Júpiter e Vênus

41 Cinco segundos de silêncio


PEDRO

Oito e quarenta e cinco era o que marcava meu celular e o relógio acima da porta de entrada do restaurante. Juntei as mãos, ignorando os olhos dos funcionários. Gabriel não disse nada sobre aparecer. Eu quem o chamei no susto e ele foi embora. Balancei as pernas. Ele tá preso no trânsito (que trânsito?), ele perdeu a hora, ele recebeu uma ligação importante.

GABRIEL NÃO ME DEU UM BOLO QUE EU SEI .

— Ainda esperando? — o garçom perguntou.

Seu tom parecia querer jogar na minha cara o fato.

— Sim.

— Okay.

Olhei para minha imagem no espelho frontal. Eu vestia uma camisa cinza de mangas ¾ e calça vinho. Meu olhar exprimia toda a esperança que eu tinha de que ele viria. Vou esperar até nove e dez. Um gosto amargo me veio à garganta. E se ele me deu um bolo mesmo? Eu precisava conversar com Gabriel. Eu precisava contar tudo o que estava preso dentro.

Eu só tinha aquela oportunidade.

Eu sinceramente não esperei que ele chegasse no meu quarto durante a manhã. Eu não havia me conformado com ELE ME DEIXANDO lá na universidade pela milésima vez, mas pelo menos eu tinha dito o mais importante: que era gay e que era apaixonado por ele. No entanto, ele no meu quarto reacendeu todas as esperanças de tê-lo de volta. Eu só desejava uma chance agora.

Uma única chance era o suficiente.

O tempo passava. Cada minuto era uma gota de suor.

Nove.

Nove e um.

Nove e dois.

Nove e três.

Nove e quatro.

Nove e cinco.

Nove e nove.

— Oi, Pedro.

Ergui os olhos. Gabriel. Ele veio, ele não me deu um bolo. Ele veio! Meu coração disparou como costumava disparar quando aquele ser estava próximo. Ele sentou na cadeira da frente. Usava uma camisa branca e calça jeans. Tentei arrumar minha postura, passando de ansioso para seriamente nervoso. Todas as palavras que ensaiei horas e horas no banheiro me fugiam.

— Oi. Gabriel. — Pausa. — Você veio.

— Mas pensei seriamente sobre não vir. — Ele respondeu.

Respirei fundo. Eu sabia que ele estava magoado e possuía o direito de estar. De todas as pessoas, Gabriel foi quem mais desprezei, embora nutrindo ao mesmo tempo sentimentos por ele. Porque eu era o idiota. Tive que perdê-lo, e perdê-lo de verdade, para entender que ele não era minha posse pessoal, que ele não estaria disponível para sempre.

— Tudo bem. Eu entenderia se não tivesse vindo.

O jovem balançou a cabeça.

— Quem é você, cara? Olha essa barba. Difícil até de te reconhecer fisicamente.

Toquei a barba no meu queixo. Ela havia surgido como efeito colateral de um dos muitos remédios tarja preta que tive que tomar. Me deixava um pouco diferente. Talvez, mais velho. Eu gostava, entretanto. Era uma das coisas que invejava em Gabriel antes. E me parecia um ponto de mudança entre o Pedro dos 18 anos e o Pedro de agora.

Quase uma cicatriz física.

— Que pacto com o diabo fez para criar barba? — Ele sorriu com os lábios tortos. — Você era mais liso do que mulher.

Como contar o que houve depois que minha mãe morreu?

— Tu tá quase branco. — Eu disse.

— Nunca vou ser branco. — Gabriel deu de ombros. — É só a falta de sol na Inglaterra.

O meu gato borralheiro estava na Inglaterra e eu estava em Minas Gerais. O garçom veio pela segunda vez e dessa vez fizemos pedido. Mas nenhuma comida. Eu pedi água e ele pediu Coca-Cola. Ficamos em silêncio até que essas bebidas chegassem. Silêncio constrangedor. Só depois do primeiro gole no refrigerante que ele falou outra vez.

— O que houve com o Caio e a Jéssica?

— Casaram.

Ele riu.

— Como assim?

— Sei lá. Casaram.

