JARDINS
20 O que ficou para trás ✈️💋
Notas iniciais
Kiran permaneceu parado diante da fotografia durante alguns segundos, embora tivesse a sensação de estar olhando para ela havia horas. A imagem estava levemente gasta nas bordas, amarelada pelo tempo, mas ainda era nítida o bastante para que não houvesse espaço para dúvida: Gael estava ali. O irmão que durante anos existira para Kiran através de versões incompletas, fotografias antigas e silêncios familiares agora ocupava o centro de uma imagem ao lado de quatro pessoas que faziam parte da vida dele. Theo. Helena. Noah. Dante. Não conhecidos distantes, não nomes que haviam se cruzado por acaso, não pessoas que simplesmente tinham ouvido falar de Gael. Eles o conheciam. Tinham estado com ele. Tinham dividido noites, conversas, segredos. E, de algum modo que Kiran ainda não conseguia compreender, todos haviam decidido que ele não merecia saber. A pergunta que o perseguira desde que saíra do Fasano finalmente havia encontrado uma forma simples, quase cruel, de ser formulada: por quê? Kiran dobrou a fotografia com cuidado, guardou-a no bolso interno do casaco e deixou o apartamento. Não havia raiva suficiente dentro dele para fazer barulho; havia algo pior. Havia lucidez. Ele não queria ouvir desculpas, versões suavizadas ou frases cuidadosamente construídas para protegê-lo. Queria a verdade. Toda ela. E sabia exatamente de quem precisava ouvi-la.
Theo estava no apartamento quando a campainha tocou. Tinha acabado de deixar o telefone sobre a bancada da cozinha depois de uma conversa curta com Helena, que terminara sem nenhuma das respostas que ambos procuravam. O silêncio daquele lugar sempre fora uma escolha; naquela noite, parecia uma sentença. Theo caminhou até a porta sem pressa, vestindo uma camisa azul marinho de seda da Armani e as calças escuras perfeitamente ajustadas que pareciam fazer parte dele tanto quanto a postura controlada, mas havia alguma coisa diferente em seu rosto. Talvez fosse cansaço. Talvez fosse o peso de uma noite que finalmente chegara ao ponto que todos haviam tentado evitar. Quando abriu a porta, encontrou Kiran do outro lado. Nenhum dos dois falou.
Kiran ergueu os olhos para ele e, por um instante, Theo teve a sensação exata de que o homem diante dele já sabia. Não tudo. Ainda não. Mas o suficiente para que qualquer mentira dali em diante fosse uma escolha consciente. Kiran entrou sem esperar convite, atravessou a sala e colocou a fotografia sobre a mesa de centro. Theo olhou para ela. Não precisou tocá-la.
— Onde você conseguiu isso?
Kiran soltou uma risada curta, sem humor.
— Essa é a sua primeira pergunta?
Theo permaneceu imóvel.
— Kiran...
— Não. — A voz dele saiu baixa, mas firme. — Hoje você vai me deixar terminar.
E talvez fosse justamente isso que tornasse aquela noite tão diferente de todas as outras: pela primeira vez, Theo não tinha uma estratégia. Não havia uma resposta preparada, uma porta de saída, um silêncio capaz de comprar alguns minutos. Havia apenas aquela fotografia entre os dois e tudo aquilo que ela representava. Kiran apontou para a imagem.
— Você conhecia o meu irmão.
Theo fechou os olhos por um segundo. Foi pouco, quase nada, mas Kiran viu. E, às vezes, queridos, uma fração de segundo é tudo o que precisamos para descobrir que fomos enganados durante anos.
Theo não respondeu imediatamente. Caminhou até a mesa, pegou a fotografia e a observou como quem reconhecia não apenas uma imagem, mas uma sentença. Gael estava no centro, mais jovem, sorrindo para alguma coisa fora do enquadramento, enquanto Theo aparecia ao lado dele com aquele mesmo olhar reservado que Kiran conhecia tão bem. Helena estava mais atrás, Noah segurava um copo e Dante tinha uma das mãos apoiada no ombro de Gael. Era uma fotografia banal. Talvez esse fosse o pior detalhe. Não havia nada nela que parecesse extraordinário, nenhuma pista óbvia de tragédia, nenhuma sombra dramática denunciando o peso que aquela noite carregaria anos depois. Apenas cinco pessoas jovens demais para entender que certas noites não terminam quando amanhece. Theo colocou a fotografia novamente sobre a mesa.
