It's Not Too Late
1 She was still there.
Era estranho para Daryl caçar acompanhado. Já era costume seu ficar sozinho naqueles momentos; era seu refúgio particular de tudo que estava acontecendo. Mas ele não importava-se agora, realmente.
Quando Carol perguntou se podia acompanha-lo na caçada, ele sequer hesitou para responder. Ele nunca diria não á ela.
Por isso, naquele momento, o caipira observava atentamente Carol andando poucos passos á sua frente.
A mulher mantinha-se atenta á tudo que acontecia á sua volta, mesmo assim, não notava o modo como Daryl a observava. E ele estava aproveitando essa pequena distração dela.
Pela posição do sol, Daryl constatava que já passara no mínimo uma hora desde que os dois haviam saído da prisão, mas ainda não haviam achado nada mais que alguns poucos esquilos; aquilo não daria para todos.
- Acho que não estamos com sorte. – Carol constatou, falando pela primeira vez em vários minutos. – Acha que temos chance de conseguir algo antes do por do sol? –Indagou preocupada.
- Talvez. – A resposta de Daryl foi vaga, porque ele também não sabia se conseguiriam.
Carol olhou-o de soslaio por sobre o ombro, voltando rapidamente sua atenção para á frente.
Ele respirou fundo, concentrando-se ao máximo no que estavam fazendo. Mesmo que aquilo parecesse impossível no momento.
Estar perto de Carol era difícil pro caipira, ele sempre sentia-se perdido, confuso e extremamente desligado de tudo que não fosse ela.
A mulher tinha algo que o atraia de uma forma arrebatadora; ele desejava-a intensamente. Porém, nunca teria coragem para admitir aquilo para outra pessoa além de si mesmo.
Já havia muito tempo desde que descobrira sua paixão pela doce mulher, mas mantinha tudo em segredo; estar apaixonado era estar vulnerável a todos os sentimentos que pudessem feri-lo novamente – assim ele pensava.
Mesmo querendo esquecer aquele amor impossível, Daryl não perdia a chance de estar com ela. Cada segundo ao lado de Carol era precioso demais para o caipira; ele prendia-se a isso nos seus piores momentos.
Daryl sacudiu a cabeça, espantando todo e qualquer pensamento sobre aquele assunto. Olhou em volta, percebendo que desconhecia completamente aquele lugar.
- Acho que nos afastamos demais da prisão. – Comentou, chamando a atenção de Carol.
Ela parou de andar, virando-se para ele. Ela segurava a arma firmemente na mão esquerda.
- Acho que sim. – O olhar dela parecia distante para Daryl, preocupado até. – Devemos voltar?
Quando o homem pensou em responder, um barulho fez com que ele desistisse disso. Levou o dedo indicador até a frente dos lábios, indicando para que Carol fizesse silêncio.
Ele postou-se a andar o mais discretamente possível, parando ao lado de Carol. A mulher olhava-o aflita.
- Eu reconheceria esse barulho em qualquer lugar. – Ele sussurrou. – É um cervo.
Indicou para que ela ficasse onde estava e voltou a andar.
Atrás da densa mata que se elevava naquela parte, um cervo bebericava água de uma poça, criada pela chuva da noite passada.
Daryl afastou com uma das mãos o mato que impedia sua visão do animal, com a outra, ele segurava a crossbow.
O cervo parecia completamente alheio a qualquer movimentação á sua volta, por isso, sequer percebeu o momento em que Daryl ajeitou a crossbow nas duas mãos, apontando diretamente para o crânio do animal.
A flecha matou-o em um instante.
O caipira sorriu minimamente, sentindo-se vitorioso.
Após um curto minuto observando o animal morto, virou-se novamente para Carol, esperando ver um sorriso naqueles lábios que ele tanto desejava.
Mas ela não estava ali.
O caipira franziu o cenho, olhando em volta, procurando-a. Mas Carol não estava em nenhuma parte da floresta.
- Carol! – Chamou-a. – Carol!
Não houve resposta alguma.
A preocupação já começava a tomar conta de Daryl, ele não entendia como ela poderia ter sumido. Em um minuto, estava ali, atrás dele, no outro, desaparecera.
O caipira esperava desesperadamente que ela apenas estivesse brincando com ele. Mas não parecia ser o caso.
- Carol? – A voz do homem estava carregada de desespero enquanto ele vasculhava com o olhar o perímetro á sua volta. – Onde você está?
