Notas iniciais
—Bom, vocês dois devem realmente ter algo contra mim para estarem sempre fazendo da minha vida um completo inferno! -O homem, alguns bons anos mais velhos que nós, praticamente cuspia em nós a cada palavra proferida e ele parecia incrivelmente concentrado em parecer ríspido e cruel. De canto de olho, olhei para Kurt Smith que estava sentado em uma poltrona semelhante à minha olhando o diretor nos olhos com a mesma cara de paisagem que eu. Só queria checar, é claro, para saber se minha postura estava correta. — Sabem quantos pais ligaram para a escola para perguntar se seus filhos estudam em uma das arenas da época do grande imperador, rapazes? Sabem? Eu adianto que foram mais de vinte e todos pareciam bem desconfortáveis com a selvageria a qual seus filhos poderiam estar sendo expostos.
O diretor da nossa escola, sr. Abraaham Mashell, não era dos melhores.
Na verdade, ele era um diretor bem ruim, com todos os cortes de verba em projetos extracurriculares, disciplina inflexível e jeito um tantinho meritocrata.
Parecia idiota que um diretor escolar, um homem que estava a par de um terço da realidade de todos os alunos e as pequenas lacunas no sistema educacional que muitas vezes segregavam esses alunos, se fizesse de discursos sobre “esforço e merecimento”. Em tese, todos o corpo estudantil simplesmente o detesta porque não parece que ele “se esforçou para merecer” se sentar naquela cadeira acolchoada, naquela sala infestada pelo cheiro barato de uma colônia forte que fazia arder os olhos e dizer coisas que, sinceramente, não faziam muito sentido para a maioria de nós.
Mas hoje, o terrível-infeliz-e-distópico dia 22 de março, nós tínhamos praticamente entregado de bandeja uma ração perfeitamente plausível para que o diretor falasse na nossa orelha.
Diferente de mim, Kurt parecia tão concentrado em suas palavras que soaria impossível que alguém tão respeitoso quanto ele pudesse arrumar uma briga como a de ontem. Entretanto, o estilo dele inteiro gritava arruaceiro em letras garrafais. Minhas costelas ainda doem pela força de seus punhos contra elas, assim como sua bochecha parece inchada e roxa por minha causa. Meu nariz exibia apenas um band-aid que marcava o ponto do corte que nem era tão pequeno, mas fez metade da escola pensar que Smith tinha quebrado meu nariz de tanto sangue que verteu.
No dia anterior, havia sido tudo muito rápido. Eu estava saindo do vestiário depois de tomar uma ducha, alguns caras estavam fazendo umas piadinhas idiotas sobre pessoas aleatórias. Interrompi a falação com uma despedida, ao que dois outros jogadores (Steve e Maison) vieram atrás de mim dizendo que me davam uma carona, e eu não recusei. Desde o fim do fundamental, eu não pegava o ônibus escolar -não que houvesse muito motivo para isso, era normal que alguém me desse uma carona até em casa ou que eu fosse andando com Peter. No corredor, nós conversávamos sobre qualquer coisa idiota quando Steve bateu seu ombro de proposito na mochila de Kurt Smith, simplesmente o cara mais idiota da escola.
Incrível como ele não pareceu tanto o mais idiota naquele momento.
Kurt virou, o rosto não muito animado (ao contrário do que parecia enquanto ele olhava o cartaz do clube de música). Maison começou a implicar, falando sobre seu cabelo ou suas roupas, mas Smith não dava a mínima.
Então a coisa começou a ficar pior.
Havia um boato sobre o pai de Kurt Smith. Ninguém sabia até que ponto aquilo era verdade ou não, mas ainda assim não era um assunto que pudesse se perguntar abertamente em uma conversa acalorada durante o intervalo de aulas –e, acredite, pessoas tentaram. William Smith havia sido nosso professor de literatura no colégio, a maioria dos professores odeia ensinar para crianças de oito anos, mas não era o caso dele. Suas aulas eram as melhores de toda a grade escolar, vencendo até mesmo educação física, e ele venceu um prémio idiota que alunos fizeram de Melhor Professor do Universo cinco vezes seguidas. William não era muito diferente do que Kurt é hoje em aparência, mas o gênio dos dois não poderia ser mais diferente. Sr. Smith era o cara mais legal, paciente, gentil e simpático do mundo inteiro. Se houvesse um concurso de miss universo para professores, ele venceria com toda certeza.
