e então se voltou para o loiro.
— Posso ajudar? — O sorriso do outro se alargou.
— Sim, na verdade. — Puxou um panfleto da pilha que carregava — Kyle, certo? — Ele assentiu em um gesto hesitante. Kenny sabia muito bem que era esse seu nome. — Veja bem, Kyle. Eu assisti você na apresentação da banda da escola no ano passado e devo dizer que adorei o que fez com o seu baixo. — Kyle inclinou a cabeça, refletindo sobre a última parte.
— Está falando de eu tê-lo tocado? — Perguntou, confuso.
— É, claro. — Assentiu — Então, acontece que eu tenho uma banda. — A expressão convencida em seu rosto berrava um arrogante “´É, eu sei”. Kyle arqueou as sobrancelhas, fingindo estar interessado. — E nosso antigo baixista precisou se mudar pra Los Angeles recentemente e agora precisamos de um novo e eu pensei “Ei, eu acho que sei alguém perfeito pra isso”, sabe? Você manda muito bem. — Enfim entregou o panfleto ao ruivo. Ele levou a aceitar, mas o pegou.
— Que gentileza da sua parte, mas eu acho que não.
— Ah, que isso. Você toca bem sim.
— “Acho que não” de “acho que eu não tô afim de participar da sua banda”
— Ah, você tem certeza? É uma boa banda, sabe? Somos realmente muito bons. — Nós somos? Kenny se distraiu ao pensar sobre.
— Aposto que sim. — Sorriu gentilmente, embora o sarcasmo tenha sido nítido. — Jack’s Road? — Leu as letras maiúsculas em negrito no topo da folha. Jack’s escrito no topo e Road logo abaixo. — Sabe, Jack, gostei de você. — Houve sinceridade nas palavras, e o sorriso de orelha a orelha de Kenny retornou. — Vou pensar sobre o assunto. Mas não prometo nada. — Observou o panfleto pela última vez e o colou na mochila, então sumiu pelo corredor.
Kenny levou segundos distraídos para responder: — É Kenny! — Mas duvidou que tivesse o escutado.
Kyle chegou a cruzar com Jack, ou Kenny, pelo menos cinco vezes pelo corredor naquela semana antes do início das aulas. O loiro também o encarava durante o almoço, talvez achando que o ruivo não notaria. Ele com certeza notava. Até certo ponto era assustador, mas ele parecia tão inofensivo que em vez de um olhar de reprovação, Kyle soltava uma risada muda.
Na manhã de um sábado, Stan ligou para Kyle, dizendo que não poderiam ir ao cinema naquele mesmo dia pois Randy caiu bêbado da escada (algo não muito incomum) e Stan precisaria dirigir até o hospital. Kyle lamentou por seu pai e desejou melhoras, também lamentou por seus planos daquele sábado. Não queria passar o resto dia ouvindo sua mãe reclamar sobre os casacos que caiam no pé do cabide do hall de entrada ou dos brinquedos de Ike espalhados pela casa. Estava estressado só de pensar.
Rolou na cama até que chegasse na borda, curvando-se de modo que ficasse de cabeça para baixo para puxar uma das alças da sua mochila. Há alguns dias atrás Stan fez uma cópia de uma fita com “As melhores de Bowie” e Kyle ainda não havia se quer tirando da mochila ainda, o que consideraria um crime. Abriu a mochila e começou a tateá-la por dentro, mas não teve muito sucesso em encontrar o que procurava. Impaciente, virou a bolsa do avesso e a fita enfim caiu; assim como seus cadernos, livros, folhas de papel com anotações importantes ou outros menos relevantes, como o panfleto de cor amarela de Jack. Kyle pegou a fita mas parou para fixar os olhos o panfleto de longe, e depois, hesitante, o pegou em mãos. Deu uma rápida olhada no que ele dizia, mas seus olhos voltaram a pairar sobre a data. É, seria naquele sábado, especificamente às quatro e meia da tarde.
Kyle tirou o papel da sua vista e pensou por um instante, mordendo o canto do lábio. A luz sutil e agradável do sol atravessava a janela aberta do quarto em um feixe suave que refletia no espelho, passando pelo contrabaixo no canto do quarto – cuja era um Giannini Stratosonic e seu nome era Nicks, de Stevie Nicks. Olhou para o instrumento se sentou na cama. Pensou mais um pouco, mas não havia muito o que se pensar. Por que não? Foi o pensamento conclusivo para qualquer dúvida. Mas ainda eram 01:00 PM da tarde e tinha tempo o suficiente para ler alguma coisa enquanto aproveitava a cópia da fita de Stan.
Pouco depois das 04:00 PM, Kyle colocou seu contrabaixo na capa, o prendeu sobre as costas e subiu na sua velha bicicleta azul que estava há meses enferrujando na garagem. Por ser uma cidade pequena, Kyle conhecia o endereço no papel, também porque não era longe de onde residia. Também pela especificação que dizia “A única casa depois dos trilhos”. Algumas poucas quadras de distância.
Parou em frente a pequena e desgastada casa depois dos trilhos, e Kyle chegou a pensar que nenhuma pessoa deveria viver ali. Parecia abandonada, onde usuários de drogas ou pessoas sem-teto passavam as noites. Livrou-se do pensamento e entrou pela lateral da casa, cuja a portinhola de madeira estava meia aberta e, ao atravessa-la, Kyle já podia ouvir o som grave que lhe era familiar. Passou por várias ervas daninhas na estreita passagem e pisou na maioria até chegar no quintal.
Havia uma pequena casinha no fundo do quintal na qual a porta estava quase aberta. Do lado de fora, três pessoas aguardavam tediosamente. A primeira delas era uma garota, quem Kyle comparou imediatamente com Cherie Currie. A segunda era um rapaz, não muito mais jovem do que Cherie mas eram desconhecidos um para o outro, Kyle pensou. Ele parecia Robert Plant. E o terceiro Kyle não pôde nomear pois não se parecia com nenhum artista ou qualquer pessoa que já tenha visto antes. Ele era apenas o “outro rapaz”.
Acreditou que esperavam por sua vez, porém minutos mais tarde descobriu que estavam esperando o resultado e ele seria o último a fazer o teste. Quando entrou na casinha de madeira, se deparou com três juízes. Jack estava no meio, rindo de algo que ficou para trás assim que viu a figura de Kyle entrar lentamente. Os outros dois ele desconhecia, mas os rostos eram familiares. Talvez fossem do seu colégio.
— Kyle — apresentou-se quase timidamente, removendo o instrumento das costas.
— Broflovski — A voz de Kenny veio de repente. Kyle olhou para ele esperando por algo, e Kenny pareceu despertar de um pensamento e esclareceu: — É seu sobrenome, certo? — Kyle sorriu, com todos os dentes à mostra e assentiu para o loiro. A pendurou o suporte do instrumento ao corpo e posicionou, pronto para começar, porém Kenny voltou a falar.
— Você mudou de ideia. — Kyle achou que poderia ser uma pergunta mas soou como uma afirmativa, ele apenas assentiu novamente.
— É. Meu dia foi meio parado então...
— Certo. — Kenny mordiscou a ponta da caneta. Havia um clima desconhecido que vinha tanto de Kenny quanto de Kyle, que deixou os outros dois integrantes deslocados (talvez até Kyle estivesse um pouco desconfortável). — O seu contrabaixo é muito bonito, é novo? — Clyde, o baterista, virou-se lentamente para Kenny, franzino, interviu antes que a coisa ficasse mais estranha.
— Então, mostre o que sabe fazer, Kyle.
Kyle murmurou um “tudo bem” antes de começar. Posicionou os dedos sobre o instrumento e começou a tocar. Era um trecho de The Lemon Song de Led Zeppelin. O trio reconheceu imediatamente e ouviram atentamente. Quarenta segundos depois, Kenny se virou para Craig, o guitarrista, e comentou “Ele não é demais? ” com um brilho adorável nos olhos. Ele não entendeu muito bem a origem daquilo, mas sorriu de volta, e ambos voltaram a atenção para a impecável apresentação de Kyle.
Ao terminar, houve um breve silêncio e Kyle tentou ler as expressões do seu pequeno público. Kenny sorria como um idiota, Craig balançava a cabeça sutilmente de maneira positiva e Clyde, olhava para os dois esperando que dissessem algo. Kyle alternava o olhar entre os três esperando por uma conclusão, assim como Clyde.
— Você tá dentro. — Kenny disse de repente, com total certeza. Craig se virou de supetão, berrando com Kenny apenas com os olhos.
— O quê? Quer dizer, ele é ótimo, mas isso deveria ser uma decisão do grupo. — A frase foi gradualmente tornando-se um sussurro direcionado exclusivamente a Kenny. O loiro concordou.
— Então, quem vocês escolhem? — Perguntou Kenny. Craig e Clyde quase responderam, mas com a presença do ruivo pareciam desconfortáveis. Ele notou e disse que esperaria do lado de fora, com os outros. Todos concordaram e Kyle saiu.
Robert Plant dividia um baseado com a Cherie Currie e eles pareciam bem distantes da realidade agora. Kyle viu isso como um início de uma boa amizade, talvez não tão duradoura já que na cabeça de Kyle, os dois morreriam de overdose antes dos trinta. Havia um banco sobrando do outro lado da dupla, e cinco segundos depois de Kyle sentar-se nele, Clyde abriu a porta e o chamou. Confuso, se ergueu. Havia se passado o quê? Pouco mais de um minuto? Seguiu o castanho para dentro da pequena casinha enquanto este dispensava os dois sentados no banco como se fossem pombos em frente a uma padaria.
— Escolhemos você. — Craig disse antes que Kenny tivesse a oportunidade.
Kyle sorriu com satisfação.