O suor escorria frio por sua nuca, a respiração tornara-se mais ofegante á cada minuto que seu desespero crescia.
Os passos apressados de Daryl tornaram-se vacilantes, agora ele corria, sem realmente saber para onde. Não importava-se em chamar a atenção dos errantes com seus gritos, ele só queria encontrar Carol.
Ele só via ás árvores á sua volta, sem ver forma alguma. Nunca sentira-se tão desesperado como naquele momento, era como se uma parte de si estivesse perdida, assim como Carol.
- Carol. – O grito saiu mais baixo que os outros em consequência da sua falta de ar. O oxigênio parecia não ser o suficiente para mantê-lo em pé agora.
- Estou aqui, Daryl.
Ele parou de correr, a voz vinha de um ponto atrás de si. O alívio invadiu seu corpo por apenas um instante; logo ele deu lugar ao medo e pavor quando ele a viu.
Aquela era Carol. Mas também não era.
Ela havia se transformado.
Sua pele, antes tão macia, agora era esverdeada, coberta por ferimentos que ele não tinha ideia de como ela adquirira tão rapidamente.
Seus olhos, de um azul tão intenso e acolhedor, estavam brancos, leitosos. Os cabelos bagunçados a deixava com um ar horrivelmente selvagem.
- Carol? – Daryl não queria acreditar que era ela.
Seu corpo tremeu, observando aquele errante que era apenas uma sombra da mulher pela qual Daryl estava apaixonado.
- Sou eu, Daryl. – Respondeu o errante. A voz era a de Carol, mas estava completamente sem emoção. Apenas um eco do que um dia fora. – Sua Carol.
- Não. – Ele afastou-se dela, aterrorizado demais até para ligar-se ao fato de que errantes não falam. – Não é a minha Carol. – Disse, mais para si mesmo do que para o monstro á sua frente.
Sua mente girava, confusa demais. Os pensamentos embaralhavam-se; sua cabeça estava um caos.
- Claro que sou. – O errante disse. – Eu sou a sua Carol! Mas agora é tarde demais, não é? – Ela sorriu mecanicamente, apenas um repuxar de lábios.
Tarde demais...
A mente de Daryl esvaziou-se, apenas aquelas duas palavras preenchiam seus pensamentos agora.
Era tarde demais, e a culpa era dele.
O que antes era Carol aproximou-se novamente de Daryl, ficando frente á frente com ele. Ele não conseguia se mexer, queria sair de perto dela, mas seu corpo não obedecia seus comandos.
- Você teve várias chances. – Ela sussurrou, soprando o cheiro da morte no rosto dele. – Mas por medo, não aproveitou nenhuma. Eu tinha que ser sua, mas você preferiu me deixar morrer.
- Isso não é verdade. – Ele fechou os olhos, não conseguia mais encarar aquilo.
- Não? – A voz estranhamente familiar soou em seus ouvidos. – Olhe para mim! Abra os olhos. Veja o que você fez comigo, Daryl Dixon.
- Eu não fiz nada! – Serrou os punhos, tentando controlar a dor que atingiu seu peito naquele instante. – Isso não é minha culpa. – Pela primeira vez em muitos anos, Daryl sentiu que estava prestes a chorar.
- Você me perdeu, Daryl.
O sussurro dela foi o stopim para ele, Daryl caiu de joelhos no chão úmido da floresta, sentindo as lágrimas escorrendo por sua face. Ele não abriria os olhos, não suportaria ver Carol daquela maneira.
Ele sabia que a culpa era sua. Deveria ter contado á ela, admitido o quanto a amava. Mas havia deixado todas as chances escaparem, era tarde demais.
Daryl acordou em um rompante, sentando-se desajeitadamente na cama. Olhou em volta, percebendo que estava na prisão.
Lembrou-se de cada momento que passara ao lado de Carol, percebendo que tudo não passara de um pesadelo.
Passou a mão pela testa, limpando o suor que escorria. Parecia tão real, agora, ele sentia-se um completo idiota por ter acreditado naquilo. Sentia que deveria ter percebido que não era verdade.
Errantes não falam.
Quase riu da sua mais completa ignorância no pesadelo, mas sentia-se incapacitado para qualquer sentimento que não fosse o alivio.
Ela ainda estava ali.
Carol estava viva.
Mas de certo modo, a realidade ainda não havia o atingido por inteiro. Uma parte de sua mente estava revivendo cada segundo do terrível pesadelo.
