Isto não é mais um romance água-com-açúcar
45 Preguiçosos entediados podem ter lampejos de disposição
Notas iniciais
Uma semana se passou e Gintoki, há cerca de três dias, tivera alta e já estava em casa. Como de costume, estava esparramado no sofá da sala. O televisor estava ligado e transmitia o noticiário, mais precisamente a previsão do tempo costumeiramente apresentada por Ketsuno Ana, que dizia que o dia seria típico de verão, com céu limpo, sol brilhante e sem qualquer previsão de chuva, o que permitiria que o Festival das Estrelas transcorresse sem qualquer problema.
Festival esse em que ele deveria estar trabalhando nos preparativos, se não fosse o fato de ter saído recentemente do hospital e não estar totalmente recuperado daquele ferimento. A lesão em si estava quase cicatrizada, mas Shinpachi insistira que ele e Kagura dariam conta tranquilamente... E a Yato ameaçara estourar-lhe os miolos com uma rajada de tiros da metralhadora embutida no guarda-chuva se ele continuasse a insistir que iria junto.
O jeito era curtir a preguiça que era sua fiel companheira desde sempre.
Manteve a TV ligada para fazer barulho e alcançou a Jump que estava na mesinha de centro para reler. Não havia nada mais interessante naquele momento de tédio do que mergulhar novamente nas aventuras impressas naquelas páginas. Entretanto, o tédio era tão grande que o deixou sonolento e ele pôs sua Shounen Jump no rosto e começou a roncar.
Passaram-se alguns minutos, quando de repente o albino acordou num salto, como se houvesse se lembrado de algo. Sua Jump caiu no chão, mas ele não se importou. Havia surgido uma ideia em sua mente, que o fez se levantar e correr até sua escrivaninha.
Por que não tivera essa ideia antes?
Sentou-se em sua cadeira e pegou uma pequena agenda na gaveta da mesa, na qual mantinha anotados os contatos telefônicos. Tirou o fone do gancho do telefone fixo e digitou um número. Enquanto aguardava atenderem a chamada, tamborilava a mesa com os dedos como uma forma de lidar com a ansiedade que queria dominá-lo.
― Vamos... – murmurou. – Atende...
Após alguns segundos, que pareceram mais uma eternidade, alguém atendeu.
― Alô? A Tsukuyo está? É Gintoki.
*
Contrariando Shinpachi e Kagura, Gintoki fora até o local onde seria realizado o festival. Avistou os dois discutindo sobre o que estava certo ou não fazer naquelas barraquinhas que eles estavam construindo. Mas a discussão acalorada dos dois adolescentes foi interrompida tão logo o avistaram e ele foi obrigado a fugir de uma saraivada de tiros do guarda-chuva da Yato.
― DÁ UM TEMPO, KAGURA! EU TENHO QUE FICAR COM VOCÊS, SOU O ÚNICO MAIOR DE IDADE AQUI!
Após essa explicação forçada de Gintoki, Shinpachi concordou:
― Kagura-chan, o Gin-san tem razão. Ele tecnicamente é o responsável por nós... E ele é que vai poder receber o pagamento pra gente.
― Vai receber e não vai pagar a gente, Quatro-Olhos. – ela encarou o albino com ceticismo. – Ele é o maior caloteiro do Universo.
― Ei, eu tô ouvindo! – Gintoki disse. – E eu vim porque tava entediado e posso ajudar.
― Gin-san – Shinpachi apontava para algumas bandagens que ainda eram visíveis pelo decote da camisa preta do Yorozuya. – Mas como? Seu ferimento ainda não terminou de se curar.
― Os preparativos do festival precisam de alguém para arrumar a decoração, não? E se terminarmos antes, mais cedo recebemos nosso dinheiro.
Não era a primeira vez que o Trio Yorozuya trabalhava em festivais. Mas era a primeira vez que eram encarregados da montagem e decoração de uma parte do local, para cobrir algumas ausências. Kagura e Shinpachi se encarregavam do serviço mais braçal, enquanto Gintoki os orientava e os auxiliava em outras tarefas. Por fim, os três passaram para a decoração. Prepararam as tiras de papel colorido (tanzaku) e os ramos de bambu, as lanternas de papel, flâmulas de papel (fukinagashi), além de diversos origamis, que foram bem trabalhosos.