Após isso, Kenny passou os dias e horários de ensaios; quatro vezes na semana, incluindo sábados e domingos, com três horas ou menos de duração. Kyle pensou em seus compromissos semanais e se sentiu aliviado ao perceber que não afetaria essa parte da rotina. Ele oficialmente estava em uma banda, e isso ainda soava esquisito. Mas parecia apenas um passatempo e talvez precisasse disso.
Depois daquela tarde, Craig o convidou para “um passeio” com o resto da banda, dizendo que iriam jantar no Joe’s Star Club, que ficava depois do teatro abandonado, no canto da esquina. E todos sabiam que se tratava da melhor pizza da cidade. Kenny adorava aquele lugar, talvez pelo ambiente confortável ou pela música ao vivo, ou pelo os dois. Infelizmente não houve música ao vivo naquela noite e Kenny mal percebeu. Os três compartilhavam o que acreditavam ser melhor álbum de todos os tempos. O de Kenny era Led Zeppelin II, o de Kyle era The Wall; Clyde adorava qualquer coisa que Talking Heads lançava e Craig estava em dúvida entre dois álbuns do Black Sabbath.
Com o passar do tempo, Kyle foi compartilhando gostos e aderindo outros. Foi pegando o ritmo da banda, passando mais tempo com eles a ponto de deixar Stan enciumado por estar “perdendo seu melhor amigo”. Kyle o convidou para um ensaio e até o fim dele, simpatizou com os novos amigos do melhor amigo. Logo passou a andar com eles e então Stan não tinha mais do que reclamar e Kyle o agradecia sinceramente por isso.
E em dezembro, chamou Kenny pelo seu real nome pela primeira vez, em vez de Jack. Mas ainda usava o apelido uma vez ou outra.
No final do último ano, Joe’s Star Club abriu uma vaga para um grupo musical que estivesse querendo um espaço para se apresentar nas noites de sexta e sábado. O lugar vinha recebendo mais clientela desde setembro e Jack’s Road não viu problema em tentar pegar a vaga. Eles tocariam e ainda ganhariam uma grana extra, era perfeito.
Kyle estava se preparando para terminar o colegial e ainda manter a cabeça nos trilhos quanto ao seu futuro. Seus pais não queriam o pressionar sobre isso mas de vez em quando o questionavam com uma voz mansa. Como durante o jantar, uma semana antes da formatura.
“Eu estive pensando em Artes ou Teatro”, sua mãe quase engasgou com o suco e ainda não quis transparecer sua desaprovação, e seu pai comentou “Achei que fosse seguir na advocacia, filho. Ou poderia ser juiz”
“Acontece que eu não tenho interesse em ser um advogado ou um juiz, ou promotor ou...” Houve um silêncio quando todos os talheres acabaram de colidir contra o prato de porcelana para ficarem estáticos. Kyle não estava com raiva, apenas cansado e chateado, talvez. Perfurava um pedaço de batata cozida com o garfo. “Eu não sou você pai, e eu não vou me desculpar por isso”. Ao contrário do que todos na mesa pensaram, inclusive Ike, — que precisou fazer uma pausa nas suas piadas grotescas que costumava fazer durante o jantar — Kyle não se levantou da mesa e deixou sua refeição incompleta, apenas continuo sentado, em silêncio, e apenas levantou quando terminou de comer. Durante esse breve período de tempo, todos permaneceram calados.
Pouco menos de um mês atrás, Kenny havia o beijado na frente da sua casa, às três da manhã quando todos já haviam ido embora. Nenhum deles estava alterado. Kenny não bebeu mais que duas latas de cerveja e Kyle sabia que aquele beijo aconteceria, mas não sabia exatamente quando. Porque as pupilas de Kenny mapeavam seu rosto de uma forma familiar, como se preparasse para o que pretendia fazer, e quando chegava aos lábios de Kyle, eles ficavam estáticos por poucos segundos. E Kyle não o impediu, não o interrompeu, e muito menos renegou aquele beijo porque, embora não admitisse para si mesmo de imediato, ele também queria. E não foi naquele momento que desconfiou disso, talvez fosse um desejo de bem antes de enfim parar de chama-lo de Jack. E quis beija-lo novamente quando aquele beijo se partiu, porque era bom. Muito bom. Talvez o melhor. Havia algo de especial e Kyle só descobriria o porquê posteriormente.
Entre aulas que dividiam, ensaios na casinha do quintal – que Kyle descobriu em determinado momento que já fora uma casinha de ferramentas -, apresentações depois das oito da noite no Joe’s, e, às vezes, uma pausa para um lanche, houve uma evolução do que quer que estivesse acontecendo entre os dois. Ambos notaram, obviamente. Mas ninguém ousou classificar aquilo. Se parecia muito com namoro? Talvez. Clyde perguntou para Kenny uma vez quando Kyle foi ao banheiro depois de dois copos de suco de laranja, se estavam namorando. E então Kenny pensou sobre isto, pensou um pouco mais, separou os lábios, sugando o ar lentamente com os olhos semicerrados e a sobrancelha franzida e disse: “Cara, eu não faço ideia”. Para Kenny, era como um namoro, mesmo sem ser oficializado, era um namoro. Mas ele realmente não soube responder aquela pergunta.
Kyle não precisou que alguém verbalizasse essa pergunta, ele mesmo sempre pensava sobre isso. E quantos mais dias passavam juntos, maior a frequência em que ela martelava na sua cabeça.
Estava com a cabeça deitada no travesseiro com poucos minutos faltando para a madrugada, mas seus olhos não pesavam, muito pelo contrário, estavam arregalados, olhando para o teto como se fosse translúcido e pudesse ver o céu gloriosamente estrelado daquela noite. E mesmo que pudesse, não prestaria tanta atenção na sua beleza. Estava distante, nem mesmo cantarolava Moonage Daydream que tocava da fita que Stan lhe dera, algo que sempre acontecia quando essa música invadia seus ouvidos. Mas agora ele não a escutava com atenção.
Pensava sobre Kenny. Esteve pensando bastante sobre o loiro ultimamente. Bastante, e o fato ecoou em sua mente. My Sweet Lord tocou quando a fita de Stan estava chegando ao fim, porque acabou adicionando a música a ela acidentalmente. Stan alertou, mas Kyle não se importou, era uma boa música. Pensou agora em pegar a velha bicicleta azul na garagem, pedalar até depois dos trilhos e.... e? Não bateria na porta, porque todos deveriam estar dormindo, — menos Kenny. Ele não dormia tão cedo – nem bateria na janela, não seria silencioso o bastante. E se ele abrisse? O que diria? “Oi Kenny, eu queria muito te ver porquê...” Por que mesmo?
Um som baixo e agressivo surgiu à sua esquerda, um pequeno “tec”, mas ele precisou acontecer duas vezes para Kyle inclinar a cabeça para a janela fechada. Estreitou os olhos, franzindo o cenho, esperando o barulho acontecer mais uma vez. E aconteceu. Ele rolou para fora da cama, e com pés coberto por meias sobre o tapete era tão silencioso quanto gato. Mas caminhou rápido.
Abriu as cortinas vermelhas no mesmo momento que viu uma outra pedrinha acertar o vidro, repetindo aquele “tec” mais uma vez, mais alto desta vez. Olhou para baixo com atenção, mas não precisou procurar demais para encontrar Kenny McCormick pouco afastado da janela, com uma montanha de pedrinhas nas mãos, esperando que Kyle atendesse seu chamado.
Largou as pedrinhas no gramado e disse algo que Kyle não ouviu daquela distância, sussurrando um “O quê?!” em resposta, de maneira que ele pudesse ler seus lábios. Kenny olhou em volta um pouco, tentando pensar no que faria. De repente, começou a caminhar em direção a janela, e Kyle quase gritou, porque em seguida, ele começou a escalar uma coluna de concreto embutida na parede sem dificuldade alguma. Kyle sussurrou mais uma vez, agora um: “Kenny, para com isso! ” Se ele o ouviu, prontamente o ignorou. Olhou para trás e envolta da casa pela janela para ter certeza de que não tinha ninguém os observando, preocupado. Kenny apareceu de supetão em frente à janela, arfando, mas se recuperando rapidamente.
— Kenny.
— Kyle. — Começou apoiando as mãos na janela, com os pés apoiados em algo que Kyle não conseguia ver. — Eu vim aqui dizer que... — Tinha os olhos esbugalhados e cansados vidrados em Kyle de maneira assustadora, e então os aliviou e continuou: — Boa noite.
— O quê? — Kyle riu, confuso.
— Eu não te dei boa noite, você saiu tão depressa hoje que eu nem tive tempo então... boa noite. — Kyle riu mais vez, embora ainda confuso. É claro que não acreditava que Kenny teria praticamente atravessado a cidade para desejar boa noite.
— Certo, Kenny. Boa noite. — O loiro assentiu, mas não parecia satisfeito. Não estava satisfeito. Começou a descer naquela mesmo coluna com incerteza, mas parou, pensou e voltou para a janela que Kyle estava prestes a fechar.
— Não, não é isso. É que eu estive pensando em uma coisa. — Seu semblante estava mais sério agora. Kyle o ouvia atento. — Kyle, o que nós somos? — Estava realmente sério.
Talvez Kyle nunca tivesse o visto com tal expressão até então. O ruivo refletiu, olhando para o chão enquanto esticava a manga do suéter. Kenny pôde ouvir My Sweet Lord tocar bem baixinho. Kyle ainda mordiscava os lábios de maneira pensativa, e agora os cenhos estavam franzidos.
O ruivo não sabia. Não sabia como responder essa pergunta porque não tinha uma resposta. Há pouco se perguntava o mesmo, então como poderia? Mas se Kenny atravessou os trilhos do trem até ali às meia-noite e pouco, provavelmente também tinha expectativas sobre eles aquele ponto.
