Is she a Barbie girl?
16 Capítulo 16
Notas iniciais
Dia da viagem. Minha mala já está pronta, esperando por mim na sala. Acabo de me vestir, coloco a caixinha com as alianças no bolso da calça, dou mais uma bagunçada no cabelo e desço quando ouço uma buzina.
– Já vou indo, mãe. Até domingo.
– Tchau, filho. Cuide-se. Não se esqueça do protetor solar. — ela me fez abaixar e beijou minha testa, me sujando de batom
– Mãe, mãe. — chamei sua atenção, dando uma risada — Está tudo bem. Sei me virar. — limpei sua marca de minha testa, beijei seus cabelos, gritei um "tchau, Miranda" por cima do ombro e saí de casa, dando de cara com um jipe preto
Mari desceu do carro e acenou para minha mãe, que acenou de volta da porta.
– Oi. — ela me cumprimentou
– Oi. — sorri e me inclinei para lhe dar um selinho
Senti seus lábios se abrirem em um sorriso debaixo dos meus. Me afastei e a encontrei de olhos fechados, com um sorriso angelical. Sorri com essa cena e beijei sua testa.
Victor buzinou novamente, parecendo impaciente. Mari riu e me puxou para o jipe. Coloquei minha mochila no porta-malas e subi no banco traseiro do carro.
– E aí, Victor.
– Fala, Rafael. De boa?
– Tranquilo, e você?
– Suave.
– Vamos? — Mari perguntou do banco do passageiro
– Bora, maninha. — ela deu um soco em seu braço e riu em seguida
Victor deu a partida e fomos em direção ao litoral. Mari ligou o rádio e deixou tocando, ao fundo. Conversamos sobre banalidades no caminho. A estrada está tranquila, mas Victor se mantinha na esquerda, com o pé no acelerador.
– Pra que tanta pressa, mano? — Mari perguntou
– Não sei se você lembra, mas tem a festa na praia hoje a noite. Não quero perder.
– Puta, é verdade! Já estamos chegando?
– Mais meia hora.
– Que festa? — perguntei, curioso
– Ah, é tipo uma balada que o pessoal faz na praia mesmo. Uma vez a cada semestre. Sempre que o Vic ta aqui, nós vamos.
Assenti. Já vi que hoje não ficaria a sós com ela. Apesar disso, ainda temos dois dias inteiros.
Realmente, chegamos ao litoral meia hora depois. Victor entrou em um condomínio fechado e parou em frente a uma das primeiras casas. Era grande e bem cuidada, com a fachada branca. Mari desceu do carro, sendo seguida por mim e Victor. Peguei minha mochila no porta-malas e a mala dela. Mas que tanto ela tinha que trazer para passar três dias?! Sua mala é enorme e está cheia!
Entramos na casa e vi que era enorme, como o exterior mostrava.
– Vem, Rafa. Os quartos são lá em cima. — Mari me chamou e eu a segui
Subi (com muita dificuldade) levando sua mala e fui até o seu quarto. Para minha surpresa, as paredes são rosas. Um rosa bem clarinho, quase branco, mas ainda assim, rosa. O quarto pode ser definido em uma palavra: Barbie. Tudo muito rosa, muito delicado, muito... Infantil.
Arqueei as sobrancelhas confuso, porque eu sabia que esse não é o estilo dela. Mari deu de ombro e começou a puxar sua mala para cima da cama de casal, localizada no meio do quarto.
– Nunca realmente reformei meu quarto. Desde que minha mãe foi embora, o mantive assim. Porque ela gostava. — percebi a saudade em sua voz e fui até ela, abraçando-lhe por trás
– Eu gostei. — falei em seu ouvido e a senti se arrepiar
Ouvimos um pigarro vindo da porta e me afastei rapidamente da Mari. Victor está parado na porta, me encarando com as sobrancelhas arqueadas.
– Relaxa, Vic. — Mari riu — Não é como se fossemos transar enquanto você está por perto.
– Bom mesmo. — ele falou e saiu para o seu quarto, provavelmente
Meus ombros ficaram tensos, mesmo depois de sua saída. Senti mãos macias em minhas costas e ombros, massageando.
