Irreparável
1 2018
Ele tem um jeito especial de ser. Quando suas mãos tocaram de leve minha cintura, despretensiosamente, eu percebi. Percebi que o quero, mais que tudo. O problema é que eu sei a quem seu coração pertence.
— Ann, por favor, sorria para a foto. – ele provocou-me, e eu o obedeci. Quando tiraram a foto, o contato entre nossos corpos interrompeu-se. – Vem comigo, quero te mostrar uma coisa.
— Não posso. – respondi. – Tenho que ajudar minha mãe com o jantar.
— Estou certo de que ela não vai se incomodar... – eu o segui, com um sorriso bobo no rosto, mesmo sabendo que quanto mais próximos estivéssemos, mais dor eu iria sentir. Inevitavelmente, havia outra. Outra garota, mais bonita, mais inteligente, a quem Laércio amava. No final das contas, meus sentimentos acabariam por me trazer um dano irreparável.
Nossas famílias uniram-se na noite de ano novo para comemorar. Conheço Laércio desde que nasci, praticamente, pois a mãe dele não desgruda da minha mãe. Sei que ele adora filmes de terror, embora sempre tenha pesadelos quando os assiste, e ama comida mexicana, animais, livros... Também sei quem é a garota de seus sonhos. Ultimamente, ele só tem falado dela.
— Falta pouco para às 20 horas. – comentei. – Minha mãe deve estar surtando! O jantar não está pronto e, assim que der 23 horas, temos que descer para a praia.
— Relaxa, Annalise. – Laércio falou. Estávamos a sós na sacada de seu apartamento. – Comprei isso para você. Seu aniversário foi há alguns dias, eu sei, mas não tive a chance de entregar seu presente.
Eu sorri e agradeci. Completei 18 anos no dia 17 de dezembro. Laércio é exatamente um ano, seis meses e quatorze dias mais velho que eu. O presente é algo que eu realmente queria: um mural de fotos.
— Não acredito! Amei! Agora tenho onde colocar as fotos tiradas com minha instax! – exclamei.
— Fico feliz. Inclusive, pode colocar a foto que tiramos hoje nesse mural.
— Claro que farei isso. Mas não precisava ter comprado nada para mim.
— Assim que vi esse mural na loja, lembrei de você e sua paixão por fotografia. Não importa quantas vezes você diga que não preciso lhe comprar nada, ou te presentear de algum modo, continuarei o fazendo, porque não consigo parar de pensar em você.
Meu coração disparou. Ele estava mesmo dizendo aquelas palavras tão bonitas para mim?
— Eu nem sei o que dizer. Obrigada, Laércio, eu...
Não pude completar minha frase, pois ouvi minha mãe chamar o meu nome. Me despedi rapidamente dele, e fui ajudá-la com o jantar.
Comi aspargos, arroz, carne ao molho madeira e batatas. Passei o tempo conversando com minha família sobre o clima, viagens, a faculdade de história que estou cursando. Assim que deu 23 horas, descemos para a praia. A casa dos pais de Laércio, onde nos reunimos, localiza-se à beira-mar.
Quando estava decidindo o que vestir, mostrei a minha mãe um vestido branco rendado, mas ela rapidamente replicou “Annalise, você vai acabar se sujando toda de areia! Vista algo mais descontraído, para que não se preocupe com nada além de curtir. ”. E ela estava certa, é claro. Não poderia estar mais agradecida por suas palavras. Eu vesti um short jeans e uma blusa branca, o que me possibilitou realmente “curtir” a festa, como ela disse.
Sentei na areia ao lado de Laércio. Ele estava a construir um castelo.
— Então é isso que você pretende fazer antes da virada do ano? Construir um castelinho? – perguntei. Nossos pais estavam sentados um pouco mais afastados, conversando sobre política, e já meio bêbados.
— Tem alguma ideia melhor? – Laércio disse, com um meio sorriso.
— Na verdade, não. – respondi. Decidi ajudá-lo. Nossas mãos acabaram se encostando diversas vezes no processo de construção do castelo. Ele agiu indiferentemente, mas eu senti um leve choque a cada toque.
— Está ansiosa? — Laércio perguntou.
— Claro, né? Tenho tantos planos para 2018! – falei, animada.
— Eles envolvem encontrar alguém? Se apaixonar?
— São planos profissionais, Laércio. Fazer um curso de fotografia, arrasar na faculdade, só tirar nota boa...
— Bem, eu também não planejava me apaixonar por alguém. Essas coisas acontecem. – ele falou, meio melancólico. Claro que ele tinha que falar sobre a garota que ele gosta.
— Olha, melhor a gente ficar mais perto dos nossos pais. Falta pouco para a meia noite, hora de tomar um champanhe, essas coisas clichês. – o interrompi. Não queria ver meu amigo lamentando por causa da outra garota.
— Annalise, escuta, por favor. – Laércio pediu, segurando minha mão. – Quero ficar perto de você. Na virada do ano, quero estar segurando sua mão, como estou fazendo agora, e quero que você saiba que é importante para mim. Muito importante para mim.
Estávamos tão próximos. Eu amo Laércio. Tudo que eu mais quero é estar perto dele, não só no ano novo, como pelo resto de minha vida.
— Você vai me causar um dano irreparável. – sussurrei a única certeza que tenho. – Eu não devo permitir.
Ele estava com uma expressão confusa.
— Filha! – Meu pai gritou. – Vem cá. Faltam cinco minutos para meia noite.
Eu fui. Laércio levantou-se também, e ficamos em pé aguardando os fogos. Então, meia noite. 2018. Abraços, fogos de artifício. Minha mãe me desejou felicidades, saúde e muitas realizações. Meu pai só me abraçou, mas eu sei que ele deseja o mesmo.
— Annalise, eu amo você. – Laércio falou, inesperadamente. – Vem comigo?
Avisei aos meus pais que iria me afastar por um momento, e caminhei em direção ao mar com Laércio.
— Não me diga que vamos pular as sete ondas! – falei, em um tom irônico, tentando não demostrar o quanto as palavras dele haviam me afetado.
— Eu pensei em algo melhor. – ele replicou, me puxando para perto. Então, ele segurou meu rosto delicadamente e beijou meus lábios. O melhor beijo de minha vida.
— Eu te amo. – falei, quando nos afastamos. Naquele momento, esqueci-me totalmente de que estava permitindo que ele me causasse um dano irreparável.
Notas finais
Um beijo!
(Juro que a história vai ter uma capa legal. Estou trabalhando nisso - aceito ajuda!)
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