Notas iniciais
Desculpem a demora, :c

O dia lá fora anunciava uma bela tarde de terça feira, fria e úmida. O relógio na parede marcava duas e meia da tarde, e a essa altura nem a janela do quarto havia sido aberta. Para dizer a verdade, uma jovem loira de cabelos desgrenhados repousava sob o tapete observando a luz que vinha da fresta da porta e da janela. A áurea ali estava pesada, o quarto obteve um odor de lágrimas, se possível e um ar triste. Quinn sentia-se morta, mal obtinha respostas dos músculos do corpo, tudo o que conseguia era mover os olhos, e mesmo assim o fazia para expulsar pequenas lágrimas que ainda insistiam em nascer ali. Ela não conseguia se lembrar de quando tinha ficado tão triste assim pela ultima vez, e pensou até mesmo que nunca conhecera esse tipo de sofrimento, nem mesmo quando foi preciso entregar Beth para a adoção...Mas, ela estava ali. Fraca, emotiva, com os pensamentos voltados a Rachel, podia sentir pontadas na cabeça de tão focada que sua mente estava.

Não era justo, era? Esperar dois anos para um câncer se manifestar, esperar que ela cogitasse a ideia de passar um tempo em Nova York para tal desgraça. E ao se lembrar do pequeno corpo na cama, Quinn lembrou-se também de como sentira falta de Rachel, e de como isso a estava afetando, pois não era normal. Lembrava-se de ter dormido apenas quatro horas durante a madrugada, e sonhado com a pequena diva. Ela cantava. Uma música conhecida, porém esquecida na mente da loira. Reunindo forças sabe-se lá de onde, Quinn se levantou já sentindo a perna formigar devido a posição que dormira. Largou o diário — que ela hesitava em ler a cada segundo em que o encarava -, em cima da cama e ligou a luz do quarto. Ela podia jurar que quase ficou cega. Tirou o resto da roupa e entrou no banheiro, ligou o chuveiro e se enfiou debaixo da água aquecida, seu corpo todo se arrepiou com o choque elétrico que recebeu. As lembranças da tarde passada novamente a invadiram e ela escorregou pela parede do box até seu corpo nu tocar o chão sólido e gelado. Ela não conseguia parar de chorar.

Vestiu uma roupa qualquer e ouviu seu celular tocar. Imediatamente se aprontou para atendê-lo, até ver o nome no visor.

"Charles Connel"

Seu passado de três dias a invadiu como uma granada e ela se lembrou de toda a sua trajetória em Yale e com seu professor. E agora, sentia-se enojada de si mesma.

Deixou o celular na cama junto ao diário e decidiu que era hora de encarar Santana.

Ela desceu as escadas e como contava, a latina estava na cozinha preparando alguma coisa. Quinn parou no vão da escada e encarou a latina que ainda não percebera sua presença, as duas se pareciam agora, por motivos diferentes, mas ambas possuíam grandes olheiras e uma tristeza plantada no olhar, e Quinn insistia em se perguntar como pudera chegar a esse estado por uma amiga...

– Olá. — se não estivesse olhando diretamente para a latina, poderia jurar que era outra pessoa que falava com ela. A loira balançou a cabeça com um meio sorriso, pelo jeito a discussão havia sido deixada para trás.

Quinn sentou no primeiro degrau e abraçou as próprias pernas, meu Deus, como estava abalada e frágil, sentia como se seus pulmões tivessem sido arrancados. Santana se aproximou encarando a amiga com preocupação, estendeu uma caneca azul claro para a loira e ficou com a outra. Era chocolate quente.

Santana havia feito chocolate quente para ela?

A latina sentou-se ao lado da amiga, encarando o mesmo ponto fixo no chão que a loira, ela parecia querer perguntar algo, mas nada saia. Quinn suspirou fortemente e após uma golada no chocolate quente, sentiu o choro silencioso subir novamente pela garganta. Santana balançou vagamente a cabeça para trás e para frente, como se tomando confiança.

– O que está havendo, Quinn?

E a loira soube pelo tom de voz da amiga, que não era uma pergunta sobre o estado de Rachel, pois ela já sabia. Santana queria saber o que havia de errado com a própria Quinn, e isso a assustou, pois nem ela mesma sabia. Quinn deitou a cabeça no ombro de Santana pedindo conforto, ela precisava se sentir segura naquele momento.

