It's Time I'll Be Letting You Go
1 Please, just. Help me.
Notas iniciais
Alguma vez te agarraste a uma mentira, com tanta força, que preferiste ficar sem visão a ficar sem coração?
–X-
Toda a minha vida, ouvi os adolescentes à minha volta a chorarem por "corações partidos". A partilharem frases pseudo românticas em redes sociais, como se alguém das suas famílias tivesse falecido e se encontrassem no mais profundo dos lutos. Sempre achei ridículo.
Lembrava-me bem da dor de perder a minha mãe. Lembrava-me bem da agonia ao ser abandonado pelo meu pai.
Quando fui encostado à mesma posição, entendia essa dor. E as palavras não era um conforto ou insolência, era um pedido de socorro.
Para me salvar de mim mesmo.
–X-
No dia que eu o conheci, eu vi em minha frente algo que perdera há muito tempo. E eu estiquei os meus braços e corri porque não queria mais nada do que um remédio para o meu coração queimado.
Mas ele era inalcançável, tal como sempre foi. Eu invejava a forma como ele brilhava para o mundo inteiro da sua forma única. A simplicidade mais cativante.
Nunca mais consegui desviar os olhos.
–X-
– Eu acho que estou apaixonado por ele. — nas tardes mais calorosas de Verão, recordava ir em longos passeios com o Kuroko. Só a companhia dele acalmava a minha alma naquele dias mais instáveis, de gritos e saudade.
– Apaixonado? Akashi-kun, eu não penso—
– Não romanticamente, em concreto...
– ...Então apaixonado como?
– Eu não sei. Sei bem como é estar apaixonado dessa forma, e não é igual. É algo mais único do que o amor.
"Eu estou apaixonado por uma memória."
–X-
– Akashi.
Quando era ele que falava, o meu coração sempre saltava uma batida e a minha respiração acelerava. Sentia me ansioso e sorria, esperando ele sorrir para mim e...ele não sorriu.
– Preciso de falar contigo em privado. — estávamos apenas com Midorima e Takao, que andava constantemente grudado ao seu lado, e mais Aomine, Kuroko e Momoi, que se afastaram para comprar bebidas numa máquina automática.
– Que se passa, Nijimura-san? — o meu sorriso caiu.
– Tu entendes o que fizeste ali, não entendes?
– O que eu fiz? — começava a ficar confuso.
– Porque é que és tão hostil para o Takao? Porquê todo esse desrespeito? Eu simplesmente não entendo, Akashi. E fico chateado porque não pareces ser a pessoa que eu conheço, quando tens estes surtos. — ele suspirou.
– Peço desculpa. — sabia que era orgulhoso e mais que tudo, estava a ser infantil com os meus comportamentos. Porque sempre agia tão irracionalmente com ele por perto?
– Não é a mim que tens de pedir desculpa. — encarou-o nos olhos. — Essas tuas atitudes estão a passar dos limites, Akashi. Eu não posso fazer nada quanto a isso mas fico triste em saber que tem de ser assim. Vais acabar por afastar toda a gente de ti.
E aquela era a realidade. E eu sabia que aquela era a realidade, porque quando os seus olhos se fixavam em mim, eu sentia o meu coração explodir. A sensação dentro de mim era mais real que qualquer outra coisa.
– Eu...eu tenho problemas e... — falar com ele em minha frente, de tal forma, tirava-me as palavras. Eu só conseguia sussurrar em vão.
– Toda a gente tem problemas, Akashi. — vi o quanto ele ficou sofrido, na maneira que falou. — E mesmo assim não nos vês a te desrespeitar. Desculpa, mas se isto se repetir, eu quero que te afastes de nós.
E pela primeira vez, eu senti o meu coração a partir-se em mil pedaços.
– Não posso deixar que andes por aí a maltratar os meus amigos.
– Porque é que estás a defendê-lo a ele se...?!
– Se? Se o quê? — e era a forma acusatória, mas tão verdadeira que ele se dirigia a mim, que me relembrava de como eu o amava. Abaixei a cabeça.
– Desculpa, eu...não te queria deixar zangado.
– Eu? — ele suspirou e passou a mão pelos cabelos. — O problema não sou eu, Akashi. Tu não podes te comportar de uma maneira comigo, e com o resto das pessoas de outra. Tens de pensar antes de fazeres as coisas, para não magoares ninguém. Tu és uma boa pessoa, no fundo eu sei que és. Então melhora, Akashi.
Ele pousou a mão na minha cabeça e surgiu aquela enorme vontade de o abraçar. Incontrolável vontade.
– Não procures motivos para te afundares.
–X-
– Eu amo-o. — a mão de Mayuzumi passava pelos meus cabelos ruivos, a minha cabeça no seu colo. Eram raros os momentos em que eu mostrava necessidade de carinhos. Ainda mais raros eram os momentos em que ele escutava com atenção as minhas palavras, sem um livro na frente dos olhos.
