24 de dezembro de 1980

— Hey! — Sirius se aproximou da garota que estava sentada no banco do lado de fora da casa na geada fria de dezembro.

— Agora não, Sirius. — Marlene encarava o portão de madeira da casa dos Potter, sem se importar se estava ou não agasalhada. — Não sei quem te mandou aqui, mas não vou entrar até saber se ela está bem.

— Ei, eu te entendo, sabe disso.... Só trouxe um negócio quente e uma manta, porque logo mais você tá toda congelada por aqui. — ele se sentou ao lado dela. — Sabe, quando Rem vai para missões, especialmente sozinho, eu fico da mesma forma que você, e mesmo que eu também esteja em missão acabo pensando nele.

— Ela não dá notícias há alguns dias, Sirius.

— Você sabe que às vezes é difícil conseguir tempo ou hora certa pra isso…

— Mesmo assim, eu não acho que vou conseguir relaxar até ver ela entrando por aquele portão. Ela me prometeu que estaria aqui até o natal. — Marlene mordia os lábios que já estavam bem machucados.

— Algumas coisas vão além do nosso planejamento, mas isso não quer dizer que algo ruim tenha acontecido, Lene.

— Você não sabe disso.

— Mas eu tenho que tentar pensar positivo aqui, né? Você é a que tá pensando negativo.

Os dois ficaram em silêncio, olhando para frente enquanto seguravam um copo de chocolate quente na mão, agrado de Lily que tinha preparado com ‘’A intenção de aquecer e acalmar o coração da amiga’’ foi o que ela dissera quando mandou Black para o lado de fora da casa. Marlene ainda não havia tomado o seu, mas o copo de Sirius estava quase vazio.

Ele realmente entendia como ela estava se sentindo, seja com Remus, James ou qualquer um da turma de amigos, Sirius não conseguia fechar os olhos por não saber notícias deles, e quando chegavam machucados então era a pior sensação do mundo. Conseguia sentir o que era não ver seu namorado entrando pela porta de casa, ainda longe dali e provavelmente em perigo.

Sirius esticou a mão e pegou a da amiga, que ainda encarava o portão e a cada minuto mais a neve aumentava sua velocidade ao cair.

O natal era uma das datas mais importantes para Marlene, sempre se encantou com tudo o que essa época tinha a oferecer, todos os presentes e toda a magia que realmente conseguia sentir fluindo dentro de si. Ela se gabava que havia conseguido até mesmo fazer um Black, no caso Regulus, gostar do natal, ou seja, essa era uma grande prova de como era uma época boa de se comemorar.

Regulus e Dorcas dividiam o seu coração, e com o garoto não mais por aqui, ela sentia Dorcas muito mais próxima de si, afinal, elas compartilhavam uma conexão que Marlene não era capaz de explicar. Desde que se conheceram, aos 11 anos dividindo o dormitório da grifinória as duas viraram inseparáveis, e quando no sétimo ano elas se beijaram e Meadowes declarou o seu carinho para a garota, ficaram mais íntimas do que antes.

Quando sua namorada dera o aviso de que iria ter de fazer uma pesquisa de campo a mando de Alastor Moody desde o dia 15 até 23 de dezembro Marlene recusou sem pensar duas vezes. Sozinha por quase 10 dias, longe demais de casa e ainda em época de natal? O que ele estava pensando?

Mas aparentemente não tinha como lutar, afinal, quando Moody decidia algo não havia muito o que fazer a respeito.

E antes de ir Dorcas disse: ‘’Estarei de volta dia 24 logo cedo, beberemos até cairmos na casa de Lily e James, dançaremos com todo mundo, e depois dormiremos no cobertor que vamos fingir que é uma cama e de manhã nem vamos ligar para a dor nas costas pois a dor de cabeça vai ser maior.’’

Mas ela não havia chego, e a última coisa que Marlene conseguia fazer era aproveitar a festa lá dentro — não que os outros estivessem aproveitando também, afinal, não era uma época muito tranquila para que conseguissem festejar.

Ela decide tomar um gole de chocolate quente em sua mão que já estava esfriando.

— Mas que… — a mulher disse após cuspir a bebida.

— Apenas algo pra você relaxar mais. — Sirius engolia o último gole.