Vez em quando eu achava que eu quem os uni. Foi após aquele porre de vodka em que eu quase morri que eles se aproximaram ainda mais. Ou sei lá. Eles estavam bem, muito bem. Muito melhor do que eu. Eu não sabia o que seria de minha vida sem Caio e sem Jéssica do meu lado. Por eles que eu não estava completamente sozinho.

— E como vocês três chegaram em Minas?

— Eles dois conseguiram um emprego bacana aqui e eu que não tinha nada a perder vim também.

Como bagagem.

— E a fazenda?

Meu pai me deserdou. E ainda que não o tivesse feito, eu teria dado o fora. Não tinha nada sem minha mãe naquele lugar. Mas Gabriel estava fazendo perguntas demais, chegando perto demais do ponto. Levei o copo de água aos lábios. Eu queria falar, mas assim não. Assim não conseguia. Ele cruzou os braços como quem aguardava.

— Passa tempo em São Paulo? — Indaguei, procurando fugir.

— Eu fico de outubro à março em Londres e de abril à setembro em São Paulo.

— Vai ficar nisso até quando?

— Não sei, provavelmente vou acabar ficando só em São Paulo.

Londres era demasiado longe. Ele olhou ao redor por um minuto.

— Bem, tem muita gente aqui. Não se incomoda de ser visto com um homem assim? Parece um encontro. O que as pessoas vão pensar?

— Não me incomodo.

— Não?

— Não.

— Surpreso. Gostar de homens sempre foi seu ponto nevrálgico. Supostamente heterossexual. Tanto que...

A acusação estava ali. Ele não falou com todas as letras o que eu disse anteriormente, mas notei o que ele quis dizer. Apertei um guardanapo próximo sob o peso de seus olhos verdes. Era mais difícil do que eu pensei. Onde estava a minha coragem? Certas palavras se acumulavam na minha garganta, mas paravam nela, estacionadas.

Como na noite que transamos em que eu não consegui expressar o que eu sentia.

Era a porcaria do meu problema.

Droga, eu fazia porcaria de terapia e aquilo continuava.

— As pessoas mudam. — Tudo o que pude pronunciar.

— Quem me garante que mudou? — Gabriel ergueu uma sobrancelha. — Tenho nenhuma garantia aqui, Pedro.

— Eu fiquei sem você.

— Pedro, foi uma bênção ficar sem você. — Ele esfregou a mão no queixo, suspirando e apoiando as costas na cadeira. — E eu nem sei ainda por que cometi a iditioce de vir falar contigo.

Ele não estava somente magoado. Gabriel estava com raiva real. Eu me recordava de como ele costumava falar comigo e não era daquele jeito. E todos os sentimentos junto com as palavras não-ditas ardiam dentro do meu peito por parecer que jamais alcançariam o destinatário. Talvez não existisse chance. Talvez aquele era o fim.

Convenhamos que eu merecia.

— Fala alguma coisa. — Ele bufou com frustração. — Foi você quem me chamou para vir aqui.

— Eu sei que te machuquei.

— Não, Pedro. — Gabriel esfregou os olhos. — Você não tem ideia na verdade. Você não tem ideia de como estragou minha vida. Eu tive que reiniciar tudo do zero. Por sua causa.

— Eu não queria que fosse assim.

— Mas.

Cobri o rosto com as mãos. Não. Eu não via saída. Gabriel não aparentava estar com vontade de me perdoar. Okay, eu teria que conviver com isso. Eu viveria o resto da minha vida miserável, sozinho, sendo o filho adotivo de Jéssica e Caio até que eles se cansassem de mim, sem Gabriel, sem minha mãe, comprimido pelo que fiz.

— Eu vou embora. — Gabriel levantou. — Tenho que dormir cedo para ir embora amanhã. Chega, Pedro.

Com um aceno, chamou o garçom pela conta. Pagou o refrigerante e a água. Eu observei paralisando, assistindo o cara que eu na verdade amava indo embora novamente. Por quê? Cerrei os punhos enquanto ele saía. Não, não, não. Ele iria pegar o caralho de um avião e Londres estava além das minhas possibilidades.

Eu o segui na rua.

Correndo.