— Eu conheci o Gael.
Kiran respirou fundo.
— Todos vocês conheceram.
— Sim.
— E ninguém me contou.
Theo sustentou o olhar dele.
— Não.
A honestidade daquela resposta pareceu atingir Kiran com mais força do que uma mentira teria atingido. Ele esperava resistência, talvez uma tentativa de negar, mas não aquilo. Não aquela confirmação seca, quase brutal. Caminhou lentamente pela sala, olhando ao redor como se estivesse enxergando o apartamento de Theo pela primeira vez. Tudo ali parecia exatamente como deveria ser: sofisticado, organizado, silencioso. Nenhum objeto fora do lugar. Nenhuma evidência de que aquele homem pudesse ter passado anos carregando uma história que envolvia seu irmão. Kiran virou-se.
— Quando?
Theo demorou alguns segundos.
— Antes de você chegar à nossa vida.
— Isso não responde.
— Eu sei.
— Então responde direito.
Theo passou a mão pelo rosto e, pela primeira vez desde que Kiran o conhecera, pareceu não saber onde colocar as próprias mãos.
— Eu conheci o Gael alguns anos antes de conhecer você. Helena também. Noah. Dante.
— E vocês eram amigos?
Theo olhou novamente para a fotografia.
— É uma palavra simples demais.
— Então me dê uma palavra melhor.
Silêncio.
— Éramos próximos.
Kiran soltou o ar pelo nariz.
— Próximos quanto?
— Kiran... Não tivemos nenhum relacionamento amoroso se é isso que você quer saber... Seu irmão, até onde eu sabia, era hétero.
— Você sabia quem eu era?
Theo ergueu os olhos. A pergunta ficou entre os dois.
— Quando eu conheci você? Não.
Kiran estreitou o olhar.
— E depois?
Theo não respondeu. Foi o bastante. Kiran recuou um passo.
— Depois você descobriu.
— Sim.
— E mesmo assim continuou comigo.
— Sim.
— Continuou me beijando. Continuou me olhando como se eu fosse alguma coisa que você queria.
A mandíbula de Theo travou.
— Porque você era.
Kiran ficou em silêncio. Aquilo doeu mais do que deveria.
— Então por que você nunca me contou?
Theo se aproximou, mas parou antes de encurtar completamente a distância entre eles.
— Porque eu sabia que, quando você descobrisse, não conseguiria separar o que aconteceu com ele do que aconteceu entre nós.
— Você não tinha esse direito.
— Sei disso.
— Não. — Kiran balançou a cabeça. — Você ainda não entendeu. Você decidiu por mim. Todo mundo decidiu por mim.
Theo baixou os olhos.
— Eu achei que estava protegendo você.
Kiran riu, mas os olhos estavam úmidos.
— É impressionante como essa frase sempre aparece quando alguém quer justificar uma mentira.
Do lado de fora, São Paulo continuava acesa, indiferente. Os carros avançavam pelas avenidas, os restaurantes ainda recebiam mesas tardias, pessoas brindavam a negócios que talvez não durassem uma semana e casais discutiam em silêncio dentro de carros presos no trânsito. A cidade continuava vivendo como se aquela sala não estivesse prestes a desmoronar.
"E talvez fosse justamente por isso que eu sempre gostei tanto de Jardins. As maiores tragédias nunca precisam de tempestade. Às vezes, basta uma fotografia sobre uma mesa."
XOXO,
GG. 💋
— E o que aconteceu com ele? — Kiran perguntou.
Dessa vez, Theo não respondeu. O silêncio mudou de natureza. Até aquele momento, havia sido o silêncio de alguém tentando encontrar palavras. Agora era o silêncio de alguém que sabia exatamente quais palavras deveriam ser ditas e compreendia que, depois delas, não existiria mais caminho de volta. Kiran percebeu. Talvez tivesse percebido antes mesmo de entrar naquele apartamento. Aproximou-se da mesa e colocou as duas mãos sobre ela, mantendo os olhos fixos em Theo.
