It's You
41 London
Notas iniciais
Um mês e uma semana desde que Maura se mudou, ela agora estava morando em Londres junto à sua mãe, a loira trabalhava em um dos melhores hospitais de Londres, ela queria ver uma mudança em sua vida, e se isso seria trabalhar em um hospital, assim seria. Maura todos os dias sofria com a falta de Jane e seus amigos, sua verdadeira família. Todos os dias Jane a ligava, e todos os dias Maura recusava, sempre ouvia a caixa de mensagens com lágrimas nos olhos, ouvir a voz de Jane lhe pedindo para voltar em uma súplica, lhe quebrava o coração, ela queria voltar, queria voltar e abraçar sua Jane o mais forte o possível, queria se sentir segura e em casa. Sua mãe lhe condenava a morar em Londres junto a si, queria ver a filha feliz, porém do jeito dela, a mais velha queria dizer para sua filha como viver sua vida, e assim fazia, todos os dias lembrando a ela de que seu nome é importante demais para ficar beijando mulheres, ainda mais quando uma detetive de classe média baixa é uma dessas mulheres.
Era tarde da noite, e Maura estava se arrumando para um jantar no qual sua mãe lhe arrastaria. A loira estava acostumada à jantares aleatórios no meio da semana, esses que Angela programava muito bem, mas o jantar de sua mãe não era apenas uma reunião entre amigos, final isso não era do feitio de Constance, jantares assim só eram feitos quando pra arrecadar dinheiro, ou para qualquer coisa que envolvia negócios. E dessa vez Maura era o assunto a ser tratado. A loira estava em seu quarto trajando um de seus melhores vestidos, ela estava pronta, sua maquiagem impecável, tanto quanto seus cabelos. Ela estava sentada na cama pondo seus saltos, e quando feito, ela não sabia mais o que fazer, estava seriamente pensando em trocar de roupa e fugir pelo telhado, se soubesse como fazer isso. Ainda sentada em seus melhores lençóis, ela olhava fixamente para a parede de seu quarto na qual continha um porta-retratos pendurado, à princípio havia uma foto dela e de Jane ali pendurada, mas sua mãe lhe obrigou a tirar, coisa que Maura não fez, então Constance mesmo se deu ao trabalho. Agora pendurado na parede havia uma foto de Maura próxima ao Panteão, a foto foi tirada em sua primeira visita à Roma. Ela passara cinco dias sozinha lá, lembra-se muito bem do momento em que tirou aquela foto, ela teve que pedir à um desconhecido para que tirasse a foto. Uma batida na porta tirou Maura de seus devaneios.
— Entre — ela disse com descaso.
A porta se abriu e sua mãe adentrou o quarto.
— Os Becker's já chegaram — disse neutra.
— Já estou descendo, só preciso terminar de me arrumar.
Constance limitou-se de dizer algo e apenas lhe lançou um olhar frio antes de fechar a porta. Maura sabia o que aquele olhar significava, era o olhar "não estrague tudo", e estragar tudo era exatamente o que ela queria fazer, mas sabia das consequências. Levantou-se da cama e se pôs em frente ao espelho, se fitou de cima a baixo alisando o vestido, não se importava muito com as visitas, mas precisava ficar bem para a chegada tão esperada pela sua mãe.
Suspirou cansada, seu rosto não mostrava felicidade, suas sobrancelhas caídas gritavam tristeza e cansaço, queria sair de lá, queria fugir, queria voltar para Boston, mas era sua família, não poderia apenas abandoná-los. Colocou um sorriso simpático no rosto como se estivesse colocando uma máscara, e desceu para a sala de estar, onde se encontrava sua mãe e três dos Becker's, Catarine, a mãe, Aldo, o pai, e Travor, o filho. O rapaz era dois anos mais velho que Maura, ela podia ver explicitamente o plano de sua mãe, mas nada comentou, cumprimentou amigavelmente as visitas, e logo se sentou junto à eles, apreciando uma boa taça de vinho, eles conversavam amiúdes do dia-a-dia, compartilhavam suas promoções, e feitos, todas as coisas admiráveis que fizeram, tudo isso para tentarem sair um melhor que o outro.
— Está gostando de morar em Londres novamente, querida? — perguntou Catarine, mesmo não se importando muito com a resposta.
— Ainda estou descobrindo as belezas do local. — Não, estou odiando cada segundo.
— Que bom, e como está sendo trabalhar no hospital? Sua mãe me contou que esse é um ambiente completamente diferente do de quando você morava em Boston.
— Realmente é bastante diferente, mas está sendo interessante — Nada se compara à Boston.