– Eu não costumo dizer essas coisas, e espero nunca mais repetir porque acho algo extremamente gay, mas, — Santana deu uma pausa para que Quinn pudesse sorrir em seu ombro e voltar a se sentar normalmente para terminar o chocolate quente. — eu não fugiria se fosse você. Algo está errado, Quinn, desde que você chegou aqui e soube sobre o acidente, tudo o que consegue fazer é chorar. Talvez você esteja despejando tudo o que sofreu em silencio nesses dois anos, — Quinn olhou para Santana intrigada que a encarava com uma expressão grave. — está na hora de por em dia sua conta, Fabray.

Quinn se levantou incomodada, odiava que jogassem seu estilo de vida na cara, ainda mais Santana. Largou a caneca em cima da mesa e se virou para a morena:

– Me desculpe, San, mas eu não sei do que está falando. — Santana ergueu uma sobrancelha, e a loira continuou. — Rachel e eu nos tornamos muito amigas no ultimo ano, ela e eu temos uma ligação muito forte, é por isso...Deus, Santana, ela vai morrer!

A latina abaixou os olhos tristemente.

– E não quer aproveitar esse tempo para descobrir coisas que talvez o tempo tenha reservado para você?

– Você está bem? — a mudança no assunto foi tão rápida que Santana abriu a fechou a boca algumas vezes pensando em uma maneira de debater com a amiga. Quinn sorriu para ela e estendeu a mão para que se levantasse, as duas foram até a cozinha.

– Eu não sei mais o que é bem... — a voz da latina saiu baixa, e Quinn sentiu algo em seu peito se apertar. — Quando não estou pensando nela, estou pensando em mil maneiras de sabotar o carro daquele boca de truta estúpido!

Mais uma vez, sentiu dó da amiga.

Elas estavam realmente acabadas e sentimentais demais para duas ex cheerios como elas.

– Vem, vamos sair. — pronunciou Quinn puxando Santana pelo braço.

– O que? Por que?

– Vamos, San. Não podemos passar o resto das férias trancadas em casa nos lamentando, podemos até nos matar.

A latina sorriu e concordou com a cabeça. Elas abriram a porta da sala e receberam uma rajada de vento, e olhando atentamente para fora, foi possível ver os pequenos flocos de neve que caiam, e a pequena massa branca que se formava no solo. Quinn sentiu uma sensação boa ao entrar no carro de Santana, toda aquela áurea ruim desapareceu no instante em que se lembrou de que em três dias seria natal, o primeiro natal que ela passaria longe das preocupações de Lima ou New Heaven.

– Já sabe onde passar o natal? — perguntou a loira iniciando uma conversa enquanto as duas compravam presentes em uma loja próxima a casa da morena.

– Eu não sei. Artie insiste que eu vá para a festa de natal na casa dele, mas não sei se estou preparada para ver Brittany...

Santana parou um instante em frente a uma vitrine com alianças de todos os tipos, e Quinn viu um leve suspiro sair do boca da amiga

– Ele quer que você vá também, disse que natal deve ser celebrado em família e nós somos uma família e bla bla bla.

– Me parece ótimo, isso é, se tudo bem para você. — afirmou Quinn escolhendo uma grande árvore de natal, pois reparou que a casa de Santana não estava nem mesmo enfeitada. — Não nos vejo assando nenhum peru sozinhas.

Santana deu de ombros e levou o carrinho até o caixa seguida por Quinn.

– Você não vai dar nada de natal para a Berry? — a pergunta saiu rasgada, e a loira foi obrigada a erguer uma sobrancelha para a morena que a desafiava com um olhar.

– Quando eu encontrar o presente certo, sim.

A latina revirou os olhos e pagou com cartão de crédito toda a compra, as duas ficaram em silencio enquanto guardavam as compras no porta malas do carro e Quinn sabia que havia algo de errado, e que Santana processava algo em sua cabeça. Aquilo não era bom.

– Onde quer ir agora? — perguntou a morena enquanto colocava o cinto de segurança.

– Eu não sei, o que tem em mente? — Quinn sabia que ela já tinha um local em especifico.

– Eu não vejo a Berry desde um dia antes do acidente...O que acha?

O estômago de Quinn deu um giro só de pensar em ver Rachel outra vez. Deixando o mal estar de lado, resolver andar ao lado da razão.

– Por mim tudo bem.

Santana encarou alguns segundos a amiga esperando alguma reação diferente, Quinn olhou assustada pra ela, aquilo mais parecia uma expressão assassina.

