JARDINS

11 Ponto Cego 🕳️👁️ [Parte Dois]


A resposta saiu rápida. Rápida demais. Theo percebeu isso no instante em que terminou a frase. Porque, pela primeira vez desde que a Gossip Girl reaparecera, ele verbalizava um pensamento que até então permanecera apenas dentro da própria cabeça. Noah voltou a sentar-se.


Isso muda tudo.

— Muda.

— Porque, se você estiver certo, não adianta procurar uma pessoa.


Theo confirmou com um discreto movimento de cabeça.


Precisamos procurar quem fornece as informações.


O silêncio voltou a ocupar o escritório. Lá fora, uma visitante caminhava lentamente entre duas esculturas enquanto um consultor explicava alguma característica técnica da exposição. A vida na Galatea seguia exatamente como deveria seguir. Aquela normalidade, curiosamente, tornava a conversa ainda mais desconfortável.

Noah pegou a própria xícara de café, mas desistiu de beber antes mesmo de levá-la aos lábios.


Você sabe qual é a pior parte?


Theo permaneceu em silêncio.


Eu comecei a desconfiar de todo mundo.


A frase fez mais efeito do que qualquer outra desde o início da conversa. Theo compreendeu imediatamente o peso daquilo. A confiança era o principal ativo da Galatea. Colecionadores deixavam obras avaliadas em milhões de reais sob responsabilidade da equipe porque confiavam nas pessoas que trabalhavam ali. Artistas revelavam projetos antes de qualquer anúncio público porque confiavam em Noah. Patrocinadores assinavam contratos porque confiavam na reputação construída ao longo dos anos. Se a desconfiança começasse a ocupar aquele espaço, a fotografia deixaria de ser o maior problema. Ela seria apenas o primeiro.


Não faz isso.

Noah ergueu os olhos.

Ainda não temos nenhuma evidência.

— Mas alguém fotografou.

— Sim.

— Alguém enviou.

— Sim.

— Alguém publicou.


Theo manteve o olhar firme.


E nenhuma dessas três certezas autoriza você a transformar todo mundo em suspeito.


Noah desviou os olhos por um instante. Sabia que Theo tinha razão. Era exatamente por isso que aquelas palavras incomodavam.


Então o que você faria?


Theo levou alguns segundos para responder. Não porque não soubesse. Porque já havia decidido.


Nada.


Noah franziu a testa.


Nada?

— Absolutamente nada que indique que estamos preocupados.

O diretor da Galatea permaneceu em silêncio. Theo continuou.


A pior coisa que podemos fazer é mostrar para quem está por trás disso que a estratégia funcionou. Se ela perceber que conseguiu alterar nossa rotina, vai continuar. Se perceber que conseguiu nos colocar uns contra os outros, melhor ainda.


Noah apoiou o corpo no encosto da cadeira.


Você quer fingir que não aconteceu?

— Não.

Theo negou calmamente.

Quero agir como se não tivesse acontecido.


A diferença era pequena, mas fundamental.


Enquanto ela espera uma reação, nós seguimos trabalhando. Você continua recebendo colecionadores. Continua fechando exposições. Continua aparecendo onde já apareceria. A Galatea não muda um centímetro da própria agenda.


Noah permaneceu observando o amigo. Conhecia aquele tom. Era o mesmo que Theo usava nas reuniões mais delicadas do Grupo Montenegro. Não havia improviso. Havia estratégia.


E, enquanto isso...

Theo completou a frase.

Nós observamos quem começa a agir diferente.


Pela primeira vez desde que a conversa começara, Noah sorriu. Pequeno. Quase imperceptível.


Eu odeio quando você faz isso.

Theo arqueou uma sobrancelha.

Fazer o quê?

Entrar numa sala carregando um problema e sair fazendo parecer que ele tem solução.


Theo soltou uma breve risada.


Não confunda solução com tempo.


O sorriso desapareceu do rosto dos dois na mesma velocidade em que surgira. Porque ambos sabiam que o tempo era exatamente aquilo que a Gossip Girl também estava usando.

E, pela primeira vez desde a publicação da fotografia, Theo teve a sensação de que aquela disputa deixara de ser sobre Noah. Ela acabara de se transformar em um jogo de paciência.

(...)

No fim daquela mesma tarde, Dante já havia desistido de trabalhar. O processo permanecia aberto sobre a mesa desde o início da manhã, mas ele percebia, com certo incômodo, que lia a mesma página pela quarta vez sem registrar uma única linha. Fechou a pasta de couro, retirou os óculos e caminhou lentamente até a janela do escritório. A Faria Lima seguia pulsando lá embaixo, indiferente à vida de quem observava tudo do alto.