— Por que não me avisou que colocou vodka aqui, Sirius?

— Primeiro: não fui eu. Segundo: eu ia contar no momento que você bebesse, é que eu tava distraído. — ele deu de ombros.

— Eu odeio vocês.

— Isso aí é uma mentira. — ele encostou as costas no encosto do banco — O que você mais gosta nela?

— Que? — pela primeira vez desde que o amigo estava ali ela havia olhado para o rosto dele.

— O que você mais gosta nele, sabe, jeito, rosto, essas coisas.

— Ah… eu não sei… — ela sabia. — Acho que não só o sorriso dela, mas o que vem junto dele, sabe? Logo que ele dá um sorriso, daqueles sinceros ela dá uma tremida leve nos ombros, as rugas embaixo do olho ficam mais aparentes e seu nariz se mexe, e eu acho isso uma das coisas mais adoráveis que já vi.

— Nunca notei. O que mais?

— Talvez o jeito que mesmo depois de anos que estamos juntas ela ainda parece tímida antes de nos beijarmos ou pegar a minha mão, como se sempre pedisse o meu consentimento. Ela sempre dá o tempo exato para que eu possa me aproximar, pra ela saber que está tudo certo, e depois disso ela não fecha o olho até estarmos realmente próximas, e sempre diz que é porque gosta de memorizar cada detalhe meu de perto ou de sentir cada detalhe de como é ter o meu toque contra sua pele. — Marlene pegou em sua própria mão para lembrar dos pequenos choques que sempre sente ao segurar a mão da namorada.

— Como Dorcas é poética, nunca imaginei. — Sirius deu um sorriso de canto de ver que a amiga começava a relaxar um pouco os ombros.

— Ela também sempre me ajudou, mesmo tendo sentimentos por mim. Quando aconteceu tudo com o Regulus, coisa que durou anos, ela ficou ao meu lado… eu nem sei como deve ter sido para ela, mas mesmo assim ela ficou ali, e mesmo quando começamos a sair e passei meu último natal com ele antes de ir embora de Hogwarts, ela entendeu. E quando, bom, ele se foi e eu fiquei sem conseguir conversar ou levantar da cama por algum tempo, ela me entendeu. Porque Dorcas é essa pessoa, ela sempre está disposta a entender.

— Ela sempre está mesmo.

— Todos acham que quem organizava as coisas no dormitório era Lily e Alice mas na verdade era Dorcas. Eu não fazia questão nenhuma, mas Lily é meio desastrada com as coisas e Alice muitas vezes ameaçava rasgar todos os pergaminhos e livros por algum surto por estudar, e quem sempre se encarregava de arrumar tudo e acalmar ela era Dorcas, as minhas coisas ela só jogava no baú ou embaixo da cama mesmo, dizia que eu era um caso perdido. — ela deu um sorriso de lembrar do dia em que a mulher, na época ainda com 12 anos, tinha dito isso.

— REMUS ME DISSE O MESMO! — Sirius arregalou os olhos.

— Isso porque ele e Dorcas dividem o mesmo cérebro em alguns momentos, você é quem não se tocou ainda.

— Com certeza ele é pior que ela.

— Ah sim, isso eu não duvido, mas pra aguentar vocês? Tem que ser mesmo. — ela disse rindo e recebeu um tapa no braço.

— Tem algo mais que goste nela?

— O cabelo. Eu adoro como o cabelo dela é, adoro mexer em seus cachos e lembro que quando ela me disse que ia cortá-lo eu quase chorei, mas tentei apoiar o máximo possível, mas no fim ainda consigo mexer no cachos e, segundo ela, fica mais fácil para lutar também. — Se lembrou dos cachos escuros da namorada — mas a verdade é que ela tinha um pouco de preguiça de cuidar deles, em Hogwarts quem cuidava era Alice que fazia alguns produtos para ela passar nele, depois de sair ela ficou preguiçosa.

Ficaram por algum tempo em silêncio, ela brincava com o copo agora quase vazio em sua mão e ele desenhava círculos na costa da amiga. Conseguiam ouvir alguém tocando piano completamente errado dentro da casa e Lily gritando para parar com aquilo que iria mandar todos embora.