— Foi naquela noite, não foi?
Theo ergueu o rosto. Kiran sentiu o estômago se fechar.
— A noite em que Gael desapareceu da vida de vocês.
Theo não negou.
— Sim.
Uma única palavra. Baixa. Definitiva. Kiran fechou os olhos por alguns segundos. Quando tornou a abri-los, havia algo diferente em sua expressão. Não era mais apenas a mágoa de descobrir que o homem que amava havia escondido uma parte fundamental de sua história. Era a compreensão de que todos aqueles silêncios tinham uma data, um lugar e provavelmente testemunhas.
— Quem estava lá?
Theo respirou fundo.
— Nós cinco.
Kiran ficou imóvel.
— Nós cinco?
— Eu, Helena, Noah, Dante... e Gael.
— O que aconteceu?
Theo desviou o olhar para a janela.
— Não foi planejado.
— Mas aconteceu.
— Sim.
— E você tomou uma decisão.
Theo voltou a encará-lo. Aquela era a parte que Kiran ainda não conhecia. A parte que havia atravessado todos os anos sem jamais ser pronunciada. O motivo pelo qual Eduardo guardara documentos. O motivo pelo qual Noah carregava uma culpa que nunca soubera nomear. O motivo pelo qual Dante sempre parecera saber mais do que dizia. O motivo pelo qual Helena, mesmo quando tentava proteger Theo, jamais conseguira olhar para aquela história sem uma sombra atravessando o rosto.
— O que você decidiu? — Kiran perguntou. Theo ficou alguns segundos em silêncio.
— Que ninguém procuraria por ele naquela noite.
Kiran franziu a testa.
— Como assim?
— Gael estava decidido a contar tudo.
— Contar o quê?
Theo fechou os olhos.
— Sobre nós. Sobre o que tinha acontecido. Sobre coisas que poderiam destruir pessoas.
— Pessoas como você?
— Pessoas como meu pai.
O nome de Eduardo pareceu mudar a temperatura da sala. Kiran se afastou da mesa.
— Meu irmão sabia alguma coisa sobre sua família.
— Sabia.
— E você sabia que ele ia falar.
— Sim.
— Então você fez alguma coisa para impedir.
Theo não respondeu.
— Theo.
— Eu tentei convencê-lo a esperar, está bem?
— E ele não esperou.
— Não.
— Então o que você fez?
Theo finalmente encarou Kiran.
— Eu mandei que todos fossem embora.
Kiran ficou em silêncio.
— Todos?
— Helena, Noah e Dante.
— E Gael?
Theo engoliu em seco.
— Gael ficou.
Kiran sentiu os olhos arderem.
— Sozinho com você?
— Sim.
— E depois?
Theo olhou para a fotografia sobre a mesa.
— Depois daquela noite, Gael desapareceu.
Kiran deu um passo para trás.
— Desapareceu para quem?
Theo demorou.
— Para todo mundo.
— Não. — A voz de Kiran endureceu. — Para vocês.
E, pela primeira vez, Theo não tentou corrigir. A resposta atravessou Kiran com uma violência silenciosa. Ele pegou a fotografia e apertou-a entre os dedos.
— Então me conta tudo.
Theo não se mexeu.
— Tudo, Theo. Sem proteger seu pai. Sem proteger Helena. Sem proteger Noah. Sem proteger Dante. E, principalmente, sem me proteger.
Theo olhou para ele por um longo instante. Então caminhou até a janela, abriu a cortina e deixou que a noite de São Paulo entrasse pela sala.
— Você realmente quer saber?
Kiran respondeu sem hesitar:
— Eu passei a vida inteira sem saber.
Theo fechou os olhos.
— Então vou contar.
"E foi exatamente nesse momento, queridos, que o pacto deixou de ser um segredo e virou uma confissão."
XOXO,
GG. 💋
Theo permaneceu diante da janela por alguns segundos, olhando para as luzes da cidade como se procurasse nelas alguma resposta que não encontrara durante todos aqueles anos. Quando finalmente se virou, havia algo diferente em seu rosto. Não era mais o homem que controlava cada palavra antes de pronunciá-la. Era alguém muito mais jovem escondido dentro dele, alguém que ainda carregava o peso daquela noite como se nunca tivesse conseguido realmente sair dela.
