It's never too late for love

2 Festas infantis e os convidados indesejados.


Notas iniciais
Provavelmente não tenho nenhum leitor ainda, mas o que me impede de escrever aqui agradecendo quem ler tudo até aqui? Muito obrigado por ler, espero q curta o capítulo 1

Após sair do carro, subir a rampa de concreto da entrada e alcançar a varanda, parei em frente à porta aberta para ajeitar o vestido no corpo, que tinha amassado no banco em que estive sentada pela última meia hora.

Parada ali por aqueles instantes, reparei que a casa estava bem movimentada. E, bem... Eu não era muito fã de ambientes cheios como aquele. Um medo irracional, certamente, que desenvolvi em alguma parte de minha adolescência e ainda não tinha conseguido superar. "Acalme-se, Kasey..." pensei, antes de dar os primeiros passos. Ao menos, no caso, os motivos eram suficientes. Eu segui pelo longo corredor e passei por várias pessoas que não deram muita atenção à minha presença, a maioria delas que, na verdade, nem me conhecia, amigos dos meus pais, e seus filhos, amigos de minhas irmãs. Quem eu conhecia, porém, também não pareceu se importar muito com a minha presença, então resolvi que retribuiria a recepção e me direcionei para a sala de estar o mais rápido que pude.

Foi quando encontrei o motivo de estar ali: Karen, uma de minhas irmãs mais novas, estava sentada no chão sobre o tapete de camurça, brincando com velhas bonecas visivelmente surradas e com partes do corpo faltando. Ela devia gostar muito daquelas, porque eu sabia que ela tinha outras melhores. À frente dela também brincando com as bonecas estava Kyrian, que nós normalmente chamávamos Kyrie, a segunda mais nova. Kate, a mais velha depois de mim, estava praticamente deitada no sofá numa posição que lhe custaria uma bronca feia se algum adulto reparasse. Digitava algo no celular, hora ou outra levantando os olhos à televisão que estava ligada em alguma novelinha para crianças, algo que certamente não lhe interessava muito. Nenhuma delas reparou em mim logo de cara, mas assim que eu tomei os primeiros passos foi a própria Karen quem notou. Ela levantou correndo e veio em minha direção para abraçar minha cintura, o máximo que conseguia com sua altura. Eu, atrapalhadamente pela diferença de tamanho, abracei-a como pude, afagando o alto da sua cabeça. Dei-lhe um beijo logo que ela me largou.

— Veja só, mais uma Greene ficando mais velha…

Entreguei à ela o pacote que segurava em mãos, uma caixa embrulhada em papel rosa e cheia de purpurina. Ela não demorou a abrir, tamanha a ansiedade. Dentro estava um vestido preto de bolinhas brancas com um bordado bonito em volta do pescoço, o qual tínhamos visto, juntas, em uma loja no centro da cidade uns bons meses atrás, em uma ocasião em que eu fui encarregada de levá-la à aula de ballet sozinha. Ela pareceu muito empolgada quando o viu da primeira vez, então acabei prometendo que iria dar-lhe de presente em seu aniversário.

Estava fazendo onze anos… Vê-la ganhar idade agora era meio esquisito porque eu me sentia um pouco menos presente em sua vida do que quando morávamos sob o mesmo teto. Nunca fomos tão próximas quanto eu era de Kateryn, por exemplo, mas eu sentia que devia mais à ela por ser a irmã mais nova. É bem comum que o filho mais novo receba menos atenção que os outros em várias ocasiões, em especial quando se é a quarta filha a nascer na família; com Karen, a situação não era diferente.

— Leve lá pra cima e se troque, ok? Quero que use ele hoje.

Enquanto ela subia a escada, aproveitei para trocar algumas palavras com Kate, dobrando-me sobre o encosto do sofá a alguns centímetros dela. Primeiro perguntei se sabia onde nossos pais estariam, e ela respondeu que tinha visto mamãe subir para o quarto, sem saber dizer o motivo, e que o pai provavelmente estaria no quintal dos fundos, tomando um pouco de ar fresco. Como eu sabia que Karen me denunciaria e eventualmente nossa mãe voltaria ao andar de baixo para me encontrar, sentei no sofá para tentar ter um pouco de diálogo com ela. Não nos víamos desde o mês anterior, então tínhamos muito o que conversar. Ela me contou um pouco sobre o que tinha acontecido com Renata, sua namorada, e o porquê dela não estar ali na festa com ela. Antes de me dizer propriamente o motivo, entretanto, ela mudou de assunto – como sempre acabava fazendo – e comentou sobre o último ano na escola e como estava feliz por finalmente estar chegando ao fim. Sua maneira de falar da escola lembrava muito a minha quando fora minha vez de receber o diploma.