Às vezes Alice e Remus tentavam ser discretos e espiá-los da janela, mas não era muito eficaz já que Alice sempre acabava batendo a cabeça no vidro e Remus soltava uma risada alta e eles tinham de fingir que não viam nada disso, mas na verdade Sirius se esforçava segurando o riso.

Com esses momentos e tentativas dos amigos Marlene foi relaxando sua cabeça, sem deixar de pensar na namorada que ainda poderia estar em perigo, mas tentando pensar positivo, como Sirius aconselhou, afinal, ela não queria viver em um mundo onde Sirius Black era a pessoa mais positiva do grupo.

— Ei, são quase 00h, se quiserem entrar… Lily já está distribuindo taças pra pôr a bebida. — Frank apareceu na porta.

— Já vamos. — Sirius respondeu e se virou para a amiga. — E aí?

— Acho que não adianta mais esperar aqui, depois eu volto qualquer coisa. — Marlene se levantou e foi seguindo o amigo para dentro da casa, mas o mesmo pegou seus ombros e fez com que ela parasse.

— Lene… — Sirius sorriu e apontou para trás dela.

Não.

Não era possível que ela apareceria logo agora depois de ela quase congelar ali fora.

Ela odiava a ironia do destino, odiava as coisas clichês que ele fazia, e tinha certeza as vezes que era alguém escrevendo toda uma história clichê para que isso acontecesse.

Então, ela se virou e lá estava ela, sua namorada indo até eles pela neve que a afundava a cada passo com seu cabelo preso em um pequeno rabo de cavalo, dois casacos e o cachecol da grifinória. Marlene sabia que teria de seguir um procedimento de questionamentos para prevenção da mulher não estar dominada por algum feitiço ou ser outra pessoa, mas tudo o que conseguia pensar depois de todo aquele tempo sem notícias era correr até os braços da mulher que amava e abraçá-la e nunca mais soltá-la, ou pelo menos até sentirem que iriam congelar do lado de fora.

E foi o que fez.

Correu até ela e a abraçou, sem dar a Dorcas aquele momento precioso que ela precisa para apreciar os pequenos detalhes, porque já havia dado tempo demais sem aquele toque, o abraço e o cheiro, que mesmo que a namorada estivesse alguns dias sem tomar banho, ainda sentia o cheiro de lavanda que ela sempre exalava.

Elas ainda não haviam se separado ou falado algo, mas Marlene conseguia sentir os olhares dos amigos nelas, provavelmente já estavam ou espiando de dentro da casa ou na varanda sem se importar mesmo.

Quando se separaram ela olhou para trás e confirmou: Sirius e Frank na varanda, os outros dentro da casa. Soltou uma risada e voltou o olhar para a mulher a sua frente, tão linda, gelada e cheia de neve pelo cabelo.

— Eu falei que estaria aqui. — Dorcas finalmente havia falado e dava um sorriso de lado.

— Mas não falou que me deixaria a ponto de infartar.

— Você sabe como é, Mar, é complicado. Mas eu falei que estaria aqui para dançarmos e acordarmos com dor de cabeça, não falei?

— Falou.

— VOCÊS VÃO ENTRAR? MARY FALOU QUE VOCÊS VÃO CONGELAR. — Sirius gritou.

— ESTAMOS INDO! — Marlene respondeu.

Não podia acreditar que estava, finalmente, abraçada à Dorcas de novo, que conseguia tocá-la, e que iriam aproveitar mais um natal juntas com quem amavam. Nunca sabiam quando poderia ser seus últimos dias, e estar ali com quem amava sempre fazia valer a pena.

Depois de se cumprimentarem, darem risadas e cantarem algumas músicas Dorcas chegou próximo da namorada que estava encostada na parede observando todos com um sorriso no rosto.

— Fiquei sabendo que você não entrou na casa durante toda a noite, Mckinnon… Não precisava congelar lá fora por minha causa sabe disso, não? Natal é sua época favorita! — Ela olhava nos olhos da namorada.

— Não é natal até você estar em casa.

E apenas com essa frase as duas sorriram uma para outra e se beijaram, sentindo o gosto da comida, do biscoito de chocolate e do champanhe, tudo misturado.

Finalmente era natal.

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