— ME PERDOA, GATO BORRALHEIRO.

Gritei. Aquela cidade não tinha trânsito para que todo mundo não parasse e prestasse atenção em um loiro acabado como eu na calçada. Gabriel estava prestes a entrar em um táxi. Ele segurou a porta, me encarando. Ele não tinha que ficar comigo. Eu só desejava que me perdoasse. Se ele me perdoasse, talvez, eu me perdoaria também.

— Por favor. — Acrescentei com desespero.

Ele fechou a porta do táxi. O táxi sumiu. Eu me aproximei.

— Quer que eu te perdoe? — Perguntou.

— Só isso.

Gabriel olhou para o céu, me olhou. Sua respiração se marcava no ar frio da noite. Meu coração ardeu com desesperança. Porém, ao menos, pedi o que mais necessitava acima de tudo. Ele poderia não me perdoar, mas, tentei. Seria menos amargo no final. Ele enfim baixou os olhos para os meus olhos (continuava maior do que eu).

— Vem cá, Pedro.

Ele me fez sentar numa espécie de banquinho na frente de uma loja de flores fechada.

— O que aconteceu com você?

Peguei meu celular do bolso. Não era um Iphone, a propósito. Procurei no Google os termos das notícias que estavam relacionadas à morte de minha mãe. Os jornais, abutres, tinham que anunciar aquilo. E estaria para sempre na internet. Meus dedos tremiam. Eu duvidava que ele não soubesse, mas. Passei o aparelho para suas mãos.

— O quê? — Franziu o cenho.

— Só lê.

— Herdeiro de elite rural mata a própria mãe em acidente de carro...

Preferivelmente não em voz alta. Ele desceu o polegar na tela. Uma foto familiar apareceu. Desviei o olhar. Eu não suportaria ver sem desabar.

— Meu. Deus.

Não encarei seu rosto. Foquei nos meus pés. Eu me esforçava para não lembrar, contudo, como não lembrar de algo que teria consequências até minha própria morte? E por uma estupidez tão grande, mas tão grande, mas tão grande, que eu sentia mais vergonha do que tristeza. Ele tocou no meu braço, um toque de verdade em dez anos.

— Pedro. Olha pra mim.

Balancei a cabeça na negativa, as lágrimas se acumulando no canto dos meus olhos, prontas para rolarem.

— Não.

— Eu não sabia. Meu Deus, tua mãe, eu não sabia. Ninguém me disse nada e eu mesmo nunca procurei saber de alguma coisa da tua família, eu não sabia, Pedro.

— Não importa, não mais.

Eu queria me convencer de que não importava. Queria. Todavia, chorei de uma vez. Gabriel carregou minha cabeça para seu colo. Meu corpo se sacudiu enquanto um dos meus fantasmas tomava lugar no que havia de escuro em mim. Ele acariciou meu cabelo, em silêncio. Eu me encolhi. Suas mãos eram meu único conforto, conforto momentâneo.

— Eu a matei.

— Tu não quis fazer isso.

— Mas eu fiz.

Gabriel se calou.

— Eu quis muito me matar. — O que estava emperrado na garganta encontrava caminho para sair. — Mas tive tratamento psiquiátrico. Não bebo mais. Tô fazendo terapia. A Jéssica sempre fica de olho em mim. Eu só preciso que tu me perdoe porque vai ser um peso a menos. Ela não tá aqui para me perdoar.

— Eu tenho certeza que ela te perdoaria. — Ele respirou fundo. — Ela te amava mais do que qualquer coisa dessa terra.

Escapei de seu colo. Jéssica disse algo parecido. Cristina disse algo parecido. Minha mãe me amava. Ela me perdoaria. Perdoaria o filho idiota que pôs no mundo e tirou sua vida. Pessoas cometem erros. Mas quem sabe? Eu não conseguia imaginar. Era difícil conceber na minha mente o perdão dela. Gabriel manteve a mão no meu braço.

— Não sinta pena de mim. — Subitamente desprezei a mão que tanto considerei dois minutos antes.

— Eu não sinto. Eu tô vendo que tu foi mais forte do que tu pensava que era.

