Isabella e o Duque

3 Capítulo 3 DESAFIO


Duque atrevido, estava tão sem ação, que mal conseguia ouvir minha tia oferecendo algo para o visitante beber.

- Senhor Duque, por favor deseja algo, um chá, um suco...

- Uma água, seria muito bem vinda cara senhora Swan.

- Claro, claro... um minuto que já trago. Isabella, sente-se com o senhor Duque.

Tentando ainda recuperar-me do choque. Aproximei-me...

- Sente-se por favor. Fique à vontade vossa alteza.

- Lady Swan. Não imaginava mesmo, que passaria incólume ao meu convite?

- Qual a importância para o senhor, para abalar-se até aqui, a fim de garantir minha presença, já que sabemos que não sou bem vinda em sua casa?

- Ao contrário senhorita Swan. Tivemos um começo nada amigável, e peço desculpas pela minha rudeza. Mas sem dúvida é uma lady muito intrigante, alguém que jamais imaginaria conhecer aqui em Sheffield. Realmente acho tudo referente a Festa dos 18, digamos assim, peculiar, para um homem como eu, que não acredita em amor a primeira vista. Sou muito prático e direto. Casamentos ocorrem por interesses econômicos, na maioria das vezes. Mas sua presença é, para mim, um alento, pois tão jovem, tão linda, permita dizer e tão cheia de opiniões. Sua presença é muito bem vinda em minha casa. Seria uma honra para mim recebê-la. Aceita meu convite Lady Swan?

Fitei seus olhos verdes escuros, que em nenhum momento, deixou os meus. Avaliando cada palavra proferida por ele.

- Senhor Duque, realmente começamos mal, e aceito seu convite, mas deixo claro, que estou aceitando unicamente pela sua franqueza, apesar de discordar da sua opinião sobre relacionamentos, prefiro ouvir posições honestas, do que discursos políticos e demagogos e, apenas aviso-lhe, que se em algum momento vossa alteza ou um dos seus amigos forem indelicados comigo ou minha família retribuírem com a mais afiada réplica e não deixarem passar, como o pó varrido para debaixo do tapete. Parto da máxima de Móises: “olho por olho, dente por dente”. Fui clara senhor?

Com o mais lindo sorriso, respondeu-me:

- Clara como a água que margeia essas terras.

Tia Mary vinha trazendo um bandeja de prata com um lindo copo de cristal e um guardanapo de linho branco. O Duque agradeceu, tomou dois goles da água, levantou-se.

- Sra. Swan, obrigada mais uma vez. Agora levarei Lady Isabella e dou minha palavra que ela voltará juntamente com suas filhas. Meu cocheiro as trará sãs e salvas.

- Oh tenho certeza senhor.

Quando aproximávamos da porta, escuto Eric vindo dos fundos:

- Bella, Bella ... Você está melhor? Vamos cavalgar?

Só então Eric percebeu a presença do Duque.

- Não Eric. Isabella felizmente está melhor e irá acompanhar o senhor Duque ao chá. Senhor Duque permita apresentar-lhe meu filho Eric Swan.

O Duque fez uma leve menção com a cabeça, que foi seguida por Eric, meio sem jeito. Percebi que o Duque avaliava Eric de cima a baixo, deixando meu primo sem graça.

- Vamos senhorita Swan?

- Sim, até mais minha querida tia, Eric cavalgaremos amanhã.

O Duque elegantemente ajudou-me a entrar na carruagem. Sua mão estava gelada, mas senti como se brasas tivessem atingido toda minha coluna. Precisava me concentrar e ficar atenta para não cometer nenhum atentado, pois sinceramente, meus nervos estavam a flor da pele.

Sentamos lado à lado, havia espaço entre nossos corpos, podia sentir o perfume amadeirado que vinha dele, provavelmente almíscar, um leve odor de tabaco ...

O próprio Duque interrompeu meus devaneios...

- Bella? É o seu apelido senhorita Swan?

- Sim, sou chamada de Bella desde criança.