— Eu não sei, Kenny. Bons amigos com alguma coisa a mais? — Arriscou a resposta e claramente, Kenny pareceu frustrado. Ele não queria um fato, mas uma sugestão do que poderiam ser. Ele murmurou um “Ok, certo” e depois deu um sorrisinho infeliz, insinuando descer novamente pela coluna. — Kenny, não, espera. — Kyle segurou seu braço e Kenny voltou, com os olhos pequenos, mas ainda esperançosos. — Eu não sei onde estamos, mas a gente pode-
— Certo. — Kenny o cortou e tentou passar pela janela, colocando um pé para dentro e só então ergueu a cabeça e perguntou: — Posso entrar? — Kyle assentiu e o loiro entrou em seu quarto.
Kyle pediu para que fosse mais cauteloso com os passos e ele obedeceu. Parou de maneira desengonçada em frente ao ruivo. Estava só de meias, os sapatos ficaram para trás enquanto subia a coluna. Kyle esperava alguma reação, um tanto impaciente, mas Kenny estava se preparando para dizer algo. Foi então que ele segurou ambas mãos de Kyle, em um gesto carinhoso, mas que pegou Kyle de surpresa. Suas mãos estavam frias e eram pouco macias. Kyle memorizou o troque.
— Kenny, o quê...?
— Kyle Broflovski — Disse, em uma voz macia.
— Kenny, o que é isso? — Riu nervosamente.
— Na verdade eu só quero te pedir em casamento.
— O quê?!
— Eu tô brincando. Você quer, sabe, namorar... comigo? — Perguntou nervosamente, algo nada Kenny McCormick.
— Sim, eu quero. — O dialogo aconteceu rápido com os dois visivelmente nervosos. E então um silêncio desconfortável se instalou por poucos segundos. Eles ainda seguravam as mãos. Kyle foi o primeiro a dizer.
— Agora vá pra casa.
— Certo. — Kenny deu meia volta em direção a janela fechada. Kyle revirou os olhos e o puxou de volta com a mão que ainda o segurava. — Kenny, vem cá. — Ele voltou mais uma vez, recebendo um beijo de Kyle. Um beijo diferente do que jamais tiveram. Ambos sentiram algo mais, algo mais intenso. Era diferente porque eles finalmente sabiam que tinham um ao outro, tinha que ser diferente. Porque agora tinham algo verbalizado e concreto.
Na manhã da formatura, Kyle estava nervoso. Teria que fazer um discurso que não queria fazer. O texto estava pronto mas sentiu que não era bom o suficiente, e se fosse, também não importaria. Ele não queria fazer isso, se sentia um idiota por ter aceitado fazer isso. Andou de um lado para o outro no quarto pensando em ligar para o conselheiro Mackey que o incentivou a fazer o discurso, para avisa-lo de que não faria isso. Mas ninguém atendeu. Ligou três vezes, mordendo o cabo do telefone com o nervosismo. E depois desistiu.
Sheila entrou no quarto enquanto Kyle nervosamente calçava as meias amarelas. Perguntou se ele estava ocupado, mesmo que estivesse assistindo-o calçar as meias. Ele disse que não, “só...calçando as meias”. Olhou para cima, com os cachos caindo sobre os olhos de modo que lhe atrapalhasse a visão, e terminou de calçar as meias.
Sheila parecia preocupada, ou triste, era difícil distinguir. Kyle também ficou preocupado por um momento, percebendo aquele semblante desagradável. A mulher de cabelos vermelhos amarrados se sentou ao lado do filho na cama, levando as duas mãos às bochechas dele e lançando lhe um sorriso reconfortante.
— Sei que está chateado, e eu entendo. Nós entendemos. — Referiu-se ao marido — Mas precisamos que você entenda que pensamos no seu futuro quando dizemos o que achamos que é melhor para você, Kyle. Conhecemos bem mais da vida do que você e precisamos agir de acordo com as experiências que já tivemos.
Kyle olhou para os próprios pés, só então notando uma pequena (mas bastante visível) mancha branca na meia amarela direita. Ele mesmo lavou aquele par. Por um momento, sentiu vontade de chorar, mas engoliu essa vontade e voltou-se com os olhos carregados de uma exaustão emocional para mãe.
— Eu entendo que sou responsável pelo próprio futuro, entendo. Entendo a posição de vocês como meus pais e agradeço, de verdade. Mas são minhas escolhas, meu futuro. O que vai acontecer depois? Sinceramente? Eu não sei. E quem sabe? O que realmente importa é o que eu quero pra minha vida, pelo o que eu vou lutar e me esforçar. — Haviam lágrimas que não passariam de um brilho em seus olhos. O rapaz então mirou o olhar para a beca de formatura pendurada em frente ao espelho. Ele estava ansioso, tinha a sensação de ter uma bomba-relógio dentro de si. — O que eu sei sobre a vida... é que ela é um mistério e que ela pode ser imprevisível às vezes. Eu quero saber como é viver fora dessa bolha idealizada que vocês sempre criaram pra mim e que por muitas vezes tentei me convencer de que era o que eu queria, mas não era. Nunca foi.
Lembrou-se do velho John.
O Velho John era um simpático idoso que vagava pela vizinhança, catando lixo todas as manhãs e nos fins das tardes, cantarolando Bob Dylan, Elvis ou Ray. Ele era simpático e um ótimo ouvinte se você estava tendo um dia ruim. E nos dias bons, podiam compartilhar uma conversa leve e muitas risadas. Também tinha ótimos conselhos e uma risada sincera contagiante.
O Velho John, um dia fora apenas John Edwards, um rapaz doce e bondoso. Ah, ele era um bom rapaz! John se formou em medicina, teve uma boa carreira, sucesso e um generoso status na região. E isso mudou de maneira drástica. John contou a ele que em uma manhã ele acordou. Não simplesmente abrir os olhos, mas de um sono profundo no qual esteve emerso por muitos anos.
John levou mais tempo do que gostaria para saber o que queria, e o que ele queria não tinha absolutamente nada a ver com o que ele tinha. Ele sempre viu sua vida como algo neutro. Posso não ser muito feliz, mas tenho tudo o que preciso, repetiu para Kyle uma vez uma frase que pensou na época. Mas naquela manhã, naquele despertar, John simplesmente parou. Parou de ser um médico com um bom status e de se preocupar tanto com dinheiro, com coisas matérias que acreditamos ser essenciais para vivermos. John tinha um violão velho chamado Betty e que arrastava de um lado para outro em um carrinho de compras com todas as suas tralhas. Também tocava piano, algo que aprendeu com o avô na infância.
Era quase surreal pensar na mudança de vida daquele homem. Ao ouvir a história de John, sentado no degrau da escada em frente a casa da vizinha, onde John normalmente descansava depois de um dia árduo de trabalho, Kyle pensou se isso tudo valeu a pena para ele, se valeu a pena largar tudo assim, tão rápido e apostar tudo em algo incerto, sem estrutura. Não percebeu que tinha verbalizado este pensamento. Mas já era tarde, John o respondera:
— Não vou dizer que vivo um sonho ficando no frio às noites e passando o dia com a barriga doendo, pois estaria louco. Minha artrite acaba comigo nas primeiras horas do dia, garoto. Quanto mais velho, mais difícil viver por aqui. — Arrumou seu belo chapéu na cabeça e sorriu com nostalgia — Bom, pode já ter sido loucura deixar tudo para trás desse jeito. Sinto falta às vezes de ter uma boa cama, de ter comida quente, ou simplesmente comida. Roupas que me aquecem à noite. Mas era tudo tão frio e cinza, sabe? Aquele mundo cheio de pessoas solitárias que estavam sempre acompanhadas de mais pessoas solitárias, que estavam acompanhadas de suas roupas e acessório de milhões de dólares. Quando larguei tudo, eu e minha velha Betty pegamos algum dinheiro que eu ainda tinha e nos mudamos para o apartamento da esquina. Vivemos bem nos primeiros meses, era bastante dinheiro. Tentei arrumar um bico como musico em diversos clubes da cidade, e consegui um. Costumava ser naquele lugar que agora chamam de Joe’s Star Club, que nome ridículo. Tínhamos uma banda de jazz e mandávamos muito bem, as pessoas adoravam nos ouvir tocar — fechou os olhos, permitindo-se voltar àqueles tempos — Alguns anos depois o clube fechou porque Jones, o dono do lugar, precisava voltar para Escócia para cuidar da mãe doente. Vendeu o clube porque precisava do dinheiro. Então ele se foi, e nós, permanecemos, desempregados, mas sobrevivendo.
Pegou seu violão, Betty, que estava ao lado e a pôs sobre o colo, insinuando tocar algo.
— Ser um musico como nós éramos naquela época era difícil. Não conseguimos mais um emprego como aquele e ainda tocamos nas esquinas por alguns trocados. Todas as sextas. Mas ainda estamos fazendo o que amamos mesmo com esses pequenos problemas — Olhou ao redor, referindo-se as suas condições de vida — Sabe, nós músicos somos mal vistos pela sociedade. Vagabundos, eles pensam, nos olhando de cima à baixo — levou o dedo indicador para baixo de um dos olhos — Mas estamos na luta, garoto. Sempre lutando.
A vida é estranha.
Nada além da própria morte é certo e Kyle não queria perder tempo com o medo de arriscar. E lutaria como John e seus amigos do Jazz se fosse preciso para viver a vida que queria.
Desde criança ouvira do pai que seria como ele, e chegou o momento em que era cobrado disso. Mas deixou de lado, não queria pensar sobre pois o fazia se sentir pior e ele precisava ir.