— Tem uma professora implicando comigo e querendo me reprovar, mas acho que não vai dar em nada. Ela não tem motivos pra isso, é só uma pessoa muito infeliz pra pegar bem no ​meu​ pé.

Foi nesse exato momento, quando Kate terminou suas palavras, que Karen atravessou a porta da sala vestida em seu novo presente, correndo para sentar-se ao meu lado no sofá. Enquanto ela se aproximava, já era possível ouvir a voz empolgada de minha mãe soar pelo corredor, comentando qualquer coisa com uma ou outra pessoa que encontrara pelo corredor. Isso, de alguma forma, conseguiu levantar o meu astral. Fazia a mesma quantidade de tempo que não a via, e isso é tempo demais para quem não tem muito costume de viver fora de casa ainda. Quando ela atravessou a porta da sala, eu já estava levantada e de braços abertos, pronta para receber um daqueles abraços apertados, exatamente como fazia sempre.

Após segurar meu corpo por alguns segundos, ela se afastou, perguntando como eu estava e chamando-me à cozinha para pegar algo para comer. Pude ver claramente a expressão no rosto de Karen chatear-se enquanto eu me afastava, mas eu não tinha muita escolha se quisesse me manter bem até o fim da festa. Eu estava faminta, e comida, aparentemente, era o que menos faltava. A mesa estava forrada de coisas bem diversas e era possível ver várias garrafas de refrigerante encostadas à parede próxima à porta, que, por algum motivo, ainda não tinham sido colocadas na geladeira.

Escolhi uma pequena coxinha dentre muitas em uma caixinha de papelão e sentei, enquanto ela me servia um copo de refrigerante que na verdade eu não tinha pedido, mas que cairia bem com toda a sede que eu sentia.

Depois disso, ela apoiou-se na pia e me pediu para falar um pouco do trabalho e da minha vida, apesar de eu não ter muito o que dizer sobre esses assuntos. Meu trabalho é em uma loja de vestidos de noiva sob medida — ou seja, um lugar onde tudo é vendido sob encomenda — e minha única obrigação por lá é tirar medidas e mostrar às mulheres os modelos disponíveis, o que significa que eu interajo mais com os clientes que com meus colegas de serviço. Havia apenas uma exceção que era uma amiga que por uma grande coincidência trabalhava comigo mas que não tinha sido conhecida no emprego e sim, na faculdade. De qualquer forma, não havia muito sobre o que comentar. Com relação à minha vida, não podia dizer que andava muito bem desde o fim do meu namoro no ano anterior, mas eu não ia ficar desabafando algo assim com ela. Pelo menos não em um dia como aquele. Não é certo falar dos meus problemas quando a atenção deve ser dada à Karen pelo seu aniversário. No fim, acabei falando da única coisa que realmente interessava e não atrapalhava em nada a ocasião: o curso de Gastronomia.

Cozinhar tinha se tornado uma paixão para mim desde o ingresso na faculdade. Não que as aulas teóricas fossem assim tão estimulantes — eu tinha apenas uma aula de culinária prática naquele segundo semestre e teria apenas uma para cada um dos próximos também —, mas, por estar estudando algo que sempre gostei, eu sentia ainda mais vontade de pôr em prática o que aprendia durante as aulas. Toda aquela coisa de cozinha clássica, criação de pratos e variações eram, no mínimo, inspiradoras. Eu tinha de admitir: sempre que chegava em casa depois das aulas eu seguia direto para os armários da cozinha para ver o que de interessante eu poderia preparar, mesmo que, no fim, acabasse não cozinhando nada. Não é sempre que uma pessoa que mora sozinha tem tempo para fazer compras; meus armários, no geral, nunca tinham nada além do essencial, e eu não era boa o suficiente pra fazer algo apenas com o essencial. Ao menos, não ainda. De qualquer maneira, o assunto principal foram meus conceitos nas matérias que até então iam muito bem, graças a Deus.