— Eu não sou forte, seu idiota! — Por pouco não gritei, olhos ainda úmidos. — Se eu fosse forte, eu teria me mudado para o Paraná sem mexer com a vida da única pessoa que me amava!

Ele sorriu.

— Eu só fugi, Pedro. Fugir não é ser forte. Eu não estaria aqui se fosse você.

Os carros passaram diante de nós com seus faróis, nos iluminando de tempo em tempo. Visto que o poste mais próximo estava na frente do restaurante, estávamos meio que no escuro. Senti que deveria ir para casa. Gabriel não iria esquecer o que fiz a despeito do meu pedido. Continuar com ele só machucava.

— Quem disse que eu queria estar aqui? — Finalmente respondi. — Eu vou para casa. Boa viagem de volta para Londres.

[...]

Rolei na minha cama solitária em plenas seis da manhã. Não teria trabalho ainda. Era domingo. O que na verdade piorava tudo. Ter o trabalho como algo para distrair a cabeça seria bem melhor do que continuar na cama pelas próximas horas. Eu imaginava Gabriel pegando um avião em São Paulo antes do meio-dia. Perdido para sempre de mim.

Eu quem fui embora agora, mas porque não vi saída. Ele não iria me perdoar e ficar falando de minha mãe era impossível para minha cabeça. Mas tudo bem. Eu tentei. Eu disse que era gay. Eu disse que era apaixonado por ele. Eu pedi que ele me perdoasse. Eu disse tudo o que mais importava. Eu tentei. Não iria me punir por isso.

De repente, a porta do meu quarto se abriu. Jéssica entrou. Enfiei a cara no travesseiro.

— Chegou cedo ontem. — Ela falou, ciente de que eu estava acordado.

— Eu sei.

— Não deu certo?

— Não.

Doía demais saber que quando ele voltasse para o Brasil, voltaria para São Paulo e não para Minas. Doía demais saber que algumas coisas não têm conserto. Ela suspirou, deitou ao meu lado e me abraçou. Fechei os olhos. Só Jéssica mesmo para não me permitir quebrar em pedaços antes das oito da manhã de um domingo. Com ela ali, acabei caindo no sono novamente.

— Hey, vocês dois. — Caio nos sacudiu algum tempo depois. — Temos visita.

Jéssica se esticou por cima do meu corpo.

— Mas quem?

— Adivinha.

— Quem? — Esfreguei as pálpebras.

— Gabriel, Pedro. — Caio respondeu.

— Mas ele ia para São Paulo pegar um voo para Londres.

— Aparentemente ele mudou de ideia.

Tudo em mim despertou de uma vez. Gabriel. Em casa. De novo. Pulei de uma vez da cama e desci. Ele estava na sala, sentado no sofá de pernas cruzadas. Trocamos um olhar. Eu estava horrível, claro, com o visual de quem acabou de acordar. Ele estava bem arrumado: camisa preta de manga longa, calça jeans, sapatênis.

Quem diria que o gato borralheiro estaria mais fabuloso que eu um dia.

— Não ia para São Paulo? — Perguntei atônito.

— Adiei isso para terça-feira.

— Por quê?

— Eu passei a noite toda pensando em te perdoar. — Meus batimentos aumentaram a velocidade. — Decidi tentar, Pedro.

Mordi o lábio. Nem tive coragem de perguntar “isso é sério?” com medo de ser retirado de um sonho matutino muito lindo.

— Quer dar uma volta comigo? — Convidou.

— Eu... Preciso tomar um banho.

— Espero.

Retornei ao quarto em um pulo. Jéssica e Caio continuavam lá, conversando. Eles pareciam os adultos falando a respeito da criança, que no caso era eu. Peguei minha roupa no guarda-roupa, e, com uma toalha no ombro, me tranquei no banheiro. Tomei um banho rápido e escovei os dentes. Me vesti lá dentro mesmo: camisa e bermuda.

— Alguém te chamou para sair? — Jéssica perguntou com um sorriso largo quando terminei.

— Pra merda, Jéssica.

Passei um pente no cabelo, dando as costas para os dois.

— Pedro. — Ela disse.

— Oi.

— Se ele veio aqui de novo é porque ainda sente algo por ti.