A formatura ocorreu bem, diga-se de passagem. Seus pais foram, Ike também embora não parecesse muito feliz em estar ali, e Kyle estava mais relaxado porque sabia o que fazer. Quando Kyle foi elegido orador da classe, Leroy Mullins ficou desapontado. Isso parecia realmente importante para ele. “Eu já até tinha começado a escrever o discurso”, disse para Kyle, mas depois sorriu sem qualquer maldade, “Parabéns, de qualquer forma”. Mr. Mackey o convenceu disso, e agora tinha que convencer MacKey em dar o título de orador para Leroy, ele não estava interessado nisso o suficiente. MacKey disse que a eleição de Kyle foi um ato de democracia e Kyle revirou os olhos.
Ao subir no palco para dar o discurso que todos esperavam silenciosos em seus bancos, sussurrando uma vez ou outra, Kyle estava mais relaxado que nunca. Olhou para o discurso no papel dobrado em mãos e o colocou no bolso. Se aproximou do microfone e enfim, disse:
— Esse é um momento importante para todos nós e eu adoraria compartilhar alguns pensamentos... — Suspirou e então, sorriu graciosamente — Mas acredito que as palavras e Leroy Mullins podem ser muito mais inspiradoras. — Convidou o rapaz desacreditado ao microfone. Viu a família do rapaz vibrar em meio a plateia, já a sua, estava confusa.
Kyle deixou o palco, deixou a formatura, saindo sem dizer uma palavra ou ao menos olhar para seus pais. Kenny estava do lado de fora, ao lado do seu carro novo que também era velho. Uma lata velha caindo aos pedaços, mas que Kenny tratava como se fosse a mais valiosa do mundo. Era o amor da sua vida e Kyle não duvidava disso.
Kenny rodava as chaves no dedo indicador, encostado na lata velha e lançando para Kyle um olhar que dizia “Que bom, você veio”. Entraram no carro e seguiram para um caminho diferente. Passaram o resto do dia em lugares aleatórios que Kyle considerava seus favoritos e alguns de Kenny, depois do namorado insistir. Se Kyle tivesse uma lista dos seus dias favoritos ao lado de Kenny, esse teria um lugar especial próximo ao topo (se não no topo).
Kyle apareceu em casa apenas na manhã seguinte, às seis da manhã, com a beca dobrada sobre o braço esquerdo, o capelo debaixo deste mesmo braço juntamente a um livro infantil chamado “O Gigante Egoísta”, os sapatos nas mãos e um cansaço de quem não dormira no rosto. Mas também havia uma leveza em seu semblante, algo que dissesse pela primeira vez em meses “Eu estou bem”. E ele estava tão bem. Kenny lhe fazia tão bem, como ninguém o fez até então.
Mesmo depois de receber um sermão de horas da mãe e poucas palavras que deveriam lhe causar impacto do pai, aquela leveza continuava ali. Kenny e Kyle conversaram bastante, e Kenny lhe trouxe paz, segurança e conforto sobre tudo o vinha enlouquecendo Kyle nos últimos meses. E ele o amava por isso. Ah, sim, amava. Um pensamento tão ingênuo que Kyle nem se espantou ao pensar nisso. É natural. Sorria de maneira abobalhada.
Ainda lidando com uma mãe chateada e um pai desapontado, os dias seguintes foram se suavizando em relação a atmosfera naquela casa. Ike estava sempre fazendo piadas, a maioria nem tinha tanta graça, mas ele cooperou bastante naquela situação.
Em 1982, Kyle começou a cursar Teatro.
O plano era começar por letras, depois, teatro. Porém considerou mudar os planos e assim o fez. Claro, também tinha a banda, que permanecia firme e progredindo cada vez mais. Ainda tocavam no Joe’s e às vezes até tocavam em pequenos eventos. Mesmo que Craig agora cursasse astrologia, Clyde trabalhasse na lojinha de bebidas da família e Kyle estivesse dedicado a faculdade de teatro, eles sempre tinham tempo para a banda. Quanto a Kenny, ele começou a escrever as próprias músicas e conseguiu um ótimo emprego em uma loja de discos, com o qual ele estava muito satisfeito.
As coisas se estabilizaram dessa maneira por dois anos e um mês.
Algumas coisas mudaram, eventualmente. Jack’s Road era um nome familiar nos ouvidos do público jovem de South Park, eles acabaram ganhando um tipo fama local, o suficiente para viverem bem com o dinheiro que recebiam de shows particulares ou de pequenos festivais de verão. Kyle vivia do próprio dinheiro pois além do seu orgulho considerável, queria viver como um adulto independente o que era compreensível. Por isso, arrumou um emprego em um café no ano anterior.
Kenny não apenas se sustentava, como também a sua irmã, Karen. Ele faria qualquer coisa por ela, até ter dois empregos além da pequena carreira de musico. Ainda trabalhava na loja de discos, mas aos domingos trabalhava em uma lanchonete em um parque florestal. E agora com um apartamento medíocre em um prédio baixo no centro da cidade que cobrava 62,40 (sessenta e dois dólares e quarenta centavos) por aluguel, acabaria não compensando tanto, mas Kyle insistia em pagar metade do aluguel e depois de uma semana de discussão, ambos acabaram dividindo a conta.
Estavam apaixonados, estavam felizes e Kyle estava satisfeito. Satisfeito com suas realizações, e com a fase da vida em que se encontrava, sentia estar sobre controle e no caminho certo. Kenny estava bem com tudo, com seu trabalho, com namorado que ele amava, com Karen estando feliz e muito bem.
Kenny criou Jack Road, deu vida a essa banda e tinha muito orgulho dela. Craig, Clyde e Kyle também tinham orgulho, mas era diferente para eles, Kenny sabia. Era divertido e distrativo, era legal estar em uma banda, principalmente quando se tem amor pela música, mas para Kenny sempre foi muito mais. Ele queria ir além, ao topo, próximo aos gigantes e não poderia fazer isso sozinho, ou simplesmente permanecer parado e insatisfeito. Ás vezes pensava se poderia apenas deixar de lado, viver essa vida ao lado de Kyle, por Kyle, porque ele o amava. E aceitou a ideia, com uma triste felicidade.
Em maio de 1984, Karen se mudou para Chicago.
No dia 8 de maio, uma antiga tia que não viam há anos ofereceu um lugar para ela em sua casa. Seu marido havia morrido recentemente e ela vivia bem financeiramente, e ao saber que Karen estava prestes a se formar no ensino médio, acho que fosse uma boa ideia fazer faculdade por lá.
Kenny jamais poderia negar isso a ela. Era uma vida muito melhor, e ela ficaria bem. Susan era um doce de mulher. Kenny a adorava, e não havia nada a ser discutido sobre isso, uma vez que Karen não recusara a oferta.
Com o coração e apertado, mas ainda orgulhoso de tê-la como irmã e vê-la crescer, Kenny a levou até o aeroporto e a assistiu partir. Desde então, passou a receber ligações três vezes por semana de Karen.
Mas no dia 27 de maio, Kenny recebeu uma ligação que não era de Karen, e sim de um amigo antigo com quem começou a Jack’s Road.
Kevin Stoley se mudou para Los Angeles no mesmo ano em que começaram a banda. Recentemente Kenny descobrira que era um produtor musical na gravadora do tio. Ainda no início da carreira e buscava bandas para investir. Um telefonema de um velho amigo de repente fez sentido. Riu, riu com vontade e felicidade pura quando ele perguntou se Kenny gostaria de ir à Los Angeles pegar essa oportunidade, pois Kenny é uma das pessoas mais talentosas e dedicada que ele conhecera.
Mas Kenny parou de rir, essa risada morreu pouco a pouco em seus lábios. Ele já havia se decidido, não havia? Não poderia deixar Kyle, não poderia fazer isso sem Kyle. Agora ele estava estressado e respirando fundo ao telefone. Não conseguia pensar direito.
— Ei Kenny, você ainda tá aí, cara? — Perguntou do outro lado da linha.
— É, sim, eu ainda tô aqui.
— Ótimo. Você vem? — Kenny pensou sobre mais um pouco, embora não houvesse o que se pensar, não agora.
— Agradeço de verdade por isso, mas eu preciso de uns dias pra dar uma... resposta oficial. — O homem do outro lado da linha suspirou pesadamente, deixou a linha muda por poucos segundos e disse:
— Certo. Você tem até segunda — Kenny olhou para o calendário acima do telefone que marcava quinta-feira. — Se mudar de ideia, na terça já vai estar num avião direto pra cá, certo?
— Tudo bem, Kevin. A gente se fala.
Kenny voltou para casa naquela noite exausto, não apenas fisicamente. Kyle também parecia acabado ao chegar da faculdade. Kenny jogou-se na cama logo depois de Kyle, ambos acabados. Kyle foi o único que se deu ao menos o trabalho de retirar o sapato. Estavam com fome, mas nenhum levantaria daquela cama tão cedo.
— Isso é tão bom. — Kyle gemeu, contorcendo-se no colchão.
— Só não é melhor que sexo.
— Com certeza é. — Kenny abriu os olhos abruptamente, virando-se para o namorado.
— O que isso significa? — Kyle riu, cansado.
— Significa que não vai rolar. — Kenny fez uma careta e voltou a relaxar os olhos.
Assim que o silêncio veio, Kenny pensou se deveria trazer o tal assunto à tona. O bom humor de Kyle era limitado devido ao cansaço, isso poderia terminar em discussão.
Esperou mais um pouco.
E só mais um pouquinho...
— O que você acharia se conseguíssemos uma chance de finalmente ter um contrato com uma gravadora em Los Angeles? — Kyle estranhou o assunto repentino, mas não disse nada quanto a isso. Kenny não sabia exatamente o que ele responderia mas sabia das possibilidades de ser um: “Nós aceitaríamos, claro”, eram mínimas. O ruivo então abriu seus grandes orbes verdes e disse:
— Isso é tão complicado. Que tipo de pergunta especifica é essa?