– Fica tranquilo. Ele finge que é durão, mas gostou de você. — ela diz, deixando um beijo nas minhas costas — Agora, vai. Vai lá pro teu quarto porque eu tenho que me arrumar. A festa começa em uma hora. Qualquer dúvida, pode vir me perguntar.
Mari foi me empurrando para fora de seu quarto, enquanto eu ainda não me recuperava do choque.
O quarto de hóspedes (meu, temporariamente) é ao lado do de Mari. Coloquei minha mochila em cima da cama e procurei por uma roupa para usar na festa. Acabei escolhendo uma bermuda cáqui e uma camisa de manga curta, azul marinho.
Ela já havia me mostrado a casa toda e eu sabia onde ficava o banheiro. Só não sabia onde as toalhas estavam. Decidi ir perguntar para Mari. Bati na porta de seu quarto e ouvi um "entre".
– Mari, posso usar o banheiro para tomar banho? — pergunta estúpida, eu sei
Olhei para cima e vi que ela se trocava. Já está sem o shorts e sua regata, por mais comprida que fosse, não cobre nem sua bunda inteira. Pisquei tentando desviar o olhar das suas pernas torneadas e olhei para seu rosto. Ela não pareceu perceber meu olhar furtivo.
– Claro. Aqui, deixe eu te dar uma toalha.
Ela me entregou e encostou no batente da porta, me olhando de baixo.
– O que? — perguntei, querendo saber o motivo dela me encarar
Ela não me respondeu. Ao invés, me beijou. Senti sua língua dentro da minha boca e agarrei sua cintura, a grudando em mim. Senti suas mãos em meu peito e em meus cabelos. Quase pude ouvir o pigarro estressado de Victor no fundo da minha mente. Separei nossas bocas, mas apoiei minha testa na sua.
– Quer que seu irmão me mate, né?!
Ela não respondeu, só riu. Me deu um selinho e me empurrou para fora do quarto, jogando a toalha em meu peito antes de fechar a porta. Sorri, bobo novamente e segui em direção ao banheiro.
Tomei um banho gelado, devido ao calor que fazia. Não sabia se estava quente por causa do tempo fora de casa, ou se o meu momento com a Mari me fez esquentar.
O banho me relaxou e saí do banheiro já vestido para a tal festa. Encontrei Victor no corredor e ele andou até mim.
– Cara, deixa eu te falar uma coisa. — ele falou e eu gelei
Achei que ele fosse me castrar por encostar em sua irmã.
– Olha, não deixa a Mari chegar em casa bêbada, ok?
– Oi? Ela bebe? — ele bufou como se fosse óbvio
– Conhece bem minha irmã, hein?! Sim, ela bebe. E perde o controle bem rápido. Ela está sob sua responsabilidade hoje, viu? E, se ela perguntar sobre mim, diz que não sabe se eu venho pra casa hoje. Quero curtir. — ele piscou e voltou ao seu quarto
Fiquei estático por mais alguns segundos. É claro que eu bebo, meus amigos bebem e todas as garotas com quem eu saio, bebem. Mas não imaginava que Mari bebia. Ela tem a maior cara de santa e eu nunca desconfiaria que ela já experimentou álcool.
– E aí? Pronto? — ouvi sua voz angelical atrás de mim
Me virei e a encontrei sorrindo. Puta merda, ela está lindíssima. Caralho! Senti meu maxilar cair, literalmente, fazendo minha boca se abrir. Gaguejei algumas coisas sem sentido, fazendo-a rir.
– Vou considerar isso como um sim. Vamos! A festa já vai começar!
Mari me puxou pela mão. Saímos do condomínio e andamos umas duas quadras, até chegarmos na praia. A música já tocava alta. Não é exatamente o tipo de música que eu curto, mas tudo bem. Sendo uma festa na praia, eu aceito um funk leve.