Preferi não pensar nisso. Eu não queria pensar nisso. Ele estava ali. Outra vez. Tudo bem, não era uma segunda chance, era uma milésima chance, e... Droga. Eu nem sabia o que pensar na verdade. O meu gato borralheiro cancelou um voo para Londres porque decidiu tentar me perdoar. Era perfeito demais. Não era real. Não, não era.

Voltei à sala. Gabriel de fato me esperou, olhando para as paredes.

— Pronto.

— Tu tá... — Ele me encarou. — Tá. Vamos.

O bairro em que eu vivia com Jéssica e Caio era um bairro principalmente residencial, apesar de uma ou duas ruas cheias de lojas e mercados. Havia uma praça a dois quarteirões e foi para lá que nos dirigimos sem pronunciar uma única palavra. O sol ainda não estava totalmente erguido no horizonte. Meti as mãos já suadas nos bolsos.

— Ontem à noite estava frio, hoje tá quente. — Gabriel comentou.

— Normal nessa época do ano.

Ele sentou em um banquinho de cimento. Cruzou os braços e ergueu os olhos verdes para meu rosto.

— Então, tu é gay.

— É. Sou.

— Como foi que teve essa grande descoberta?

Dando o cu pra tu. Eu tinha a lembrança vívida do exato segundo em que admiti na minha cabeça que eu era viado. Porque Gabriel dentro de mim foi a melhor sensação do mundo e seria estúpido demais insistir que eu preferia estar com uma mulher ao invés de estar com ele. Mas doeu. Doeu na fronteira do que eu era capaz de aguentar.

— Quando... — Sentei, vendo que ficar de pé seria complicado. — Quando... Transamos.

Cinco segundos de silêncio.

— E por que caralhos... — Gabriel apertou a testa. — Droga, Pedro, por que diabos disse que eu te estuprei?

Pronto. Tínhamos todas as letras do meu maior pecado escritas no ar diante de nós. Eu cerrei os punhos, fitando o chão. Eu tinha dezenas de justificativas: porque eu estava com medo do meu pai, porque aceitar que eu não era o garoto heterossexual que eu queria acreditar que eu era já havia me arrebentado, porque eu estava destruído.

Mas somente uma se aplicava de fato.

— Porque eu era um idiota que achava que poderia jogar toda a culpa em cima de ti, sem admitir meus atos, escapando ileso.

Eu estava me confessando. Minha suposta dignidade estava enterrada dez anos atrás. Não importava se eu estava humilhado ou não. Seriamente não importava. Ele arregaçou as mangas da camisa até o meio dos braços rudemente, seu olhar me trazendo um gelo áspero na barriga. Esperei qualquer coisa. Qualquer coisa que eu merecesse.

— Me perdoa. — Me apressei em completar antes que ele falasse. Eu não teria a mínima audácia depois. — Não só isso, mas tudo o que eu te fiz de ruim.

— A última... A última coisa... A última coisa que eu pensei em fazer nesse mundo foi te perdoar.

Mais silêncio. Isso eu merecia.

— Eu achava que tinha te superado, mas tu me aparece desse jeito.

E mais silêncio. Movi os lábios com palavras que procuravam encontrar um tom certo para embalagem. Ele não me superou. Ele sentia algo por mim. ELE SENTIA ALGO POR MIM. Após dez anos. Pela bilionésima vez nessa vida, Gabriel provocou o bater forte do meu coração. Ele poderia me perdoar. Ele poderia... Meu Deus.

— Mas eu quero te perdoar. Só que esquecer é uma tarefa muito difícil. Não é algo que eu possa fazer em 24 horas. Eu preciso de tempo para isso.

[...]

O gato borralheiro se foi após dizer aquelas quatro frases, me deixando no banco da praça com um sentimento estranho após tanto tempo de tanta merda: esperança. Eu a sentia circular junto com meu sangue nas minhas veias e artérias, alcançando meu coração. Não era um “sim” definitivo ao meu pedido, mas também não era um “não”. Ele iria tentar me perdoar.

Isso era mais do que suficiente.