— Eu li que estão caçando talentos em uma gravadora em Los Angeles no jornal hoje, só isso, e fiquei pensando e se fossemos nós, ali. — Kyle passou a língua nos dentes e pensou mais um pouco, analisando tudo com cautela.
— Eu amo a banda, Kenny, você sabe que eu amo. Assim como eu amo música e tocar. Essa vida, eu amo tudo nela. Mas isso seria tão drástico. Acho que me acostumei com a ideia de não sermos tão grandes, porque eu tenho o teatro agora e eu tenho me matado de trabalhar todos os dias assim como você, porque eu vejo a gente chegando em algum lugar de tudo isso que estamos vivendo agora, sabe, Kenny. — Ele segurou a mão do namorado em consolo. — Eu sei que você quer um futuro pra essa banda e eu entendo. Eu tenho os meus sonhos e você os seus e não vou te impedir de ter isso, se fosse o caso. Mas no momento, temos que viver a nossa realidade. — O ruivo mordiscou o lábio, esperando alguma resposta do louro pensativo — Isso faz algum sentido pra você?
— Faz. Faz sim. — Sorriu docemente.
— Tudo bem. Vou pegar alguma coisa enlatada do armário e jogar na panela.
— Parece perfeito.
Antes de levantar-se, Kyle deu um suave e demorado beijo nos lábios de Kenny, um beijo que dizia: “Tudo bem, estamos bem”. Depois deixou o quarto e momentos depois, The Chain do Fleetwood Mac ecoou do cômodo ao lado juntamente ao cheiro de fritura. Kenny fechou os olhos.
Na segunda de manhã, usando o telefone da loja de discos – na qual só trabalharia meio período naquela segunda em especial -, Kenny retornou a ligação de Kevin. Mal dormira à noite, pensando na sua resposta final e nas consequências que ela traria. Enquanto a chamada ocorria e Kevin não atendia, Kenny arfava, deitando a testa na parede.
— Alô?
— Kevin? É o Kenny.
— Kenny! Estava esperando você ligar. E aí, já tem a minha resposta?
— É, eu tenho. — Kenny levantou o olhar para a fachada da loja. Um cliente acabara de entrar, mas Kenny não deu importância, ele parecia apenas querer observar o que tinham por ali.
Na terça-feira à tarde, Kenny fez algo da qual se arrependeria ao longo dos próximos dez anos, e até mesmo depois destes, quando pensava em como teria sido se não fizesse as malas tão apressadamente enquanto Kyle não chegava do trabalho naquela tarde. Ele não sabia o que estava pensando, e não queria pensar de mais nisso. Não queria pensar de mais em todas as conversas e todos os planos que fizeram a partir de uma vida simples que levavam. Ou na primeira vez que disse para Kyle que o amava, no mesmo dia em que alugaram aquele apartamento e Kenny o decorou completamente com luzes pisca-pisca.
Ah, aquele dia.
Com o apartamento ainda vazio, Kenny o enfeitou em cada cômodo com aquelas luzes coloridas que encontrou na garagem da casa dos seus pais. Ligou para Kyle de um telefone público e disse para aparecer às 07:00 PM na esquina de onde o prédio se localizava. O ruivo questionou, mas não obteve resposta, e mesmo assim o fez.
Quando Kenny apareceu para busca-lo, voltou a fazer perguntas que não seriam respondidas. Kenny apenas ria e pedia para que fosse paciente. Vendou seus olhos (o que serviu apenas para deixa-lo ainda mais curioso), e o guiou pela calçada. Kyle dava alguns tropeços e ria em seguida, fazia sugestões de para onde estavam indo e incluiu Southern Party House (uma casa de festas popular da região cuja as músicas não agradavam muito o gosto de nenhum dos dois), e caso estivessem, ele o mataria. Kenny riu em negação e o ajudou a subir os poucos degraus até a entrada e, em seguida, mais dois lances de escadas até o apartamento.
Até chegarem lá, Kyle resmungou sobre estar cansado de tantas escadas e Kenny anunciou que já haviam chegado, retirando a venda e permitindo que visse as luzes coloridas piscando em cada canto da visão panorâmica de Kyle. Um sorriso abobalhado nasceu em seus lábios.
Aquele sorriso sempre estava lá quando Kenny mostrava ser a melhor pessoa do mundo. Porque era exatamente o que e quem ele era. Principalmente quando Kenny o lembrava disto. Seguido do olhar que apenas reafirmava isso. Kyle tinha um brilho tão sincero naqueles olhos, que diziam tanto sem precisar verbalizar uma única palavra.
No quarto que atualmente pertencia à eles, havia uma toalha de mesa pequena, uma garrafa de vinho barata acompanhada de duas taças e duas caixas de comida chinesa de um restaurante do outro lado da rua.
“Especialidade da casa”, disse Kenny.
Quando Kyle perguntou a quem pertencia aquele apartamento, Kenny abriu um sorriso orgulhoso e disse: “Nosso. ”
Kyle arqueou as sobrancelhas em um “Sério?”, e Kenny reafirmou:
— Eu disse que daria um jeito.
Essa noite também entraria para lista tanto de Kenny quanto de Kyle. Fora uma das suas favoritas. Além de Kyle ter dito naquela noite pela primeira vez o quanto o amava.
Kenny já havia dito as três palavras várias vezes e nunca esperava que o outro correspondesse só porque o loiro dissera. Ele entedia e era paciente quanto a isso, ignorando os sentimentos ruins. Mas naquela noite Kyle parou de mover os hashi dentro da caixinha de comida japonesa, erguendo a cabeça de supetão, fitou Kenny por alguns segundos. Mas o loiro não percebeu.
— Kenny.
— Sim? — Respondeu, focado na caixinha de comida.
— Kenny.
— Kyle. — Finalmente, olhou para o outro.
— Kenny — E Kenny aguardou o que viria — Eu te amo. — A declaração de Kyle veio como uma epifania e a expressão em seu rosto era adoravelmente engraçada.
Kenny sorriu.
—Certo, Ky. Eu também te amo.
O sorriso infantil no rosto de Kenny permaneceu pelo resto da noite, e então voltaram a refeição.
Agora Kenny olhava para aquele quarto com a mais pura dor em seus olhos e a angústia em seu peito. Ele os fechou e repensou tudo o que estava prestes a fazer. Começou a chorar. Lançava peças de roupas com mais força e rapidez agora. Ele não queria pensar sobre isso. Ele não deveria pensar sobre isso. Não agora.
Deixaria as memorias para os anos que viriam, e não deixariam de ser menos dolorosas.
Ao terminar de fazer as malas, olhou para o relógio na mesinha do abajur e percebeu que Kyle não demoraria a voltar. Levou as malas até a sala e as organizou ao lado do sofá e aguardou, aguardou como um sentenciado à morte aguarda pelo seu fim. Nervoso, ansioso, confuso. Pensou por várias vezes naquele curto tempo em desfazer as malas, ir para cozinha e fazer algo para o jantar. Kyle sempre chegava exausto.
Houve um barulho na tranca. O coração de Kenny palpitava.
Kyle abriu a porta e Kenny apenas continuou a aguardar, cabisbaixo, segurando as lágrimas prematuras. O ruivo não chegou nem a fechar a porta antes de notar a presença de Kenny no cômodo. Era um apartamento pequeno, o sofá ficava só há dois metros da porta. Kyle travou ali mesmo no lugar, não havia notado as malas ainda, no entanto tudo naquele Kenny berrava que algo estava errado.
Ele usava o seu casaco favorito, o qual gostava de usar principalmente durante o inverno, também seus sapatos novos e uma camisa branca dizendo: “the worst shirt ever” que Kyle dera para ele no ano anterior. O louro massageava as têmporas, evitando contado visual com o namorado. E então, Kyle notou as malas ao lado de Kenny.
Seu coração acelerou. Kyle começou a ficar ansioso, com milhões de possibilidades vagando pelos seus pensamentos em questão de segundos.
— Kenny, o que tá acontecendo? — Tentou segurar um sorriso no rosto, mas ele tremia. Kyle não queria sorrir.
Kenny levantou do sofá, ficando de frente para Kyle.
— Eu não fui completamente honesto com você sobre a nossa conversa.
— Qual conversa?
— Sobre o contrato com a gravadora. — A expressão de Kyle passou de preocupada para algo entre a preocupação e o medo. — Kevin me ligou. — Encolheu os ombros, pondo as mãos nos bolsos — Ele quer que eu vá pra Los Angeles, hoje. — As palavras soaram baixas, arrastadas, com medo de saírem. Kenny não queria dizê-las.
Kyle ficou estático em sua frente, respirando pesadamente com os olhos vagando freneticamente nos do seus. Separou os lábios para sugar o ar e soltou uma risada baixa e descontrolada, nervosa.
— Mas que porra, Kenny? Isso é sério? Alguém que você não vê há anos liga te convidando pra assinar um contrato e rápido assim, você decide.... Você faz as malas e diz que tá indo embora? Eu não...
— Não fale como se eu não tivesse pensado sobre isso. — Respondeu com a voz calma.
Queria ter uma conversa tranquila, mas se conhecia bem Kyle, isso não aconteceria. E poderia culpa-lo?
— Ah, que ótimo! É muito bom saber que você pensou muito bem sobre isso e percebeu que preferia ir embora do que ficar aqui... comigo. — O sarcasmo de Kyle trazia junto uma risada forçada, infeliz. Ele estava nervoso e cada palavra que saia da sua boca era trêmula.
Kyle respirava pesadamente, tentando manter a calma. O silêncio ficou por um breve momento, e então Kenny ousou a falar novamente:
— Se eu tivesse dito a você, e te pedido pra vir comigo, Kyle, você aceitaria? — O ruivo balançou a cabeça, desacreditado no que ouvira.