– Eu sei que sim.
– Não da mesma forma que eu te—
– Eu sei. Eu sei de tudo, Akashi. Não precisas de te justificar para mim. Eu entendo.
Se entendes então explica-me. Porque eu estou perdido. E sei que vou cair desamparado.
–X-
– Imayoshi-san.
Eu odiava ter de chegar a extremos. Mas a sensação ardente dentro do meu peito não desaparecia e eu necessitava agarrar-me ao pouco dele que eu tinha. Segurar-me à amizade que tinha com Nijimura.
– Ah, Akashi, que bom ver-te. — sentia-me sempre um pouco desconfortável, não importava o quanto o conhecia.
– O...o Nijimura-san, porque ele está sempre ausente? Raramente ele vem sair connosco.
– Ah, estás preocupado com ele? — ele sorriu-me e eu desviei o rosto. Orgulhoso demais. Teimoso demais.
– Não, é que...bem...u-um pouco, talvez. — cocei a nuca.
– Não é nada pessoal, ele está só ocupado com a faculdade. Sabes, primeiro ano é difícil para todos.
– ....Sim, eu entendo.
Eu nunca realmente entendi.
–X-
– Kise.
Raramente ia falar em privado com o loiro, mas adorava como ele ficava tão atento, como se as minhas palavras seguintes fossem algum ensinamento, alguma promessa.
– Diz, Akashicchi.
– ...Kise, se acontecer algo e eu morrer, prometes que fazes uma coisa por mim? — os seus olhos arregalaram-se em confusão. — Prometes que...prometes que dizes ao Nijimura-san que eu realmente gosto muito dele e que nunca o esquecerei? Por favor.
– C-como assim? — ele pareceu completamente sem jeito. — Porque é que estás a pedir isso justamente a mim? E a dizeres isso...tu não vais morrer.
– Eu confio muito em ti. Prometes?
– S-sim mas tu não vais morrer! Não tens de pedir isso. — o loiro parecia incomodado. Não compreendia o porquê.
– Eu sei, mas nunca se sabe quando acidentes podem acontecer então só quero prevenir, sabes. Para prevenir.
– Okay. Para de pensar nisso então, para puderes prevenir. — ele despenteou meus cabelos, ato que consideraria ousado, não fosse a situação. — Anda, estão a chamar nos. — e o seu sorriso foi o que me acalmou.
–X-
E lentamente, tudo estava a se acalmar. Finalmente estava a conseguir ter conversas calmas e coerentes com Nijimura, e não havia sensação melhor do que estar bem com ele. Sentia a amizade a se formar. Sentia que finalmente tudo estava a ficar bem.
Até que as palavras de Chihiro vieram aos meus ouvidos.
– Ele...não está mais cá, Akashi.
...
Hã?
Quando dei por mim, o mundo estava negro e rodopiava e eu não via mais o sol. Uma dor encheu o meu coração, e os meus olhos e a minha garganta travou. Não havia mais nenhum som que podia soltar.
– Do que é que estás a falar? Ele está sempre aqui.
Ele prometeu que nunca me ia deixar.
Mas quando eu corri para sua casa, ele não estava lá. E as paredes pareciam podres, como se nunca ninguém tivesse vivido no lugar.
E quando fui ter com Imayoshi, ele não parecia entender nada do que eu dizia. Eu gritava e ele não me ouvia; como se estivesse a falar uma língua diferente, e não me entendesse. Ou então eram as suas palavras que não me significavam nada.
E então, quando voltei para frente de Mayuzumi, agarrei nos seus ombros e olhei-o nos olhos, a tentar buscar por aquela compreensão que sempre estava lá, pelas palavras seguras de que nada tinha mudado. Mas não estava lá nada. E nada era igual.
– Nunca nada foi assim, Akashi.
E eu não entendia. Eu já não entendia mais o que se passava.
As palavras deles não me tocavam e eu só queria que alguém me agarrasse e dissesse que tudo ia voltar ao normal, em pouco tempo, e que ele ia voltar para estar do meu lado de novo.
Mas ia mesmo ele estar lá?
Eu perdi a visão. E perdi a audição porque ouvia a respiração deles perto e nenhuma palavra me chegava. Sentia-me vazio, como nunca tinha estado. O vazio sempre fora confortável, uma forma de escapar os meus problemas.
Aquele era agoniante. Sufocante. E parecia sugar toda a minha vontade de viver.
Foi tudo uma mentira?
E talvez tenha sido, porque a minha alma não aceitava qualquer verdade. As minhas pernas já não se moviam e só sentia o meu corpo a tremer. Onde estava? Quando tempo se tinha passado?
Eu não entendo.
E alguma vez tinha eu entendido? Quem era ele na verdade, Nijimura Shuuzo? De onde ele veio, tão repentinamente e como ele atraia todos à sua volta? Como pôde ele atrair-me, a mim, e agora largar tudo de forma tão egoísta e—
COMO PÔDE?