Durante anos, aprendera que existiam problemas que se resolviam com estratégia e outros que simplesmente exigiam tempo. O reencontro com Theo parecia pertencer à segunda categoria. Não havia mais raiva. Também não existia arrependimento. Restava apenas uma estranha sensação de que ambos haviam amadurecido o suficiente para entender uma conversa que, anos atrás, nenhum dos dois teria sido capaz de sustentar. Ainda assim, quanto mais tentava convencer a si mesmo de que aquele capítulo estava encerrado, mais a lembrança do café insistia em voltar. Não pelas palavras ditas, mas pelas que permaneceram em silêncio.

O telefone vibrou discretamente sobre a mesa. Camila surgia na tela perguntando se ele confirmaria presença no jantar promovido por um dos clientes do escritório naquela noite. Dante digitou apenas uma resposta. "Não hoje." Pela primeira vez em muito tempo, não tinha disposição para eventos, cumprimentos ou conversas vazias. Tudo o que desejava era voltar para casa antes que São Paulo lhe exigisse mais uma versão impecável de si mesmo.

(...)

Do outro lado da cidade, Helena fechou o notebook no exato instante em que a última reunião terminou. Os analistas deixaram a sala comentando números, projeções e investimentos, mas ela permaneceu sentada por alguns segundos, olhando para a tela escura à sua frente. Desde a discussão com Theo, descobrira que o silêncio podia ser surpreendentemente barulhento. Nenhum dos dois dera o primeiro passo. Nenhum dos dois procurara o outro. E, pela primeira vez desde que se conheciam, aquilo parecia natural demais para ser apenas orgulho.

Pegou o celular quase por impulso. O nome de Theo continuava exatamente onde sempre estivera na lista de conversas. Bastaria uma mensagem. Uma única frase seria suficiente para romper aquele impasse infantil que ambos fingiam não existir. O polegar chegou a tocar o teclado, mas ela desistiu antes de escrever qualquer palavra. Não porque não quisesse falar com ele. Porque ainda não sabia se procurava o amigo ou a resposta que esperava ouvir dele. Guardou o aparelho na bolsa e levantou-se. Precisava caminhar um pouco antes de voltar para casa. Talvez São Paulo fosse grande o bastante para impedir encontros inesperados. Talvez não.

(...)

Noah permaneceu sozinho no escritório da Galatea por mais alguns minutos depois que Theo foi embora. O segundo café já estava completamente frio sobre a mesa, mas ele sequer percebeu. Caminhou até a janela e observou os visitantes atravessando lentamente os corredores da galeria, detendo-se diante das obras como se o mundo lá fora não existisse. Sorriu discretamente. Gostava daquela ilusão. Gostava de acreditar que a arte ainda era capaz de criar pequenos refúgios dentro de uma cidade que jamais diminuía o ritmo. Seu olhar acabou encontrando o próprio reflexo no vidro. Pela primeira vez desde a manhã, conseguiu enxergar algo diferente da fotografia publicada pela Gossip Girl. Enxergou o que Theo realmente fizera. Não fora até a Galatea para resolver um problema. Fora lembrá-lo de que ele não precisava enfrentá-lo sozinho. Aquela constatação trouxe um alívio silencioso. Amigos não impediam incêndios. Permaneciam ao lado enquanto eles eram controlados.

Noah respirou fundo, pegou o celular e abriu a página da Gossip Girl apenas uma última vez. Observou a fotografia por alguns segundos antes de bloqueá-lo novamente. Quem quer que estivesse por trás daquela conta acreditava conhecer sua história. Sorriu de lado. Conhecia apenas um instante dela.

Na mesma hora, dezenas de celulares vibraram simultaneamente em diferentes pontos da cidade.


Nova publicação da Gossip Girl.


Notas finais
"Algumas pessoas passam a vida tentando esconder seus segredos. Outras descobrem, cedo demais, que o verdadeiro perigo nunca foi alguém encontrá-los. Foi alguém entender. E talvez seja isso que incomode tanto os Jardiners: aqui, ninguém é apenas aquilo que aparece nas fotografias. Um sobrenome carrega décadas de histórias não contadas. Um sorriso em um evento pode esconder uma guerra particular. Um convite para um jantar pode ser uma declaração de poder. E uma amizade pode ser exatamente aquilo que ninguém esperava encontrar no meio do caos. Porque, quando a cidade inteira está olhando para você esperando uma queda, existe uma diferença enorme entre quem assiste ao incêndio e quem entra no prédio para tirar você de lá. SPOTTED: N. deixando a Galatea depois do horário de fechamento. Sozinho. Pensativo. Talvez tentando entender se algumas obras de arte revelam mais sobre quem olha para elas do que sobre quem as criou. Mas essa não é a única coisa que chamou minha atenção. Porque, enquanto alguns tentam reconstruir suas próprias histórias, outros parecem determinados a reescrever as histórias dos outros. E a pergunta que todos deveriam fazer não é “quem está por trás da tela?” É: “Quem está segurando a câmera?” Afinal, em Jardins, uma fotografia nunca é apenas uma fotografia. É uma arma e algumas pessoas acabaram de descobrir que também podem ser o alvo. Durmam com esse barulho!" XOXO, GG. 💋