“You and I, we're one too many worlds apart

It really shouldn't work but it does”



Deitado ali, notava pequenas coisas. Notava o respirar nada suave de Zenitsu; ruidoso, roncando. Virou-se então, cansado de observar o teto, olhando agora à sua esquerda. Inosuke não emitia muitos sons, talvez o sono o tivesse alcançado há pouco. Costumeiramente também fazia tanto estardalhaço quanto o loiro agora às suas costas.

A cabeça de javali, o jeito turrão, explosivo, briguento. Era tão diferente de si. Ainda mais de Zenitsu, claro. Certas parcerias não deveriam dar certo, era fadada ao desastre; mas ali se davam bem, até. Contra todas as apostas, incluídas as dele. Sorriu, havia um teto sobre suas cabeças, uma cama macia sob seus corpos. Estavam seguros, recuperando-se dia após dia. Podia então relaxar um pouco.



O sorriso não passou despercebido; Inosuke o observava. Quando com a máscara, pouco sabia-se se estava ou não dormindo. De olhos bem abertos notou o movimentar sobre a cama alheia, a leveza com a qual girava sobre ela para encará-lo, e então sorrir. Como se Tanjiro tivesse esse direito, de lhe sorrir! De lhe sorrir quando achava que ele estava dormindo, safado!

Fechou as mãos em punho, apertando o lençol macio, soltando o ar de modo mais ruidoso, pouco — na verdade quase nada — entendendo sobre aquilo que parecia lhe esquentar o interior. Tinha fogo ali dentro?

Sentia-se sempre estranho quando Tanjiro lhe era gentil, quando lhe sorria, quando falava consigo naquela voz suave. Sempre tão esperançoso, bondoso. Disposto a se sacrificar, ou ficar em segundo plano para que as missões fossem concluídas com sucesso. Não buscava ser o número 1. Aquele maldito era estranho. E fazia-o sentir coisas estranhas, como aquele quentinho no peito.

Irritado, cruzou os braços sobre o peito, soltando o ar ainda mais ruidoso, incomodado.

Achou então melhor saber se sentia tudo aquilo, coisas que não sabia definir, apenas por ações, ou por tato também. Afastou o lençol que lhe cobria o corpo, arrastou-se a passos curiosamente lentos e silenciosos, puxou o lençol, descobrindo o corpo de Tanjiro, e deitou-se.

Acomodou-se no torso quente, e embora firme, macio. Sentia-se estranho, mas não algo que lhe trouxesse desconforto, pelo contrário! Sentia-se tão bem, acolhido. Nem ao menos sentiu-se incomodado quando automaticamente Tanjiro lhe abraçou, talvez em meio a algum sonho, não saberia dizer. Também não se incomodou quando sua tão querida cabeça de javali pendeu até que jazesse na cama, longe de sua cabeça. Assim pode se acomodar ainda melhor, a bochecha a tocar abaixo do ombro coberto de Tanjiro, o nariz captando a essência pura e suave do rapaz sob seu corpo.

Quando deu por si, dormia.

Tão tranquilo, em nada parecia a ferinha capaz de fazer tanto alvoroço e causar tanta briga por nada. Tanjiro aflorava nele coisas que nunca pensou que fosse sentir, tampouco gostar.



Quando o sol raiou, como de praxe Tanjiro fora o primeiro a acordar. O peso sobre seu torso lhe era estranho, poderia jurar que tinha uma perna enroscada à sua, e uma respiração batendo em seu pescoço. Quando os olhos abriram-se, estagnou. Arregalou-os, surpreso pela ousadia, mas não descontente por ela. Como ele mesmo havia pensado antes de dormir, era algo que não parecia funcionar, mas funcionava. Havia um laço verdadeiro que começava a se formar ali, e sorriu, realmente feliz, ao constatar que Inosuke passava a realmente confiar em si, e a querê-lo por perto.

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