Doente. Só podia ser doente, talvez inconscientemente. E neste último momento podia ver como ele nunca me amou de volta. E nunca teve consideração pela forma como eu o amava, ou então nem se apercebeu que eu o amava.
Eu não sou uma mentira. EU NUNCA FUI UMA MENTIRA!!
E nunca ninguém me viu e entendeu. Talvez Mayuzumi, daquela vez em que me viu chorar desolado. Ou agora, quando me via desfalecido e parado, morto por dentro.
A janela do meu quarto parecia tão longe e tão perto. E os céus pareciam cómodos. E não fosse pela sua mão a segurar-me, a dar-me um resto de vida, teria tentado saltar até perto daquele paraíso.
Estás nesse paraíso, Nijimura-san? Por favor, volta. Fazes mais falta aqui.
Por favor, eu amo-te.
Talvez devia ter dito mais vezes, o quanto eu o amava. E talvez eu deveria ter me aproximado mais dele, e criado aquela lenta amizade mais cedo. Devia ter tentado perder o medo, o medo de que ele desaparecesse, e aproveitado a sua presença.
Porque a verdade é que não vais voltar, não é?
Mas porquê? Porquê isto tudo se no fim era para acabar assim? Foi divertido, era o que queria gritar, foi divertido brincar com os meus sentimentos enquanto durou?! Oferecer-me esses sorrisos falsos e essa bondade, para depois roubar tudo de uma vez?
É divertido ver-me partido em mil pedaços, assim? Eu...não consigo mais ver ninguém. Então aproveitem a visão, antes de desaparecer.
E eu adormeci, de novo, com a mão de Mayuzumi nos meus cabelos e o seu beijo plantado na minha testa.
E no dia seguinte, estava eu no meio de todos, de sorriso erguido como sempre.
– E como está Nijimura, Akashi? Tu que andas sempre com ele, né?
– Ah, o Nijimura-san? Ele está bem. Anda só ocupado, mas logo ele volta.
Ne?
–X-
– Akashi.
Quando Aomine veio falar comigo, eu sabia o que ele ia fazer. E sabia que eu sabia da verdade, que Shuuzo tinha desaparecido. A verdade que ainda não tinha sido totalmente anunciada.
– Que se passa, Aomine?
– Eu sei que sabes a verdade, para com o teatro. — acho que nunca tinha encarado os seus olhos azuis para ver como eles eram profundos. Sorri.
– Eu não merecia. — ele sentou-se do meu lado.
– Ninguém merecia.
–X-
E foi num dia como os outros, em que a minha dor ardente já não se mostrava, e estava apenas deitado na minha cama, a olhar para as mensagens trocadas com Nijimura no meu celular, que não pude resistir.
"Nijimura-san — 22:26"
"Desculpa vir aqui incomodar te, mas hoje preciso desabafar e acho que só tu me podes ouvir. — 22:28"
"Estou pior do que pensava que estaria. E penso que já se passaram duas semanas, desde que soube que desapareceste. — 22:29"
"Acho que nunca te quis deixar. Nunca quis que desaparecesses. — 22:31"
"E sei sim que a vida é uma droga, e que não podemos ter tudo o que queremos mas porra, tu foste a única coisa que eu quis. — 22:35"
"Eu também estou louco, mandando estas mensagens, sabendo que não vão ter resposta. — 22:38"
"Sinto que estou a falar com alguém que morreu. — 22:38"
"Agora, curiosamente, estou a apoiar-me mais no Aomine, sabias? Ele é mais compreensivo do que esperei. — 22:40"
"Ele está me a ajudar muito, na verdade. — 22:41"
"Só tenho medo de que ele vá e suma também, ahah. — 22:41"
"Falar aqui, desabafar, é reconfortante, na verdade. — 22:47"
"Talvez faça isso mais vezes. — 22:51"
"Eu amo-te. — 22:52"
"Vou ficar aqui à tua espera. — 22:52"
–X-
Mayuzumi não entendia bem toda a exaltação de Akashi, todas as vezes que recebia uma mensagem. Por dentro sabia que algo se passava, mas não teve coragem de lhe esticar a mão e magoá-lo ainda mais.
Kuroko tinha total noção de que Akashi não aceitava e nunca aceitaria a verdade. Mas não lhe fazia diferença. Ele só queria que o ruivo estivesse bem.
Aomine só queria puder ajudar. Mas as paredes envolta de Akashi eram espessas demais, grandes demais. Ele já não confiava em ninguém.
Porque Akashi só queria que alguma voz chegasse nele e o acordasse, e essa voz já não estava lá mais. E não fosse ele, ninguém conseguiria ultrapassar essas barreiras. Estava perdido, na sua solidão. E já não sabia pedir por socorro.
Ele não queria pedir por socorro.
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