Porém o tempo passou. Logo era janeiro, então era fevereiro, março, abril e finalmente maio. Gabriel não tinha dado nenhum sinal de vida. Eu queria muito argumentar que ele não tinha direito de me encher de expectativas e sumir do mapa, eu queria demais, no entanto, eu sabia, estava bem ciente, que Gabriel tinha total direito de fazer o que ele quisesse.

O desalento encontrou uma brechinha para entrar. Talvez, sim, ele houvesse tentado. Só não tinha conseguido. Quem sabe, eu passei de todos os limites na nossa relação e já não havia volta.

— Feliz aniversário. — Jéssica partiu para cima de mim no fim de maio. — Vinte e nove anos, como se sente?

Ela me abraçou. Eu franzi a sobrancelha. Nem lembrava que era meu aniversário. Puxei o celular do bolso e vi que realmente, quarta-feira, 26 de maio. Eu passei o dia inteiro na rua e não percebi isso, só agora, às oito da noite. Puta que pariu. Eu estava completando vinte e nove anos. De repente me pareceu que eu estava velho.

— Idoso. Argh.

Ela riu.

— Eu tenho 34. Cala a boca. Temos bolo.

— Não, bolo não, Jéssica.

Sem chance. Caio entrava na cozinha com o bolo. Era de milho com cobertura de chocolate. Especialidade da casa. Ele aprendeu a fazer bolo com o YouTube. Tive que me resignar enquanto Jéssica acendia uma vela com o número 29. Mostrei uma careta. Eles cantaram “parabéns” e graças a forças divinas não colocaram a parte do “com quem será?”.

— Viva o Pedro! — Jéssica riu.

— Primeiro pedaço de bolo. — Caio pôs o bolo na mesa. — Pra quem?

Suspirei e cortei o bendito pedaço.

— Pros dois. Não dá de escolher, né?

Jéssica pegou um refrigerante na geladeira e começamos a comer. A conversa floresceu. Quer dizer, eles conversaram. Eu apenas respondi positivamente e negativamente o que eles me direcionavam. Não era nada que me interessava: coisas do trabalho dos dois. Mas de repente, Jéssica afastou seu prato de bolo com uma cara diferente.

— Então, eu tenho uma novidade.

— Quê? — Arqueei uma sobrancelha.

— Grávida.

Oh. Jéssica. Grávida. Imaginei uma menina cópia da Jéssica em miniatura andando pela casa ou um menino cópia do Caio em miniatura me chamando de “tio Pedro”. Nunca simpatizei com crianças, não era agora que iria simpatizar. Contudo, que ótimo. Após todos aqueles anos de tentativas, eles seriam uma família completa. Ela beijou Caio.

— Parabéns.

Eu tinha que me esforçar para parabenizar alguém. Para mim, a pessoa devia ficar ciente sem que eu dissesse nada que eu estava feliz por ela.

— Valeu, Pedro. — Ela sorriu.

Quando terminamos de comer, os dois subiram para o quarto deles. Eu permaneci na cozinha, olhando o céu pela janela. Eu tinha vinte e nove anos e meus amigos em alguns meses seriam pais de algum pirralho. E eu não tinha nenhuma perspectiva de mudança. Estava estagnado. Eu vivia mais no passado do que no presente.

Mas o passado...

Mas Gabriel...

Decidi sair. Desci para a calçada. A brisa da noite era agradável, o inverno estava chegando. Não notei como meus pés me levaram para a mesma praça que estive com Gabriel no ano interior, somente quando me vi sentado no mesmo banco em que nos sentamos. Deslizei meus dedos no lugar exato em que ele estava anteriormente.

Onde diabos estava metido o gato borralheiro versão doutor, falante de francês e dono de um Iphone?

Uma mão apertou meu ombro. Ah, ótimo, eu iria ser assaltado pela centésima vez na vida para variar. Eu tinha o quê no momento? Meu celular comprado em doze vezes no cartão de crédito, uma nota de vinte reais no bolso, minhas roupas que apesar dos pesares ainda eram de marca, afinal, eu poderia ter perdido tudo, mas desejava me vestir bem.

Me virei.

E congelei.

Era Gabriel.

Eu não estava delirando, estava?

— Mas que porra...

— Feliz aniversário?

Ele sentou do meu lado. Olhei atônito para seu rosto, seus olhos verdes, seu corpo que continuava malditamente perfeito.