Mas ele não era perfeito.
Ninguém esperava que ele fosse. No entanto, certamente ninguém esperava ler que um professor infantil abusou de um adolescente de quinze anos.
O pai de Kurt foi preso dentro da escola, no meio de uma de suas aulas.
E esse não era um assunto para ser tocado em uma discussãozinha de corredor, nem mesmo com o cara que eu mais detesto no mundo. Tentei para Maison, mas Kurt já estava cheio de raiva e dava para ver em seus olhos escuros.
Como eu disse, tudo aconteceu muito rápido, em um momento eu estava tentando fazer Maison e Steve pararem de falar merda e no seguinte eu estava sendo saco de pancadas do Smith enquanto os dois idiotas fugiam para chamar mais gente para ver.
Olhei novamente de esguelha para ele, que nem mesmo desviava sua atenção do diretor.
—Logan Henderson, você está me ouvindo? -A voz grave do diretor me chamou a atenção, me fazendo olhar para ele com os olhos meio saltados.
—Sim, senhor.
—Perfeito! -Ele disse respirando fundo. —Vocês podem pegar suas fichas lá fora e ir para suas respectivas aulas.
Em perfeita sincronia, nos levantamos das nossas poltronas.
Quando saí da sala do diretor, o ar parecia incrivelmente agradável e fácil de absorver em um só folego. Como aquele cara consegue ficar o tempo inteiro naquele lugar é uma pergunta merecedora de um prémio.
Esther Green, a assistente do diretor, uma mulher baixinha de óculos fundo de garrafa e dona de uma voz muito mais responsável do que a do nosso diretor, olhou para nós dois daquele jeito –por cima da armação dos óculos e com uma aura de quem não sabia o que fez para merecer garotos idiotas como nós. Ela separava dois papeis pequenos de cor amarela, com o carimbo da direção e a assinatura do diretor antecipada. Adicionou o dia e a hora exatos.
—Kurt e Logan, quanto tempo não os vejo por aqui! -Ela diz de um jeito conspiratório e falso. Era tão comum sermos mandados para lá, para buscar a ficha de serviços comunitários escolares (o castigo de quem aprontava na escola) que até mesmo podíamos tomar café da máquina dos professores. —Duas semanas? Parece um recorde.
—Precisava de algum tempo para melhorar meu espanhol.
Kurt diz antes que eu tenha tempo de pensar em alguma coisa.
Naturalmente, ele se move como se toda aquela sala fosse seu espaço pessoal e se encaminha até a mesa de Esther Green, que é legal o bastante para nos deixar chamá-la pelo primeiro nome quando está de bom humor. O sorriso que ela dá a Kurt diz que é um bom dia, a forma como ela ajeita os cabelos crespos reforça isso.
—E você, Logan, alguma melhora? -Ela pergunta como se realmente estivesse interessada, seus olhos castanhos muito escuros dando-me toda a sua atenção.
—Álgebra. -Dou de ombros, suspirando pesado. —Sabe como é, ela está me matando.
Como bilhetes dourados para a fábrica do Willy Wonka*, nossos passes para a detenção são impressos e distribuídos ainda quentinhos. Em geral, isso não costuma demorar muito mesmo, mas srta. Green é do tipo que adora procrastinar seu trabalho ao máximo e ela leva essa tarefa bem a sério, tanto que jamais vi alguém enrolar tanto para carimbar um papelzinho e reformular uma observação no histórico de alguém.
Em tese, essas observações acabam ficando na lista de alguém até mesmo depois de formado, mas o serviço comunitário serve como uma borracha mágica para esse tipo de “pequeno probleminha”.
Olho para o meu papel.
Limpeza e organização do clube de teatro. 13:30 às 15:00.
Sei que não tenho esse tempo sobrando na minha agenda e sei que não posso dizer isso.