— Gael descobriu coisas sobre o meu pai — começou. — Coisas que não deveriam ter chegado até ele. Contratos, nomes, acordos, pessoas que Eduardo tinha comprado para manter determinados negócios longe dos olhos certos. Ele descobriu como algumas coisas funcionavam por trás do Grupo Montenegro. E descobriu que aquilo não terminava nos negócios. Havia pessoas protegidas, favores antigos, dinheiro circulando onde não deveria. Gael juntou tudo. E decidiu que iria contar.
Kiran permaneceu imóvel, mas em nenhun momento deixou de encará-lo.
— Para quem?
— Para qualquer pessoa que pudesse fazer alguma coisa.
— E ele contou para você.
Theo assentiu.
— Contou tudo.
— E você acreditou nele.
— Eu sabia que era verdade.
A resposta saiu tão rapidamente que Kiran sentiu um arrepio percorrer o corpo.
— Então por que você não ficou do lado dele?
Theo baixou os olhos.
— Porque eu entrei em pânico.
Foi a primeira vez que ele disse aquilo sem tentar transformar a palavra em outra coisa.
— Eu era jovem. Eu tinha construído minha vida inteira acreditando que meu pai era intocável, que o Grupo Montenegro era o meu futuro, que tudo aquilo que eu conhecia simplesmente existiria para sempre. Quando Gael me mostrou o que tinha descoberto, eu percebi que, se aquilo viesse a público, não seria apenas Eduardo que cairia. Seria a minha família. O grupo. Meu nome. Tudo.
— E você teve medo de perder tudo.
— Tive.
Kiran respirou fundo.
— Então, o que você fez?
Theo fechou os olhos.
— Liguei para o meu pai.
O silêncio seguinte foi tão absoluto que Kiran conseguiu ouvir o ruído distante da cidade atravessando as janelas.
— O que você disse?
— Contei que Gael sabia. Contei o que ele tinha. Disse que não sabia o que fazer.
— Você pediu ajuda.
Theo assentiu.
— Eduardo perguntou onde estávamos.
Kiran já sabia a resposta antes de ouvi-la.
— E você contou.
— Sim.
A voz de Theo quase desapareceu.
— Pouco tempo depois, os homens chegaram.
Kiran sentiu o peito apertar.
— Homens do seu pai?
— Sim.
— Para conversar com Gael?
Theo demorou.
— Não.
Kiran desviou o rosto. Por um instante, pareceu incapaz de continuar ouvindo.
— Eles queriam apagar tudo — Theo disse. — Gael, os documentos, qualquer coisa que pudesse levar até meu pai. Eu tentei impedir. Mas já era tarde.
— Você estava lá?
— Estava.
— Você viu?
Theo assentiu.
— Vi.
Kiran ficou parado diante dele, esperando que aquela palavra finalmente recebesse o significado que merecia.
— O que fizeram com ele?
Theo demorou tanto que Kiran entendeu que a resposta seria pior do que imaginava.
— Quase mataram Gael.
Kiran levou a mão à boca.
— Quase?
— Ele sobreviveu. Por pouco. Ficou gravemente ferido. Houve uma lesão neurológica muito séria. Quando o encontrei depois... — Theo precisou interromper a frase. — Ele não conseguia enxergar direito.
Kiran fechou os olhos. Theo continuou, agora sem conseguir esconder a culpa.
— Meu pai mandou que ele fosse levado para Londres. Discretamente. Havia médicos que poderiam cuidar dele sem fazer perguntas, pessoas que podiam manter tudo longe dos registros que interessavam. Gael foi enviado para lá porque era mais fácil fazê-lo desaparecer do que explicar por que tinha sobrevivido.
— E você sabia.
— Sabia.
— Sabia para onde ele estava indo.
— Sim.
— Sabia que ele estava vivo.
— Também.
Kiran deu um passo para trás.
— E você não foi atrás dele.
Theo não respondeu.
— Você não foi.
— Não.
— Por quê?
Theo olhou diretamente para ele.
— Porque eu escolhi a minha família.
A frase caiu entre os dois sem possibilidade de defesa. Kiran riu uma única vez, mas havia lágrimas em seus olhos.
