Isenta — Le monde est divisé
1 Sangue
Notas iniciais
Deem uma olhada.
GRITOS. Foi só o que eu ouvi, vindos de um dos becos estreitos e sujos. Eu mal tinha me aquecido perto do latão em chamas, mas não me importei. Gritos agudos e femininos faziam as janelas quebradas dos prédios abandonados vibrar, era uma voz extremamente estridente.
Corri o quarteirão que me separava do beco, e me apertei contra a parede. Espiei o mais invisível possível, rezando para que meu rosto ficasse escondido nas sombras.
Consegui ver uma garota, pequena e de longos cabelos negros, estatelada no chão com sangue escorrendo de diversos cortes espalhados pelo seu corpo.
Na sua frente, de pé, havia uma figura muito alta, a luz do poste só permitia que eu visse sua silhueta, que por sinal era musculosa e muito forte. Assustadora.
Coloquei a mão sobre a boca, me impedindo de gritar. Procurei por qualquer coisa que pudesse ser usada como arma. Eu precisava ajudar a garota. Minha moral gritava, me obrigando a fazer o que é certo.
Eu não podia simplesmente ignorar.
Encontrei enfimum cabo de vassoura partido ao meio, jogado entre as latas de lixo. Com o máximo de silêncio possível, caminhei agachada até ele e o segurei como se fosse um taco de beisebol.
Fiquei de pé e me aproximei do homem alto, sorrateira.
Bati com toda a minha força em sua cabeça, o cabo chegou a se partir.
Esperei que ele desmaiasse.
Porém o homem só se virou, e seus olhos perfuraram os meus.
Não consegui conter o grito de terror dessa vez, e ele estrangulou pela minha garganta, irregular e estridente.
O homem, ou fosse lá o que era, tinha um rosto comprido e queixo quadrado, e dele escorria um grosso líquido escuro, que manchava sua camisa.
Olhei para a garota jogada no chão. De todos os seus ferimentos, o maior e mais sangrento estava na curva de seu ombro, próximo ao pescoço.
Ela estava pálida como um fantasma; e seus olhos, abertos e vidrados. Eu duvidava que ainda estivesse viva.
Voltei meus olhos para o homem. Aquele sangue não pertencia a ele.
— Sinto muito, garota. — Ele disse. Sua voz era grave e, pude perceber, mesmo com todo o meu pânico, com um tom terrivelmente sensual. — Iniuriam loco, tempore calumniam. Lugar errado, hora errada.
Eu vi que ele partiu para cima de mim, e vi que ele aplicou algum golpe com força. O problema foi os próximos segundos.
Minha visão escureceu lentamente, acompanhando meu tombo em câmera lenta até o chão.
Murmurei uma prece rápida, pedindo proteção a qualquer um que quisesse oferecê-la.
Então o mundo ficou escuro.
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