Sem querer
Roubei seu coração
Desculpa, meu amor
Não tive a intenção
Mari já chegou pulando, dançando e gritando. Deve ter reconhecido algum rosto naquele mar de gente, porque soltou minha mão e foi correndo pro meio de um grupinho de garotas e garotos (que a olhavam furtivamente, me fazendo borbulhar de ciúmes). Fui atrás dela.
– Galera, que saudades! — ela praticamente gritava para ser ouvida
– A gente também sentiu tua falta, gata. — um dos garotos respondeu e deu sinais de que puxaria ela pela cintura, mas eu fui mais rápido e passei meu braço ao seu redor
– Ah, que mal educada que eu sou! Galera, esse é o Rafael, meu... Amigo. — meu coração se despedaçou com essa apresentação — Rafa, essa é a galera.
Assenti, os cumprimentando. Alguns acenaram, outros assentiram, outros só me encaravam, e ainda tinham algumas meninas que vieram beijar minha bochecha.
– Mari, podemos conversar? — aquele mesmo garoto pediu e ela assentiu, se desvencilhando dos meus braços e o seguindo para um local menos movimentado
Fiquei de longe, prestando atenção na conversa deles, com o sangue fervendo. Olhei ao redor e achei um quiosque aberto, vendendo bebidas. Fui até lá e pedi um copo de vodka. Sentei no banquinho e tomei um gole. A bebida desceu queimando pela minha garganta e ardeu ao chegar no meu estômago. Essa sempre era a primeira sensação, depois amenizava.
– Fala, Marcelo! — Mari chegou correndo atrás de mim e cumprimentou o barman de um modo bem amigável
– E aí, sumida! — eles riram e eu só observei
– Me vê uma daquelas shots deliciosas de tequila?
– Já tem 18 anos?
– Ah pára! Não pega no meu pé! — ela riu novamente e virou o copinho quando ele o entregou
– Só não exagera na bebida, ta Mari?
– Virou meu pai agora, Gutenberg?
– Não, mas tu ta sob a minha responsabilidade hoje. Então, nada de beber até cair. — eu sei que estou soando injusto, mas deve ser o ciúmes ainda presente
– Rafael, você é poucos meses mais velho do que eu. Não enche. — ela virou para o tal Marcelo — Manda mais uma!
– É pra já.
Ela virou o shot, largou o copinho na bancada e se enfiou naquele mar de gente, indo dançar.
Nunca imaginei que ela bebesse. Nem que ela tivesse tantos amigos. Nem que ela dançasse funk, aliás. Descendo até o chão. Que é essa a minha visão do momento.
Vou rebolar só porque você não gosta
Se não quiser me olhar, vira de costas
Você vai ter que aturar
Porque eu vim pra te provocar
E pára de falar
Blá blá blá
Mari está bem no meio da "pista de dança" improvisada. Várias garotas dançavam ao seu redor. Vários caras a observavam de longe. Até que um deles teve a coragem de se aproximar da minha garota.
A pegou por trás, pelo quadril e começaram a se remexer juntos. Eu me comia de raiva e a gota d'água foi quando ele beijou aquele pescoço, que pertencia a mim! Tudo nela é meu! Ela é minha!
Levantei com as mãos tremendo devido ao ódio que sentia. Desviei das garotas que tentaram me agarrar no meio do caminho. Arranquei o cara da cola da Mari e a puxei para fora daquela multidão. Paramos perto do bar.
– O que é isso?! — perguntei, gritando
– O quê? — ela perguntou, sorrindo
Já percebi que ela começava a ficar alta. Nada de mais, mas não deixaria ela beber mais nada.
– Você ta se agarrando com outro, caralho!
– E daí?
– Você é minha, porra!
Parece que agora eu despertei o monstro adormecido dentro dela. Seus olhos, antes um pouco desfocados, vidraram em mim e seu rosto ficou vermelho de raiva.
– Sua?! Desde quando eu sou sua?! — ela começou a gritar — Me comprou numa vendinha de garagem, foi? Tem nota fiscal paulista?! Não? Então não enche a porra do meu saco. Canalha.
Ela saiu de perto de mim, batendo o pé. Bosta, já vi que eu teria muito trabalho pela frente.
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