— Você sabe que não. Sabe que o que eu quero está aqui, nas decisões que eu tomei, nessa vida. Eu não deixaria isso para trás tão fácil, não desses jeito.
— Então me diz o que fazer?
Kenny pediu em desespero, perdido. Céus, ele sabia que seria difícil.
— Eu não sei, Kenny, eu não sei!
Kyle se sentou no sofá com os olhos tristes e perdidos. Ele estava tão confuso e assustado, Deus sabe o quanto queria ter a resposta para aquela pergunta. Tantas coisas passando pela sua mente em uma velocidade que não podia acompanhar. Céus, essa era a última coisa que esperava ao chegar em casa. Jamais cruzaria sua mente.
— Disse que não me impediria de ter o que eu quero. — Falou com a voz tão pequena, quase um sussurro.
— Eu sei o que eu disse, e eu não vou. Mas isso não me impede de estar machucado. — Disse no mesmo tom, mais calma e racional do que antes. Ele estava pensando melhor no que dizer. — Eu estive com você por anos, droga! Eu tenho o direito de estar furioso, e decepcionado. — Riu com amargura evidente, evitando um choro. — Céus, eu tô te odiando tanto agora. — A mão de Kyle abafou as palavras, mas Kenny notou o quanto elas soaram infelizes.
— O que nós fazemos agora?
Kyle ergueu a cabeça e olhou para os lados, esfregando as mãos no rosto e respirando fundo novamente. Permaneceu estático, mantendo os olhos vidrados em Kenny como se o estudasse. O loiro não gostava quando fazia aquilo.
— Você é o único que vai?
— Clyde também aceitou. — Encolheu os ombros.
— Então liga pra ele e diz que vocês precisam ir. — Kyle levantou do sofá e foi até a cozinha, Kenny não o seguiu. Foi até o telefone e fez exatamente o que Kyle mandou, e então foi para a cozinha.
Kyle segurava um copo com água, olhando fixamente para chão, completamente fora desse mundo. Seus olhos estavam inchados, a ponta do nariz ainda avermelhada e algumas lágrimas ainda secavam nas bochechas. Kenny entrou receoso, aproximando de Kyle, ignorando a forte vontade de toca-lo. Queria tocar seu rosto ou dar um último beijo, mas sabia que isso não aconteceria. Respeitou o espaço pessoal de Kyle e se escorou na beira da pia, poucos centímetros longe do outro.
— Ky, eu te amo, você-
— Não faz isso. — O copo já não lhe parecia mais tão interessante, pois levantou os olhos decepcionados para Kenny. — Não faz isso ficar mais difícil do já está.
Kenny respirou fundo, compreendendo o que Kyle estava pedindo. A conversa poderia ter acabado naquele momento e Kenny finalmente iria embora, mas ele não conseguia se mover, não conseguia sair daquela cozinha e muito menos daquela casa. Como seria capaz de deixa-lo? Se sentiu o maior idiota do mundo.
Kyle largou o copo vazio na pia, cruzou os braços e caminhou até Kenny lentamente. A cada passo, Kenny se sentia menos capaz. Kyle olhou para ele, nos olhos, observando-os bem como se fosse pela última vez (e acreditou que fosse), gravando-os na memória. De todas as coisas que Kenny esperava de Kyle naquele momento, as mãos de Kyle passando pela sua nuca para o aproximar de si de maneira que encostassem as testas nem ao menos cruzou sua mente.
Kyle fechou os olhos e disse:
— Isso dói, mas você já tomou sua decisão, e agora precisa ir. — E deu um beijo demorado em sua testa. Kenny era mais alto, então precisou de um pequeno esforço. Kenny deixou as lágrimas tomarem seu curso, desejando nunca mais sair dos braços do outro. Mas Kyle foi quem se afastou. Então ele pegou as malas e saiu.
Essa fora a última vez em que se viram pessoalmente.
Pouco depois que Kenny se foi, Kyle saiu do apartamento que dividiam e se mudou para um menor há poucos quarteirões dali. Mas Bill, o sindico, explicou a Kyle que Kenny pagará quatro meses de aluguel adiantado pouco antes de partir, e isso não o fez desistir de se mudar. Kyle disse que ele poderia disponibilizar o apartamento e ainda ficar com o pagamento. Bill agradeceu.
Na noite da virada do ano de 1986, Kyle estava na casa dos pais depois de muita insistência de sua mãe, mas com o passar das horas concluiu que teria sido bem melhor ter ficado no seu apartamento divido uma garrafa de whisky com Stan, como ele havia sugerido. No entanto já era tarde para desistir e Kyle estava preguiçosamente organizando a mesa de jantar como sua mãe pedira.
Gerald estava na sua terceira cerveja, gargalhando sobre a história absurda que Randy Marsh contava que acontecera em um de seus turnos como bombeiro. Stan estava na cozinha, “ajudando” Sheila apenas para ficar cutucando o jantar antes da hora. Ike estava no sofá, assistindo a programação de ano novo do canal 08 que tratava-se de um show com diversos artistas e bandas que vinham fazendo sucesso nos últimos meses. Kyle estava de costas para a TV, posicionando o último prato à mesa quando Ike gritou: “Puta merda! ” com um evidente entusiasmo.
— Ike! — Kyle reclamou, sem olha-lo.
— Kyle, o seu namoradinho tá na TV. — Kyle não se virou imediatamente. Ouviu de forma nítida o apresentador pronunciar o nome da banda que acabara de subir ao palco, já dando início ao show. E então, virou-se para a TV.
Kenny estava lá, eufórico e completamente fora de si enquanto cantava o maior sucesso do seu primeiro e recente álbum. Kyle se lembra muito bem de ver o álbum na loja de discos três meses atrás, e também de compra-lo, e escuta-lo uma vez por semana. Mas por isso ele não esperava, nem sonharia com isso. Agora ele estava ali, estático, olhando para a TV como se visse um fantasma, um fantasma do passado.
Ele parecia mais magro, tanto seu corpo quanto o rosto. Também deixou o cabelo crescer, algo que sempre aconselhou que fizesse pois “cairia muito bem nele”. Além de uma barba rala que Kyle apenas notou quando o foco foi totalmente em seu rosto. Clyde então aparecera, elétrico atrás da bateria. Também estava diferente, não como Kenny, apenas parecia ter ganhado um pouco mais de peso.
Karen, que havia voltado de Chicago no último ano juntamente ao namorado, sempre dava notícias de Kenny quando ela o visitava e vice-versa. E sempre acrescentava que Kenny perguntava por ele. Não queria deixa-lo sem jeito sobre o assunto, pois nunca esperava que Kyle respondesse ou continuasse essa conversa, mas porque sabia que Kyle se perguntava se Kenny ainda pensava nele.
Stan acabara de sair da cozinha carregando uma caçarola com algo coberto por queijo, usando as luvas de cor rosa com detalhes amarelos de Sheila, e a pôs sobre a mesa. E graças aos céus que ele o fez antes que olhasse para a TV, senão provavelmente a teria derrubado. Então rapidamente olhou para Kyle, e este agora dava um meio sorriso triste, com os olhos marejados.
— Kyle... — Chamou Stan, removendo as luvas.
— Nós fizemos a coisa certa, não fizemos? — Perguntou tanto a si mesmo quanto para o amigo.
— Acho que sim. Quer dizer, claro. Você está bem?
— Sim, claro. — Virou-se para Stan e disse que o ajudaria a trazer o resto do jantar.
E assim terminou o ano de 1986.
Em 1990, Kyle comprou uma casa.
Deus sabe o quanto foi difícil comprar aquela casa. Kyle havia acabado de concluir a faculdade de letras e passou os últimos dois anos trabalhando feito um louco para estabilizar sua vida financeira o suficiente para isso. Atualmente dava aulas recreativas de teatro na escola pública de South Park. No início foi, de todas as maneiras, infernal.
Kyle tinha certeza de que aquelas crianças o odiavam, não importava o quanto se esforçasse para cumprirem o horário e ainda terem uma aula divertida. Nas primeiras semanas de aula, chegou a deixar os alunos fazerem o que desse na telha pelo auditório enquanto deitava sobre a mesa e esperava tediosamente o tempo passar.
Ike lhe deu um tipo de conselho, um conselho de Ike
— Você é uma droga, por isso te odeiam. Cara, eu faria você ser demitido se fosse meu professor recreativo. Quer dizer, eu convivi com você tempo o suficiente pra saber que-
— Olha, eu entendi.
Estavam no intervalo e Ike carregava sua sacola de papel com um sanduíche e uma maçã que Sheila fizera. O garoto agora estava em seus dezessete, mas ao contrário da maioria dos adolescentes, não se importava em ter o próprio lanche favorito feito pela mãe.
Kyle parecia destruído, extremamente exausto. Ike o analisou, parando em meio ao corredor assim como Kyle, eventualmente.
— Você tá de ressaca?
— Talvez. — Ike suspirou dramaticamente.
— Escuta, essas crianças só querem ir pra casa. Dê alguma distração, qualquer coisa que elas possam fazer pra passar o tempo.
— E a minha aula é o quê?
— Chata. — Kyle encolheu os ombros. — Em vez de fazerem algo que você quer que façam, diga fazerem o que querem. E não estou falando de deixar eles correm e berrarem pelo auditório como se fosse um hospício. Diga para usarem a imaginação, criarem a própria peça, sei lá, você é o maldito professor.
— É uma ótima ideia.
— Bem óbvia até. Não é assim que o primário funciona? — Ike revirou os olhos. — Eu disse que você é uma droga.
Com pouco mais de um mês depois, Kyle já havia se acostumado e seus alunos estavam começando a aceita-lo melhor, o que era menos uma dor de cabeça.