– Quinn? — chamou Santana depois de um tempo enquanto dirigia.

– Sim?

– Quando foi a ultima vez que esteve com um homem? — a morena pareceu se arrepender da pergunta e se corrigiu limpando a garganta. — Quando foi a ultima vez que esteve com alguém antes de Matusalem?

A loira lançou um olhar fulminante para a amiga que não parecia estar agora zombando, ela parecia até mesmo...Interessada?

– Joe foi a ultima pessoa que fiquei, San. — respondeu uma Quinn cansada encostando a cabeça no vidro.

– Você se arrepende de algo?

– Santana, qual o seu problema? — Quinn perguntou realmente assustada. Aquilo não era da natureza da morena, nunca foi e a loira duvidasse que algum dia fosse ser. Santana não se interessava pela vida de ninguém mais alem da sua e de Brittany, raramente com Quinn, mas nada que passasse das perguntas irônicas para mais tarde usar isso contra ela.

– Ai, credo, só queria saber.

O silencio se estabeleceu mais uma vez, Quinn lançava olhares de canto para a amiga perguntado-se o que havia de errado. As duas chegaram no hospital e entraram sem cerimonias na sala de espera, Quinn sabia que aquilo era loucura, ver Rachel outra vez era pedir para sentir dor. Mesmo sem entender o porque. Kurt e Mercedes não estavam ali, apenas os Berry estavam sentados em um sofá parecendo conversar sobre algo importante. Leroy sorriu um pouco ao ver Quinn e Santana, e levantou para cumprimentá-las.

– Sra. Fabray! Olá Santana. — parecia familiarizado com Santana, e então a loira se lembrou de que agora ela era praticamente amiga de faculdade de Rachel. A palavra amiga entre Rachel e Santana soou estranho.

– Boa tarde, Leroy. — cumprimentou Santana com um aceno. — Hiram. — O outro continuou sentado e lançou um fraco sorriso para ambas. — Eu gostaria de ver a Rachel...

– Oh, claro, por aqui. Ela ficará muito feliz em te ver...

Quinn fez menção de seguir os dois, mas um braço levemente a puxou de volta. Era Hiram, que agora parecia um tanto curioso analisando Quinn da cabeça aos pés.

– Olá Quinn, — ele estava nervoso, esfregava as duas mãos freneticamente e conduziu a loira até o sofá. — Rachel me disse que contou a você... — a frase morreu e o coração se apertou, ela rapidamente afirmou com a cabeça atenta as palavras do mais velho. — Bem, eu não te conheço, você não me conhece, mas Rachel diz muitas coisas boas sobre você desde que veio até aqui e...Bem, ela se recusa a fazer o tratamento do câncer....

Quinn parou por um momento imaginando Rachel falando sobre ela. Então era real? Rachel se importava mesmo com ela? Se importava em se lembrar dela...? A loira espantou os pensamentos e se concentrou no que Hiram queria dizer.

– E senhor quer que eu a convença a fazer os tratamentos?

O olhar de Hiram pendeu para o lado e ele pareceu pensar na maneira certa de dizer algo, Quinn viu que seus olhos já estavam cheios de lágrimas.

– Escute Quinn, qualquer pai quer a felicidade da filha. — a loira se lembrou momentaneamente o que fez por amor a Beth e concordou. — Eu amo Rachel acima de qualquer coisa, e para mim, o que a fizer feliz, me faz feliz. Rachel tem apenas dois meses de vida e com um tratamento isso poderia prolongar para mais alguns meses...Mas, se isso a fizer infeliz, como eu poderia ver minha filhinha viver seus últimos dias agonizando?

A loira estava absorvendo cada palavra com dor, ela conseguia sentir a dor de Hiram em saber que perderia sua filha, e essa dor se transferia para ela, pois Rachel era especial demais para ser levada. O mundo precisava de mais Rachel.

– Senhor...

Hiram fez um gentil sinal para que Quinn se calasse e ele prosseguiu segurando a mão da garota, ato que lembrou o toque de Rachel.

– Sua visita abalou minha Rachel, ela parece mais elétrica que o normal, e pergunta quase a todo instante se você está na sala de espera. — ele explicou com a voz suave, a loira sentiu uma sensação boa e deu um sorriso sincero. — De alguma forma você conseguiu com uma visita, o que Kurt, meu marido e eu tentávamos desde o momento em que ela acordou: Um sorriso. E eu quero mais sorrisos, quero minha estrelinha feliz.

