It's a Good Life

2 Capítulo 2 - Little bird


O dia que eu deveria dar alta para meu paciente chegou e eu estava relativamente nervosa, não pela alta, mas por vê-lo novamente. Todas as vezes que eu tinha que ir a seu quarto, eu tentava ser o mais rápida e o mais monossilábica possível, e eu sei que ele havia percebido meu desconforto, pois quase não falava mais ou ficava mudo assim que eu adentrava o quarto. Ninguém veio buscá-lo, eu sabia que ele se achava autossuficiente e independente demais para uma coisa desse tipo, precisar de ajuda. Fiz ele assinar os papéis necessários, não eram poucos, e no momento que girei meus calcanhares, quase correndo em direção a porta, meu pulso foi firmemente segurado.

— Eu fiz algo a você? – Ele se dirigiu a mim pela primeira vez em semanas.

— Não.

— Porque eu tenho a sensação que você não está sendo totalmente honesta? O que foi que aconteceu com você? – Ele perguntou baixo e se aproximando de mim. Dei um passo para trás e ignorei suas perguntas.

— Agora você já pode ir para casa, esses papéis são seus, continue com as recomendações, não se esforce e não esqueça dos medicamentos. Espero não precisar vê-lo na UTI novamente. Adeus. – Finalizei com um sorriso cínico. Aproveitei sua distração enquanto digeria minhas palavras e fugi dele, como sempre.

— Claire, não faça...Claire! – Ele saiu praticamente correndo atrás de mim, a minha sorte é que ele estava lerdo devido aos seus ferimentos.

Por sorte o elevador abriu na hora em que cheguei na frente, pulei para dentro e apertei desesperada o número 8, meu andar. Enquanto as portas se fechavam ele chegou, mas não conseguiu impedir o elevador de fechar as portas e subir. Tive tempo de ver seu olhar triste e impaciente pela última vez enquanto ele murmurava “por favor”. Apoiei minhas costas na parede gelada e lutei contra a bola que se formava na minha garganta e a vontade de me sentar no chão daquele elevador e chorar. Respirei fundo, joguei meus cabelos para trás e saí daquele elevador de cabeça erguida e nariz empinado, como se há 5 segundos atrás nada tivesse acontecido. Eu deveria ter sido atriz e não médica.

Eu deveria saber que ele não era do tipo que desiste fácil de algo, e ele deveria saber que eu posso ser muito cabeça dura quando quero. Vê-lo após tantos anos só fez o buraco que havia em peito abrir ainda mais, como se algo rasgasse, e a sensação não era nada boa. Passei anos colocando várias barreiras sobre esse assunto, anos levantando muros para que as pessoas achassem que era arrogante e mesquinha demais e assim se afastassem por livre e espontânea vontade, já que em algumas situações eu não conseguia afastá-las. Eu trabalhava sozinha, raramente eu tinha alguma equipe comigo e a fala que corriam os corredores do hospital era “como alguém assim pode ser médica e tão boa no que faz?”. Eu também gostaria de saber.

Havia passado uma semana desde que ele havia saído do hospital. Eu havia parado de andar pelos corredores olhando para os lados como se tivesse matado alguém e estava começando a me esquecer da situação que estava enfiada. Porém minha paz se foi tão rápido quanto chegou. Assim que abri a porta da minha sala, dei um passo atrás, abri minha boca e segurei forte a maçaneta. Um arranjo de flores. Ao meu ver, uma bomba de proporções inimagináveis. Olhei para os lados para me certificar que ninguém havia visto minha reação exagerada e o arranjo ridiculamente arrumado que jazia sobre minha mesa. Entrei na sala, fechei minha porta com força e fiquei encarando aquele arranjo com um nó no estomago. Eu sabia de quem era, nem precisava ler o cartão, e o desgraçado sabia minha preferência idiota por tulipas amarelas. Pesquei o cartão apenas para me certificar de que realmente era dele e não uma bonificação do hospital por alguma coisa que eu havia feito.

“Claire,

Gostaria de agradecer pelos seus cuidados enquanto eu estava ferido e desacordado. Obrigado por tudo, me sinto novo em folha, renovado e pronto para mais uma. Sinto muito por tudo que aconteceu, mas nós precisamos conversar de uma vez por todas. Te espero no restaurante de sempre, hoje às 20h, por favor. Nós precisamos disso e você sabe tão bem quanto eu. Está na hora, little bird, hora de deixar o que aconteceu para trás.

Matt.”

— Droga, Matt! – Amassei seu bilhete e o joguei no lixo junto com o arranjo. Respirei fundo algumas vezes apoiada em minha mesa pensando no que deveria fazer, até porque lá no fundo eu sabia que não poderia fugir para sempre, mas eu tentaria, claro que tentaria. Ele realmente precisava lembrar daquele apelido?

Minha batalha interior mal havia começado, porém fui obrigada a colocar o assunto de lado assim que alguém bateu a minha porta. Eu realmente não estava com a mínima vontade de pensar sobre alguma coisa que havia acontecido no hospital quando uma bola amarela em minha lixeira no outro lado da sala, me chamava atenção fazendo com que meu cérebro acendesse um sinal luminoso alto demais para aquele assunto, consequentemente eu não prestava atenção no resto.

— Claire, você me autoriza? – Assim que ele chamou meu nome lembrei-me que havia alguém em minha sala, falando algum assunto importante, que eu deveria ter prestado atenção e pelo visto eu deveria dar uma autorização também. Que grande chefe eu era.

— Desculpe, devo autorizar o que?

— O que acabei de te pedir, uma dispensa.

— Ah sim, claro. É realmente necessário?

— Você não ouviu nada do que falei, certo?

— Me desculpe, Ed. Cabeça cheia. Mas eu autorizo sim, seja lá o que for. Se perguntarem por mim, estou de folga até sexta. Até! – Falei enquanto juntava minhas coisas, o empurrava porta a fora, trancava minha sala e ia caminhando em direção a saída dando um aceno de adeus de costas, enquanto ouvia ele falar: “eu não sou o tal Ed.”

Entrei no meu carro e respirei fundo algumas vezes, havia decidido ir nessa porcaria de jantar para me livrar de todos esses fantasmas de uma vez por todas, estava na hora, e eu sabia que precisava disso. Apertei firme o volante enquanto pensava no quão desastrosa iria ser a minha noite e se existia um nível na escala de desastre que poderia ser relacionado a isso, a um desastre de nível infinito. Matt me conhecia bem demais, ou por ser um detetive, ele sabia ler as pessoas bem demais. Ele escolheu as palavras certas, as mesmas que rondaram a minha mente enquanto ele estava no hospital, talvez ele precisasse disso também, matar dois demônios em uma só noite. Deveria preparar meu kit de sal e água benta agora ou depois?