Pouco depois comprou a tal casa.
Dizer que comprou uma casa pode parecer bastante, mas a casa não era lá essas coisas. Era adorável e acolhedora, ao menos não se parecia com os últimos dois apartamentos medíocres em que viveu. Era uma pequena casa, mas era o suficiente. Não tinha mais de um quarto, um banheiro pequeno, uma sala de estar razoavelmente grande, e uma cozinha cuja o tamanho era perfeito. Pouquíssimos móveis que Broflovski apenas conseguiria aumentar a quantidade com o passar do tempo. Kyle finalmente se sentia em seu lugar, sua casa, sua propriedade. E a sensação era maravilhosa.
Seu emprego de professor de teatro não durou mais que um ano e três meses. Dois meses depois que comprou a casa, ele se demitiu. Havia recebido uma proposta melhor agora com seu bacharelado em letras, um cargo como professor substituto de literatura em um colégio que era bem mais perto da sua casa e pagava quase o dobro do salário anterior. Confessou a si mesmo que sentiria falta daquele emprego, em algum momento em meio a essa loucura, se apegara àquelas crianças.
Depois de aceitar esse emprego, conheceu Christophe DeLorn, que não era seu aluno. Christophe era seu vizinho, morava sozinho em uma casa semelhante a de Kyle, tinha o próprio estúdio de tatuagem e 24 anos de idade. Um sujeito um tanto mal-encarado, que parecia estar sempre com ódio de tudo e de todos por motivo nenhum, embora fosse óbvio que aquilo parecesse mais uma forma de afastar as pessoas.
A primeira vez que conversaram foi quando, curiosamente, Christophe entrou na sala dos professores, durante o intervalo. Christophe procurava por um tal professor de geometria, com quem tinha que resolver algum assunto envolvendo a nota bimestral do seu irmão caçula, explicou ele, posteriormente. Kyle conhecia esse homem, o tal professor. Ele tinha seu tamanho, mas era enorme, gordo e ranzinza, além de ter um humor grotesco.
— Você é o vizinho novo, não é? — Perguntou Christophe de repente, sentado confortavelmente em um sofá vermelho, pouco distante de Kyle. Sua voz era insinuativa e um pouco alta.
Kyle estava distraído organizando seu planejamento da aula que teria no próximo horário. Custou a perceber a pergunta, e um pouco mais para responde-la.
— Ah... — Ele olhou para o rosto de Christophe, reconhecendo-o como seu vizinho — É, eu sou. — Sorriu gentilmente. O ruivo notou que o lábio superior do rapaz estava estourado de maneira bastante hostil. Quis, mas não perguntou sobre. — Eu sou Kyle.
— Christophe.
— É, combina com você. — Kyle disse, e voltou para seu trabalho.
— Eu sei — A voz veio convencida, mais uma vez. Ele balançava os pés em um ritmo lento, estando extremamente relaxado naquele sofá. Após aproximadamente vinte segundos de silêncio, Kyle se manifesta novamente.
— Está esperando alguém? — Soou um tanto rude, e não se importou de ter sido. Mas sua curiosidade também era evidente.
— Sim, na verdade. O professor de geometria do meu irmão. — Ergueu um boletim que marcava um grandiosos F — Ele insiste que tem algo errado com o resultado e sobrou pra mim, então...
— Oh, — Kyle refletiu — O grandão? — Christophe encolhe os ombros, não tendo certeza. — Acho que eu o vi perto da diretoria, fazendo alguma criança chorar. Não faz muito tempo, ainda deve estar por perto.
— Tudo bem, obrigado. — Levantou-se, deu dois passos até a porta e retornou. Kyle já havia voltado o foco em trabalho, voltou-se novamente para Christophe. — Foi mal, é que... — fez uma breve pausa pensativa — Eu vi ouvi você tocando baixo noite passada. Ou suponho que tenha sido você.
Kyle sorriu, timidamente — Era eu.
— Ah, ótimo. É que eu estive pensando... eu sempre tive interesse em aprender a tocar baixo e eu não consigo encontrar vaga em nenhum outro lugar, então... — Ele olhava para Kyle como se ele fosse sua última chance para isso. Como se fosse realmente importante. Não combinava com ele.
—.... Você quer que eu te ensine? — Concluiu.
— Eu posso pagar seja lá quanto você cobrar por isso. — Disse antes que Kyle dissesse qualquer outra coisa. O ruivo aparentava considerar o pedido. Não dava aulas de baixo ou guitarra desde que morava em seu antigo apartamento e ensinava para um garotinho cuja o nome era Leopold, mas também conhecido por Butters pela vizinhança. Kyle não poderia contar nos dedos quantas vezes já se livrou de ser despejado com ajuda do pouco (e justo) salário que recebia dessas aulas.
— Tudo bem. — Kyle diz, como se aceitasse um desafio. — Eu te ensino.
— Certo. — Sorriu, finalmente mostrando todos os dentes superiores. Era quase charmoso, Kyle pensou.
Tudo o que Kyle esteve fazendo era trabalhar como professor e, às vezes, poucas na semana, saia depois do trabalho para um bar qualquer na companhia de Stan e Craig. Stan começara recentemente seu trabalho como bombeiro, seguindo os passos do pai como sempre quis e Craig tinha recentemente conseguido um cargo como astrofísico na Instituição de Tecnologia de South Park e estava intensamente feliz quanto a isso.
Kyle também passava o resto da noite tocando alguma coisa – ou até criando melodias –, ou assistindo a programação da MTV com um pote de sorvete nos braços. Mas recentemente havia começado um novo projeto, um projeto pessoal. Com a ajuda de Red, uma ex-colega da faculdade de teatro, planejava uma peça. Vinha escrevendo há duas semanas e lhe era satisfatória até agora.
Nas segundas, terças e quintas, Christophe substituía as três cervejas e um filme ruim dos anos 70 por uma aula de quarenta e cinco minutos de baixo. Ia até a porta de Kyle e batia não mais do que duas vezes. Algumas vezes, encontrava Kyle estava na companhia de homem alto, moreno e simpático, que mais tarde reconheceria como Stan Marsh.
Embora fossem pessoas estreitamente diferentes, ainda tinha gostos semelhantes ao de Kyle, principalmente quando o assunto era música.
— Você gosta de Sugarcubes? — Perguntou, surpreso ao encontrar um já antigo disco na prateleira de Kyle — Nossa, você realmente gosta de explorar novas bandas.
Kyle riu, colocando o contrabaixo sobre o colo enquanto Christophe insistia em revirar sua prateleira de discos.
— Eu fui à loja de discos uma vez procurar pelo novo álbum do Led, só que ainda não tinha chegado. Então pensei em dar uma chance a algo que não conhecia. — Disse, nostálgico — Nunca me arrependi da escolha.
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— Wild Thing ou Sex Pistols? — Kyle riu novamente.
— Não é uma escolha justa.
— Não. — Concordou, colocando os discos de volta na pilha do os que ele já vira. Pegou mais dois e levantou para que Kyle os visse.
— Black Sabbath ou... — olhou para o outro disco — Led Zeppelin?
— Isso é sério?
— Com certeza.
— Zeppelin. — Christophe parece decepcionado com a escolha, mas partiu para a próxima.
— Certo. Guns N’ Roses ou Nirvana? — Kyle levou a responder, não por estar em conflito, mas por não ter certeza se gostava dos dois o suficiente.
— Nirvana, eu acho.
— Nirvana então. — Os jogou na pilhar e pegou outros dois.
— Blondie ou The Runaways?
— Blondie, com certeza.
Christophe refez o processo, escolhendo com mais cautela dessa vez.
— Fleetwood Mac, — Kyle sugou o ar pela boca, pronto para responder, mas então Christophe prosseguiu — Ou Jack’s Road?
Kyle olhou os dois álbuns por um momento ou dois. “Rumours” de Fleetwood, de 1977 e “Who Are You Fighting For?” de Jack’s Road, 1989. De repente tornou-se incapaz de fazer sua escolha que até poucos segundos atrás, ele tinha certeza de que seria Fleetwood Mac.
Abriu a boca e ela travou. Incerto. Kyle pareceu distante, e depois respondeu:
— Eu não sei. — Pensou alto, porque não esperava verbalizar essas palavras e não percebeu que o fez até segundos mais tarde.
— Tem certeza? Esse era o mais fácil. Você adora Fleetwood, e nem sabia que gostava de Jack’s até encontrar na sua estante.
— É, é verdade. — Admite com um sorriso forçado — Fleetwood, definitivamente.
Houveram mais seis álbuns envolvidos nessa brincadeira infantil depois disto. Kyle perguntou se Christophe queria um café, ou um chá, ou uma cerveja, ou apenas água. Certamente, escolheu a cerveja.
A aula teria acabado há mais ou menos meia hora, mas insistiram em compartilhar aquela noite. Kyle já tinha a aula do dia seguinte planejada então não tinha nada com que se preocupar até então, e nem queria.
Os dois sentaram-se no sofá, ouvindo a seleção de discos que Christophe fizera. Kyle tinha que admitir que sua seleção era simplesmente perfeita para beber até desmaiar naquele sofá. Agora tocava o álbum Paranoid, da Black Sabbath. War Pigs era definitivamente a música que Kyle queria ouvir naquele momento. Balançava a cabeça timidamente, pensando em algo distante da realidade com um copo cheio de Jack na mão.
Chris riu, baixo e breve e apenas para si mesmo. Um reflexo da sua embriaguez.
— O quê? — Kyle perguntou, curioso para saber o que o outro tinha em mente.
— Nada. É só que... — riu mais uma vez, soando quase sóbrio — eu nem mesmo tenho um irmão.
Kyle pensou no que este dissera, e então riu também.