Os dois adolescentes perceberam mais um daqueles episódios de foco e atividade intensos do albino. Para ele dizer que estava entediado em casa, havia algo que perturbava sua disposição normalmente zerada para fazer qualquer coisa. Os dois se entreolharam enquanto o Yorozuya seguia absorto em sua tarefa, estavam desconfiados do que poderia ter causado essa súbita disposição de passar por cima de sua habitual preguiça de tudo.
Após a troca de olhares, Shinpachi perguntou:
― Gin-san, você vai vir à noite para ver o festival?
― Por que a pergunta? – Gintoki questionou enquanto tinha algumas dificuldades para terminar os últimos tsurus de origami. – É óbvio que sim, vocês não querem vir?
― Claro que sim, Gin-chan! – Kagura disse. – Mas você vai chamar a Tsukky também?
― Já a chamei. – ele encarou os dois companheiros e percebeu que eles perguntavam com o olhar se Tsukuyo aceitara o convite. – E sim, ela vem. Fiquei de buscá-la.
― Olha, Shinpachi! Nosso garotão tá crescendo tão responsável!
Gintoki protestou:
― Se quiserem receber a parte do pagamento de vocês, calem o bico e vamos terminar isto aqui!
*
Tsukuyo estava em seu quarto com dois yukatas cuidadosamente dobrados sobre o futon. Estava indecisa sobre qual vestir para ir ao festival no Distrito Kabuki. Não sabia se usava o lilás-claro com estampa de hibiscos azuis, ou se o azul-piscina com estampa de flores de cerejeira na cor rosa. Ainda estava embrulhada na toalha de banho, que denunciava uma barriga que crescera de tal modo que ainda não era tão perceptível quando usava as roupas de costume.
― Indecisa de novo, Tsukuyo? – era a voz de Hinowa, do outro lado da porta. – Você tem dois belos yukatas.
― É... Eles são lindos, Hinowa, mas...
― Você não sabe qual vai agradar o Gintoki?
Tsukuyo corou. Depois de tanto tempo se relacionando com Gintoki, esperava até um filho dele, e ainda sentia seu rosto queimar! E Hinowa, o Sol de Yoshiwara, a fazia ficar com o rosto ainda mais quente!
Como se lesse os pensamentos da amiga, a morena riu:
― Qualquer yukata que você vestir vai agradar. E vai por mim, você fica muito bonita com qualquer um.
― Hinowa, você não está me ajudando!
― Calma, Tsuki! – Hinowa assumiu um tom mais tranquilizador. – Estou falando sério. Ele te acha linda com qualquer yukata, mas para hoje seria perfeito aquele lilás. Combina com seus olhos.
A loira respirou mais aliviada e agradeceu. Hinowa era uma amiga maravilhosa e uma confidente incrível. Ela sabia como apoiar alguém. Uma sempre poderia contar com a outra para tudo o que precisasse.
Com mais calma, começou a vestir seu yukata lilás com estampa de belos hibiscos. Assim que terminou de vesti-lo, olhou-se no espelho e se viu obrigada a concordar com a morena: realmente, aquela roupa realçava seus olhos violetas. Ouviu Hinowa conversar com alguém que acabava de chegar enquanto terminava de arrumar os cabelos. Prendeu-os em um coque simples, deixando livres apenas as mechas da frente, que emolduravam seu rosto.
Estranhava um pouco a sua imagem refletida no espelho. Estava tão habituada a vestir o quimono preto com estampa de folhas outonais, junto com meias arrastão e botas, além de adereços em forma de kunai nos cabelos, que às vezes se sentia esquisita sem aquela aparência intimidadora.
Apesar disso, estava aberta à ideia de mudar de vez em quando, nem que fosse por uma noite... Ainda mais porque ela se sentia particularmente linda.