— Não. Você escolheu seu sobrenome.
Theo aceitou.
— Eu escolhi tudo aquilo que acreditava que perderia se falasse.
— E deixou meu irmão pagar por isso.
— Infelizmente.
Não houve justificativa. Não houve “mas”. Pela primeira vez, Theo não tentou salvar a própria imagem. Kiran pegou a fotografia da mesa e a segurou contra o peito.
— Você sabe onde ele está?
— Eu sei que ele foi para Londres. Depois disso, não sei o que aconteceu.
— Então eu vou descobrir.
Theo levantou o rosto.
— Kiran...
— Eu vou para Londres.
O medo atravessou a expressão de Theo.
— Você não sabe o que pode encontrar.
— Não importa.
— Pode ser perigoso.
Kiran o encarou.
— Você está com medo de eu encontrar meu irmão ou de eu descobrir o que mais seu pai fez?
Theo não respondeu. Kiran caminhou até a porta.
— Eu vou encontrá-lo.
Theo permaneceu onde estava.
— E nós?
Kiran parou com a mão na maçaneta. Por alguns segundos, não olhou para trás. Quando finalmente se virou, havia tristeza em seu rosto, mas nenhuma dúvida.
— Chegou a minha hora de escolher a minha família.
A porta se fechou e Theo ficou sozinho. Sozinho com a fotografia. Sozinho com o silêncio. E, pela primeira vez, sozinho com a escolha que havia feito anos atrás.
"Porque algumas pessoas passam a vida inteira tentando proteger o mundo que construíram. Até descobrirem que, para mantê-lo de pé, precisaram destruir exatamente aquilo que mais amavam."
XOXO,
GG. 💋
A porta se fechou, mas Theo continuou olhando para ela como se Kiran ainda estivesse do outro lado. Não se moveu. Não tentou alcançá-lo. Pela primeira vez, talvez porque finalmente tivesse entendido que qualquer tentativa de impedi-lo seria apenas uma repetição daquela noite, deixou que alguém fizesse a própria escolha. A fotografia permanecia sobre a mesa, e Theo voltou até ela devagar, tocando a imagem de Gael com a ponta dos dedos. Durante anos, havia conseguido transformar aquela noite em uma sequência de decisões inevitáveis: o medo, o telefonema, Eduardo, os homens, o silêncio, Londres. Uma cadeia de acontecimentos que, contada na ordem certa, quase parecia não ter sido escolha de ninguém. Mas Kiran havia acabado de arrancar a última desculpa. Theo não fora apenas uma testemunha. Ele havia ligado. Ele havia contado. Ele havia escolhido.
O telefone vibrou sobre a bancada. Uma mensagem de Helena.
“Ele foi?”
Theo olhou para a tela durante alguns segundos antes de responder.
“Sim.”
A resposta veio quase imediatamente.
“E você?”
Theo digitou algumas palavras, apagou. Tentou novamente.
“Fiquei.”
Helena demorou alguns segundos.
“Então talvez finalmente tenha entendido o que fez.”
Theo não respondeu.
Em outro apartamento, Helena estava sentada no chão diante da janela, ainda vestida como havia saído naquela noite. O celular descansava sobre o tapete entre suas mãos. Ela sabia que aquele momento chegaria desde que Theo os reunira para contar que Kiran sabia de todos eles. Só não imaginara que seria tão definitivo. Noah estava sentado no sofá diante dela, silencioso, os cotovelos apoiados nos joelhos. Havia passado os últimos minutos olhando para o próprio telefone sem coragem de verificar as mensagens que continuavam chegando.
— Você sabia que seria assim? — Noah perguntou. Helena ergueu os olhos.
— Não.
— Eu achei que você soubesse tudo.
Ela quase sorriu.
— Esse sempre foi o problema, Noah. Todo mundo acha que eu sei tudo.
Ele abaixou a cabeça.
— Eu devia ter contado.
— Devia.
— Eu tive medo.
— Eu também.
Noah olhou para ela. Helena estendeu a mão e pegou o telefone dele, colocando-o virado para baixo sobre a mesa.
— Acabou.
— A perseguição?
— O pacto.
Noah ficou em silêncio.
— E agora?
