Irritante
1 Capítulo Único: Irritante
Notas iniciais
Irritante
Nunca vou esquecer a primeira vez que nos vimos. Eu estava jantando com um amigo e ela veio até a mesa, para cumprimentá-lo. E nem sequer olhou para mim. Eles conversaram por quase dez minutos sem que ela me dirigisse uma única palavra. Tive que comer praticamente só, apesar de estar acompanhada, e não podia culpar meu amigo por não conseguir mastigar e conversar ao mesmo tempo. Percebi que ele ficou sem graça, pela situação. Que garota mais... incomum? Mal educada? Sem noção? Fiquei indecisa e pensei em vários outros adjetivos, mas acabei optando por...
Irritante.
Tempos depois, quando eu já não me lembrava mais de sua existência inconveniente, nos esbarramos na fila do cinema. Não a reconheci, a princípio. Ela tinha tingido os cabelos, que também estavam bem mais curtos, e usava um vestido azul marinho, quase infantil. Fiz uma careta e estava prestes a ignorá-la quando, para meu total espanto, percebi que eu era a pessoa para a qual ela estava acenando e sorrindo. E não foi só isso, pasmem! Ela me reconheceu como “a garota do restaurante” e na maior cara-de-pau, ficou lá conversando comigo, como se fossemos amiguinhas.
Irritante!
Depois desses incidentes, ela passou a ser uma variável que saiu do “aleatório” para o “constante” em bem menos tempo do que qualquer um poderia imaginar. Para minha infelicidade, a garota irritante começou a aparecer nos encontros de RPG, nas sessões de teatro gratuito às quartas-feiras, nas baladas do sábado à noite e até nas reuniões mais íntimas da turma, que a aceitou inquestionavelmente como um membro. Os meninos foram persuadidos pelo seu “carisma” e as meninas, pela maquiagem importada. Eu era a única que não gostava dela. E ainda me repreendiam por isso.
Irritanteee!
Como alguém podia ser tão irritante?! Tudo que fosse relacionado àquela pessoa me deixava nervosa e eu mal conseguia me controlar na presença dela. Tudo parecia falso, superficial e imaturo. Seu sorriso fácil, seu olhar de “coitadinha”, sua pele bronzeada, seus cabelos perfeitamente alinhados e sua voz, em especial. Era um meio termo entre menina e mulher e eu não gosto de meios-termos. Nem eu mesma conseguia me entender, porque não havia nenhum outro motivo além do fato de que ela existia. Minha reação natural se alternava entre estupidez e desprezo, mas nunca indiferença.
Irritante! Irritante...
A forma como eu não conseguia tirar ela dos meus pensamentos, por pior que eles fossem. Quando estávamos no mesmo lugar, eu só sentia vontade de ir para bem longe dela, e quando não estávamos, tudo me fazia lembrá-la. Como é possível que alguém se apodere de você assim, sem a sua permissão? Como é possível que a ausência dela me perturbe dessa maneira? Alguém que eu não olharia nem duas vezes na rua, alguém que não merece sequer o meu desprezo... como é possível? Acabei escolhendo o caminho mais fácil: maltratei-a ainda mais.
Ir-ri-tan-te!
Todos começaram a achar o meu comportamento mais do que estranho. Até ela. E como num “passe de mágica”, ela se afastou. Aquele sossego, aquela distância, que eu desejei desde que nos conhecemos, eu finalmente os tive. E cheguei à conclusão de que isso só serviu para torná-la ainda mais desagradável aos meus olhos. Já mencionei que detesto pessoas covardes? Gente que “foge da raia”, que prefere fingir que os problemas não existem do que enfrentá-los? Todas as coisas que eu não gostava nela, tudo aquilo que era irritante... eu agora observava só de longe.
Irritante?
Eu não sabia como lidar com aquela situação de desconforto que surgiu entre nós, então acabei me afastando da turma. Inventava desculpas esfarrapadas para não sair com eles porque sabia que ela estaria lá, a garota irritante. E foi assim durante um ou dois meses, mais precisamente, até o meu aniversário. Um dia antes, eu tentei persuadir minha família a realizar um jantarzinho só entre nós, nada de amigos ou algazarra, e minha mãe ficou de organizá-lo. Não deveria ter confiado nela; acabei cercada pelos meus amigos, que tiveram a brilhante idéia de fazer uma festa surpresa.
xXx
- Você me odeia, não é?!
- ...
- Desculpa...
- Pelo quê você está se desculpando, exatamente?
- Sei lá... acho que fiz alguma coisa pra você não gostar de mim.
- Sério?! Precisou de todo esse tempo pra você perceber isso?!
- Eu não sei o que eu fiz... mas me desculpa!
- Não sei se quero.
- Por que não?!
- Você é irritante assim o tempo todo ou é só quando eu estou por perto?
- ...
- Eu to falando sério. É de propósito?
- Não!
- Qual é a sua afinal de contas?!
- Eu só queria te desejar ‘feliz aniversário’...
xXx
Aceitei o presente que ela me ofereceu, embora só o tenha aberto uma semana depois. E após essa noite, mesmo que aos poucos, aquela inquietação que sempre me possuía quando ela estava por perto deixou de ser um mistério.
Irritante!
Como fui me apaixonar por alguém tão irritante...?
FIM
Notas finais
Espero que não, rs.
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