- Nada mais apropriado, para alguém tão bela quanto a senhorita.

Tive que piscar algumas vezes para me recompor, pois sabia que estava ficando corada.

- Seu primo parece bastante íntimo da senhorita. O quanto íntimo da senhorita ele o é, Lady Swan?

Fiquei tão sem ar, que mal conseguia sentir o movimento da carruagem. Fiz um grande esforço para manter minha voz neutra:

- O que quer dizer exatamente senhor? Somos primos, temos a mesma idade, somos íntimos é claro.

- Não é de bom tom andar à cavalo acompanhada apenas de um homem, mesmo ele sendo seu primo, senhorita.

- Também não é de bom tom andar na carruagem acompanhada apenas de um homem, senhor.

O Duque deu uma sonora gargalhada. Lindo aliás rindo tão espontaneamente.

- Xeque para a senhorita, Lady Swan. Mas não xeque-mate ainda. A partida está apenas começando.

- Gosta muito de uma competição, não é mesmo senhor Duque? É estimulante ser provocado?

- Muito. Ainda mais quando tenho o privilégio de ser provocado por uma lindíssima menina-mulher, tão rebelde, tão dona da verdade e sem medir as conseqüências de suas palavras. Muito estimulante...

Disse cada uma palavra pausadamente, olhando diretamente para minha boca. Senti mais uma vez, o calor subindo pela minha face. Os olhos, agora nos meus, o inclinar da cabeça em minha direção, o hálito de tabaco mais próximo.

Nesse momento a carruagem parou.

Foco Isabella, respira... respira.

O Duque mais uma vez ajudou-me a descer, caminhávamos lado à lado, subimos as escadarias da grande mansão, onde um criado de luvas brancas, abria as portas para nós, atravessamos um imenso salão e adentramos por um largo corredor, o Duque em silêncio, mostrava o caminho. Tudo era de muito bom gosto, os belos móveis, espelhos magníficos, diversas obras de arte, simplesmente soberbo. Já havia entrado em alguns lugares luxuosos acompanhada dos meus pais, então sabia portar-me muito bem. Caminhava no mesmo ritmo do Duque, com os ombros erguidos, e sem demorar-me muito olhando para os lados. Pensei imediatamente em minhas primas e como deveria ser impactante estarem naquele ambiente tão glamouroso. Entrei em um outro salão que tinha vista para um magnífico jardim. Haviam diversas poltronas, sofás, um piano de cauda maravilhoso próximo a grande janela. Haviam sentadas, em torno de umas 25 pessoas, Além dos irmãos Martin, mais cinco homens muito bem vestidos, estavam sentados de uma lado as sala. Do outro lado, várias moças, com vestidos dos mais diversos tipos e gostos. Anie e Emmie sorriram quando entrei, estavam sentadas lado à lado e muito elegantes. Já as demais senhoritas, bem... havia de tudo. A grande maioria usava vestidos com muitos babados e cores fortes demais, o que já estava fora de moda há algum tempo. Senhorita Alice, vestia um lindo vestido verde escuro, de seda como o meu. Olhou-me e deu um belo sorriso de aprovação. Sim éramos as mais elegantes. Os homens presentes, imediatamente levantaram-se, com a nossa chegada.

- Senhoritas e senhores gostaria de apresentar, para aqueles que não a conhecem, Lady Isabella Swan. Uma londrina que esta a passar alguns meses na casa de seu tio, senhor John Swan.

Educadamente todos os homens fizeram uma reverência com a cabeça, e eu respondi da mesma forma.

O duque então apresentou todos pelo nome. A cada nome dito recebia um olhar, dos homens de admiração, das mulheres, digamos... reações variadas. Algumas tímidas, outras alegres, como minhas primas e senhorita Alice, algumas invejosas... Enfim nada que não pudesse conviver.

Voilá.

- Sente-se aqui senhorita Swan.

- Senhorita Isabella que bom que conseguiu vir. – Disse Lady Alice.

- Estávamos para começar uma rodada de música tocada ao piano.