Helena olhou para ele.
— Agora você para de correr.
Naquela mesma noite, a pessoa que havia perseguido Noah finalmente deixou de ser uma sombra. O último arquivo enviado para seu telefone continha as fotografias que haviam sido usadas contra ele durante semanas, mas também trazia algo diferente: uma identificação.
O homem que as havia conseguido trabalhava para uma empresa de investigação privada contratada por uma holding ligada aos Montenegro. Não havia sido enviado para destruí-lo. Havia sido enviado para descobrir qual dos cinco quebraria primeiro e se algum deles ainda guardava provas daquela noite. Noah entendeu, finalmente, por que as mensagens nunca pediam dinheiro. Nunca quiseram seu dinheiro. Queriam seu silêncio.
Ele abriu o último arquivo. Havia apenas uma frase:
“Agora que Kiran sabe, não precisamos mais de você.”
Noah encarou a tela e, pela primeira vez desde que tudo começara, não sentiu medo. Sentiu raiva, apagou a mensagem e começou a reunir tudo o que havia guardado.
Enquanto isso, muito longe dali, Luna estava no aeroporto com uma mala ao lado e o passaporte aberto sobre o balcão. O painel anunciava seu voo para Nova York. Ela havia comprado a passagem, organizado a volta e decidido que São Paulo já tinha lhe oferecido mais drama do que qualquer pessoa sensata deveria aceitar em uma única temporada. Então o celular vibrou. Uma mensagem. Luna abriu e leu uma vez. Depois outra. E outra. O rosto mudou. Ela olhou para o painel de embarque, depois para a mensagem e, sem dizer nada, fechou o passaporte, guardando-o celular na bolsa e deixou a fila para trás. Porque, aparentemente, Nova York poderia esperar.
"Queridos, vocês realmente acharam que Luna sairia de Jardins sem descobrir alguma coisa que ninguém mais descobriu?
Eu também não."
XOXO,
GG. 💋
Luna não embarcou. Ficou sentada por alguns minutos no lounge do aeroporto, o passaporte fechado sobre a mesa e o painel anunciando seu voo para Nova York como se aquilo ainda fosse o destino óbvio. A mensagem continuava aberta no celular: um endereço em Londres e uma frase curta demais para ser inocente
“Se você realmente quer saber por que Gael nunca voltou, procure este endereço.”
Luna releu uma última vez, levantou os olhos para o movimento do aeroporto e sorriu de lado. São Paulo já tinha lhe dado drama suficiente para uma vida inteira, mas Londres era outra história. Guardou o celular na bolsa, levantou-se e deixou o portão de embarque para trás. Nova York poderia esperar. Afinal, uma mulher como Luna nunca abandona uma história quando descobre que ainda existe um segredo melhor escondido no próximo capítulo.
Na mansão Montenegro, Eduardo estava sozinho em seu escritório. Sobre a mesa havia documentos antigos, uma pasta com o nome de Gael Alves e um passaporte que não deveria mais existir. Ele abriu a pasta lentamente, retirou uma fotografia e ficou alguns segundos observando o rosto de Gael. Não havia culpa em sua expressão. Havia cálculo. Eduardo pegou o telefone e fez uma única ligação.
— Quero saber se Londres continua recebendo correspondência naquele endereço.
Escutou a resposta sem interromper.
— Não. Não quero que procurem Gael. Quero saber quem está procurando por ele.
Desligou. Guardou novamente a fotografia dentro da pasta e fechou-a com cuidado. Depois olhou para o retrato de família sobre a estante. Theo ainda estava ali, muito mais jovem, sorrindo ao lado dele. Eduardo permaneceu diante da imagem por alguns segundos antes de dizer, quase para si mesmo:
— Você sempre foi meu filho antes de ser um Montenegro.
E, pela primeira vez naquela noite, a voz dele pareceu menos segura.
Enquanto isso, Theo não ficou em São Paulo. Depois que Kiran deixou o apartamento, ele permaneceu sozinho por alguns minutos, incapaz de decidir se deveria sentar, ligar para alguém ou simplesmente desaparecer. Então fez a única coisa que sabia fazer quando o mundo escapava do seu controle: agiu. Pouco depois, as portas do elevador privativo se abriram e Theo atravessou o corredor carregando duas malas Louis Vuitton. Não havia elegância naquela cena, apesar das malas, da roupa impecável e do relógio ainda preso ao pulso. Havia pressa. Havia devastação. Havia um homem que acabara de perder a única pessoa diante de quem não conseguira permanecer completamente protegido pelo próprio sobrenome.