A conversa do recém-chegado com Hinowa havia terminado e, em seguida, ouviram-se três batidinhas na porta corrediça do quarto:
― Tsuki, tá pronta?
― Quase! – Tsukuyo respondeu do outro lado da porta corrediça. – Me dá mais dois minutinhos!
“Mulheres...”, Gintoki pensou. “Por que nunca esperam a gente? Nós é que sempre temos que esperar...”
Ele se perguntava se até Tsukuyo se renderia ao clichê das mulheres demorarem mais do que os homens para se arrumar. Apesar disso, esforçava-se para não reclamar, pois fora ele quem a convidara e havia combinado de a buscar em Yoshiwara.
A porta corrediça se abriu bem antes do que ele supunha ser uma demora e revelou uma visão que o deixou boquiaberto.
“T-T-TSUKUYO...?!”
Ele estava realmente sem palavras. Tsukuyo estava ainda mais linda do que já era. Era como se ela tivesse se despido de seu lado “Cortesã da Morte”, cuja aparência era intimidadora e aguerrida. Vestida com um yukata lilás estampado com hibiscos azuis que realçavam seus olhos violetas e com um coque simples e algumas mechas loiras emoldurando seu rosto, ela parecia revelar uma faceta que poucos conheciam.
Por trás daquela mulher aguerrida e sisuda, havia uma mulher delicada e sensível.
Tsukuyo era uma bela e delicada rosa que desabrochava em meio aos espinhos. Um toque errado em suas pétalas era capaz de despedaçá-las. Um toque certo preservaria a beleza daquela rosa. Ela era uma bela flor a qual Gintoki continuaria sempre a cultivar e proteger.
Tudo o que ele podia fazer naquele momento era sorrir ante tal beleza.
Tsukuyo sorriu em resposta. Amava aquele sorriso dele, deixava-o mais atraente, mais gentil. E a roupa que ele usava também parecia tirar um pouco daquela marra que sempre teve. Não estava com sua roupa de sempre, embora pensasse que ele a usaria até mesmo em um festival. Naquele momento ele vestia um yukata azul-marinho com listras verticais que lembravam risca-de-giz e uma faixa bege. Só havia uma coisa que ele não deixara de usar, que era a bokutou à cintura.
Viu que ele trazia um saquinho de papel em uma das mãos. O que havia nele?
De repente, o Yorozuya ficou meio desajeitado quando olhou para aquele saquinho que trazia. Havia comprado com uma parte do dinheiro que recebera como pagamento do trabalho realizado por ele, Shinpachi e Kagura nos preparativos do festival. Respirou fundo e tomou coragem de abrir o pacotinho e tirar dele um adereço: uma presilha com uma borboleta numa cor entre o lilás do yukata e o violeta dos olhos de Tsukuyo.
― Achei que combinaria com você. – ele sorriu desajeitado.
Ela ficou encantada ao receber o adereço e agradeceu. Colocou imediatamente no cabelo. Gintoki elogiou:
― Ficou ainda mais linda, Tsuki.
Ela o agradeceu novamente, sentindo seu rosto queimar, como se fosse uma das primeiras vezes em que recebia elogios dele no início do relacionamento. Era justo que o elogiasse também, não?
― Você também está ótimo, Gintoki. Não é todo dia que te vejo com essa elegância.
Agora era a vez dele sentir seu rosto queimar. Não que fosse incomum receber elogios dela, mas esse em específico o deixou totalmente desarmado. Não conseguia responder, nem que fosse uma resposta idiota qualquer como normalmente fazia.
Certas coisas que Tsukuyo lhe dizia costumavam deixá-lo meio sem jeito, meio bobo e, dependendo da conotação, até mesmo excitado. Mas neste caso específico, além de queimar-lhe o rosto, deixando-o vermelho como um morango – ele não podia ver, mas sentia que estava realmente vermelho, isso fazia com que sentisse que um calor agradável aparecia em seu peito. E essa sensação era melhor do que qualquer outra que tivesse.
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