Notas iniciais
Oi *tira poeira*

Charlie foi embora cedo naquela manhã. Tomamos café em silencio e ela foi. Prometemos que não íamos mais falar do incidente da noite anterior, pois nossa amizade era muito importante para ser estragada por algo tão fútil.

Fiquei a tarde inteira cultivando minha solidão e minha forte ressaca. Pode parecer insanidade, mas ficar deitada na cama de ressaca o dia inteiro me fez pensar. Pensar muito. Nostalgia certamente seria a palavra certa para descrever minha tarde.

Acho que nunca contei realmente o que aconteceu para me fazer tomar uma decisão tão radical quanto ao meu tratamento. Pode parecer bobo, mas havia uma caixinha de música sobre meu criado-mudo lá no quarto do hospital. Uma caixinha de música que uma das enfermeiras havia me dado de presente de Natal quando eu tinha onze anos.

Aquela caixinha de música de alguma forma me enxia de esperança. Uma esperança inexplicável quase que religiosa. Ela tinha uma melodia antiquada e incrivelmente acolhedora e maravilhosa.

O modo como à bailarina girava em torno de seu próprio eixo... Aquela bailarina poderia ser eu. Assim como ela estava aprisionada em si mesma, em seu corpo esculpido, ali naquela melodia infinita e monótona eu estava presa em meu corpo doente. Obviamente não existia chance para nenhuma de nós duas, mas eu gostava de imagina-la livre para poder sentir-me livre também.

Eu sei que parece tolice, até mesmo loucura, e de certo modo era mesmo. Afinal como um objeto inanimado poderia me ajudar? Aquela bailarina certamente não teria a cura do câncer. Ela não tinha nada a me oferecer além de esperança.

O problema só surgiu quando não consegui mais tirar esperança daquilo. De repente me vi repleta de uma apatia que me impedia de ver mais do que um objeto idiota. Foi aí que vi que estava começando a ficar doente de espírito. E eu realmente não queria isso. Eu não queria me tornar um zumbi desanimado e deprimente zanzando pelos corredores do hospital como tantos outros pacientes. Se fosse para morrer que fosse pelo menos de forma digna. Decidi que gostaria de morrer feliz e em paz comigo mesma e com o mundo que me cercava. Gostaria de ser lembrada como alguém realmente feliz. Um exemplo para a sociedade. Realmente tocar o coração das pessoas, tipo: “Olhem aquela garota, pobre garota, está morrendo, mas mesmo assim parece bem. Ela é realmente uma guerreira. Olhem como ela está feliz apesar de tudo. Se ela consegue eu também consigo”.

Também me lembrei da minha infância. Quando eu era criança eu sofria de uma doença muito diferente e que a maioria dos filhos únicos sofre nesse período da vida: Solidão.

Claramente eu era uma criança solitária. A companhia dos pais não é a mesma coisa. Você sempre fica com aquele sentimento de “sozinho acompanhado”.

Eu me lembro de sentar na gangorra da pré-escola e ficar olhando pra cima, para o banco onde deveria haver alguém sentado para que se possa subir. Eu olhava pra cima lá do chão e só via o céu e um banco vazio onde deveria ter alguém, mas nunca tinha. Eu nunca me senti tão solitária quanto quando fazia isso.

E aí você se pergunta: “Mas se você se sentia deprimida quando fazia isso, então por que fazia?” E eu vou responder: “Pela mesma razão que as pessoas gostam do que faz mal. As pessoas fumam e bebem sabendo que estão se destruindo por dentro, usam drogas sabendo que vão se viciar e acabar na sarjeta e se aproximam umas das outras mesmo sabendo que vai acabar mal”.

Lembrei-me do dia em que conheci Charlie. A loira baixinha que chamo de melhor (e única) amiga. Eu a conheci na segunda série. Eu estava sentada na gangorra me sentindo triste e solitária como de costume, até que olhei para cima e lá estava ela.

– Posso brincar com você? – Ela havia perguntado amigavelmente.

Eu realmente não esperava uma aproximação tão repentina. Principalmente partindo da garota nova em seu primeiro dia de aula. Charlie jamais foi tímida, ela poderia ter feito aquela pergunta para qualquer criança ali, mas me escolheu.

Por que você quer brincar comigo? – Perguntei um pouco assustada. Eu não era de falar muito com outras crianças.

– Por que nós seremos melhores amigas, não sabia? – Ela me respondeu com outra pergunta. Uma pergunta afirmativa. Algo inédito pra mim.

Um fato: Charlie sempre teve essa mania de sempre estar certa.

E foi assim. De repente nós éramos amigas, assim como todos ao nosso redor tinham a certeza que sempre seríamos.

Depois de um tempo nós éramos muito mais do que amigas. Era como se fossemos uma única pessoa. Como se nós dividíssemos um só coração.

Lembrei-me do meu primeiro encontro. Eu tinha 14 anos na época, ou seja, eu e Charlie ficamos tipo: “Ai, meu Deus, um entro de verdade!”. Ela também nunca havia tido um encontro de verdade antes então nós duas não sabíamos o que fazer.

Foi assim: Lembra-se do meu primeiro beijo? O que eu contei no capítulo anterior? Pois é, o “garoto do câncer cerebral” se chamava Jim. Ele me chamou pra sair em uma tarde tediosa de verão. Eu estava sentada num banco do Jardim/Centro recreativo do hospital (como se fazer jardinagem ajudasse alguém morrendo de câncer) quando ele se aproximou de mim e me convidou para ir ao cinema. Simples assim:

– Oi, meu nome é Jim e gostaria de saber se você gostaria de ir ao cinema comigo. — Nessas exatas palavras.

Eu aceitei, é claro. Não foi por pena. Eu realmente queria ir. Considerando o fato de que nós dois morreríamos logo e ambos estávamos carecas, não achei que tivéssemos muito a perder.

Eu e ele iriamos sair no sábado à noite e assim aconteceu. Fomos ao cinema assistir a uma comédia romântica muito ruim, comemos pipoca, tomamos Coca-Cola (e foda-se se era contraindicado pelo médico beber coca) e conversamos sobre a porcaria que o filme tinha sido.

Foi uma noite legal e acabou com ele me pedindo o beijo que mencionei. Nosso primeiro beijo (e no caso dele o único e último).

Jim morreu exatamente seis dias após o nosso encontro. Ele era um cara legal e lamentei profundamente sua morte. Quem sabe se ele tivesse vivido mais nós não teríamos sido um casal? Bom, mas isso é uma coisa nunca iremos saber, pois se eu não combino nem comigo mesma imagina se combinaria com outra pessoa?

E de repente meu mundo estava desabando. Assim, de uma hora para outra, eu caí em uma estranha depressão. Eu tentava me fazer de durona, mas vocês sabem que por dentro estou em pedaços. Eu gritava, era uma completa mandona... Qualquer coisa para não ter sentimentos, não demonstrar o quanto eu amo as pessoas e o quanto isso me afeta. Eu estava sozinha sem realmente estar sozinha. Afinal de contas, só eu morreria. O resto das pessoas seriam simplesmente deixadas para trás. (Como se ser deixado para trás não fosse ruim o bastante). Eu realmente estava muito triste, mas não havia o que fazer.

Olhem que coisa mais imbecil. Eu quase morrendo e mesmo assim me sentindo suicida. Isso me faz lembrar de um trecho de uma música. “Ele é um profeta. Um profeta e um traficante. Metade verdade, metade ficção. Uma contradição ambulante”.

Notas finais
Ainda tem alguém aqui? Se tiver, comenta, né? >.< XoXo
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.