No helicóptero, já sobrevoando São Paulo, Theo permaneceu sentado sozinho, olhando pela janela enquanto a cidade diminuía abaixo dele. Não respondeu às mensagens de Helena. Não abriu os e-mails. Não olhou para os documentos. Apenas manteve o telefone na mão, esperando uma mensagem que sabia que não viria. Quando o helicóptero deixou a cidade para trás, Theo finalmente encostou a cabeça no banco e fechou os olhos.
"Dinheiro pode comprar Louis Vuitton, Dolce & Gabbana e Loro Piana. Mas não pode comprar de volta um coração depois que ele decide parar de pertencer a você."
XOXO,
GG. 💋
Horas depois, o helicóptero pousou no Rio de Janeiro. Theo seguiu diretamente para seu duplex na orla da Barra da Tijuca, levando consigo as malas, o silêncio e uma culpa que nenhum patrimônio seria capaz de acomodar. O mar estava escuro diante das janelas quando ele entrou. Não acendeu todas as luzes. Deixou apenas a iluminação baixa da sala, largou as malas perto do corredor e ficou parado diante da vista, imóvel, como se esperasse que o horizonte lhe devolvesse alguma coisa. Não devolveu.
Então a campainha tocou. Theo franziu a testa. Naquela hora, ninguém deveria estar ali. Ninguém, exceto Kiran, porém, ele não sabia da existência daquele lugar, tampouco o endereço. A campainha tocou novamente, parecendo impaciente. Ele caminhou até a porta e abriu. Dante estava do outro lado. Sem aviso. Sem sorriso. Sem qualquer explicação sobre como havia chegado ao Rio tão rápido. Durante alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. Theo apenas o encarou e Dante sustentou o olhar.
Dante não precisou dizer nada. Theo sabia por que ele estava ali. Sabia também que deveria fechar a porta, pedir que fosse embora, proteger o pouco que ainda restava daquela noite e da sua dignidade. Mas Dante permaneceu diante dele, próximo o bastante para que o silêncio se tornasse uma provocação, e Theo não recuou. O primeiro toque foi quase cuidadoso, como se ambos soubessem que estavam atravessando uma fronteira que não poderia ser desatravessada depois. O beijo veio em seguida, carregado de anos, ressentimento e uma familiaridade que Theo odiava reconhecer. Por um instante, fechou os olhos e Kiran voltou à sua cabeça — o olhar dele antes de partir, a fotografia sobre a mesa, aquela frase que ainda parecia ecoar dentro do apartamento: “Chegou a minha hora de escolher a minha família.” Theo tentou se afastar. Não conseguiu.
Dante conhecia aquele silêncio. Conhecia a maneira como Theo escondia a dor atrás da postura impecável, como respirava mais fundo quando estava prestes a perder o controle. A mão de Dante subiu até seu rosto e Theo permaneceu ali, dividido entre a culpa e uma vontade antiga que nunca havia desaparecido completamente. A noite, do lado de fora do apartamento, assistia enquanto os dois atravessavam o lugar em passos lentos, deixando para trás o telefone, a fotografia, as perguntas e tudo aquilo que ainda doía. A camisa de Theo acabou abandonada sobre uma poltrona; as calças de Dante foram tiradas antes mesmo de chegar na suíte. A porta se fechou. Depois, apenas flashes: a luz dourada atravessando as cortinas, a respiração de Theo ficando irregular, os dedos apertando a colcha involuntariamente enquanto arrepios subiam pela coluna, o tecido amassado sob suas mãos, a pele quente de Dante se esfregando à sua, constante, o suor brilhando sob a luz baixa, um gemido abafado contra o travesseiro antes que ele tentasse recuperar o controle. Dante o beijou novamente, e Theo respondeu. Não porque tivesse esquecido Kiran, mas porque, por alguns minutos, queria desesperadamente esquecer tudo.
E conseguiu.
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