Depois que esse assunto acabou, perguntei à ela sobre meu pai. Esse era sempre um assunto um pouco complicado de se explicar, porque envolve uma longa história. Muita coisa aconteceu entre eles desde o acidente de carro, mas acredito que o mais importante a se frisar era que eles ainda estavam juntos. Pode parecer, mas não era algo forçado, o tempo que ele passou desacordado no hospital – cerca de dois ou três dias, não sei ao certo – fez ela refletir muito sobre a vida dos dois. Quando ele acordou, eles deram juntos a notícia para o resto da família: eles continuariam juntos, ao menos por mais algum tempo.

Decidi levantar do lugar e ir de encontro à ele, que estava mesmo onde Kate havia intuído: sentado no quintal, tomava algum ar debaixo da única árvore que tínhamos, uma grande macieira que fazia sombra sobre seu corpo. A luz já começava a subir por suas pernas, então teríamos de movê-lo dali logo, logo.

Ele pareceu tão surpreso quanto minha mãe quando viu minha aproximação, abraçando-me apertado por alguns segundos.

— Viu, Lilian? Eu disse que ela viria.

Olhei para ela com uma expressão que dizia, mentalmente, “desconfiava de mim?”.

— Não me culpe — ela respondeu —, eu sei que você tem estado bem ocupada esses dias.

Revirei os olhos e, depois, sentei sobre a grama em frente a ele para trocarmos algumas palavras. Conversamos por pelo menos meia hora até ele comentar sobre o sol que começava a esquentar demais seu corpo. E então, era em momentos como esse que começava a parte difícil de sua rotina: mamãe trazia a cadeira de rodas e ele tentava mover-se sozinho até ela por orientações de seu médico, provavelmente pra ganhar alguma independência ou coisa assim, e então, como não conseguia a grande maioria das vezes, alguém o ajudava com isso — nessa ocasião, eu mesma. Ele parecia imensamente desgostoso por sentir-se tão dependente, enquanto mamãe esboçava tristeza em seu rosto, sabendo que ele não estava satisfeito com aquilo tudo. De certa forma, eu sabia que ambos se culpavam pelo que tinha acontecido e não havia muito o que fazer quanto àquilo.

Depois disso, a festa continuou por algum tempo sem nada de muito interessante acontecer. Não ao menos até eu subir as escadas para meu antigo quarto, acompanhada por Kateryn, e toda aquela nostalgia da infância bater forte, me levando de volta vários anos no passado. Agora, era Kate quem dormia nele, mas eu não me importava nem um pouco com isso, em especial porque éramos muito parecidas, o que significa que o quarto ainda estava exatamente como eu havia deixado quando me mudei dali. Fora isso, agora ela era a nova dona do nosso velho piano, e o tocava todos os dias para tornar-se “tão boa quanto eu”, como ela mesma dizia. Também dizia brincando que ele, o piano, sentia minha falta, e eu, ainda que achasse algo meio bobinho, achava engraçado ela pensar daquela maneira. Gostava da metáfora dele sentir falta de sua antiga pianista.

Comecei a observar as outras coisas que se espalhavam pelo quarto. Kate gostava de pintar, então muitos dos quadros pendurados pelas paredes eram de sua autoria. Nossos pais sempre estimularam bastante o lado artístico da família e achavam bom que ela entendesse que sua arte era bem vista por eles. Além disso, me chamaram a atenção os dois cadernos espalhados pela escrivaninha no canto do quarto com alguns escritos de escola dividindo o espaço com desenhos de dragões e outras criaturas mitológicas, que ela explicou estar praticando para novas pinturas. Também reparei que sobre o piano, que agora, diferente de mim, ela parecia manter sempre limpo, estava ainda o pequeno vasinho de vidro, que eu costumava deixar para enfeitar, com uma única flor amarela mergulhada em água, a qual eu tinha certeza que ela trocava sempre que pudesse. Realmente, ela parecia dar muita importância a manter o quarto à minha maneira... Talvez ela fosse, dentre as irmãs, a que mais sentia minha falta, mesmo tentando não demonstrar isso, com toda aquela pose bem característica de indiferença que ela mantinha.

De qualquer maneira, eu penso que saber que eu e Kate tocamos piano e ela, além de tudo, desenha bem e pinta quadros provavelmente faz as pessoas pensarem que o talento todo da família estava em apenas nós duas. Isso não é realmente verdade, a diferença é que as coisas que fazemos sempre foram mais visíveis para todos. A terceira irmã, Kyrian, sempre fora uma ótima escritora e gostava mais dos instrumentos de corda (em especial a guitarra, bem mais ruidosa que nosso pianinho), mas era tímida demais para deixar sua arte transparecer para o mundo. Ela guardava seu único instrumento em seu quarto, e seus cadernos ficavam trancados em uma gaveta que ela mantinha trancada à chave. A outra, Karen, ainda era nova demais para que se pudesse dizer ter se encontrado em algo, ainda que já parecesse dividir alguns gostos com as três irmãs mais velhas e um sentido aguçado para a dança.