Precisava certificar-se de que Carol estava bem.
Ainda tremulo, levantou-se da cama. Observou pela janela da prisão que o sol já quase nascia no horizonte.
Deu alguns poucos passos até a cela dela, um tanto quanto confuso sobre suas atitudes naquele momento.
Aquele sonho despertara algo dentro de si; era como se uma luz fosse acesa em sua mente, ele via agora uma chance formando-se para si.
Tarde demais...
Ele não podia perde-la. A dor que sentiu naquele pesadelo havia sido intensa, real e ele não queria sentir aquilo nunca mais.
Daryl parou em frente ás grades, observando a mulher adormecida na cama.
Sorriu – quase imperceptivelmente – diante da cena. Ela parecia tão calma; como se não tivesse problema algum. Nada poderia atrapalha-la. Era assim que o caipira gostava de vê-la.
Daryl pensou em continuar ali, mas ao longe, já conseguia perceber os sinais de alguém acordando.
Voltou á passos largos para sua própria cela, decidindo que deveria começar logo suas tarefas diárias.
#
Com a crossbow no colo, Daryl descansava sentado na cadeira. Ali, da torre de vigilância, ele observava a vasta extensão de terra que se estendia á sua frente.
Alguns poucos errantes se aglomeravam na cerca da prisão; a maioria havia sido morta por Maggie e Carl, mais cedo.
Aqueles corpos podres lá embaixo fizeram com que Daryl relembrasse dolorosamente o pesadelo que tivera.
O caipira evitou a aproximação da mulher o dia todo, temendo não controla-se perto dela.
Daryl sabia que mesmo não querendo admitir sua paixão por Carol, ele logo se entregaria. Todos os dias eram de lutas constantes para refrear aquele sentimento.
Mas agora, tendo plena consciência que poderia deixar de ter a companhia dela á qualquer momento, ele sentia que se ela se aproximasse, ele confessaria seu amor. Contaria seu maior segredo.
Bufou irritado, sem saber o que fazer agora, com aquilo tudo rodando descontroladamente em sua cabeça.
Ouviu passos abafados subindo á escada da torre. E por um breve segundo, não se importou ao reconhecer os passos de Carol; mas logo sentiu-se tenso, lembrando que deveria ficar afastado dela.
Mas ele não podia fazer nada agora.
Apenas esperou com paciência e calma fingidas que ela chegasse até ele.
Ela entrou silenciosamente na Torre, foi até um dos cantos do local, pegando á outra cadeira ali deixada. Levou-a até o lado de Daryl, sentando-se em seguida.
Eles permaneceram em silêncio, apenas contemplando a paisagem – assim como tantas outras vezes.
- É impressão minha ou fui evitada por certo caipira o dia todo? – A voz dela não trazia raiva ou mágoa, o que deixou Daryl aliviado.
O homem não respondeu a principio, não sabendo o que diria á ela. Contar a verdade? Não, estava longe de ser uma opção viável.
Daryl optou por apenas dar de ombros.
Carol suspirou, frustrando-se. Ela e Daryl já haviam passado da fase das respostas evasivas; eles confiavam um no outro. Mas parecia que ele estava regredindo. Voltando a ser o mesmo caipira frio e fechado de antes.
Ela também não tinha certeza absoluta se queria uma resposta; estava com medo de perde-lo.
Por mais que a mulher nutrisse um sentimento maior que amizade por Daryl Dixon, ela tinha medo de estragar a relação que tinham. Seria impossível para ela sobreviver sem ele agora.
Algo em seu intimo impedia o homem de falar algo. Ele queria conversar com Carol, dizer que estava tudo bem, que ela não tinha com o que se preocupar. E o mais importante: que ele estaria sempre ao lado dela.
Mas ao invés de qualquer uma dessas palavras, o caipira preferiu mostrar tudo á ela com um simples gesto.
Pousou uma de suas mãos suavemente sobre a dela, que estava no braço da cadeira. A mulher não reagiu a principio, mas logo virou a mão, entrelaçando seus dedos nos dele.
Daryl sentiu o alivio imediato que só o toque dela trazia; ele sentia-se completamente livre, mas ao mesmo tempo, preso á ela.
- Não é tarde demais. – Ele sussurrou; Carol não entendeu, mas não queria acabar com aquele momento, por isso, manteve-se em silêncio, apenas aproveitando o contato. – Não para nós!
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