O obvio atingiu Quinn como uma pedra na cabeça. Hiram Berry estava pedindo a ela que fizesse Rachel feliz durante seus últimos dias de vida? Aquilo pareceu tão...Perfeito. Sim, se Quinn não estivesse tomada pela ideia, poderia jurar que Hiram estava tentando suborná-la, mas aquilo lhe pareceu tão certo de repente, que ela se esqueceu de perguntar o que ele queria realmente. É claro, ele, assim como Leroy, queriam a filha feliz. E Quinn queria Rachel feliz. Era assim que precisava ser, Quinn sempre a maltratou tanto, e de repente, a ideia de conseguir fazer bem a Rachel pareceu confortar o coração da loira. Não lhe custava nada tentar, certo? O que de pior poderia acontecer ao tentar ajudar uma amiga dos velhos tempos?

– Obrigada, senhor. — Quinn agradeceu a Hiram com um sorriso e se levantou seguindo direto para o quarto de Rachel.

E ela estava lá sentada na maca enquanto Santana e Leroy conversavam sobre algo qualquer ao lado da cama. Assim que os olhos de Rachel encontraram com os de Quinn, a pequena sorriu automaticamente, Quinn também sorriu, e notou que nem ao menos era sua intenção sorrir. Santana pigarreou e a loira se lembrou de que haviam mais pessoas no quarto.

– Fabray, Rachel estava me contando sobre esses tubos de lavagem. Será que se eu enfiasse um desses naquela cratera do Evans...

– Santana, vamos deixar as duas conversarem. — interviu Leroy apertando o ombro de Quinn e lhe lançando um olhar curioso. Provavelmente se perguntando se o suborno do marido dera certo. Eles eram tão...Berry's.

A latina olhou de Rachel para Quinn, e de Quinn para Rachel desconfiada. Saiu da sala com uma carranca e baixos xingamentos sobre ser expulsa e nunca mais voltar ali.

– Pensei que não voltaria. — disse Rachel agora um pouco timida com o silencio que ficara o quarto. Quinn fechou a porta atrás de si e caminhou até a pequena sentindo seu coração disparar. — Me perdoa.

– Está me pedindo perdão por estar doente? — a loira tentou quebrar o clima. Rachel abaixo a cabeça, parecia triste. — Quando cheguei em casa, eu chorei. — A pequena levantou os olhos surpresa. — A ideia de te perder antes mesmo de nos aproximarmos outra vez foi assustadora.

– A culpa foi minha, eu tinha uma passagem de trem...

– E eu tinha a outra.

As duas sorriram com a piada interna e Quinn mordeu o lábio inferior.

– Quando você sai? — perguntou cautelosamente se sentando na beira da cama.

– Amanhã a tarde, de certo.

As duas continuaram se olhando, havia mais comunicação ali do que em várias horas de dialogo. Quinn precisava assumir que sentia vontade de abraçar Rachel e dizer que tudo ficaria bem, que era apenas um sonho ruim e elas acordariam daqui a pouco, até longe uma da outra mais uma vez. E essa ideia aterrorizou Quinn.

–Rachel...

– Sim, Quinn? — a voz da morena saiu esperançosa. Quinn segurou a mão de Rachel como no dia anterior, tomou folego e disse:

– O que quer de natal? — a pergunta pareceu infantil, até mesmo Rachel sorriu. Aquela não era a Quinn Fabray de antes. — Estou falando sério, pensei em comprar algo, mas não encontrei nada que me fizesse lembrar de você.

Corou ao dizer isso.

Não encontrei nada que me fizesse lembrar de você? Que coisa ridicula e cafona, pensou Quinn.

– Eu não quero nada, Quinn, sério mesmo. — disse Rachel acariciando o braço da loira, os arrepios que percorreram seu corpo relaxaram Quinn. — Eu sempre tive vontade de ter um natal com uma família grande, sabe? Pais, primos mais novos e irritantes, aquele tio que sempre fica bêbado, a tia que fofoca... — sorriu. — Meus pais e eu somos judeus, então não comemoramos. E mesmo se fosse o caso, nossa família não é nada unida, seria apenas nós três e....

– O que acha de ir para Lima, comigo, Santana, Kurt e seus pais? — Quinn interrompeu o monologo excitada com a proposta. Rachel parou de falar no mesmo instante e ficou com a boca aberta parecendo absorver o convite.

– Bem, — começou com um brilho no olhar. — estar com pessoas especiais, te torna especial, certo?