- Teremos boa música finalmente nesta casa.

Disse o senhor Duque Sheffeild. Imediatamente levantai-me, Lady Alice, seu irmão e todos os homens ao mesmo tempo. As demais moças demoraram alguns segundos para entender o que estava acontecendo. O senhor Duque havia entrado sorrateiramente na sala, pelo seu título e por ser o homem mais velho presente, era de boa educação ficarmos de pé.

- Papai, que alegria sua presença. Por favor faça-nos companhia, — Disse o Duque Edward III.

- O prazer será meu, filho. Tão lindas jovens, e ainda prendadas, tocam piano. Adoraria ouvi-las. Sou um grande apreciador de música clássica.

Sorrindo o Duque de Sheffield sentou-se.

Senhorita Alice já havia organizado uma lista das moças que estavam dispostas a tocar piano.

- Senhorita Denali será a primeira. O que tocará Lady Tânia?

Uma loira, vestindo um vestido laranja... laranja demais, com babados... babados demais e com um batom no mesmo tom, levantou-se e com uma voz de ventríloco, falou:

- Tocarei “minuetos de Bach”.

Oh pensei, a tarde seria longa. Minuetos de Bach? Muito simples, muito fácil, muito sem graça. Como que um imã, olhei para o Duque. Que sorria sarcasticamente pra mim, como lendo meus pensamentos...

Uma após uma, 8 (candidatas a um casamento com um bom partido), passaram pelo magnífico piano de cauda Steinway. Pobre piano, todas tocaram Bach. Pobre Bach, não merecia ser tão subjulgado. Nada contra Bach, mas sua música era muito sacra para os tempos atuais. O século XIX pedia uma música mais moderna,mais inovadora... bem a conclusão que cheguei que havia um professor de piano em Sheffield que havia dado aula de Bach para todas. Após aplausos dos cavalheiros presentes, finalmente o sarau havia terminado.

- Bem... após tão eloqüente apresentação... vou pedir para servir o ...

O Duque não deixou a senhorita Alice terminar. Levantando-se, disse:

- Desculpe interrompê-la querida irmã, mas não podemos deixar de ouvir uma notável pianista aqui presente. Lady Swan? Por favor, seria uma honra para nós ouvi-la tocando.

Lançou-me um olhar de puro desafio. Era um arrogante esse Duque. Certamente queria ver-me em apuros diante de tantas pessoas. Provavelmente sua intenção era constranger-me. E para ser sincera, no íntimo estava constrangida. Era muito tímida. Não demonstrava é claro, mas não gostava se chamar a atenção para mim mesma. Como diria minha sábia mãe: “Agora não é hora de titubear e hora de erguer a cabeça e seguir em frente”.

- Senhor Duque não creio que seja o adequado. Já que várias convidadas tocaram diversas músicas, talvez os senhores queiram fazer uma pausa.

- Perdoe-me Srta. Swan, mas eu insisto. Seu tio comentou que era uma excelente pianista e não poderíamos deixar essa oportunidade passar, Tocará Bach?

Por trás da voz polida, sabia muito bem, que ele estava sendo irônico. Muito bem Duque, se no nosso jogo de xadrez , você decidiu mexer o “bispo”, eu mexeria com o meu “cavalo”.

- Muito bem senhor. Tocarei, mas não Bach é claro.

- Algo contra Bach, Srta. Swan? – Disse sarcástico..

- Bach teve seu tempo senhor Duque, foi um grande compositor, sem dúvida, mas barroco demais para os novos tempos. Prefiro algo mais moderno, diria até visionário.

Dando o meu melhor sorriso caminhei até o piano. Pude sentir o olhar de todos sobre mim.Sentei-me delicadamente. O silêncio era total na sala. Era agora ou nunca.

Ele queria um desafio, pois eu devolveria o desafio em dobro.

...

Edward

Ela realmente achava que poderia afrontar-me mais uma vez?

Não.

Dessa vez eu mesmo a traria à minha casa, nem que fosse amordaçada.