A conversa se desenvolvia normalmente, até o momento em que uma das cuidadoras da casa anunciou que a janta estava servida. Na mesa Travor fazia o máximo para puxar assunto com Maura, ela respondia normalmente, sem muito interesse, principalmente quando percebeu o quão vazio o rapaz era, ele era exatamente como seus pais, puxava assunto sobre negócios, e exibia orgulhoso todas as coisas que conseguiu fazer. As conversas sempre eram assim quando se tratava de Constance e seus contatos, não podia nomeá-los amigos, muito menos conhecidos, afinal, eles só se contatavam quando precisavam de algo, e hoje esse algo era fazer com que Travor e Maura se conhecessem e então supostamente o amor iria aflorar nos dois.
No fim da noite, nada muito importante aconteceu, Maura ficou quieta, só argumentava quando algum comentário era direcionado a ela, os Becker's voltaram para sua casa como se seus tempos tivessem sido desperdiçado.
Maura estava em seu quarto de frente para o espelho retirando sua maquiagem quando sua mãe entrou.
— O que foi aquilo lá embaixo? — a mulher perguntou indignada.
— Do que está falando?
— Eu me dei o trabalho de fazer esse jantar, esse encontro pra você conhecer um bom rapaz e é assim que você age?
— O único trabalho que você teve foi pedir pras cuidadoras arrumarem tudo e fazerem a janta, e no máximo ligar pros Becker's.
— Olha como você fala com sua mãe! Me respeite!
— Eu respeito quem me respeita, aprendi isso do pior modo. — disse pensando em todas as vezes que esteve em uma situação hostil trabalhando na BPD
Essa era a parte boa de trabalhar em um hospital, não havia perigo de ser sequestrada, mantida refém ou levar um tiro.
— Eu te respeito! — a mais velha disse se ofendendo.
— Se me respeitasse não teria me tirado de Boston.
— Nós já conversamos sobre isso. Você tem um nome a zelar.
Maura não queria discutir sobre isso novamente, conhecia sua mãe, sabia que ela não iria desistir, e sabia que quando a mais velha colocava algo na cabeça, não tirava mais, conseguia ser mais teimosa que Jane.
— Pode sair do meu quarto, por favor? Eu preciso descansar, amanhã tenho plantão.
Assim que sua mãe saiu do quarto, Maura voltou a tirar a maquiagem. Foi ao banheiro e se despiu enquanto o chuveiro esquentava, entrou no banho e deixou a água morna lavar todos os problemas embora. Ela abaixou a cabeça deixado a água bater em si em uma massagem profunda, ela lembrou-se do momento que foi embora e imaginou a dor de Jane ao chegar em casa e encontrar o bilhete, ao perceber que não a veria novamente, a confusão, ela pensando o porquê, se culpando. Não percebeu quando as lagrimas começaram a cair, ela se deixou chorar livremente, sentou-se no chão do chuveiro deixando a água bater em suas costas, ela chorou até seus pulmões começarem a doer, até não saber mais o que estava fazendo. Saiu do banho e vestiu-se, foi direto para a cama deitar-se, a tela de seu celular brilhou avisando uma notificação que excluiu ao ver que não era importante, e então a foto dela e de Jane apareceu como papel de parede, a foto que tiraram no dia em que estavam de folga e assistiram filmes e documentários o dia inteiro. Sorriu passando o dedo no rosto de Jane, como senti falta de tocar aquele rosto, falta de beijá-la, falta de abraçá-la e de tê-la, das conversas aleatórias sem sentido, dos casos que resolviam juntas. Sentia falta de quando Jane a elogiava quando descobria algo importante que a ajudaria a desvendar um caso. E então lembrou-se da coisa que quebrou seu coração, o momento em que finalmente atendeu a ligação de Jane, seu coração apertara só de lembrar, ela queria poder ter dito tanta coisa a mais, inclusive disse até o que não devia, sua mãe estava junto e observando a conversa atentamente, não deixaria Maura voltar para Boston por nada, muito menos por uma mulher. Maura mentiu para Jane ao dizer que tinha ido embora pelas dificuldades, não poderia incriminar o pai da morena novamente, apesar de pensar que ela já sabia e culpava o próprio pai. Arriscou ao dizer que talvez voltaria, sua mãe lhe olhou como se soltasse fogo pelos olhos, mas a loira não se importaria com alguns gritos e broncas, apenas queria que Jane a ouvisse, e precisava ouvir Jane.
Ela olhou novamente para a foto, e antes de se render ao sono, sussurrou:
— Eu te amo, Jane.
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