— E você achou que eu acreditei nessa história de “irmão que mora com os pais”? — Riu novamente — Idiota, você mesmo me disse que seus pais ficaram na França.
— Eu disse? — Tentou recordar do momento em que lhe contou, mas não conseguiu.
— É, você disse. — Kyle disse e voltaram ao silencio. Paranoid soando alto pelo ambiente. Christophe deu mais um gole na sua cerveja, imerso na música. Essa foi a vez de Kyle soltar uma risada distraída, levando a garrafa à boca.
— O quê?
— Isso significa que você foi até meu trabalho, em uma escola, na maldita sala dos professores, dizendo procurar pelo maldito Eric com um boletim falso que seria do seu irmão imaginário só pra falar comigo. Ou estou errado?
— Não, isso não é verdade — Inclinou a cabeça de modo que olhasse para o rosto de Kyle. — O boletim era real. Eu peguei de um garoto no corredor.
— Não seria mais fácil... sabe, vim até aqui? Quer dizer, são tipo uns dez metros da sua casa até a minha. Você poderia ter vindo até e dito: “ei, você pode me ensinar a tocar baixo” e eu diria: “Claro, por que não? “, sabe? Como pessoas normais fazem.
Christophe balançou a cabeça negativamente, como se algo estivesse errado no que Kyle dissera.
— Não era sobre as aulas de baixo. Foi só uma desculpa ruim.
— Eu desconfiei, não parecia ser muito... você. Mesmo te conhecendo apenas há uns cinco minutos. — Kyle disse — Então sobre o que é tudo isso? — Perguntou inocentemente.
Christophe arqueou as sobrancelhas, como se Kyle fosse uma criança de sete anos para quem precisasse explicar coisas simples. A expressão genuinamente confusa de Kyle mudou drasticamente para uma exagerada epifania, arregalando os olhos.
— Ah, Deus... — E então riu, sentindo-se um idiota. E Christophe o acompanhou nesse momento de vergonha própria, rindo junto a ele. — Você poderia ter dito isso também. Não tem nada de errado ir pelo caminho mais fácil às vezes.
— Você me rejeitaria. — Encolheu os ombros.
— Não, eu não... — pensou mais uma vez — É, eu te rejeitaria.
E então um pouco mais de silêncio. Paranoid havia chegado ao fim.
— E então? — Christophe perguntou.
— E então o quê? — Christophe franziu o cenho mais uma vez. E Kyle voltou para a terra. — Ah, bem... estou considerando que tipos de benefícios eu poderia ter se aceitasse.
— Faço tatuagens de graça.
— Esse foi o primeiro da lista.
Kyle não tinha lembranças intensas dos seus últimos relacionamentos, nada que pudesse sentir saudade ao pensar sobre eles. Sentia-se um adolescente cheio de hormônios mais uma vez, aquele que não acreditava ou via um futuro com as pessoas com quem dividia algo íntimo, e mesmo que tentasse enxergar algo, se parecia bastante como um borrão de cores mortas que não passariam a ser mais do que isso. Era incerto, Kyle sabia, e não havia nada que pudesse fazer sobre isso. Ás vezes sentia que estava forçando a barra consigo mesmo numa tentativa dolorosa de provar a si mesmo que havia superado Kenny McCormick.
Céus, há quanto tempo havia evitado esse nome?
Deu uma justa folga a si mesmo. A sua mente, ao seu corpo e ao coração.
— Eu não sei, Christophe. Você parecer ser um cara legal, mas isso não é sobre você. — Ele apoiou o cotovelo no sofá, usando a mão para apoiar o rosto, estando evidentemente receoso. Christophe assentiu, compreendendo.
— Dando um tempo ou superando alguém?
Kyle pensou um pouco, coçando os olhos cansados.
— Um pouco dos dois. — Assentiu novamente, olhando para a garrafa vazia em sua mão.
— Se isso muda alguma coisa, não precisa ser nada sério. — Tentou uma última vez. Kyle mordeu o lábio inferior.
— Você quer dizer, só sexo?
— Dois benefícios. — Ergues dois dedos e piscou. Kyle riu.
— Certo. — Moveu-se no sofá, respirando fundo de maneira exausta. — Vou pensar sobre isso.
— Ah, sério? — Christophe estava surpreso. — Tudo bem.
Ambos se levantaram do sofá vagarosamente, e Kyle acompanhou seu aluno de vinte e quatro anos que acabara de lhe propor uma amizade com benefícios (dois benefícios) até a porta. Christophe parou do outro lado da porta, com um olhar tão lúcido quanto embriagado que dizia: “então é isso”, e Kyle assentiu. Disseram boa noite um ao outro e Kyle precisou de um banho quente depois disso.
Pensou sobre a proposta durante aquele banho, e foi um longo banho.
Decidiu que poderia compartilhar algumas noites com Christophe, não era nada de mais afinal. Não haviam sentimentos intensos nem nada do tipo, então por que não? Procurou pelo homem às 01:23 da manhã depois daquela noite, batendo na sua porta nervosamente naquela madrugada fria. Christophe abriu depois de três batidas. Estava com a cara amassada, de camiseta e sem calças, tentando reconhecer o rosto de Kyle com os olhos semicerrados.
— Kyle, o quê-?
Essas foram as últimas palavras ditas naquela madrugada, porque Kyle o beijou, e o beijou várias vezes entre os toques e gemidos reprimidos na cama de Christophe. Não eram beijos afetuosos, apenas de necessidade, ambos sabiam disso e não se importavam.
O que passou a acontecer entre eles durou quase quatro anos.
Nesses quatro anos, Kyle deixou seu trabalho como professor mais uma vez para se arriscar um pouco, comprando um pequeno estabelecimento e investindo tudo o que tinha (inclusive do seu tempo) em um novo negócio; um curso de teatro. É, isso mesmo. Um dia decidiu sair um pouco dos trilhos, com a parceria de Red que o manteve firme nesse negócio nas milhões de vezes em que pensou seriamente em jogar tudo para o ar e desistir.
Foi assustador no começo, e a insegurança de Kyle não o ajudava em nada. Levou um tempo para que recebessem uma quantidade satisfatória de alunos, é claro, mas enquanto isso não acontecia ele apenas surtava. Ainda aceitava trabalhar como professor substituto uma vez ou outra.
E a tal peça que Kyle e Red planejavam, estava enfim pronta. Muitas mudanças sofreram na história com passar desses dois anos. Não era uma peça longa, haviam três atos de 30 a 40 minutos e Red havia adorado. Levaria mais algum tempo para conseguirem produzir, isso era certo. Quem dirigiria era o antigo professor de Kyle, Standish, ele adorou a peça tanto quanto Red se duvidar.
Red ficou responsável pela produção, além de também de atuar em um dos dois papéis. Kyle atuaria no outro, além de ser o próprio dramaturgo.
Basicamente, o essencial resolvido. Inclusive o teatro em que a peça ocorreria, aquele teatro abandonado no fim da esquina. Tinham tudo sobre controle, até agora.
Dava aulas de teatro nas manhãs em dia de semana e nas tardes de terça e sexta, que era seu tempo livre dos ensaios da peça.
A vida de Kyle estava indo bem, ele diria se você perguntasse. Ele tinha uma ótima casa; vinha ganhando uma grana sustentável; havia completado seus 28 anos recentemente no qual havia ganhado uma festa “surpresa” em sua própria casa; estava finalmente dando vida a própria peça teatral e tinha um vizinho que lhe deu de aniversário uma tatuagem nova e discreta abaixo da nádega esquerda, e com quem podia foder na maioria das noites.
Ele finalmente estava sentindo-se satisfeito de maneira que não sentia antes. E naquele dia de agosto de 1994 seu humor estava apenas no seu melhor estado. Havia chovido o dia inteiro e Kyle decidiu tirar o dia de folga para si mesmo e aproveitar o frio debaixo das cobertas, no sofá. Mas antes na sua cama, com Christophe. E assim passaram a tarde toda.
Agora, às 17:55 da tarde Kyle levantou da cama durante uma conversa furada com Christophe. Ligou o abajur pois com o dia nublado do lado de fora não enxergaria nada envolta naquele cômodo. Christophe começou a contar algo sobre sua infância na França, com sua mãe. Kyle ria dos momentos engraçados e fazia perguntas preocupadas sobre os momentos tensos. Não vestiu nada, apenas enrolou-se no edredom e foi até a cozinha.
Todos temos manias estranhas para qual os outros olham e perguntam: “o que há de errado com você? “. Seja meia com chinelos, pochetes, estilo ultrapassado, uma mistura peculiar de doce com salgado. Mas essa mania de Kyle era sorvete em dias frios. Um grande pote de sorvete napolitano. Não era comum e muitos estranham, fazendo vista grossa e enrugando os narizes, perguntando:
— Sorvete nesse frio? O que há de errado com você? — Christophe entrou na cozinha, completamente nu se não fossem pelos pés cobertos por meias se arrastando pelo chão da cozinha.
— Não fale de mim enquanto está usando apenas meias. — Kyle usou a colher de alumínio para apontar para os seus pés.
— Do que está falando? Tô procurando minhas sandálias. — Estava obviamente fazendo um tipo de piada sem graça, mas Kyle lançou um olhar de reprovação.
Christophe abriu a geladeira, pensou em pegar uma cerveja mas não queria nada gelado, ao contrário de Kyle. Podia-se ver com clareza suas tatuagens espalhadas pelas costas, desde desenhos simples e provavelmente significativos até frases em francês que Kyle não podia compreender, mas deveriam ter algum significado pessoal também.
O ruivo arrastou-se com o edredom até a sala, sentou-se no sofá e ligou a TV. A programação era entediante como imaginava que seria. Christophe apareceu logo depois, segurando um copo de café. Kyle fez um comentário sobre ele parecer um idoso e Chris riu graciosamente.
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