Primeiro, tenho o futebol e estamos no meio das regionais! Liam já ressaltou que precisa de mim em campo e que ele não aceitaria uma lesão nessa altura do campeonato (Uma lesão! O que ele diria de uma detenção?), mamãe até mesmo mandou fazer uma camisa do nosso time para ela e tinha desmarcado todos os seus compromissos nos dias de jogos... E havia o grandessíssimo fato de que eu não queria perder meu tempo livre no castigo.
Droga, Logan, deixe de ser um cara tão superficial, é o que eu digo para mim mesmo. Mas e se eu for apenas isso mesmo? E se eu estiver lutando contra algo inevitável porque sou um grande caso perdido?
Sinto a frustração crescer dentro de mim como a explosão de uma bomba subindo pelos ares e meus ombros caem um pouco enquanto coloco o papel no meu bolso. Smith passa por mim como uma flecha, fazendo nossos ombros se chocarem no processo, mas não consigo dar muita importância para isso.
Aceno para Esther, que pisca para mim em retribuição.
Normalmente, diria que sou um cara bem relacionado. Não exatamente popular e notável, pois sou bem razoável em basicamente tudo que não envolva futebol, mas o tipo que conversa com todo mundo e é convidado para uma festa ou outra no fim de semana. Basicamente o cara que está em alguns grupos e de quem as pessoas lembram o nome com facilidade. E tudo estaria normal no dia de hoje, com alguns olhares e saudações, se não fosse tão exagerado.
Os sussurros praticamente que me perseguem, chegando até mim por causa da acústica do corredor e a indiscrição de outras pessoas.
“Ouvi dizer que ele quebrou o ombro de Kurt Smith.”
“Espere, mas o Smith não tinha acabado com a cara dele?”
“Droga, ele deveria estar internado?”
“Qual dos dois foi parar no hospital então?”
“Ele fica fofo com esse curativo no nariz!”
“Esperava que Henderson tivesse mandado o filhote de pedófilo para a boca do inferno!”
Aceno para algumas pessoas e sorrio simpático para outras, mas sei que preferia ter ficado em casa hoje. No entanto não foi exatamente a voz mandona da minha mãe que me fez sair da cama naquela manhã e vir aceitar a carona dela, mesmo que ela tenha soado severamente magoada com tudo desde que saímos do hospital com uma receita de um analgésico e um raio-X. Desculpe, mamãe, prometo tentar ser um filho melhor daqui para frente.
Em seu armário, Peter parece concentrado guardando algo ou pegando algo, é difícil distinguir. Acelero o passo até ele, colocando o braço em seu ombro magrelo e o sinto enrijecer. Instantaneamente sei que não estamos bem e sinto que preciso muito me redimir com ele por algo que não entendo, porque não consigo assimilar que Peter tenha assumido o papel de filho único no divórcio entre Kurt e eu (não que nós já tivéssemos estado juntos, era apenas um modo de falar). Até onde eu me lembrava, os dois não tinham nada em comum além de uma aula de literatura de dois tempos nas quintas e um gosto por tênis ferrados. E eu esperava mesmo que ele estivesse do meu lado nessa, porque Kurt veio para cima de mim meio do nada (meio porque não era eu quem estava falando do pai dele), mas conhecia bem a minha sorte para saber que não seria fácil assim e Masset estava terrivelmente puto comigo... talvez ele estivesse assim com Smith.
Coloco minha mochila no chão, pronto para me humilhar da forma mais humilhante se fosse possível, apenas para que ele me perdoe.
—Olha, sei que está querendo quebrar a minha cara agora, mas não fui eu quem começou aquilo tudo, beleza? -Disse, com toda a calma do mundo, realmente mostrando para o meu amigo o quanto estava arrependido. Minhas mãos gesticulavam sem parar enquanto palavras saiam de mim desesperadamente, tentando aplacar o bolo que crescia no meu estomago. —Sério! Eu juro! Sei que Steve e Maison são uns babacas e eles tocaram em um assunto muito delicado para o Kurt, mas eu não disse nada. Juro para você! Estava tentando acalmar os ânimos dos caras quando Smith pulou em mim e eu tive que me defender porque ele parecia louco de verdade.
—Tanto faz, Logan.