Como previ, Lady Swan, não havia torcido o pé na escada. Era apenas uma desculpa, para não comparecer ao chá.

Porém, quando a vi, descendo as escadas, vestindo um maravilhoso vestido azul de seda, extremamente moldado ao seu corpo, com os cabelos presos, onde apenas alguns fios caiam sobre seu rosto corado, percebi que ela afetava-me muito mais do queria admitir. Não era apenas as provocações, a rebeldia de uma menina, era uma menina com corpo de mulher e rosto de lolita que perturbavam meu sono à noite.

Consegui convencê-la a ir. Fiquei irritado com a intimidade que havia entre a senhorita Swan e seu primo...

Bella!!!

Ao ajudá-la a subir na carruagem, pude sentir a maciez da sua pele, e o choque erótico do contato foi inevitável. Sentou-se ao meu lado, pude sentir o perfume natural, a suavidade, o frescor que emanavam dela. Num determinado momento, perdi-me olhando seus lábios.

Já na sala, onde todos nos aguardavam, era evidente como Bella e Alice, eram as únicas, que compunham aquele ambiente sofisticado. Todas as outras moças, eram na minha opinião, camponesas disfarçadas. Algumas de fato bonitas, mas a postura, o cruzar de pernas, o tom da voz as denunciavam. Simplórias demais. É claro que meus amigos estavam achando no mínimo a situação divertida e pude constatar o olhar de admiração que deram a Bella, quando ela adentrou no salão. Com exceção do meu grande amigo, Lorde Holmes, que tinha ficado encantado pela senhorita Anie Swan desde o momento em que a viu e, confesso, fiquei um pouco preocupado, pois percebi que o encantamento era recíproco.

Fiquei feliz pela presença de papai. Após a morte da Duquesa, ele nunca mais foi o mesmo homem. Minha mãe era o sol para ele. Uma mulher animada, gostava da casa cheia, de festas, de viagens, tocava piano muito bem. Meu pai amava vê-la ao piano. Foi uma perda irreparável.

Quando as apresentações começaram, foi sem dúvida, surreal. Uma após outra, tocando Bach. Aliás, tocando muito mal Bach, ele certamente teria levantado do tumulo, com tais performances. Divertido foi ver as expressões da senhorita Swan, que fazia um esforço enorme, para não demonstrar o seu evidente desagrado.

Mas o melhor estava por vir.

É claro que eu desafiaria Lady Swan a tocar piano. E ela é claro não decepcionou-me.

Aceitou o desafio, porém quando começou a tocar, eu admito, que não estava preparado para o que iria ouvir.

Srta Isabela iniciou sua apresentação tocando nada mais, nada menos que a:

Sonata para Piano número 23 em Fá menor – intitulada Appassionata do mestre Ludwig Van Beethoven, à pouco criada pelo gênio da música em 1804. Tive a oportunidade de ouvir uma apresentação pela Orquestra de Viena.

Uma obra criada especialmente para o piano. Uma obra que mostrava a transição do movimento clássico para o movimento romântico. Uma obra prima.

Bella tocava apaixonadamente.

Quando terminou, creio que ninguém na sala, tinha palavras. Após alguns segundos, virou-se para a pequena platéia e foi aplaudida de pé.

Meu pai, foi até ela emocionado, como a muitos anos não o via, segurou sua mão e fez uma reverência.

- Lady Swan, que magnífica apresentação, acredite, deixou esse velho profundamente feliz.

- Obrigada senhor Duque.

- Edward meu filho, acompanhei Lady Swan, Alice servirá o chá.

Caminhei até ela, peguei sua mão trêmula, e a beijei. Um gesto ousado é claro, mas não pude evitar. Eu havia a desafiado e ela respondeu-me à altura. Bella não parava de me surpreender...

- Parabéns senhorita Swan, sua apresentação foi magnífica.

- Obrigada senhor.

E num sussurro, quando nos afastamos, pude ouvi-la:

- Agora caro Duque, prepare-se, pois é a minha vez de jogar.