Depois de alguns minutos esperando até que eu fizesse meu pequeno tour pelo quarto, ela pareceu enfezar-se. Pegou-me pelo braço, levou-me até o piano e sentou. Em seguida, pegou as folhas de partitura, que a essa altura ela certamente já sabia ler, e as folheou antes de me mostrar. Parecia ansiosa enquanto pedia que eu escolhesse uma das músicas. Como disse que podia ser qualquer uma, minha escolha foi “When I was your man”, do Bruno Mars.

Durante o início da música, nada muito surpreendente. Eu sabia que ela podia tocá-la sem problemas depois de tantos anos de prática. Não era uma música tão difícil porque já era tocada no piano. Bastava imitar o que o próprio cantor fazia, afinal. O que me surpreendeu, entretanto, foi o momento em que ela começou a cantar.

Era surpreendente porque, quando éramos mais novas e eu era sua professora, eu até tentei ensiná-la a cantar, mas ela se confundia bastante na hora de atingir as notas. Fossem elas agudas ou não, parecia ter mais problema com isso do que com o alcance vocal propriamente dito, que era muito bom para o pouco tempo de prática. No fim, depois de algumas semanas de treinos, acabamos desistindo. Não por culpa minha, afinal ela nunca fora a mais paciente da nossa família — e ela não podia negar isso.

Apesar disso, agora me parecia que quem não era uma boa professora era eu. Sua voz soava angelical cantando aquela música, e eu não podia ter outra reação senão ficar boquiaberta, porque era uma das que tive mais dificuldade de aprender desde que descobri meu lado cantora. Fiquei especialmente impressionada com o falsete que ela fez no trecho mais agudo do fim.

Quando terminou, eu levantei as mãos para dedicar-lhe alguns aplausos, mas o som de mais palmas interromperam-me, chamando nossa atenção à porta. Vários dos convidados, inclusive a nossa mãe, acumularam-se para ouví-la cantar. Tudo que eu pude fazer, depois de dar de ombros, foi juntar-me à eles, vendo o rosto de Karen corar ao redor daquele enorme sorriso em seus lábios. Ela estava visivelmente constrangida, colocando as mãos em frente ao rosto para rir.

O pessoal não demorou muito a liberar a porta, e nós duas ficamos à sós de novo.

— Quem te ensinou a cantar desse jeito?! E porque você não me mostrou isso antes? Eu estive aqui mês passado!

— Ah, ninguém. Eu fiz uns meses de aula, achei que nossa mãe tivesse te avisado. E eu só não me sentia pronta pra te mostrar isso ainda. — e riu: — Acho que não escolhi o momento certo pra isso.

Conversamos sobre isso por mais alguns minutos antes de nossa mãe subir novamente até o quarto para chamar-nos para os parabéns. Quando descemos, as luzes já estavam quase todas apagadas e as velas começavam a ser acesas. Eu vi o relance de luzes iluminar a parede fracamente. Os aplausos começaram logo em seguida, acompanhados da cantoria em coro de todos os presentes, e foi naquele momento, antes mesmo que eu pudesse alcançar a cozinha, que eu comecei a sentir o desespero. Por conta de surtos de ansiedade como aquele, eu definitivamente não conseguia ser eu mesma em lugares cheios, especialmente os barulhentos e escuros.

Sentindo que precisava de algum ar puro, escapei por entre as pessoas em direção a porta de saída. Acontece que… Digamos que não foi das melhores ideias que já tive na vida.

Chegando ao lado de fora, apoiei as mãos sobre as coxas, mantendo a cabeça levemente abaixada e respirando ofegante, tentando me recompor. Foi nesse momento que ouvi alguns passos caminharem em minha direção. Era estranho, afinal é difícil alguém chegar tão atrasado assim para uma festa, quando todos já estão cortando as fatias de bolo e se preparando para ir embora.

Foi ao observar o par de sapatos marrom-claro cobertos pelo jeans azul que eu me dei conta de quem os calçava.