— Eu ia para a casa de vocês, mas preferi ficar um pouco aqui primeiro, então tu apareceu.

Eu engoli em seco. Ele havia voltado. Minhas mãos tremeram só com o susto por sua presença repentina. Ele havia voltado. Na porcaria do meu aniversário. Ele apoiou os cotovelos nos joelhos e entrelaçou as mãos. Meu coração não era coração: era uma bomba relógio prestes a explodir. Esperei que falasse porque eu não tinha ideia do que dizer.

— Eu tô em São Paulo agora, pra Minas é um pulo. — Gabriel prosseguiu. — E eu pensei em tudo que me falou.

— Pensou?

Ele esticou as pernas, respirando fundo.

— Pensei.

— E-e?

— O que quer de mim, Pedro?

Você. Você. Você. Você, demônio. Você, instrumento de Satanás mandado para me atormentar. Você, seu gato borralheiro do inferno. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você. Você.

— Me perdoou? — Fui bravo o suficiente para perguntar.

— Perdoei.

Pus a mão na boca e desviei os olhos para a lua cheia acima de nós. Ele me perdoou. Ele me perdoou. E eu não merecia. Eu tinha certeza de que não merecia.

— O que quer de mim? — Gabriel repetiu.

Meu peito se agitou. Pelos cães de Lúcifer, eu ainda era apaixonado por ele. Eu tinha transado com uma série de outros caras, mas era ele quem estava na minha cabeça quando eu estava prestes a gozar. Ele era meu primeiro e único amor. Eu o queria, todo, completo, sem meu preconceito estúpido no caminho. Era isso que queria dele.

Me recostei ao banco, nervos abalados.

— Tu já me perdoou.

— Então tudo bem. — Gabriel suspirou. — Eu volto para São Paulo amanhã.

Não, ele não podia voltar para São Paulo. Por que ele tinha que estar em São Paulo? Por que ele não parava para estar comigo? Por quê? Não, não era apenas o perdão que eu desejava. O perdão era o substancial, porém, se viesse junto com ele seria dez mil vezes melhor. Uma segunda chance para fazer as coisas direito. Para ser uma pessoa digna dele.

Gabriel me encarou e levantou.

Ele adorava ir embora e me deixar.

Gato borralheiro filho da puta.

Com todos os sentimentos que se amontoavam abaixo da minha pele, me pus de pé e puxei seu braço. Gabriel volveu o rosto. Então, eu o beijei. Beijei pelos dez anos que eu não tive nenhuma notícia dele, beijei pela última noite que nos vimos já separados pela mão do meu pai, beijei pela saudade que roia minha alma.

— Princesinha. — Gabriel mostrou um sorriso.

— Eu disse naquele dia, seu gato borralheiro abusado. — Encostei a testa ao seu ombro. — Eu só quero uma segunda chance. Eu faço tudo certo dessa vez.

— Tá, seu playboyzinho.

Ele passou a mão no meu cabelo e me abraçou em silêncio. Nossas únicas testemunhas eram as estrelas.

Querido Podre Bosta,

Sim, é isso mesmo. Gabriel te perdoou. Lá, lá, lá, imagino que com tanto choro e mimimi pra ele te perdoar tu deve estar feliz. Mas fique feliz mesmo. Fique muito feliz. Quero que fique extremamente feliz e cuide bem dele. Porque nenhuma outra pessoa ainda estaria contigo. Por mim, tu já estaria amavelmente morto. Então, te endireita e presta atenção na tua vida porque se fizer qualquer merda de novo, acredite, tu está automaticamente dentro de um caixão.

Com todo o não-amor de Iara.

Notas finais
Eu pensei que não iria ter, mas tive, muita dificuldade para escrever esse capítulo. Refiz algumas vezes. Esse foi o motivo de toda essa grande demora. Eu queria muito pedir desculpas por isso. E bem, agora só falta o epílogo, pessoal. Epílogo bem interessante... Sobre os comentários: gente, socorro, tem muito comentário para responder (MUITO OBRIGADA), como estou sem computador vou respondendo aos poucos mas prometo que vou responder absolutamente tudo