Meus ombros se encolhem involuntariamente, como se eu fosse um filhotinho recém repreendido por roer o fio da TV. Não quero que ele fale comigo assim, quero que ele revire os olhos e me dê um cascudo no meio do corredor, porque é o que fazemos.
Ele assume o papel de responsável e eu sou o cara impulsivo e difícil.
É por isso que damos certo.
Para que um Logan Henderson siga sua vida sem grandes explosões, é preciso de um Peter Masset. Regra clara de química básica.
—Não me diz que tanto faz, porque eu sei que você tá realmente muito puto. -Lhe dou um soquinho, ao qual ele não desvia. —Fala comigo sobre isso ou grita alguma coisa. Sei que nós somos seus amigos e somos problemáticos, mas eu nunca faria com Kurt algo que pudesse te deixar chateado... Não porque me importo com aquele resto de pacto de sete dias, mas porque me importo com meu irmão.
Um sorriso rápido, daqueles quase se perdem de vista quando não é olhado com a atenção necessária, aparece em seus lábios finos e eu me dou por satisfeito, mesmo que ainda pareça pouco.
—Acredito em você sobre não ter dito nada, você não faria isso. -Ele olha diretamente para mim pela primeira vez. —Você é o tipo manteiga-derretida e não jogador-completamente-babaca.
—Eu não sou nada disso! -Lhe dei mais um soco, mas dessa vez ele revidou.
—É sim, você chorou assistindo ao Rei Leão e ao Titanic. Você chorou em Vida de Inseto quando as outras formigas expulsam o Flik**. -O sorriso dele cresce, à medida que vai se empolgando mais com a nossa conversa. —Eu te conheço muito bem, Logan Henderson, você é o meu braço da punheta, lembra?
Instantaneamente, paro de tentar socar Peter e ele também para.
Nós dois nos olhamos daquele jeito quando não dá para acreditar no que alguém acabou de dizer. As bochechas de Peter começam a ficar coradas no mesmo momento e ele fecha os olhos com força, fazendo uma careta engraçada. Começo a rir alto, chamando a atenção de algumas pessoas no corredor –ainda mais do que antes, acredite se quiser.
Puxo Masset para perto de mim em um abraço de lado desajeitado e começo a lhe dar cascudinhos, bagunçando seus cabelos compridos e muito lisos, enquanto ele tenta escapar de mim sem muito sucesso.
Sei que estamos bem naquele momento, que eu ainda sou o irmão de Peter e ele ainda é o meu. Nossa aposta continua de pé. Nossos planos ainda são os mesmos.
Chupa essa, Kurt Smith.
Enquanto fazemos nossa babaquice de sempre, quase não percebo o olhar de Ronnie Stwart sobre nós. Ela está encostada em seu armário, o livro de física entre os braços acima do peito e um sorriso meio idiota no rosto, como se ainda não tivesse se dado conta que tinha sido flagrada. Seu cabelo castanho claro, quase loiro, está ainda mais cacheado e volumoso hoje, incapaz de ser contido por sua tiara amarela, mas eu diria que ele está mais bonito do que estava ontem. Algo sobre seu cabelo sempre me fez pensar que ele era como o sol ou um girassol.
Quando percebe meu olhar, ela parece vacilar um pouco, mas não muito.
Seu olhar se enrijece, parece ser mais provocativo que contemplativo.
Mostro minha língua para ela e vejo seu cenho franzir.
Saio arrastando Peter em direção a nossa aula de história na sala de vídeo um. Deus, ela poderia tentar ser um pouquinho mais discreta? Todos nessa escola quase conseguem escorregar no mole que ela dá para meu melhor amigo!
—Mais algum pedido? -Ele me pergunta no meio do caminho.
Demoro até perceber que está falando dos convites para o baile.
Sorrio abertamente.
—Nada até agora. Acho que esse ano você perde feio, cara.
—O dia está só começando, dá um tempinho! -Deixo Peter escapar do meu aperto. —Vou vencer de lavada mais um ano, você sabe disso tanto quanto eu.
—Por que a aposta é sempre sobre mim? -Peter dá de ombros, seus olhos vão em direção aos seus sapatos. —Quer dizer, não ficamos contando os seus convites para apostar.
—Eu não sou Logan cachorrão Henderson.
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